Carta para Ronaldo Monte

 

Querido Rona.

 

Tenho um coração em desconcerto, e entre mãos, o teu “Manual Prático do desaparecimento”.

Procuro no livro uma mensagem cifrada, uma chave que seja, que possa abrir o mundo do entendimento, do consolo, da plena aceitação.

Seu plano de fuga deu certo. Sem aviso, sem estardalhaço, foi-se o seu riso frouxo, sua tagarelice alegre, sua voz morna a vaguear entre as sílabas de alguma crônica, alguma poesia. Minhas lembranças, da gente juntos, como que se atropelam na minha memória desalinhada. Lembra daquela oficina de Haikai, com Alice Ruiz, Valéria, Beto, Everaldo…. Naquele dia passamos horas a fio sentados no jardim, tentando escrever haicais que faziam que estourássemos de riso, de tão ruins que eram.

Naquele dia, você tentou me ensinar a criar alguma figura na areia. Já nem me lembro que figura era, só me recordo da sua paciência, da sua galhofa, do seu frouxo de riso.

E no Clube do Conto? Que tempo bom era aquele nosso, de espicaçar aqueles de quem mais gostávamos? E veio o “Lunário perpétuo”, onde escutei os sininhos de vento a brigarem com sua risada. E os lançamentos, onde você me conduzia pelo braço, e eu me sentia encantada e envaidecida, feliz de poder fazer duo com suas traquinagens.

E a festa da sua embaixada em Usupp? Tá bem, pode ser que eu tenha escrito errado, mas naquele lugar, por onde se chegava a partir de uma geografia impossível, Cabedelo/ Usuppy, naquele lugar você plantou a liberdade no centro de uma constituição escrita em apenas uma página de crônica. Naquele lugar você era o embaixador, e eu pedia uma vaga de ministra, enquanto bebericávamos cerveja e sucos, e sorríamos a mais não poder.

E nem faz tanto tempo, todos acorremos à bodega, para o lançamento do seu Manual Prático de Desaparecimento, que afinal estava mesmo desaparecido. Os poemas em um caderno, você chamando as pessoas para ler ao microfone, prometendo um segundo lançamento ao qual não pude ir.

Somente hoje, quando abriu-se essa imensa clareira de silêncio, somente hoje compreendi que você sempre habitou no centro da palavra. Com a palavra, você cerziu, rasgou, cinzelou, esculpiu memórias do fogo, desvelou paixão insone, inventou falas para encantar crianças pequenas, desenhou comtraço ao mesmo tempo delicado e firme, , poemas para canções admiráveis.

E eis que vasculho entre as páginas do seu manual prático de desaparecimento, e só encontro o tempo a liquefazer-se em espera, em promessas de reencontro, sílabas grafadas pela sua mão, como uma múltima oferenda, um canto timbrado pelos tons da beleza, um canto a forjar como que asas, como que pétalas, como que sonhos de esperança.

Eu queria dizer tanta coisa Rona. Mas só fico aqui dando voltas em torno desse meu espanto, por esse silêncio absoluto, essa interrupção, esse gesto inacabado. Fico aqui revirando essa minha tristeza, enquanto palavras pálidas, na página do jornal, repetem o eco dessa minha carta de despedida.

 

(Este post foi publicado ontem, sexta-feira, em minha coluna impressa do Jornal A União)

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João, o descobridor

João brincando com as mãos dentro de um depósito de arroz, espalhando arroz pra todo lado

João está descobrindo que a vida é inteligente, saborosa, divertida, brincalhona, para além do colo da sua mãe.

Aprendeu a andar há poucos dias, primeiro ensaiando aquela caminhada do pinguim medroso, depois, apostando os pulinhos e corridas consigo mesmo, ou até a grade, seu ponto final de segurança.

João fala, estreando pela primeira vez, palavras como banana, papai, mamãe, e tem também sua palavra predileta: goool!

João inventou uma assobio soprado para imitar o canto dos pássaros.

João gosta da lua. Será que quando ele crescer, vai ser astronauta?

Livros Revistas e Rostos de Família: A Tecnologia Cria Pontes entre Visão e Cigueira

Estou no mundo há  mais de cinquenta anos, mas somente ontem, pela primeira vez, pude pegar minha neta Gabi pelo braço, e rumar para uma banca de revistas na Feirinha de Tambaú. Nos abastecemos de revistas. Ela comprou aquelas de que mais gosta: revistas de kpop famosos. Eu peguei “Carta Capital”, “Super Interessante” e uma revista vegetariana.

Detalhe fundamental, eu sou cega de nascença. Saímos de lá com nossa sacola e rumamos ao Café Empório, para nos abastecermos de lanche. Eu fiquei pensando na vendedora da banca de revistas. Nas perguntas íntimas que ela deve ter formulado: “Quem vai ler pra ela”? “Por que uma pessoa cega gasta com revistas”?

Sou jornalista. Professora universitária. É natural eu possuir revistas. Mas, de fato, para que compra-las se não as posso ler?

Vai aqui um aviso aos navegantes: Pessoas cegas já podem ler revistas impressas, jornais e livros feitos para pessoas que enxergam. Compramos as revistas, comemos nosso lanche perfeito no Café Empório e viemos para casa. Me sentei no sofá, e pela primeira vez na minha vida, comecei a ler Carta Capital, depois explorei Super Interessante, e ainda tenho para a semana, minha revista vegetariana.

Você há de me perguntar, e como foi isso? Voltou a enxergar? Não, nada de magia. Mas lhe digo que para que uma pessoa cega leia revistas impressas, do jeito que saíram das bancas, exige dinheiro, uma quantia razoável; exige um pouco de treino para focar, mirar o conteúdo. Exige que você possua um #OrcamMyEye, um óculos inteligente, servido por uma mini câmera, que lê pra você, de forma instantânea, conteúdos impressos.

#OrcamMyEye faz mais: identifica cores, cédulas em papel, rostos previamente memorizados, conteúdos de embalagens, placas e avisos.

Eu diria que se trata de um dos produtos que lhe entrega uma espécie de visão mediada ou indireta. Lhe dá autonomia para fazer coisas que antes você tinha de pedir aos outros.Abre janelas, coloca você dentro de cenários que antes lhes eram interditos.

O mundo caminha a passos largos no capítulo da internet das coisas. Um óculos não é mais um instrumento inanimado, servindo apenas para proteger seus olhos do sol. Um óculos, agora, não é somente uma lente para auxiliar uma pessoa idosa que está perdendo a visão. Um óculos, pode sim, ser um competente óculos de leitura para pessoas completamente cegas.

O meu #OrcamMyEye chegou no início da semana. Fiquei apreensiva. Será que vou conseguir fazer algo que preste com essa coisa? Intuitivo, de fácil manuseio, #OrcamMyEye é surpreendente.

Até o início desta semana, eu somente podia cheirar os livros que comprava. Somente podia me deliciar com o cheiro de novidade das revistas impressas. Agora meus livros e minhas revistas deixaram de ser objetos de culto olfativo. Posso ler cada um deles, munida com meu #OrcamMyEye.

#OrcamMyEye me conta coisas sobre Gabi: Me contou hoje que ela está usando uma camiseta Puma de cor preta.

 

 

 

Os Cidadãos de Bem Estão na Rússia

O Brasil midiático está envergonhado com as peraltices dos brasileiros com as mulheres russas. Sim, toda indignação é pouca para essa bandalheira. Entretanto, eu tenho aqui um rol de observações incômodas a serem feitas para mídia brasileira.

Senão vejamos: Recordam-se da abertura da Copa do Mundo em 2014, quando a presidenta Dilma Rousseff foi veementemente ofendida por um bando ruidoso de torcedores, que em alto e bom som, mandavam que ela fosse tomar ali onde não pode ser escrito?

Não duvido nada que alguns desses espécimes, brancos, endinheirados, também foram para a Rússia, levando na bagagem o seu machismo, a sua educação de quinta categoria, o seu smartphone de alta resolução, para causar com as garotas russas.

Pois bem, no episódio de 2014, ficou o dito pelo não dito. A imprensa falou pouquíssimo sobre o episódio, e não duvido que alguns âncoras até tenham se regozijado, pois vivia-se o terrível clima pré-eleitoral.

A mais alta autoridade do país, diante de inúmeros estadistas estrangeiros, sendo literalmente mandada a tomar onde não pode ser escrito, e tudo depois sendo tratado como peraltice, como brincadeirinha de jovens rebeldes. A grande mídia, esta senhora conveniente, fez cara de pouco caso e desprezou o tema, apesar do seu alto valor de noticiabilidade, da forte capacidade de indignação que a cena continha.

Por que agora todo esse espanto para os episódios da Rússia? A mídia não reconhece esse tipo de gente? Não identifica a formação do seu DNA, naquilo que há de pior na cultura brasileira, perpetuado e reforçado por uma flagrante falta de impunidade? A mídia Vende a ideia de que o povo brasileiro é simpático, acolhedor, gentil. Oi? E então o episódio de 2014? E as lamentáveis cenas de mulheres sendo violentadas para que depois se exponha tudo com todas as cores bizarras nas redes sociais? Pior, gente! E os ancoras de tv que desancam impunemente as mulheres, destilando misoginia e machismo, de maneira impune, com louvação inclusive de grandes levas de comentaristas de ocasião?

E no parlamento, então a mídia não se indigna com esses senhores de paletó e mandato, fazendo apologia ao estupro e à degradação da mulher?

Pois bem, senhora grande mídia, apresento-lhe o que há de pior na cultura brasileira, essa massa cheirosa que gasta muito dinheiro e resfolega, tanto aqui como lá, sobre as noções mínimas de boa educação e de respeito, para mostrar-se  como realmente é, machista, misógina, porque nem nada nem ninguém pode atrapalhar sua brincadeirinha. São da mesma leva daqueles meninos do plano piloto, lembra-se, senhora grande mídia. Aqueles meninos só queriam brincar, quando acenderam, e levaram à morte, até as últimas células, o índio pataxó que dormia na calçada.

Esse povo vive aqui, senhora grande mídia, e tanto aqui como lá, eles só querem brincar. E se algo der errado, o manto protetor da lei os há de proteger.

 

Todas Somos #KalineLima

No mundo todo, em menor ou maior incidência, mulheres ainda correm perigo em pleno século XXI. No Brasil, ainda que a legislação esteja cada vez mais punitiva, todos os dias mulheres são mortas por um ente da sua família, em geral, pelo marido ou companheiro, são estupradas por desconhecidos, que muitas vezes acabam por matar a vítima. Sofrem assédio no trabalho, no consultório médico, num simples passeio em final de tarde.

E por que será que persiste e se alastra essa violência contra a mulher? A cultura machista, entranhada na sociedade, difundida pela cultura de massas, telenovela, produções cinematográficas, jornalismo sensacionalista, música, difundem essas ideias bizarras de que a mulher merece esse tratamento de subjugação, de violência, de assédio e escárnio.

Na Paraíba, a cultura do ódio e do desprezo pela mulher,muitas vezes extrapola a cena doméstica ou mesmo os terríveis episódios de rua, para ser ecoada alto e bom som, nos microfones e câmeras das emissoras de tv locais. Um fato dessa natureza vem ocorrendo esta semana, no programa televisivo do apresentador Siqueira Júnior, da tv Arapuan.

O apresentador se utiliza do linguajar mais chulo e desrespeitoso, para desqualificar  a cantora rapper, Kaline Lima, que ousou fazer críticas a um seu posicionamento misógino, sobre mulheres que não pintam as unhas dos pés, as quais o apresentador considera como “sebosas”.

Ameaças, insultos e chingamentos preconceituosos vêm sendo despejados conta a cantora alto e bom som, numa emissora que por dispor de concessão pública, deveria zelar pela qualidade do seu jornalismo, dos seus programas de entretenimento, da sua capacidade de formar uma opinião pública inteligente, qualificada e isenta de preconceitos.

O apresentador rosna suas ameaças e insultos porque sabe que não será punido. Sabe que uma onda de proteção estende-se sobre a sua fala odiosa, onda protetora que começa na própria tv, e muitas vezes alastra-se pelo resto da sociedade, e, o que é pior, muitas vezes na própria justiça, que não reconhece a venalidade desse comportamento vil.

E quem é Kaline Lima, que está sendo chamada de gorda, feia, mal amada, revoltada, além de outros insultos escabrosos, ao vivo pela tv Arapuan, nas manhãs de João Pessoa?

Kaline Lima é jornalista formada pela UFPB; é casada, mãe, ativista na cena cultural pessoense, envolvida com as comunidades da periferia, artista de sucesso, na sua banda musical “Cinta Liga”.

É para esta mulher que Siqueira Júnior despeja seu ódio visceral, apresentando ao vivo e a cores, o pior do seu espírito, formado num caldo de cultura venenoso.

E, das últimas linhas desta coluna, só me resta conclamar às mulheres e homens que desejam uma sociedade esclarecida: desliguemos a tv Arapuan. Denunciemos na própria tv, a fala tosca de Siqueira Júnior. Denunciemos ao Ministério Público,o assédio moral ao qual está sendo submetida Kaline Lima, por ter ousado criticar o discurso misóginoecoado em uma concessão pública de tv.

(Este post será publicado manhã, em minha coluna no jornal #AUnião

O Processo Continua na Vida Real

Na segunda-feira passada, em companhia do meu amigo Pedro Nunes, fui assistir o documentário “O Processo”, realizado por Maria Augusta Ramos e que narra de maneira cirúrgica, os episódios recentes da política brasileira, os quais culminaram, em 31 de agosto de 2016, com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Rever a súmula daqueles acontecimentos, exposta no longa de mais de duas horas, amplifica em nós, a angústia que nos tomou de assalto nesses dois anos, mas sobretudo recupera a nossa perplexidade pelo que foram capazes de arquitetar, os artífices do golpe. Apearam do poder, uma presidenta eleita com 54 milhões de votos, que não cometeu crime de responsabilidade. Com uma narrativa regada à falácias como “ponte para o futuro” e “salvação nacional”, entregaram o governo do país ao núcleo dos que delinquem e perpetuam as práticas de corrupção que infestam as hostes do poder político, do estado e do empresariado.

O documentário de Maria Augusta, que tem lotado sessões de cinema desde o último dia 17 de maio, já arrebatou diversas premiações: Melhor longa-metragem internacional no Festival Documenta Madri – Espanha; Melhor Filme no Festival Visions du Reel em Nyon – Suíça; Melhor Filme no Festival Indie – Lisboa; Grande Prêmio do Festival Internacional de Berlim. Regado à imagens ora chocantes, ora espetaculares, o filme inventaria a falência de um parlamento apodrecido, assim como a hipocrisia da principal autora do pedido de impeachment, a advogada Janaína Paschoal. É uma aguda e terrível fotografia de um parlamento corrupto, empenhado em sacrificar a democracia e o estado de direito, a fim de estancar processos de investigação e de quebra, instituírem um programa neoliberal sem qualquer perspectiva de apoio popular.

Conforme me relatou Pedro Nunes, ao final do documentário “vemos um tempo com nuvens fechadas com as fumaças de gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral lançadas em direção aos protestos pacíficos. Há sinais de INDIGNAÇÃO mesmo com as balas de borracha e estampidos dos fuzis que ecoam na sala de projeção. As fraturas estão literalmente expostas e há cantos de resistência entoados firmemente por mulheres, homens e crianças”.

E o que Maria Augusta nos mostra, nas cenas finais do seu documentário,  é o país pós-Dilma, executando seu balé macabro de recuo para trás, para o aumento dos índices de pobreza, os cortes dos direitos sociais, a restrição nos investimentos em saúde, educação, e, o espetáculo dantesco da corrupção, dentro do governo.

O país pós-Dilma, que extrapola a agudeza da narrativa de Maria Augusta, e persiste na realidade, com a política desastrosa de reajustes diários dos combustíveis. Um país parado, executando seu balé macabro, rumo à desordem, ao caos, com vozes dissonantes pedindo a volta da ditadura militar. Um país sombrio, a caminho da tempestade.

E eis que chega a quinta-feira, 24 de maio. Reviso a coluna, ilhada em minha própria casa, com a certeza de que “O Processo” continua na vida real.

Moscas não Pagam Aluguel

De madrugada as moscas não perturbam ninguém. Somente as formigas, as baratas, os ratos. Sobretudo aqueles mais ousados e famintos, chegam perto dos humanos, remexem nas suas coisas à busca de um jantarzinho.

As moscas só souberam pela manhã, que alguma coisa muito grave havia acontecido na sua morada na rua Pai Sandu. Moscas não precisam de um edifício grande para viver, pousar. Um pedaço de entulho pode servir. Mas aquele montão de entulhos cheirando estranhamente já não lhes vai oferecer nada que valha a pena.

Moscas não pagam aluguel, transitam livremente e pousam em lixo acumulado, em louça suja, em barracos e prédios   infectos, maravilha de céu para seus volteios!

As moscas nunca poderão contar sobre aquele acontecimento. O que saía de dentro do prédio finalmente, incandecentemente  iluminado, era desespero humano, era pavor, de crianças, adultos e velhos.

Eram pessoas iguais a mim e a você, muitas delas com sotaques nordestinos, que o prédio fervente vomitava às centenas, na praça madrugadora. Gente atônita fitando apavorada o desmanche medonho. Sonhos despejados como trouxa de roupa suja. Pés descalços lambendo a escada que pouco depois era devorada pelo fogo.

Gente igual a mim e a você. Só que a gente dormiu a noite toda, e só viu pela tv, pequenos flashes dessa gente atônita, verdadeira sociedade anônima, amanhecida sem teto, cheirando a rescaldo, cheirando a pavor, esse estranho cheiro de estricnina derramando-se por veias e artérias.

Quando as moscas chegaram não entenderam nada. Passearam por braços e pernas fedorentas, e depois foram procurar outro endereço. Moscas não pagam aluguel, nem precisam de cabos de aço para se salvar.

As moscas jamais conseguirão entender, com seus cérebros minúsculos, o tamanho dessa tragédia. Moscas só entendem de esgotos abertos, pratos sujos e engordurados, roupa mal lavada, excrementos à mostra, cadáveres putrefatos.

Moscas não compreenderão uma letra que seja dessa frase comprida: Gente igual a mim e a você, falando como nós, caminhando, atropelando, saltando, com dois pés, iguais aos meus e aos seus. Gente como nós, com sonhos, esperanças, desejos, vontades, só que sem eira nem beira.

Gente como eu e você, mas que passa a vida sendo enxotada como as moscas. Gente como eu e você, vivendo de pouso em pouso, levas e levas de pessoas como eu e você, apodrecendo como estorvos, à beira da vida. Gente como eu e você, vivendo como as moscas, a um preço terrível: gente como eu e você, erguendo a cidade grande, limpando suas latrinas, jogando e depois catando seu lixo, lavando suas sujidades, gente como eu e você, vivendo como as moscas, só que pagando aluguel.

O Silabário dos Dias

Os dias que vivemos são escritos com frases curtas. Prendam. Matem. Arrebentem. Pílulas de ódio circulam nas redes sociais, altos comandos escrevem verdadeiras súmulas de ameaça, usando uma banda larga e um clique do mouse.

Ainda que se gastem horas e horas em discursos retóricos, o núcleo de tudo o que se diz é simples, direto, como uma rajada, como um telegrama, como uma ordem rabiscada num guardanapo. Prendam. Aniquilem, condenem, encarcerem.

Os jornais, as tvs, os portais de notícia antecipam-se, forjam as manchetes da hora mais dura, como se de um grande espetáculo se tratasse, um reality show macabro, de enredo telenovelesco: De um lado, os cidadãos de bem e os seus heróis, do outro, os bandidos, aqueles que ousaram alterar a ordem instituída.

Os dias que vivemos são escritos com sílabas de emboscadas, curtas como tiros na cara. São escritos com a morte no centro, o dedo apontado para os inimigos da desigualdade e da injustiça. São escritos com selos e carimbos, em protocolos feitos para impedir,ameaçar, encarcerar.

Uma escrita dura como chibatada, essa dos dias em que vivemos, apressada, frenética, feita de exatas palavras. Impedir, evitar, encarcerar, como numa espécie de guerra em que há que se limpar o mundo em que uma nova fábula precisa ganhar terreno, impor-se como história oficial.

Encarcerar, e deixar que os cidadãos de bem vivam felizes para sempre, com o fim da corrupção, com a celebração da justiça, com a alegre futilidade da  mídia, com um exército de silenciosos guardados em seus quartéis, com os gangsters no poder, vestidos de bons moços,

A escrita dos dias que correm divorciou-se da verdade, da ética e da defesa da democracia. Esboça-se em curtos ditames, com publicidade falaciosa. Resgatar a credibilidade da justiça, colocar o país nos trilhos do futuro, apresentar à nação, o fim da impunidade.

Uma fábula tão curta, golpeando com força a liberdade e a defesa da democracia.  Uma fábula tão retumbante, penetrando o silêncio das casas, o barulho dos estádios, a solidão das igrejas à noite, o vozerio nas festas e velórios.

Encarcerar, antes que o jornal da noite possa ser fechado. Encarcerar, para que todas as mídias possam editar o espetáculo das algemas, a redundância dos gestos, o tom ritmado do silabário da narrativa global.

Encarcerar. Guardar as chaves da liberdade, e deixar que o povo de bem vigie as horas de silêncio do condenado. Inutilizar seu passo célere, sua voz rouca, impedir que sua mão corte a passagem dos cidadãos de bem rumo ao país do futuro. Encarcerar, agora, antes que agosto chegue com seus ventos, antes que as urnas de outubro sejam abertas.

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa do Jornal A União, na última sexta-feira).

Memórias numa Lata de Biscoitoes

Guardava tudo lá. Tuas cartas, as parcas fotografias de família, um panfleto de Café Filho, os documentos da casa, folhinhas amarelas de calendários, tudo lá, naquela lata de biscoito que você trouxe para ela, numa tarde quente de janeiro.  Eu era tão pequena! Mas me lembro de você ter chegado com sua mala surrada, trazendo nos braços, no corpo todo, uma distância tão distante, tão distante,  uma distância tão distante que você não tinha mais palavras. Me lembro quando você deu a lata de biscoitos à minha mãe, me lembro do sorriso dela,  a apertar contra o peito a sua pequena fortuna. Minha mãe olhando nos seus olhos, pesando seu silêncio, tentando apreender de você todas as dores, as saudades, as visões de morte. Minha mãe procurando o filho que já não era seu, o seu Raimundo.

E você soltou no meio da sala o que agora lhe pertencia. Você disse à minha mãe que agora era mestre de obras. Você disse aquilo como se rezasse, disse aquilo como se tentasse desvestir a pele de uma cidade construída sobre os seus mortos.

Me lembrei de tudo numa noite também distante, enquanto assistia “O Romance do Vaqueiro Voador”. Mistura de linguagens, notícia sem jornal, e você no meio de tudo aquilo, raimundo. Você candango, cuspindo cimento, cuspindo a reforma, você tentando conter o bramido da saudade no peito sem gibão. Você vendo aquele montão de homens morrendo, você ocultando a lágrima e rezando, padre nossos pesados no terço da minha mãe.

Vaqueiro voador, último abraço de cimento e ferro.  Com você também foi assim mano. Abraço retardado de cimento e ferro, noutra construção, noutro lugar. Rio de Janeiro? Onde você estava quando a sina do vaqueiro veio lhe pegar?

E agora, quando tento atualizar essa carta que não vai chegar até você, minha mão de repente fica paralisada, as palavras como que se afastam de mim, e só sinto a dor pela ausência, de Marielle, arrancada brutalmente do seu ativismo, de crianças e crianças mortas nas favelas desse Rio de Janeiro onde você fincou morada e de onde se foi, sem entender direito o que disse a música no seu rádio de pilhas, “ viver é melhor que sonhar”.

Sim, mano, ele tinha razão. “Viver é melhor que sonhar”, e cada certeza que a gente arranca desse punhado de sílabas,  dói como corte de faca amolada. Viver é melhor que sonhar. E é por isso que estamos sempre nos juntando, para dizer: Marielle, presente! Anderson, presente! Onilma, presente! Viver é melhor que sonhar mano, mas agora, em todas as horas, estamos chamando os que nos são arrancados pela morte brutal dos nossos dias, para embebê-los na nossa saudade, para envolvê-los com as últimas flores brancas e vermelhas do nosso tempo, para viver, no íntimo das nossas  memórias, o brilho feliz dos seus sorrisos.

 

O Velório de um País

O meu coração está pesado. As palavras dessa crônica, estão todas tingidas da profunda tristeza que me invade, por estar há tanto tempo, com meus irmãos, meus amigos, meus colegas de trabalho,  com tantos e tantos cidadãos e cidadãs, mergulhada nesse longo velório sem tréguas, velório do meu país.

E como é difícil velar um país que se despedaça e morre, nas praças das cidades grandes e pequenas; nas ruas e vielas das periferias; nas favelas ocupadas por forças do exército e da polícia.

Um país que morre de modo explosivo, um país que morre na sua infância pobre, vitimada por balas perdidas, todos os dias.

É tão difícil velar um país que oculta-se na covardia e na vileza, para estraçalhar o sorriso da cria da maré, Marielle, silenciada no meio da sua luta, calada brutalmente, enquanto as suas palavras de força e encorajamento de mulheres negras ainda reverberam naquela roda de diálogo.

É tão difícil velar um país onde Marielle Franco não pôde voltar pra casa, não pôde pela última vez beijar sua filha, é tão difícil velar um país onde Marielle Franco será agora somente mais uma cifra na estatística brutal da violência no Rio de Janeiro.

É tão difícil velar um país onde já não há lágrimas para regar o desespero, a vulnerabilidade, a incerteza, o medo, o risco de viver.

É tão difícil velar um país onde a democracia foi ferida de morte, um longo e triste espetáculo de guerrilha política, onde venceu mais uma vez a oligarquia, o complô dos trusts, as bancadas da bala e do boi, que agora se apressam na delapidação do estado, na destruição dos direitos sociais e civis, no aprofundamento da pobreza e da miséria.

É tão difícil velar um país onde não se pode calar o espetáculo da tv, onde não se pode interromper o jornalismo mínimo e factual, onde não se pode atalhar a sanha noticiosa sobre os comunicados, do presidente, dos ministros, das forças armadas, onde não se pode pedir um silêncio profundo dessas máquinas de divertimento perpétuo, para que se escute o pranto, o soluço, o último grito, o gotejar de sangue de vítimas inocentes, crianças, muitas crianças; jovens e idosos, a maioria do nosso povo negro que  morre aos bocados,  nas máquinas de matar do crime organizado, nas máquinas de matar das forças de ocupação.

É tão difícil velar um país onde o sangue e as lágrimas são as únicas sílabas desse decreto final, escrito abertamente, nessa noite infinita, em que não se pode voltar pra casa, abrir seu portão com sua própria chave, calçar seu chinelo velho, bebericar um café com leite, sentir a satisfação do dever cumprido.

É tão difícil velar um país onde Marielle Franco não mais poderá cumprir seu mandato, de defesa do povo pobre da maré, das favelas do Rio de Janeiro. Tão difícil é velar esse país que fecha com mãos trêmulas, o caixão de Marielle Franco.