Quando nasce um jornalista

(Minha homenagem aos graduados em Jornalismo da UFPB, período 2013.1).

Nem sempre pode se dizer que seja um acontecimento sísmico, tampouco algo semelhante a uma tempestade solar. Nada de roda de samba, distribuição de doces, choro alto.

E velas? Pode ser que haja velas. Um jornalista, quando nasce, não surge do meio de escombros, mas, tem cheiro das antiguidades vasculhadas, das raridades que tenta segurar, no anteparo das palavras, a medo, não vá o editor rasgar sua escrita ali, onde o texto lhe é mais caro.

Um jornalista pode nascer antes da palavra jornalista, entre livros e pontos de interrogação. Um jornalista pode nascer sob a cúpula das horas esquecidas, a conjugar os termos da sua curiosidade, a medo, não vá o chefe de redação arruinar sua ideia de pauta, antes mesmo da saída do carro de reportagem.

Vem ao mundo do jornalismo com espinhas e imprecisões, lacunas filosóficas e políticas. E sede, e humor sardônico, e lá no fundo, medo do que pensa, do que escreve, de memória mesmo, que as anotações a lápis são só garatujas.

Um jornalista, nem sempre nasce envolvido pelos cueiros das lições acadêmicas. Está lá, aponta seus lápis, escreve no seu laptop, flagra os acontecimentos com seu smartphone, mas, seu mundo de nascimento é paralelo, desviante, estranho e solitário.

O nascimento de um jornalista é um acontecimento fortuito, silencioso, tal como o som do nascimento de uma partícula subatômica. Não vem no jornal do dia seguinte, sequer é anunciado como um acontecimento para os próximos dias.

Um jornalista, quando nasce, já tem as unhas roídas de ansiedade, já traz a pressa e a métrica das trinta linhas, limpas, redondas, estilo singular de dizer o efêmero, o lógico, o verdadeiro, o ético, o estético, o injusto, o extraordinário, o imprevisível, o poético…

Um jornalista nasce surpreendido pelo mundo à volta, imundo de incertezas, motivado por uma alegria quase infantil por estripar os fatos, conhecer suas entranhas, lavar suas impurezas, esventrar suas incongruências, para depois cinzelá-los com sua narrativa.

Nasce confuso, no meio dos acontecimentos, apalpa verdades e mentiras, separa a sua ração diária de palavras e imagens, e com elas vai tecendo seu lugar no mundo.

Um lugar sempre provisório, atemporal, que as suas mãos, as suas unhas roídas, a agilidade das suas pernas, o seu suor, tudo de si será posto a serviço do fato.

Um jornalista, quando nasce, não escutará canção de ninar, nem terá lugar onde descansar a cabeça. Um jornalista, quando nasce, participa de imediato do sequestro das suas horas, torna-se refém dessa faina de apurar, flagrar, anunciar.

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