Moscas não Pagam Aluguel

De madrugada as moscas não perturbam ninguém. Somente as formigas, as baratas, os ratos. Sobretudo aqueles mais ousados e famintos, chegam perto dos humanos, remexem nas suas coisas à busca de um jantarzinho.

As moscas só souberam pela manhã, que alguma coisa muito grave havia acontecido na sua morada na rua Pai Sandu. Moscas não precisam de um edifício grande para viver, pousar. Um pedaço de entulho pode servir. Mas aquele montão de entulhos cheirando estranhamente já não lhes vai oferecer nada que valha a pena.

Moscas não pagam aluguel, transitam livremente e pousam em lixo acumulado, em louça suja, em barracos e prédios   infectos, maravilha de céu para seus volteios!

As moscas nunca poderão contar sobre aquele acontecimento. O que saía de dentro do prédio finalmente, incandecentemente  iluminado, era desespero humano, era pavor, de crianças, adultos e velhos.

Eram pessoas iguais a mim e a você, muitas delas com sotaques nordestinos, que o prédio fervente vomitava às centenas, na praça madrugadora. Gente atônita fitando apavorada o desmanche medonho. Sonhos despejados como trouxa de roupa suja. Pés descalços lambendo a escada que pouco depois era devorada pelo fogo.

Gente igual a mim e a você. Só que a gente dormiu a noite toda, e só viu pela tv, pequenos flashes dessa gente atônita, verdadeira sociedade anônima, amanhecida sem teto, cheirando a rescaldo, cheirando a pavor, esse estranho cheiro de estricnina derramando-se por veias e artérias.

Quando as moscas chegaram não entenderam nada. Passearam por braços e pernas fedorentas, e depois foram procurar outro endereço. Moscas não pagam aluguel, nem precisam de cabos de aço para se salvar.

As moscas jamais conseguirão entender, com seus cérebros minúsculos, o tamanho dessa tragédia. Moscas só entendem de esgotos abertos, pratos sujos e engordurados, roupa mal lavada, excrementos à mostra, cadáveres putrefatos.

Moscas não compreenderão uma letra que seja dessa frase comprida: Gente igual a mim e a você, falando como nós, caminhando, atropelando, saltando, com dois pés, iguais aos meus e aos seus. Gente como nós, com sonhos, esperanças, desejos, vontades, só que sem eira nem beira.

Gente como eu e você, mas que passa a vida sendo enxotada como as moscas. Gente como eu e você, vivendo de pouso em pouso, levas e levas de pessoas como eu e você, apodrecendo como estorvos, à beira da vida. Gente como eu e você, vivendo como as moscas, a um preço terrível: gente como eu e você, erguendo a cidade grande, limpando suas latrinas, jogando e depois catando seu lixo, lavando suas sujidades, gente como eu e você, vivendo como as moscas, só que pagando aluguel.

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