A “Tropa de Choque Perdeu”

Eu poderia dizer tanta coisa sobre o julgamento do recurso do Ex Presidente Lula, ocorrido no TRF 4, na última quarta-feira! As impressões como que se atropelam, numa espécie de fila desordenada, como aquelas da vacina da febre amarela. Falar do rito da justiça é um tanto arriscado para uma pessoa leiga no tema como eu. Ouvi os três votos, alternando entre atenção máxima e mínima.

Antes escutara as sustentações orais e fiquei assustada com a fragilidade das mesmas, ao mesmo tempo impressionada com a clareza da sustentação do advogado de defesa de Lula, Cristiano Zanin Martins.

Sobre os votos, devo dizer que todos continham uma mensagem clara: Ali os julgadores disseram: “Aqui é o meu palco, aqui posso transformar indícios em prova verdadeira, aqui, fiel aos autos do processo e à sentença sapiente da primeira instância, posso confirmar a culpa e o crime”.

A verdade é que havia excessos de recados naqueles votos. Os juízes estavam indignados com a pressão popular sofrida, e mesmo dentro do voto, era preciso enquadrar aquela gente, dar-lhe um epíteto mais adequado, chamando pois as manifestações populares de “tropa de choque”, que juiz que se preza e que sabe que está sendo visto e ouvido por todo o país, tem de falar com linguagem clara e cirúrgica.

O voto de cada um tinha também de tipificar o crime cometido pelo ex presidente. Mais que isso, era preciso caracterizar a personalidade e a trajetória do proprietário do tríplex do Guarujá. Então era recorrer ao vasto manancial da narrativa instituída acerca do mensalão, cuja síntese mais brilhante fora feita em um power point que precisava ser confirmado naquela espetacular sessão. Nem houve muito esforço para retomar a narrativa, e assim auxiliar a mídia em recuperar sua fábula predileta, a qual tinha perdido força com os escândalos recentes: Malas de Geddel, de Rodrigo Loures, propina para Serra e Aécio, essa também em malas carregadas por seu primo.

De fato,  ao revalidar os termos do power pointe do procurador Dallagnol, os juízes do TRF4 revificaram a narrativa midiática: Lula chefe da quadrilha, servindo-se da Petrobrás para constituir um polo de poder para o partido dos trabalhadores.

O recado mais claro a ser depreendido dos três a zero, é o de que nesse caso, a justiça assumiu claramente o lado do capital, do mercado financeiro, do governo interino e do seu parlamento sórdido. Ignorou a mobilização popular, cerrou portões aos brados do que chamou de “tropa de choque” a segurar com unhas e dentes, os vagos contornos de uma democracia em ruínas.

E aqui uma última impressão: A vitória maior desse espetáculo foi alcançada pela mídia comercial. É a mídia que sintetiza o script e o desenrolar da agenda dos próximos acontecimentos. Até agosto, julgados alguns recursos da defesa, Lula será enquadrado na Lei da Ficha Limpa. Mas a mídia sabe que um líder de massas não se destrói facilmente. Como numa série espetacular, os outros processos de Lula serão julgados, mantendo acesa a chama do espetáculo telenovelesco que dá tanta audiência. A sociedade perdeu, e já não se poderá sonhar, a médio prazo, com um outro governo popular e democrático. O judiciário, a mídia, todos trabalharão para que o líder de massas não suba mais à rampa do Planalto. “Com o supremo, com tudo”, como vaticinara o senador Romero Jucá.

No horizonte, já se vê a nova onda de ódio, que se espalhará pelas vias e praças do país, que já vocifera na cibervia, com os mais de cinquenta tons da estupidez humana.

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