Cardápios em Braille, Araras Azuis e Tolices

Queridos amigos, a propósito dos protestos contra os cardápios em braille, e mais ainda, por conta de mensagens das quais tenho tomado conhecimento com respeito ao uso do braille, gostaria de compartilhar com vocês um pouco do que penso sobre essas questões. Parafraseando um querido amigo, ouso dizer: O braille não precisa dos cegos, os cegos é que precisam do braille. Assisto a uma contenda sistemática e tola com respeito aos cardápios braille. Gasto de energia e de falação que em vez de nos fortalecer, de valorizar nosso campo de pertença e a nossa cultura tátil, nos desune e passa uma mensagem incompreensível a respeito do que queremos para a sociedade.

Por que jogamos pedras nos cardápios em braille? Por que desqualificamos uma lei, somente porque ela não resolve uma problemática maior, que é a de colocar livros braille na escola, em tempo hábil e com qualidade? Quando o universo foi criado, será que os planetas só começaram a girar em suas órbitas quando cada um deles estava plenamente constituído? Será que todas as raças humanas só começaram a fazer uso da linguagem quando não houve mais nenhum ser humano incapaz de fazer uso do seu aparelho fonador?

Não acho a lei do cardápio em braille inútil e desnecessária, tampouco a lei que obrigou que as empresas aéreas distribuíssem o conteúdo de seus cartões de segurança também em braille. Alega-se que somente uma pequena minoria fará uso de tais cardápios. Em que pesquisa baseia-se tal informação? Não será ela fruto do próprio preconceito daqueles que não fazem uso do braille, e que, ainda que estejam exercendo seu direito de escolha, não têm o direito de desqualificar o direito de uso dos que preferem o braille? E se de fato for mesmo uma pequena minoria que prefira cardápios em braille, numa sociedade democrática, essa pequena minoria não pode ser contemplada?

Quantas araras azuis existem ainda no planeta terra? Quantos ursos panda? São de fato uma pequena minoria. Mesmo assim, há muita gente preocupada com a preservação dessas aves, porque elas fazem parte de um grande ecossistema natural que não deve ser flagrantemente desfalcado, como está sendo, sob pena de termos consequências imprevisíveis para a conservação da nossa fauna.

A escrita braille já não é somente uma conquista das pessoas cegas. A escrita braille é um legado da cultura humana. Um modo de tradução do alfabeto convencional em uma interface e uma gramática tátil de associação. Não houvesse o paradigma tecnológico compreendido a importância desse legado, e nós ainda estaríamos produzindo braille em regletes de madeira, metal ou plástico, com dispêndio de energia muscular e esforço mental.

Felizmente a revolução tecnológica incorporou o braille. As indústrias de microeletrônica, mecatrônica e afins, sempre trazem à luz, um invento que repotencializa o uso do braille na leitura e na escrita. Um exemplo são as modernas linhas braille, hoje acopláveis aos smartphones e aos tablets. E, a mais recente descoberta, a impressora Braigo, criada por um jovem de 13 anos que em sua genialidade, deu-se conta da importância do braille.

Enquanto ouço colegas cegos desqualificarem o braille e ironizarem com respeito à paixão dos seus defensores, assisto aos progressos do sistema de seis pontos nas telas do ios e do androide. Como se, enquanto o braille avança a passos largos, tendo seu reconhecimento nos processos tecnológicos de ponta, no âmago da cultura cega, ainda se desse voz a um velho debate, nascido no século XIX, o qual punha de um lado os defensores do braille, e do outro, aqueles que eram contrários à sua implementação.

Usar ou não usar braille, na sociedade atual, já é uma questão de escolha, de adaptação, de necessidade. Pensar que os computadores substituem a leitura tátil, é como tentar-se substituir o pó do café por farinha de milho.

Brincadeiras à parte, leitura tátil e leitura de ouvido, por via da voz sintética do computador, são escolhas possíveis na sociedade atual. Cada uma delas traz vantagens e desvantagens. Cada uma delas tem sua leva de usuários, cada uma delas cria níveis de satisfação ou de insatisfação. Assim, porque jogar pedras na lei do cardápio braille, quando certamente há pessoas cegas que se sentirão extremamente confortáveis se chegarem a um restaurante típico de frutos do mar, por exemplo, e receberem um cardápio para lerem calmamente e fazerem seu pedido com autonomia?

O que se deve lamentar, não é a existência da lei. O que se deve lamentar, é que ainda sejam necessárias leis, para que uma pessoa cega possa sentar-se calmamente em um restaurante e possa ler em braille a carta dos vinhos ou o menu das entradas.

O que se deve lamentar, mais ainda, é essa contenda antiga e desnecessária, levada a cabo por pessoas cegas não usuárias do braille, e que portanto não podem compreender a paixão, o encantamento, a defesa ardorosa daqueles que lêem em braille.

Defendo o braille. Defendo a célula de seis pontos, como se fosse ela a arara azul no ecossistema da escrita humana. Defendo o braille, com seus pequenos desenhos minimalistas, lembrando peixes, ou um bordado feito de pequenos sulcos. É assim que eu escrevo. É assim que sou no mundo, ser de escrita e de leitura, tocando o texto com a polpa dos meus dedos.

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