Canto à Tristeza

Ao som da música Blowin’in-the Wind, cantada por Diana Pequeno

 

Não, não se ofenda comigo. Deixe que eu cante a minha tristeza. Deixe que eu cante a minha tristeza. Pelos que partiram, por todos nós, que ainda estamos nesse barco estranho.

Deixe que eu cante a minha tristeza como quem chora baixo, o pranto deslizando pelo meu rosto, as palavras caindo no ritmo da música, a música tocando como se viesse de outro mundo, a música como que adentrando e tomando o leme desse barco triste.

Deixe que eu cante a minha tristeza como quem inventa mundos impossíveis, para logo vê-los destroçados, sobre o tremor das minhas mãos. Escute o canto da minha tristeza, como quem quer fugir da tempestade. Escute esse canto triste, como quem quer evadir-se desse barco, arremessado contra os arrecifes da insensatez. Escute como quem quer dormir, para fugir ao tropel absurdo dos cavaleiros, para não escutar o barulho dos ossos partidos, para não chorar por aquela imagem perpétua do menino voando livre para a morte.

Deixe que eu cante a minha tristeza como se respirasse lentamente. Como quem respira pelos que já não podem, como quem espreita pelo cheiro das flores, como quem limpa o cheiro da pólvora malsã da ignorância e do mal. Quantos anos pode um povo morrer, sem conhecer a liberdade?

Deixe que eu cante a minha tristeza, com a suavidade da imagem de uma gaivota deitada na areia, descansando, depois de haver sulcado os mares todos do mundo. Veja-me no meu canto triste, postada numa janela onde a indiferença das ruas tolda minhas lágrimas. Postada numa janela onde só o meu canto é presença, como um estribilho eterno, como uma procura inútil, como um adeus que não foi dado.

Deixe que eu cante com minha voz ao mesmo tempo embargada e firme. O meu canto triste, como aquele da minha irmã, que tinha perdido nossa mãe, e cantava, para embalar minha filha pequena. Um canto triste, um canto triste, como se o tremor da minha voz percutisse uma harpa antiga, tentando aplacar a dor.

Deixe que eu cante a nota infinita da minha tristeza, com a voz embargada, as lágrimas como dilúvio sobre o meu rosto, as sílabas desconexas sob a quilha dos soluços.

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