Deus sabe Braille?

 

 

Ontem, enquanto revíamos fotos de Paris, minha irmã Cida me perguntou do que eu mais havia gostado na França.

– De tudo, eu disse. Dos passeios, do congresso, das geladas noites embaixo das cobertas ou no calor aconchegante dos restaurantes, do riso aberto do meu amigo Ibrahim, com sua túnica africana, até do bife chartier que não era bem um bife eu gostei.

Não contei pra minha irmã, daquele momento singular que agora vive em mim como uma das lembranças mais queridas da França. Momento ínfimo que se destacou dos outros, como uma centelha,e veio habitar o meu coração, como uma espécie de mantra, como um acalanto branco, música singular e plástica, que agora moldo ao meu bel prazer, reinventando todas as suas cifras.

Foi na tarde do dia sete de janeiro. Um pouco fatigadas do burburinho do salão principal do congresso, por volta das três da tarde, renunciamos ao elevador, e descemos as escadas, para nos depararmos, no terceiro andar da sede da Unesco, com enormes corredores habitados pelo silêncio.

Silêncio? De repente algo chamou minha atenção. Um som, um picotar, um tamborilar, como se alguém estivesse escrevendo em braille.

Guiei Mariana para o lugar de onde vinha o som, e, diante da vidraça, ficamos em silêncio, maravilhadas, escutando a neve a deslizar, pequenos flocos brancos a compor uma música líquida, irregular mas constante, pequenos flocos brancos a estralejarem suavemente, num ritmo aleatório, a minha inédita canção francesa.

Sei que nunca serei capaz de descrever o que senti. De dentro do frio, eu sentia calor. Sentia alegria. Alegria salpicada com algo profundo, porque pensei, naquele ínfimo momento, pensei na trilha dos milhões e milhões de anos, no frio, aengendrar a neve. Milhões e milhões de anos, e, num arranjo de minutos improváveis, eu ali, nariz colado naquela vidraça, a escutar a invenção do frio, feita em música de neve.

Quem sabe, noutro dia, eu tente inventar outra crônica, para dizer do meu encantamento, porque nessas trinta linhas, tenho certeza que não consegui.

Ou talvez eu deixe que cada um brinque com a música imaculada da neve, ao seu bel prazer,  compondo por dentro das estrias do frio, o calor desse dueto  irregular, ao mesmo tempo lúdico e solitário,  num imenso corredor silencioso e quase vazio.

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