O Passageiro do Lado

Eu poderia aproveitar esta coluna para falar o quanto ainda é difícil viajarmos pelo nordeste em voos domésticos. Poderia contar o quanto é complicado o simples trajeto Salvador-João Pessoa, poderia lhes explicar que hoje, para viajar por cerca de uma hora e vinte minutos, de João Pessoa a Salvador, num voo direto, você só pode fazer isso de madrugada.
Não, não vou lhes contar desta saga porque passam milhares de passageiros ao longo dos meses. Prefiro lhes contar do passageiro que viajou do meu lado, quando eu regressava de Salvador a João Pessoa, na última quinta-feira, e tive que primeiro ir ao Rio de Janeiro, partilhar um voo lotado, e chegar somente na madrugada do dia seguinte à minha cidade natal.
Pois bem, tomei meu voo em Salvador por volta das 19-20h e rumei para o Rio de Janeiro e a melhor notícia que tive ao final do trajeto, foi a de que os passageiros com destino a João Pessoa não trocariam de aeronave.
Fiquei pois à espera da nova decolagem, e, o comissário me pediu para trocar de poltrona, me colocando na poltrona do meio, primeira fileira, lado direito.
Espera que espera, chegou o meu passageiro do lado esquerdo, um menino de nove anos, de nome Luís Gustavo.
Descobri logo que Luís Gustavo queria conversar. Começamos aquela conversa de princípio de viagem, com aquelas perguntas habituais: “Quantos anos você tem”? “Vai pra onde”?
Luís Gustavo me contou que ia pra Serra Redonda, viver com a avó, o pai e as tias. E me fez confidências. Me falou de si, com a generosidade e a confiança que só pode ser de uma criança pequena. Me contou que estava vindo para Serra Redonda porque o dinheiro da mãe acabou e que ela não podia mais pagar a alguém que pudesse tomar conta dele enquanto trabalhava. Me fez queixas do irmão de dezesseis anos, que disse não ligar pra ele, me falou do pai, com uma ponta de mágoa.
E me falou da saudade que já estava sentindo da mãe, e por alguma corda grossa da memória, me conduziu aos tempos da minha própria infância, quando eu tive que me separar dos meus pais, para estudar na escola especial para crianças cegas.
Com Luís Gustavo, senti de novo a dor da minha própria saudade de menina, se apossando de mim como camponês que encontra um pequeno chão arrasado onde deitar raízes.
Ficamos amigos, dessa amizade que se estabelece enquanto dura o tempo da viagem. Brincamos, conversamos, ajudei Luís Gustavo a deitar a sua poltrona para uma soneca. Ele dormiu, e, no meio do sono, sentindo-se em casa, recostou a cabeça solenemente em meu ombro. Me senti grata, me senti feliz de estar ali, naquele voo lotado, indo do rio de Janeiro a João Pessoa e sendo a companheira mais próxima daquele menino cheio de saudades da mãe,
Aquela viagem, num voo lotado, tendo que ir ao Rio de Janeiro para chegar à minha cidade, valeu a pena. Conheci Luís Gustavo, emprestei meu ombro para o seu sono, e provavelmente nunca mais nos encontraremos, mas, tenho de si a lembrança da sua cabeça ternamente encostada ao ombro e a minha alegria calma a velar o seu sono de criança.

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