Morrer é a Grande Notícia

Imagino o mundo midiático como uma estreita e movimentada faixa por onde trafegam os acontecimentos midiáticos. Me pergunto sobre quais as vantagens que teríamos, caso vivêssemos nessa movimentada faixa de acontecimentos.

A única vantagem, me parece, seria a de trafegarmos em segundos, pelas vias do Brasil, da Turquia, Bélgica, África do Sul, Bangladesh, e, por artes de um pequeno cutucão num cacho de sílabas, nos instalarmos nas esquinas badaladas de Nova York, ou na beleza agreste e fria da Patagônia.

Olho para os acontecimentos, acotovelando-se para ganharem o maior naco de atenção nas telas, e vejo que aquilo que chamei de vantagem não é vantagem alguma. Vivêssemos no mundo midiático, e certamente seríamos esmagados por esse terrível tráfego das notícias de morte. Morreríamos junto com reféns, em restaurantes de Bangladesh, morreríamos em aeroportos, salpicados por explosões terroristas fatais. Morreríamos junto com as vítimas inocentes da perseguição policial, morreríamos por apenas estarmos segurando um saco de pipoca, morreríamos, ali mesmo na esquina da minha rua, olhos esbugalhados para a inútil placa de Pare.

Morreríamos, mesmo caminhando feito mortas vivas, vítimas de estupros coletivos, nos metrôs, nos vãos escuros de viadutos, nas ressacas das baladas cariocas, dentro de hotéis de luxo, mortas vivas, carregando a dor das costelas quebradas, mortas vivas, dentro de barracos, dentes perdidos, olhos inchados, maxilares deslocados, mortas vivas, tatuadas pela brutalidade de pés, ou do que haja à mão, em apartamentos tipo 1 ou em coberturas de mais de seis dígitos.

Morrer é a grande notícia, a gritar como um pregoeiro, ou a empurrar para baixo o que não seja acontecimento de morte, para instalar-se no centro do mundo midiático, fatiar suas faixas de tráfego, invadir vielas, becos, vicinais, artérias movimentadas, capilarizar toda a atenção, todo e qualquer espaço entre o ir e vir, o inspirar, o expirar.

Vivêssemos no mundo midiático, e a toda hora estaríamos buscando ar, erguendo a voz, acima do tumulto, para uma pergunta tola. Não se nasce nesse mundo?

A nuvem dos acontecimentos desabaria sobre nossas cabeças: Crianças mortas porque a dona fome engole suas tenras células, crianças assassinadas pela ira dos seus pais, num momento de fraqueza, meninos e meninas desfalcados por balas perdidas, crianças pequenas assassinadas na paciência e determinação das artes de feitiçaria, bandos de meninos e meninas mortos em barcos lacrados ou em alto mar, fugindo da guerra, mãos estendidas num último pedido de asilo.

Vivêssemos no mundo midiático e assistiríamos em tempo real, sob diversos ângulos, à nossa própria esganadura, ao nosso atropelamento, à bala perdida que nos tiraria de cena.

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