Um Fastfood Macabro

 

“Tem dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu”. Os versos fortes da canção de Chico Buarque caem como uma luva em nosso estado de espírito. Uma tristeza profunda rega nossos gestos, nosso modo de caminhar, as frases que ousamos escrever, aos arrancos, sobre  um mundo estranho que cresce à nossa volta, como um polvo de mil tentáculos, a deglutir nosso presente, a inventar, aos gritos de “future-se”,uma maneira ousada de desmantelar o que então havíamos erguido com nossas mãos, nosso esforço, nosso suor.

Tem dias que a gente se sente paralisada, e até o ato de escrever a coluna é como uma espécie de guerra perdida com as palavras, com a lucidez, verbos e pronomes arrastando-se pela latitude da tela, enquanto um mundo sórdido abastece-se de fatos reais, cifras aterradoras.

Prossegue o desfile dos corpos caindo, por entre as balas do justiçamento. Persiste o estonteante zunir das motosserras, no âmago da floresta, caminhando de modo galopante para se tornar uma savana desértica. Prossegue a matança infame das mulheres, com facas, com chaves de fenda, com porretes, com armas cujo registro foi convenientemente raspado.         Persiste a insônia, uma espécie de vigília, com suas tenazes de fogo, a abrir nossos olhos para o irremediável, a escancarar nossos ouvidos para a estupidez protocolar, frases insólitas, ditas com a languidez de quem afirma que faltam calcinhas na ilha de Marajó, por isso as índias pequenas são abusadas e estupradas.

Frases celeradas, salgadas com a estupidez, em lives com milhares de curtidas, dando conta de que já não há fome, de que não há desmatamento, de que o aquecimento global é uma falácia, de que a “revolução” de 1964 foi um bálsamo para o progresso do país, de que não houve incineramentos, torturas, silenciamento das vozes e dos sonhos.

Tem dias que a gente se sente imersa numa trituradora de mundos. E olha para nossas filhas mais jovens, e segura as mãos das nossas crianças, e permite que lágrimas de angústia ensopem nosso espírito, a sentir que o presente se acha envolto numa tempestade, e que o futuro não passa de uma palavra vã, imprensada entre o desespero e a morte.

Tem dias que a gente arranca de não se sabe onde, um frêmito de esperança, e vai buscar algum alento na máxima de Marcelo Gleizer: Então, não somos poeira reciclada de estrelas? Nossas células, nossos ossos, são tão velhos quanto o universo. Nós nos regeneraremos, e ergueremos nossos sonhos de novo, num lugar limpo e saudável.

Nesses dias, olhamos para a terra, e ela está ensopada de sangue. E sentimos, sem ver, os dutos da vida contaminados pelos novos agrotóxicos liberados. E tapamos os ouvidos para hecatombe das rochas perfuradas, sob o vigor dos garimpos nas terras dos índios.

Tem dias que a gente escuta o canto tupi guarani, e ele é triste, e zune como aço na alma da gente.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna do #JornalAUnião)

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