Um Longo Grito por Justiça

 

 

Tudo na vida da gente envolve um “e se”. Digo isso porque ainda estou impactada pela cobertura de um ano da tragédia da boate Kiss, na cidade de Santa Maria. Impactada pela força da vigília realizada na noite do domingo para a segunda-feira, impactada pelo tamanho da dor das famílias dos 245 mortos.

Cada uma daquelas famílias, provavelmente, em algum momento, do fundo da sua dor, pensou no “e se…” “E se a minha filha não tivesse ido”? “E se o meu filho tivesse ficado em casa”?

Como tempestade de verão, a dor daqui chama outras dores, acorda outras feridas. Mães argentinas   vêm juntar-se às mães brasileiras, para alguma soma impossível dos seus dias de perda.

É forte a imagem da cidade acordada, em plena madrugada, o chamado das sirenes ecoando por parques e praças, como um pedido, um alerta, um grito para o não esquecimento.

É grandiosa essa imagem de uma cidade assombrada pelo tamanho da sua dor, 245 vidas ceifadas assim, ao som do vanerão, fumaça e perfume unindo-se numa química macabra de morte.

E se essa fosse somente mais uma noite normal? E se não tivesse havido a tragédia? E se, nessa esquina impossível, entre o antes e o acontecimento, e se tudo isso pudesse ter sido evitado?

Os acidentes, o que são eles senão o resultado de uma falha na maquinaria, um gesto incidental em alguma zona de perigo, uma escolha infeliz, a  desaguar sobre nós, toda a carga da sua fatalidade?

A tragédia da boate Kiss reuniu num só lugar, um coquetel mortal, tudo porque uma pergunta crucial não foi feita: E se a segurança fosse um item vital dentro da boate? Pergunta crucial, a escavar outras tantas perguntas fundamentais: E se houvesse zelo para com a vida? E se o lucro conciliasse responsabilidade social e segurança aos seus cálculos?

Essa lista não é tão grande assim, mas a força da ausência desses itens vitais, zelo pelo humano, responsabilidade social, segurança, fiscalização, armaram a bomba, criaram o desfalque, cimentaram a cidade com larvas de uma tristeza sem tréguas.

O vanerão, em santa Maria, não terá mais o tom despreocupado e inocente da alegria. Centenas de famílias clamarão pela justiça, compreendendo agora o real significado dessa palavra, com seus dentes de angústia, suas unhas compridas de desespero.

Santa Maria, minha crônica, em alguma medida, junta-se a esses gestos, a esses braços vazios, a esse longo grito por justiça.

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