À Craseado: Um Conto para as Mulheres

 

– O que será que uns estimulozinhos extra teriam feito comigo? Agora é tarde pra pensar nisso. Só me restam os ácidos gamálicos, por que então essa teimosia das minhas células, a desejarem ser o que nunca eu vou ser?

Explico-lhes todos os dias: A carta de vocês foi traçada com letras grossas e curtas de quem escrevia pouco e ruim. Onde vocês se forjariam senão naquele povoado de duas ruas, uma igreja pequena, a casa do prefeito sendo a maior de todas?

Comadre Alta sendo a Comadre da minha avó, que levava seu Joãozinho pra visita de domingo, brinca daqui, brinca dali, Joãozinho e Amélia casados, forjaram a trilha curta por onde vocês desembocariam, na geração vindoura, aquela em que minha mãe, Otacília, casou-se com Tiago, filho de Jó, compadre do meu avô.

Quando penso nesse caminho de porta-cancela, nesse campo de mato ralo onde vocês se forjaram, fico impressionada de haver me distanciado tanto do que fora a primeira geração, depois a dos meus pais, depois a minha.

Dito tudo em traçado curto, as mulheres da primeira geração tinham vida que podia ser escrita em papel de embrulho de armazém, letra grossa e grande, frases de palavra única. Cozinhar, lavar, parir. Só tinha uma frase um pouco maior nessa agenda velha: Satisfazer ao marido.

E vocês, células impertinentes, a me perguntarem pelas crases. Tinha crase sim, tanto na vida da minha avó, quanto na da minha mãe, pois elas iam juntas à missa de domingo, levando as sandálias nas mãos, pra não sujarem a igreja de lama.

Falando no crase, tenho certeza que minha avó nunca pensou sequer em algo parecido. Minha avó, quando pegava num lápis, era pra ameaçar meu tio Raul,quando ele entrava em casa, atazanando todo mundo.

Minha mãe, de leitura pouca, leitura de folhinha e de bula de Regulador Xavier, será que minha mãe sabia o que era um a craseado?

– Sabia não! Berram vocês, alto e bom som, como se se tratasse aqui do “boca de forno”.

Pasmada, vejo que a grande distância, a grande diferença que marca a minha vida em relação às vidas da minha mãe e da minha avó são os craseados. Fui à escola, fui à formatura, à igreja, quando do casamento, à juíza, quando do divórcio. À Europa, à bolsa, para as aplicações, à bienal, à noite de autógrafos.

E agora, vou à minha timeline, ver o que se passa no mundo virtual, ver o que dizem de mim os meus seguidores. Fazer o que minha avó e minha mãe faziam, aos gritos, falando das suas janelas para as das vizinhas, num tempo sem crases e sem banda larga.

 

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