A Sinfonia da Crise

 

Enquanto escrevo a coluna, ouço extratos de O Guarani, executado pela orquestra Tabajara, do álbum comemorativo aos quinhentos anos do Brasil, num arranjo pujante, estilizado. Em alguma medida tento habitar o país do compositor Carlos Gomes, tento construir alguma quilha de tempo de onde possa escutar a sinfonia da crise que ora se leva a cabo, sobretudo no Planalto Central.

O país exibe seus escombros, na economia, na política, nos sistemas de assistência ao povo. A crise fixa suas tenazes em todos os poros da nação, e cada grupo assume posição central nesse ranking macabro da disputa de um poder, hoje, completamente estrangulado.

Mas há, se é que possamos chamar assim, algo de positivo nessa terrível marcha da insensatez, todas as máscaras estão caindo, cada um dos atores dessa crise exibe sua face verdadeira, cada um dos atores dessa crise retira da algibeira o seu trunfo mais importante. E, essas faces, nem todas são bonitas. Esses trunfos, nem todos são frutos da honestidade e da ética, tampouco terão o condão de minorar a crise.

A título de metáfora, posso dizer que a crise política brasileira dos últimos vinte anos tem uma sinfonia. Ela começa altiva, nos governos FHC, com pequenas áreas dissonantes, quando a oposição e os movimentos sociais buscavam enfrentar os males do neoliberalismo que desembocava no país, sob a égide da Escola de Chicago.

Os governos Lula construíram uma musicalidade própria, com ênfase para a cultura popular, os belos cantos guaranis e tabajaras, as vozes da negritude, a bela poética do que há de melhor na música popular brasileira.

A dissonância também ganhava corpo, o mal estar das aristocracias murmurava seu desassossego em tons indignados.

Nos governos Dilma esse desassossego ganhou microfones, expectadores, panelas. A sinfonia esmerou-se em dissonâncias que conseguiram levar a cabo o desmantelamento do governo, com a promessa de um novo país.

Silenciaram-se os atabaques, as vozes das cirandeiras, os ecos da cultura popular. Calou-se o poeta, até no Roda Viva. Ocuparam-se praças e escolas, com gás lacrimogênio e a pimenta da indignação na boca do estômago.

A sinfonia agora é composta por gente grande, branca, rica, cristã, que retira suas máscaras, exibe seus últimos trunfos. E não, eles não são bonitos. Eles exibem um parlamento corrupto, um poder judiciário celerado, digo, civilizado, a soldo de uma suprema corte que controla o modo como o país será fatiado e entregue ao capital rentista e às economias estrangeiras aptas a explorar as matérias primas da nação.

A batalha principal começou e a sua tática é simples: Vencerá aquele grupo que melhor souber usar as armas da desfaçatez, da chantagem, da vileza que impregna as consciências e as contas bancárias.

Não fosse tão grave essa tragédia política, ainda temos lágrimas para chorar o terrível desfecho da Chapecoense. “Vamo, vamo, Chape”, que a Esperança é um lugar pequeno, num ínfimo fragmento do mapa.

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