Entre Explosões de Bancos, Furtos a Escolas e Farmácias: A Inutilidade do Jornalismo Factual

Enquanto a imprensa segue divulgando o assalto do dia, as explosões de bancos ocorridas na semana, o furto de um ônibus em Pe, onde até a roupa do motorista foi levada, todas as perguntas estão por serem feitas.

A cobertura é factual, desconectada dos veios da história, completamente desvinculada de algum processo investigativo que possa auxiliar a sociedade a compreender as razões profundas desses acontecimentos trágicos.

É certo que há padrões, regularidades, modos de agir previsíveis envolvendo esses atos de crueldade extrema. Sobretudo nos atos envolvendo explosões de bancos, há com certeza uma mensagem que precisa ser publicizada, há caminhos investigativos a serem explorados, entretanto, a imprensa que temos não tem capacidade para tais esforços.

A cobertura da imprensa é farta em imagens semelhantes. A narrativa também é previsível, de tal sorte que se poderia colar o texto da explosão de ontem àquela que ocorreu na madrugada de hoje. Em geral há um vídeo de colaboração espontânea, e, a notícia de um minuto e meio coloca na boca do estômago da sociedade, um mal-estar, uma sensação de inutilidade do jornalismo.

Por que noticiar a explosão de ontem, a de hoje, a de amanhã, sem qualquer esforço de compreender o padrão, o modus operande, sem qualquer esforço para escavar a profundidade desse mar de crueldade?

O tempo jornalístico, aferrado à máquina comercial da publicidade, só pode mesmo esguelar-se, comunicando o óbvio, o superficial, o agora. A pele e as vísceras da cultura do crime estão por ser exploradas. As perguntas sobre os perfis das quadrilhas, a ousadia das equipes que lidam com explosivos, a quase que inutilidade das ações policiais pós-explosão, tudo está por ser avaliado.

Os crimes que vêm se perpetrando contra o país, em todas as suas localidades, não podem ser tratados como meros atos de vandalismo e violência cotidiana. Há aqui uma mensagem mais profunda, como que uma operação em curso, de longa data, com apoio de forças invisíveis, mas reais. Forças locais, ou forças além fronteira? Quem é o braço político dessas operações de guerra? E o braço comercial? Que forças se interessam pelo estado de vulnerabilidade absoluta das comunidades, dos sistemas de vigilância que parecem ter se esgarçado?

Há aqui uma rede forte, bem organizada. Quais são seus atores? Por que é certo que a ousadia dos que carregam explosivos não pode ser somente fruto de químicos e de experiência no crime. Fazer reféns, roubar veículos, explodir bancos, em operações realizadas com sucesso? Isso só pode se dar quando há uma rede competente de produção, planejamento, organização e realização. Essa rede precisa de atores em todos os nós e circuitos do processo. Precisa ter mandantes e mandatários em lugares que ninguém de bom senso suspeitaria.

O jornalismo mínimo não tem competência para tratar disso. Esse tipo de jornalismo só pode acompanhar o fato, quando ele mesmo acontece, quando toda a operação profunda suspira aliviada com mais uma explosão de sucesso e festeja de forma invisível o capital amealhado. Pode ser dinheiro, pode ser experiência, pode ser a oportunidade para remanejar sujeitos mal sucedidos.  Uma sociedade em absoluto estado de vulnerabilidade. A quem interessa esse propósito, barulhento na superfície, mas invisível na sua profundidade. Não, a imprensa que temos não nos dirá nada sobre isso.

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