A Força do “Não”

No último domingo, tal como devem ter feito milhões de pessoas no mundo todo, sintonizei-me com a Grécia e com a difícil missão do seu povo, que teria de escolher entre dois caminhos, cada um deles tão difícil quanto o outro, com seus abismos, sua impossibilidade de desvios alternativos, seu conjunto de inevitabilidades.

Como milhões de pessoas no mundo todo, torci pelo “Não”, e divulguei nas redes sociais, as tags dessa torcida, enquanto acompanhava pelos principais portais de notícias, as repercussões daquele acontecimento.

Festejei a vitória retumbante do “Não” grego, ciente da impossibilidade de compreender o tamanho do sacrifício que o caminho escolhido imporá aos cidadãos daquele país, ciente da imensa distância existente entre esta minha precária solidariedade e a real situação de sofrimento vivida pela Grécia, com todas as suas terríveis nuances, as quais somente podemos assistir de muito longe.

De fato, para qualquer lado que se olhasse, na terra de Platão e de Sócrates, havia um cenário sombrio a ser contemplado. O não, entretanto, era por assim dizer, o salto mais arriscado. Aquele que colocaria a Grécia no topo de uma montanha, pavimentada toda ela por um caminho de solidão, isolamento, abandono dos trilhos do mundo exterior e do capital internacional.

O não envolvia porém, a coragem de milhões de gregos que já haviam desafiado um processo eleitoral anterior, colocando nas mãos de Alexis Tsipras, os destinos do país para os próximos anos.

Em alguma medida, o voto no não ratificou o lugar de Alexis Tsipras

Como o primeiro ministro da Grécia,

Assim, ouso dizer, o “não” fez mais pela Grécia do que faria o “sim”. Ao mesmo tempo em que expôs ao mundo, o âmago da terrível crise que assola o país, obrigou que o grupo dos seus vizinhos, a Europa toda, representada pela Troika, constituída pela União Europeia, o Banco Central europeu e o FMI, se voltassem para uma compreensão mais aguda dessa crise, que não é apenas da Grécia, mas se gesta na própria forma como se dão os financiamentos das dívidas dos países hoje dependentes do capital mundial.

A agonia prossegue, agora com as diversas negociações. Dentro da Grécia entretanto, enquanto tenta adaptar-se ao limitado mundo das contenções, das dificuldades, dos carecimentos, o povo grego alimenta-se da esperança no seu líder maior, Alexis Tsipras, e na possibilidade de construírem um futuro mais digno para o país.

Sim, a crise grega é, em larga medida, uma amostra dos caminhos que temos palmilhado ao sabor das diretrizes do capital mundial, cuja acumulação, com predomínio na financeirização do próprio capital, assume proporções inaceitáveis, ameaçando o futuro da própria globalização.

Nenhum país pode-se dizer imune à situação de crise que assola o mundo. Mas há que se compreender porque estamos caminhando inevitavelmente para uma posição tão perigosa. Precisamos escutar o que tem nos dito David Harvey, em sua aguda crítica ao sistema capitalista e aos movimentos das suas últimas décadas, que nos trouxeram a esse perigoso agora.

 

(Este post será publicado amanhã em minha coluna impressa do Jornal A União)

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