Manchetes de Jornal

Não posso desligar a tevê, nem ignorar as Newsletters que recebo todos os dias na minha caixa de correio. A verdade é que as manchetes são as mais difíceis de digerir, e desaguam de todos os lados.

Na minha cidade, os jornalistas falam de crianças mortas encontradas no lixo. Crianças morrem de fome e de cansaço nas fronteiras europeias. E agorinha mesmo, enquanto escrevo minhas 36 linhas, o jornalismo mundial repercute o terrível embuste perpetrado pela Volkswagen, tecnologia embutida em seus automóveis de luxo, para enganar ao mundo, aos ambientalistas, aos governos, que está reduzindo a poluição.

É verdade que o Papa Francisco tem alertado ao mundo, com sua generosidade, com frases curtas, simples e certeiras, sobre o terrível caminho que estamos palmilhando, em sociedades garroteadas pelas exigências da propriedade, do capital, e onde a vida é flagrantemente ameaçada, descartada, ignorada.

Um país justo, é aquele que se preocupa com as pessoas, disse o Papa Francisco em Cuba, e depois rumou para os Estados Unidos, onde espera intermediar o fim do terrível embargo econômico imposto pelo país de Obama à ilha de Fidel, há cinquenta anos.

Fico pensando se existirá de fato um país justo. As manchetes dos jornais, as chamadas de rádio e tevê, nos entremostram um mundo marcado pela violência, a desigualdade, injustiças de toda ordem, e estados servidos por regimes políticos ocupados em promover democracias baseadas em ajustes fiscais que protegem muito mais as bases de manutenção do status quo de defesa das riquezas concentradas nas mãos de poucos, e em muitos casos, de total abandono dos direitos de cidadania.

Para fugir do peso desse mundo amargo, corro atrás das descobertas científicas na área das missões espaciais. A terra vista do espaço, não passa de um belo e pálido ponto azul, como diria Karl Sagan. Sondas em diversos pontos do cosmos, nos mostram a espantosa e intrigante beleza das montanhas de Plutão, ou a misteriosa Hidra, uma das pequenas luas de Urano, tão distante de nós.

Em pensamento, faço coro com o Papa Francisco. Um país justo, preocupa-se com as pessoas, com suas riquezas naturais, com todas as outras espécies vivas, com a saúde da terra.

E de repente me dou conta, a política, as instituições, vivem sob a égide de um contrato social em que todos já estão meio mortos, soterrados por protocolos que os ajudam a fazer de conta, armados por formas de ludibrio e de fingimento, apoiados em legendas que abandonam ou acatam, com um simples jeito de mão, um pequeno discurso insólito, que possa caber em uma manchete de jornal, que possa ser decorado e repetido, na inútil prosopopeia da política.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna impressa do jornal A União).

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