A Crônica do Destempo

Nos calendários, nas memórias, mais um ano que se acaba, com sua trilha sonora a tocar vorazmente nas máquinas registradoras, o concerto dos minutos, dos dias,

das horas, dos acidentes, dos negócios, dos abraços cheios de um misto de alegria e de nostálgica saudade.

Medo? Que palavra é essa que se mistura à receita do bolo, ao borbulhar do champanhe, ao toque das mãos, palma contra palma, levemente trêmulas?

Streptease singular esse em que o ano velho livra-se das horas, despejando seus últimos bocados na bacia do tempo, íntima entrega sem alarde,ano que se desfaz, sem pedidos de identidade, átomo contra átomo, massa revolvida, emaranhado de prótons e neutros a reinventar o agora.

Diante do espelho, eu queria gritar para este senhor implacável das nossas horas, a cavar no meu rosto, os caminhos sinuosos das minhas rugas.

Queria bradar feito louca um pedido extremo, para que se destravasse a ilusão, para que me fosse dada a alegria de conhecer o destempo, um alegre  destempero do mundo a misturar-se em presente e passado, minha palma contra a palma da minha mãe, minha cabeça sobre o ombro do meu pai, minha irmã a segurar, na sua bolsa predileta, o cadeado das horas, nossos rostos estufados de riso, nossas costas a desencostar-se das quinas do mundo, brisa de infância a sacudir as velhas árvores da memória, minhas filhas, a neta do meu sonho a destapar o caldeirão do futuro, nós todos emaranhados nesse desacontecer,abraçados, adormecidos no silêncio de um mundo limpo e virgem, cheirando a chuva, cheirando a marmeleiro, e o som da enxada do meu pai, exumando o cheiro bom do fundo da terra.

Um dia apenas começado, onde o implacável senhor do tempo tenha se esquecido de contar as horas, invenção de um agora onde a tragédia não se imiscua na nossa festa, onde a infância não seja vulnerável, onde o rio possa fluir, com cheiro de mato, de flor e de barro.

Invenção de futuro onde não haja anos caindo inertes na bacia do tempo, lugares de sonho, lugares onde já não habitem essas duas estacas, a da vida e a da morte a dividir o mar das coisas.

E resvalo para dentro de um sonho improvável, onde vejo minha mãe, a segurar nas mãos um universo bebê, a cortar com energia e doçura, uma espécie de cordão prateado que o prende ao destempo,  gotejante de vida. E no quintal cósmico, vejo meu pai a esforçar-se por arrancar duas pesadas estacas, a da vida e a da morte. E vejo vocês todos a inventar estrelas, como se quisessem tatuar o céu com uma espécie de braille que eu luto por decifrar.

E de repente vejo que Deus acordou. Esfrega os olhos e abre seus braços para o pobre universo faminto que a minha mãe acabou de lavar.

Ouço bater de portas, chuva fina lavando a cidade, e antes que o meu pai arranque a estaca da morte, estou de novo em casa,  e sinto todas as minhas células a recender, com essa saudade de vocês.

(Este post está publicado no Jornal A União, em minha coluna de hoje)

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