Jogando na Chuva e na Globo: O Futebol de Cinco e uma Lição Sobre Acessibilidade?

Foto tira de cima. Seleção brasileira de futebol de cinco reunida em no meio do campo verde. Na imagem, aparece 14 homens abraçados comemorando a vitória. Suas expressões são de felicidade e alegria, alguns gritam enquanto pulam com os braços levantados. A farda dos goleiros é blusa de mangas compridas amarela, short preto, meião amarelo e chuteira verde. Os demais jogadores vestem uma blusa que na frente é verde e atrás azul e short branco. Os técnicos usam blusa e calça azul claro.
Jogadores da seleção brasileira na semifinal do futebol de 5. Fonte: Agência Brasil

Pela primeira vez em tv aberta, a rede Globo,o transmitiu a semifinal das paralimpíadas do Japão do futebol de Cinco, entre a seleção brasileira e a do Marrocos.

O fato é inédito.  Nunca a rede Globo havia emprestado um de seus horários nobres para esse tipo de cobertura.

Se você não sabe, o futebol de cinco paralímpico é praticado por jogadores cegos. Na quadra, somente o goleiro enxerga, mesmo assim, todos jogam com os olhos vendados, pois pode ser que alguns tenham resíduo visual. Então, a venda assegura a igualdade de condições para todos.

Algumas lições podem ser extraídas dessa cobertura.  A transmissão propriamente dita vem cobrir um vazio de décadas. O paradesporto, e mais particularmente o futebol de cinco e o goalbal, jogos criados para pessoas cegas, existem no mundo desde o pós-guerra. No brasil, a trajetória bem sucedida desses atletas ganhou impulso a partir dos anos oitenta.  Entretanto, essas conquistas não tinham merecido ainda a cobertura em tv aberta, e somente nas últimas cinco paralimpíadas as tvs a cabo começaram a divulgar os jogos.

O O futebol de cinco é um “jogo conversado”, como bem disse o jornalista Everaldo Marques, q fez a narração. Atrás do gol, fica o chamador, uma espécie de gandula que enxerga, e que fica batendo palmas, para orientar os ataques dos jogadores. Cada jogador, ao se movimentar na quadra, fica dizendo “voy”, “vou em espanhol”, para orientar os outros atletas da sua movimentação e assim evitar os choques.

A partida de hoje, para o telespectador, foi também um “jogo explicado”. O âncora, a todo momento comentava sobre as regras, os comportamentos, as deixas, para muitos que provavelmente nunca assistiram a uma partida de futebol de cinco para cegos.

Aqui vem o primeiro apontamento crítico. É certo que Everaldo Marques tentou imprimir emoção e entusiasmo à sua narrativa, mas, para o telespectador cego que assistiu ao jogo, faltaram descrições sobre as jogadas, os ataques, e mesmo sobre as finalizações mal sucedidas.

Até mesmo o gol contra foi pouco compreendido. Houve entusiasmo e emoção, mas o telespectador cego ficou sem saber como aquela jogada foi armada.

Então, uma grande audiência Brasil a fora não “viu direito” o jogo, porque trata-se de uma audiência com deficiência visual e que precisa de #Audiodescrição para compreender as cenas visuais envolvidas.

É certo que as coberturas do para-desporto têm progredido. A apelação ao drama, ou mesmo às frases clichês sobre superação, os chamados “discursos capacitistas” têm sido evitados, trazendo-se em geral, um ângulo de cobertura em que os atletas nem são heróis nem coitadinhos. São desportistas  envolvidos na categoria do para-desporto,e não querem que sua limitação física ou sensorial seja tratada como símbolo de sofrimento ou de supervalorização dos seus feitos.

A agenda dos coletivos com deficiência porém, incluindo-se o para-desporto, ainda é negligenciada ou invisibilizada pela mídia. As coberturas dos temas desse coletivo, na mídia comercial, ainda é sazonal, marcada por fatos do calendário, como o Dia Nacional de Luta, em 21 de setembro, ou as paralimpíadas, que ocorrem de quatro em quatro anos.

Nessas paralimpíadas, por exemplo, tem havido uma profusão de pautas sobre pessoas com deficiência nos diversos meios jornalísticos, numa espécie de clarão de visibilidade que depois se apaga completamente.

No resto do ano, essa pauta vai para a gaveta,e, a cidadania da pessoa com deficiência é minimizada. A acessibilidade não é discutida nem implementada na maior parte dos conteúdos midiáticos, e o tema passa ao lado do planejamento, das transformações técnicas e da distribuição dos conteúdos jornalísticos.

Mas, precisamos ser otimistas. Se na semifinal do futebol de cinco houve muitos escanteios, a cobertura pela rede Globo marcou seu primeiro gol, preenchendo  um vazio de décadas e décadas e mostrando na prática que jornalistas e produtores de conteúdo precisam prestar mais atenção ao tema da acessibilidade.

Não basta celebrar os feitos e as medalhas   conquistadas. A mídia precisa fazer seus próprios gols, Produzindo mais conteúdos com  acessibilidade fidelizando uma audiência normalmente ignorada, e produzindo de fato jornalismo cidadão.

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