Mundos e Mundos… Sob meus Dedos

 

 

(Homenagem ao dia Nacional do Braille, comemorado em 8 de abril).

 

Hoje, em todo o brasil, desde 2010, se comemora o Dia Nacional do braille, e, por conta desses sincronismos que a gente não explica, a primeira coisa que me chegou às mãos, vinda do correio, foi a Revista brasileira para Cegos, em braile. Junto com ela, um brinde para os leitores: A tabela da Copa do Mundo, também em braile.

Percorri com meus dedos o sumário da revista, enquanto processava os cinquenta anos em que ingressei no mundo da escrita em relevo. Revi aquele dia dos meus sete anos em que, pela primeira vez, associei aqueles pontinhos e vi as palavras se formarem. Experimentei o milagre desse diálogo entre mão, cérebro e cultura.

Nunca mais fui sozinha. Ganhei asas, ganhei lugares, amigos, tantos e tantos mundos, que eu podia acionar somente com o toque dos meus dedos. Cresci, e, talvez por conta de ler tanto, (em minha infância e adolescência, eu devorava livros), por conta desse tanto ler, quis ser jornalista.

Durante quase nove anos, fiz jornalismo de um modo inusitado. Enquanto meus colegas usavam caneta, eu anotava em braille. Meu editor me pedia um “furo de reportagem”, e eu, toda animada, lhe apresentava meu bloco de anotações, todo crivado por “furos” em relevo.

O milagre se fez em 1729, quando o jovem Luís Braille inventou a sua célula fundamental de seis pontos justapostos e rompeu com um hiato de milhares e milhares de anos em que as pessoas cegas não tinham acesso à escrita. Os seis pequenos pontos verticais operaram uma verdadeira revolução na vida das pessoas cegas em todo o mundo.

Nas culturas antigas, éramos mendigos. Na idade média fomos trovadores de Gesta. A idade moderna nos surpreendeu ainda mendigando nas ruas de Paris, Viena, nas grandes metrópoles do mundo. Os seis pontos de Braille, como uma espécie de chave dentada, nos abriu de par em par as comportas da cultura intelectual. Hoje, muitos de nós já são cientistas.

Se você puder, olhe hoje para um texto braile. Contemple o caleidoscópio que esses pontinhos formam, ora lembrando um bordado, ora pequenos peixes, desenhos minimalistas de um mundo em que mão, cérebro, reinventam um caminho singular para o ingresso na cultura.

Se puder, aprenda braille. Experimente tocar uma palavra escrita em relevo, e deixe que os pequenos pontos façam sulcos na sua imaginação. Esse gesto primordial, mundos e mundos sob a cúpula dos seus dedos, evocam um tempo passado, mas falam também de futuro, de linguagens, falam do mundo humano, pura multiplicação de signos.

 

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