A Filosofia das Alcachofras                

Hermana querida.

 

Você se lembra dos dias em que ficávamos à mesa do almoço, esquecidas de tudo, raspando com nossos dentes, nossas línguas tenazes, as flores de alcachofra que Mantsi preparava para nós? Nunca lhe disse, mas naqueles momentos eu como que adentrava num mundo paralelo, como que me suspendia de mim, do meu corpo presente,para habitar uma espécie de nuvem, de suspensão leve, uma espécie de barato que não havia alcançado nem com marijuana nem com vinho.

Não me pergunte porque, mas ultimamente aquelas alcachofras que eu raspava  com meus dentes, que eu escrutinava com minha língua, até alcançar um não?gosto, pálido, etério, não me pergunte porque, mas essas alcachofras estão conversando comigo.

Agradeço por essa memória ter invadido o meu dia. Agradeço por haver filósofos, espiritualistas, budistas, físicos quânticos que dizem que fios sutis ligam tudo que há no universo. Sim mana, por ter vivido aquelas experiências na sua mesa de almoço, agora sei que fios muito sutis nos ligam com as alcachofras.

Conversei com as alcachofras, mas, não me pergunte porque, somente agora me veio a tradução daqueles diálogos.

As alcachofras nos falam de leveza, de sutileza, de sussurros inflamados de delicadeza. Mas, para se chegar a esse nível de conversa, há que se ter disciplina, tenacidade. Não é como pegar um martelo e partir a pata do caranguejo, na mesa de um bar ruidoso.

As alcachofras se come em família, em estado de quase meditação. Mas para escutar o que dizem, há que se possuir, suavemente, e sem pressa, o seu sabor indescritível, meio sabor de cerveja morna, ou quem sabe um vago sabor à brócolis cozido no vapor. Há que se aspirar o seu cheiro, como se fosse preparação para um entendimento tântrico.

Quando você chega ao não/sabor, então já pode escutar e ruminar sobre tudo o que foi dito.

Naqueles dias, mana, na sua mesa de almoço, compreendi que as alcachofras não são desse mundo. Um mundo virulento, apressado, um mundo onde martelos quebram patas de caranguejo, competindo com as buzinas e os estampidos. Um mundo onde frenéticas máquinas de calcular expulsam comensais de restaurantes caros, um mundo onde inimigos se dão tapinhas nas costas enquanto ruminam a vingança como o prato do dia seguinte.

Quanto tempo o universo terá levado para inventar as alcachofras? Quantos de nós terão falado com elas? Outro dia li alguma coisa em que o escritor dizia que já não dançamos valsa. Mana, nunca dancei uma valsa, mas, sinto-me plena, por ter conversado com as alcachofras. E que eu ainda possa,transpor a soleira desse mundo virulento, e que eu ainda tenha entre a língua e os dentes, as sílabas suaves da filosofia das alcachofras.

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