Crônica para meu Pai

Venha me ditar a crônica que eu não sei escrever, porque todas as palavras que tenho são pesos mortos para a minha saudade.

Venha sentar-se comigo na  longa mesa de madeira da sala de jantar, a velha bacia de zinco entre nós, pesada das vagens de feijão verde, que iremos debulhando devagar, enquanto você conta seus causos, parando de vez em quando para beber um café da sua térmica azul, recomeçando aquela antiga conversa de vacas bravas e cercas grandes nas fazendas alheias, mesmo enquanto prepara e acende o seu cigarro de fumo.

Debulhado o feijão, não se importe com as rusgas da minha mãe, porque desde que me entendi por gente, foi sempre assim entre vocês. Desamarre a linha do tempo. Vasculhemos juntos no velho baú do quarto da minha mãe, espere enquanto vou  vestir aquele velho macaquito de listras.

Empreste-me sua mão, vamos ao boteco de dona Madalena, porque hoje ela cismou que quer fazer um bolo, e a farinha de trigo que tem em casa não vai dar.

Olhe como a rua ficou bonita lavada da chuva de ontem.

Você não sente o cheiro de antigos trilhos de bonde? É sempre assim, a chuva da noite exumando cheiros de antigamente, como você, cavolcando em seu alforje as históricas lendas do seu tempo de rapaz.

Sim, já tinha me contado sobre a vez em que apanhou uma surra danada do seu pai, intrigas da sua madrasta, só porque furtou uma rapadura da dispensa. Foi dessa vez que você fugiu de casa?

Falando da chuva, olhe ela que vem com vontade, espantando a pelada dos meninos, alisando nossos cabelos, o seu, cheio e curto, o meu, abaixo do ombro. Hoje não vamos correr. Aproveitaremos os salpicos da água, enquanto você me conta dos violeiros, das noitadas alegres à beira do fogo, dos seus olhares de boi manso para as meninas do lugar.

Olhe como a casa está tomada pelo cheiro bom do almoço de domingo. Você não vê como a longa mesa de madeira, agora limpa das cascas do feijão debulhado, resplandecente em sua grossa toalha branca espera por nós?

Depois lhe conto sobre um pensamento tolo que tenho nessa hora em que a minha mãe serve a galinha do almoço de domingo.

Um pensamento tolo de que essa grossa mesa somente deixou de ser árvore para viver esse momento em que os talheres trabalham, velho exercício de limpar os pratos, oração comum em que as nossas bocas rendem sua homenagem aos sabores inventados na cozinha da minha mãe, magia singular somente dela, criando em todos os domingos, um único dia branco, regado a molho pardo, crônica singular, feita somente dos gestos do seu tempo, crônica do seu amor de mãe pela sua família grande.

Venha se sentar comigo no sofá da sala, faça pouco caso desses desenhos animados da televisão,  empreste-me a longa colcha dos retalhos das suas histórias, para o meu sono de depois do almoço de domingo.

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