Minha Crônica para Asafe e Outras Hashtags da Desesperança

Nome, Asafe William Costa Ibrahim. Idade, nove anos. Moradia, Baixada Santista, Rio de Janeiro. Estado atual, assassinado por uma bala perdida. Quando, fevereiro de 2015.

Quando chegou lá, no seu novo infantário, Asafe já sabia que brincariam com seu nome. a atendente que o recebeu, sorriu para o menino e indagou: – Qual a origem desse nome? O garoto de sorriso alegre e olhar franco não se fez de rogado. – A origem do meu nome é uma mistura de um grande erro e uma grande verdade.

A fila crescia, avolumava-se o quantitativo dos papéis na mesa da atendente, mas ela prosseguiu: – como assim?

– O tamanho do nome, foi o primeiro erro da minha mãe. Mas esse nome grande e esquisito escondia os seus sonhos. Que eu fosse doutor, jogador de futebol, esse era o segundo sonho dela, mas era o meu primeiro. Tá aí, um nome grande, um montão de sonhos, e uma vida curta.

A atendente sempre se assustava com a maturidade repentina que acometia aqueles meninos e meninas ali chegados. Prosseguiu seu trabalho, enquanto Asafe corria ao vestiário, para envergar os primeiros trajes da sua nova condição, acabado de morrer.

Nome, Larissa de Carvalho. Idade, quatro anos. Moradia, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Estado atual, assassinada por uma bala perdida.

Quando, fevereiro de 2015.

Nome, Josias Searles. Idade, 15 anos. Moradia, Nilópolis, Rio de Janeiro. Estado atual, morto por chacina. Quando, setembro de 2012.

A atendente deu um suspiro de alívio quando tocou a sineta de intervalo para o almoço. Pousou sobre a bancada, seu crachá de identificação: Zona geográfica, américa Latina. País de atuação, Brasil.

Pensou que com tanto trabalho a fazer, não havia tempo para descanso. Pensava com amargura, que tomava conta de um infantário sem tréguas de um país que é o quarto no mundo no ranking de mortes violentas de crianças e adolescentes.

Um pequeno arrepio percorreu seu corpo de matéria fluida. Pensou na leva de meninas-bomba vindas da Nigéria, nos meninos e meninas advindos da África, de tantas outras crianças do mundo todo, mortas no seio das suas famílias, dentro de carros de luxo, dentro das escolas…

Empurrou para longe o prato do almoço, pensando que hoje quem trabalha é a morte. E se trabalha tanto, a morte, hoje, não haverá amanhã. Não haverá futuro, senão o eco assombroso desse terrível infanticídio.

Pensou mais uma vez em Asafe William Costa Ibrahim, brincou com as sílabas daquele seu nome grande e estranho e soube que ele era o último da espécie, que No Brasil, no Rio de Janeiro, a lista das chamadas de Asafe haviam se esgotado.

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