O Silabário dos Dias

Os dias que vivemos são escritos com frases curtas. Prendam. Matem. Arrebentem. Pílulas de ódio circulam nas redes sociais, altos comandos escrevem verdadeiras súmulas de ameaça, usando uma banda larga e um clique do mouse.

Ainda que se gastem horas e horas em discursos retóricos, o núcleo de tudo o que se diz é simples, direto, como uma rajada, como um telegrama, como uma ordem rabiscada num guardanapo. Prendam. Aniquilem, condenem, encarcerem.

Os jornais, as tvs, os portais de notícia antecipam-se, forjam as manchetes da hora mais dura, como se de um grande espetáculo se tratasse, um reality show macabro, de enredo telenovelesco: De um lado, os cidadãos de bem e os seus heróis, do outro, os bandidos, aqueles que ousaram alterar a ordem instituída.

Os dias que vivemos são escritos com sílabas de emboscadas, curtas como tiros na cara. São escritos com a morte no centro, o dedo apontado para os inimigos da desigualdade e da injustiça. São escritos com selos e carimbos, em protocolos feitos para impedir,ameaçar, encarcerar.

Uma escrita dura como chibatada, essa dos dias em que vivemos, apressada, frenética, feita de exatas palavras. Impedir, evitar, encarcerar, como numa espécie de guerra em que há que se limpar o mundo em que uma nova fábula precisa ganhar terreno, impor-se como história oficial.

Encarcerar, e deixar que os cidadãos de bem vivam felizes para sempre, com o fim da corrupção, com a celebração da justiça, com a alegre futilidade da  mídia, com um exército de silenciosos guardados em seus quartéis, com os gangsters no poder, vestidos de bons moços,

A escrita dos dias que correm divorciou-se da verdade, da ética e da defesa da democracia. Esboça-se em curtos ditames, com publicidade falaciosa. Resgatar a credibilidade da justiça, colocar o país nos trilhos do futuro, apresentar à nação, o fim da impunidade.

Uma fábula tão curta, golpeando com força a liberdade e a defesa da democracia.  Uma fábula tão retumbante, penetrando o silêncio das casas, o barulho dos estádios, a solidão das igrejas à noite, o vozerio nas festas e velórios.

Encarcerar, antes que o jornal da noite possa ser fechado. Encarcerar, para que todas as mídias possam editar o espetáculo das algemas, a redundância dos gestos, o tom ritmado do silabário da narrativa global.

Encarcerar. Guardar as chaves da liberdade, e deixar que o povo de bem vigie as horas de silêncio do condenado. Inutilizar seu passo célere, sua voz rouca, impedir que sua mão corte a passagem dos cidadãos de bem rumo ao país do futuro. Encarcerar, agora, antes que agosto chegue com seus ventos, antes que as urnas de outubro sejam abertas.

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa do Jornal A União, na última sexta-feira).

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