Meu Corpo de Escritora

Meu corpo de escritora habita o quarto de despojos da minha memória. E, com a paciência de uma velha senhora acumuladora, guarda tudo o que encontra. Cenas prosaicas de rua, extratos de cheiros, os maus e os bons. Antigas lembranças, sensações, sonhos, uma variedade tão grande de coisas, que não se pode nominar.

Meu corpo de escritora, velha senhora de braços longos e memória arguta, arranca das minhas mãos o jorro das palavras, e sem ordem, nem disciplina, vai lhes dando lugar na escrita derramada sobre a folha em branco.

Meu corpo de escritora, esta ladina senhora de mãos que não suam, rouba o que pode nas minhas viagens. Uma conversa íntima na mesa ao lado, um tilintar de pulseira num braço alheio, o jeito de contar as cédulas do atendente da recepção, enquanto chupa o vazio por entre os dentes.

Ladina senhora, a espreitar e demarcar, nas margens dos livros dos outros, uma escrita nova, uma metáfora que depois ela possa sujar e transformar, com alguma tinta antiga do seu alforje.

Trabalha como se fora louca, esta ladina senhora, sem qualquer disciplina, sem tempo nem hora. E ausenta-se, por dias a fio, em vadiagem incerta por não-lugares, a dormitar o germe de alguma frase, boa ou malsã.

As vezes logro escutar a faina do meu corpo de escritora. E escuto mais. Batidas loucas na porta do quarto de despejo. É meu corpo de leitora pedindo sua obra. Inútil. Meu corpo de escritora, enquanto trabalha, desconhece a fome desta pequena senhora etérea, esperando lá fora, tentando entrar, inutilmente.

E como trabalha, a velha cigana! Retoca personagens, empurra outros malarrumados para o centro dos seus mundos, encanta-se com algum ente que precisa de mais atenção, de mais narrativa, e queda-se, a velha senhora, a mimar este ente como se fora um primeiro filho.

Apaga, monta e remonta, atira para longe restos de enredos, como se fossem refeição de ontem requentada.

Inconformada, cospe nas frases novas, e escava de mim o que pode. Descobre meus sótãos, onde guardei o limo das minhas dores. E de lá volta com feridas remontadas sobre os ombros, e nas mãos, carrega quase-pensamentos que não se firmaram, pequenos enredos interrompidos, que vai ver o que pode ser feito com esses arremedos de escrita.

Sem dó nem piedade, sem qualquer confrangimento de consciência, saqueia o que pode, e arrasta para o seu armazém, velhos hábitos, gestos tolos, frases de livros antigos, um grito distante, que escuto num carro em movimento, que pode amoldar à sua vontade, na sua escrita delirante.

E de repente, sem qualquer aviso, atira para longe o que foi escrito. Deita-se sobre os despojos da sua lida, olhos cerrados, corpo inerte, indiferente ao ruído da porta, sacudida pelas mãos frenéticas do meu corpo de leitora.

 

(Este post foi publicado ontem em minha coluna impressa do Jornal #AUniao).

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Meu Corpo de Leitora

Descobri agora, que meu corpo de leitora é completamente diferente desse meu corpo postado no sofá, segurando o livro, abrindo de vagar suas páginas, seguindo o fio da narrativa, as vezes demarcando um pedaço de passagem de que gostei mais.

Meu corpo de leitora é etéreo, pequeno, maleável. Pode voar, nadar, andar em barcos, livrar-se de tempestades. Pode encarapitar-se num cacho de palavras, e de repente sair correndo. Pode andar dias a fio junto com os personagens, sem uma dor sequer numa junta, nas unhas dos pés.

Meu corpo de leitora faz alianças com personagens, despreza outros, e, sem nenhum remorso, deseja a morte destes últimos.

Meu corpo de leitora entra em quartos fechados, abre cartas que não são suas, chega antes dos personagens, aos banquetes, às festas, aos velórios daqueles de quem desejou as mortes.

Fora do meu corpo, sentado no sofá da sala, em uma tarde nublada, a segurar pacientemente o livro de capa dura, cheirando a tinta nova, meu corpo de leitora saiu para longe, evadiu-se, agarrado ao traço dos personagens, ao visgo dos seus dramas e alegrias, à contemplação das suas qualidades, dos seus defeitos, das suas porcelanas, da água suja dos seus enredos, deitada fora com o ponto final.

É somente quando precisa chorar, que meu corpo de leitora emerge do fundo do drama dos seus personagens, e com mão ao mesmo tempo suave e firme, sacode dos meus olhos o estoque de lágrimas salgadas. Meu corpo de leitora não tem lágrimas, nem sorrisos, então, sem qualquer cerimônia, pede a mim que sorria ou que chore, e se aborrece quando me ergo do sofá, para preparar uma xícara de café, enquanto o livro degusta sua pausa.

Nessas horas, meu corpo de leitora, agarrado ao meu pensamento com sua adaga fina, insiste, grita, anda para a frente e para trás, como um pequeno unicórnio a espancar o tempo parado.

Meu corpo de leitora não aguenta a paciência, a espera de que eu tenha um livro entre mãos. Meu corpo de leitora deve ser feito de matéria quântica, que não compreende o conceito de espaço-tempo, porque só habita mundos paralelos traçados nessas cápsulas que chamamos livros.

Gosto de pensar que meu corpo de leitora é essa minha sombra, encostada à parede da sala, olhos erguidos para a minha estante de livros.

Todas as Cronicas Deviam ser Bonitas

As vezes, não há como escrever. As mãos travam, as palavras como que se transformam num borrão, o pensamento divaga, as ideias como que se eclipsam, no fundo de um buraco negro, irremediavelmente perdidas.

Sentada diante do computador, com a responsabilidade de lhe dizer algo plausível como uma espada de Dâmocles sobre minha cabeça, tento arranjar as palavras em um conjunto aceitável. Não há mais papel para amarrotar, não há mais o velho caixão de lixo da redação de O Norte, abarrotado dos restos das frases mal sucedidas.

Todas as cronicas deviam ser bonitas. Todas elas deviam narrar o belo, o suave, a vida cotidiana salpicada de alegrias. O domingo, a tarde, o passeio de carro, o chá de bebê.

O domingo, a tarde, o passeio de carro, o chá de bebê.

Essas palavras tolas estão todas sujas de sangue. O sangue que respingou na cara da mulher, interrompendo seu sorriso de satisfação. O sangue que travou a fala dos adultos, enquanto a criança pequena segurava entre os dedos suados, o presente embrulhado em papel colorido.

O domingo, a tarde, o carro crivado de balas, o grito desabrido da mulher, o papel colorido como uma denúncia viva de que todas as cronicas são mal sucedidas agora.

Como escrever? Como aguentar esse desarranjo de palavras? Vá pedir explicações à morte, me diz uma ideia tola,sem nexo nem propósito. A morte? A morte não pode mais abrigar culpas. A morte, aquela senhora velha, seca, alta e determinada,essa senhora morte não passa de uma quimera.

A morte de verdade é uma grande máquina de extermínio. Uma máquina poderosa, ocupada com sua limpa, nos socavões, nos morros, nas periferias, nas esquinas de bares sórdidos, nos assentamentos, nas rodovias,nos povoados distantes onde vivem os indígenas.

As vezes a morte é lacõnica, outras porém, desaba a gritar seus estampidos. Oitenta. Oitenta estampidos de fuzil.

Oitenta estampidos de fuzil, e somente depois é que a morte perguntou-se, entre o riso demente   e o barulho de represar das armas: Por que tantos tiros? Precisaríamos de tudo isso?

A cronica de Evaldo era bonita. Evaldo trabalhava duro, e depois, tocava o seu cavaquinho junto com os amigos. No trabalho ele era o segurança. Na hora da música Evaldo virava Manduca.

Na cronica de Evaldo, o domingo era da família. Do filho pequeno. Da felicidade simples de quem se sente bem com aquilo que tem.

Oitenta estampidos, oitenta palavras de chumbo, eis no que se transformou a cronica de Evaldo.A beleza do domingo fuzilada, sem dó, sem piedade, um pelotão do exército brasileiro destilando seu ódio contra um homem negro e sua família. É o que há para hoje, queridos leitores. Uma cronica suja de sangue de um inocente.

 

(Este post foi publicado ontem em minha coluna do Jornal A União(

Até a Morte tem Medo

 

Eu queria perguntar por Marielle, queria pensar sobre suas últimas palavras, no Buraco do Lume, perguntar por sua sensação de dever cumprido, sua urgência em saber que o tanto por fazer estava mesmo ali, na sua cidade, no seu mandato.

Eu queria perguntar quais teriam sido suas últimas palavras, Prosaicas? Alegres? Preocupadas? Eu queria perguntar, no corpo todo dessa crônica, quem mandou matar Marielle? Quem pagou pela submetralhadora, pela locação do carro, pela ousadia e frieza   do matador, o braço todo tatuado, todo empenhado em atirar, atirar, enquanto a gosma do seu ódio empestava sua própria bílis?

Eu queria perguntar por esse ano todo sem Marielle, mas agora não posso. Há cadáveres esperando no pátio da escola, na geladeira do IML, nos caixões, velados por suas famílias.

Eu queria cantar essa dor coletiva por Marielle, mas agora uma dor nova se apossa de mim, com força de saibro de machado, com virulência de arma de fogo, destroçando artérias, músculos, restos de merenda, planos, juventude, muita juventude.

Queria me juntar ao festival das mulheres, incisivo, jogral dolorido, mas não posso, porque até a morte atalha essa minha vontade, até a morte recolhe seus despojos, com um nó na boca do estômago, a morte, estupefata, fazendo a colheita com uma espécie de tremor nas mãos, a morte, esta senhora incansável, até ela está triste.

Eu queria falar da luta incansável de Marielle, pelas comunidades pobres, pelo empoderamento das mulheres negras, pela defesa intransigente da democracia, mas agora deixo que o pranto indignado distorça frases, desarrume parágrafos, enquanto as vozes cínicas dos gestores do estado contam os mortos e inventam lágrimas para a televisão.

Mataremos uns trinta mil, prometeram os que agora estão no poder. Agora assistem ao derrame de cadáveres, nas tempestades de verão, na sanha virulenta dos atiradores, nos confrontos com a polícia, nas casas de família, onde as cifras de feminicídio engordam assustadoramente.

Queria me juntar às mulheres, e dizer a Marielle que aquela noite terrível não foi em vão. Queria lhe contar que nesse ano todo, nos investimos de coragem, lutamos, e o país dos seus sonhos começou a ser reerguido.

Não posso dizer nada disso. Não posso lhe contar de um país ferido de morte, fedendo a pólvora, os dutos do ódio alimentados sem trégua por todos os dias, os corpos soterrados na lama das mãos impunes da ganância capitalista, os corpos no meio da rua, cadáveres no pátio da escola.

Não posso contar a |Marielle que até a morte, esta senhora circunspecta, empenhada em sua colheita macabra, até a morte se acha assustada.

Até a morte pede trégua, com mãos trêmulas e um quase pranto nos olhos de serpente.

Mulheres que Lutam com seus Corpos

Será uma manifestação de força. Uma manifestação de coragem. Uma manifestação afirmativa. Uma manifestação impressa nas almas, nos corpos, nas vozes, nos gestos delas, as mulheres da Paraíba.

Haverá canto, dança e poesia. E já defronte do Teatro Santa Roza, a partir das 14 horas, haverá a presença da alegria, da ternura, do segurar das mãos, tudo regado a um misto de apreensão, de tristeza, tudo regado à uma aura de “sororidade”, sentimento que vem presidindo a luta das mulheres brasileiras e paraibanas.

Um misto de tristeza sim. De indignação. As ruas do centro estarão cheias de mulheres, mas cada uma lembrará o vazio de uma mulher morta, em casa, no trabalho, na rua. Cada uma terá em si mesma, o vazio de uma mulher anulada, encerrada no medo, guardada entre quatro paredes, sob o olhar vigilante da opressão.

Ecoarão seu grito de guerra, repartindo as sílabas por entre o barulho da cidade: “Mulheres vivas, livres e por direitos”!

Mulheres vivas, cada palavra batendo com vigor nos muros da cidade, vozes suaves, vozes fortes, vozes de adolescentes e de senhoras, ecoando esse coro pungente, urgente, premente.

Caminharão. Passos decididos, levando seu grito de guerra até à Praça dos três Poderes, seguirão   para a Lagoa do Parque Solon de Lucena, os rostos e corpos pintados, faixas e cartazes nas mãos, a urgência de dizer, com o corpo inteiro, da necessidade de que se atalhe a violência, a injustiça, a opressão, o assédio, a brutal intolerância, de companheiros, de familiares, de desconhecidos a golpeá-las com o aço da sua crueldade.

Muitas mulheres, livres e por direitos, mulheres em carne viva, refazendo o caminho, reorganizando a trilha, o ciclo, olhos marejados, olhos brilhando de tenacidade e determinação.

|           Mulheres vivas, arrancando da força da sua luta, a presença de tantas outras guerreiras, arrancadas brutalmente do centro da batalha. Margarida Maria alves, Violeta Formiga, Maria da Penha, esta outra Maria da Penha, martirizada, mas ainda lutando.

Mulheres em carne viva, sem um momento sequer para descansar a cabeça. E convocam quem já não está aqui, mas parece tão viva, entre as árvores, os carros, as botas dos militares, os ternos engomados dos parlamentares. Marielle, presente! Marielle, presente! Marielle, presente!

Os dias caindo na bacia do tempo, mais de trezentos dias, quem matou Marielle? O silêncio sombrio dos cadeados, das metralhadoras escondidas, o cinismo no riso da autoridade, o processo engordando suas folhas de inutilidade.

Voltam para casa, lavam o suor do rosto, mulheres vivas, livres e por direitos, e retomarão de novo as ruas, vão escavar com seus gritos, a indiferença e a covardia dos criminosos. Quem matou Marielle? Ficarão roucas, mas não descansarão. Quem matou Marielle? Quem surrupia, todos os dias, com um ódio nojento, a vida das mulheres?

A Língua do Desespero

Com ela não se pode conjugar verbos, adjetivos carinhosos, desaforos gritados. A língua do desespero é universal, mas com ela só se pode engendrar um longo grito sufocado, a reboar intermitentemente, para dentro, para dentro.

As montanhas, os cães farejadores, os pássaros, as vacas, as galinhas, a criança pequena, a mulher, o trabalhador, todos a emitir o grande urro sufocado, para dentro, para dentro.

A língua do desespero, tingida de lama e de sangue, sufocada por pedras, madeira, brinquedos esfolados, geladeiras, colchões, a língua do desespero, tingida de surpresa macabra, inventa um modo de chorar, para dentro, para dentro.

Um brado de células, de pernas, de pedras, de flores, de peixes, de pássaros, de dedos, de montanhas ocas dos seus recheios, um brado de corpo inteiro, amarfanhado, imprensado, soterrado, virado e desvirado, arrancado aos bocados da sua estrutura antiga, espalhado, soterrado, urrando para dentro.

A língua do desespero não cabe nos dicionários, nem nos exames de língua estrangeira. Universal, a língua do desespero só se aprende na hora, no amálgama indistinto de homens, árvores, pássaros, peixes, rios, flores, frutos, insetos, ecoando a palavra única do espanto tingido de dor, da falta de ar, da surpresa, da incompreensão, DO ESTUPRO, da morte, palavra última ecoando para dentro.

A língua do desespero solta sua palavra definitiva, enquanto a lama rosna, invade, preenche, arranca, sufoca, afana o hálito bom da vaca de leite, esmaga o roseiral, tritura a couve, a alface, afunda o teto da casa, esmaga suas portas, desarruma irremediavelmente os quartos de dormir.

E logo que encerra seu pequeno grande esforço de dizer, a língua do desespero entrega-se ao rosnar da lama, ao estrugir da sua sanha destruidora. E eis que o rio, pressentindo a catástrofe, ergue-se num modo único de bradar na língua do desespero, um único modo de mostrar-se, para depois ser lodo e peso pesado de rejeitos, líquido e viscoso cemitério de peixes.

Cansada de correr, pesada das suas mortes, a lama caminha devagar, alisando, enterrando, premindo, com calma e paciência, esse seu imenso sepulcro feito de silêncio.

Ávida por liberdade, a lama explora, abre, afunila, cresce, afana lugares ontem antes viviam raízes. A lama assombra o silêncio com seu borbulhar incessante.

E vem o tempo da faina, o tempo da fala, das escavadeiras, dos sonares, dos toros de madeira escavando, dos gritos e buzinas, das quedas por entre os socavões, do prazer da lama a sugar.

A faina dos longos protocolos, das promessas compridas, das lágrimas, abundantes, molhando a lama inclemente.

Acabou-se a avidez da procura. Cansada, finalmente a lama esmera-se em seu repouso de secar, aplainar, soterrar.

A lama descansa, com suas grossas estrias, feito riso macabro de barro, indiferente ao silêncio e ao sol do meio dia.

O Presente de Sérgio Moro

Em sua última entrevista fornecida ao Jornal das Dez da Globo News, o então ministro da Justiça Sérgio Moro, indagado por Merval Pereira sobre o processo e a prisão do ex-presidente Lula deu a seguinte resposta: “O ex-presidente Lula faz parte do meu passado. Não pertence mais nem ao meu presente nem ao meu futuro! A afirmação, feita com ligeireza, como aliás, as falas do ministro na maior parte daquela entrevista, demonstram bem a natureza do presente vivido agora por ele.

De fato, Sérgio Moro agora pode abdicar com tranquilidade da rigidez dos discursos jurídicos. Pode esquecer as recomendações de somente falar nos autos, pode até assumir momentos de brincadeiras e piadas, e, se for conveniente, pode até deixar de lado convicções e crenças, para corroborar medidas completamente diversas daquelas que teve de protocolar, quando no exercício da sua carreira de juiz, e sobretudo com respeito ao processo do ex-presidente Lula.

Indagado por exemplo, em outras ocasiões, a respeito das denúncias do COAF, envolvendo Fabrício Queiroz, amigo do presidente Jair Bolsonaro e funcionário do então deputado estadual do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, agora senador da República, Sérgio Moro falou com muita ligeireza e nenhum compromisso sobre movimentações suspeitas de mais de um milhão de reais nas contas do Queiroz, assim como de dinheiro do mesmo que foi parar na conta da primeira dama, Michele Bolsonaro.

Ao tempo em que escrevo a coluna. Jornais, tvs e portais de notícias exploram um novo desdobramento do caso Queiroz. O agora senador Flávio Bolsonaro pede ao Supremo que o processo seja suspenso no MP do Rio e seja encaminhado ao STF, por conta do foro privilegiado do Senador.

Em seu plantão, diligentemente, o ministro Fux encaminhou o caso ao Ministro Marco Aurélio de Melo, que logo que retorne do recesso, a partir de fevereiro, julgará do foro privilegiado e da continuidade do processo.

Fico aqui pensando no presente vivido pelo ex-juiz Sérgio Moro. Pensando no esforço que ele teve de empreender, no seu passado recente de juiz, para encarcerar e manter na prisão o ex-presidente Lula. Pensando nas páginas e páginas da sentença que teve de escrever, no apoio que angariou, tanto na segunda instância quanto no Supremo, para manter suas decisões.

No passado recente, e pode-se dizer, em carreira meteórica, o juiz ganhou fama, poder e tornou-se celebridade. No presente, Sérgio Moro recebeu um super ministério, concentrando justiça e segurança, apto a combater corrupção, crimes do colarinho branco, desvios de reservas, tráfico de drogas, e muito mais. Como agirá o ministro no caso Queiroz, que se abeira perigosamente do palácio do Planalto, do senado da República e da vida pessoal do presidente?

Em sua última entrevista fornecida ao Jornal das Dez da Globo News, o então ministro da Justiça Sérgio Moro, indagado por Merval Pereira sobre o processo e a prisão do ex-presidente Lula deu a seguinte resposta: “O ex-presidente Lula faz parte do meu passado. Não pertence mais nem ao meu presente nem ao meu futuro! A afirmação, feita com ligeireza, como aliás, as falas do ministro na maior parte daquela entrevista, demonstram bem a natureza do presente vivido agora por ele.

De fato, Sérgio Moro agora pode abdicar com tranquilidade da rigidez dos discursos jurídicos. Pode esquecer as recomendações de somente falar nos autos, pode até assumir momentos de brincadeiras e piadas, e, se for conveniente, pode até deixar de lado convicções e crenças, para corroborar medidas completamente diversas daquelas que teve de protocolar, quando no exercício da sua carreira de juiz, e sobretudo com respeito ao processo do ex-presidente Lula.

Indagado por exemplo, em outras ocasiões, a respeito das denúncias do COAF, envolvendo Fabrício Queiroz, amigo do presidente Jair Bolsonaro e funcionário do então deputado estadual do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, agora senador da República, Sérgio Moro falou com muita ligeireza e nenhum compromisso sobre movimentações suspeitas de mais de um milhão de reais nas contas do Queiroz, assim como de dinheiro do mesmo que foi parar na conta da primeira dama, Michele Bolsonaro.

Ao tempo em que escrevo a coluna. Jornais, tvs e portais de notícias exploram um novo desdobramento do caso Queiroz. O agora senador Flávio Bolsonaro pede ao Supremo que o processo seja suspenso no MP do Rio e seja encaminhado ao STF, por conta do foro privilegiado do Senador.

Em seu plantão, diligentemente, o ministro Fux encaminhou o caso ao Ministro Marco Aurélio de Melo, que logo que retorne do recesso, a partir de fevereiro, julgará do foro privilegiado e da continuidade do processo.

Fico aqui pensando no presente vivido pelo ex-juiz Sérgio Moro. Pensando no esforço que ele teve de empreender, no seu passado recente de juiz, para encarcerar e manter na prisão o ex-presidente Lula. Pensando nas páginas e páginas da sentença que teve de escrever, no apoio que angariou, tanto na segunda instância quanto no Supremo, para manter suas decisões.

No passado recente, e pode-se dizer, em carreira meteórica, o juiz ganhou fama, poder e tornou-se celebridade. No presente, Sérgio Moro recebeu um super ministério, concentrando justiça e segurança, apto a combater corrupção, crimes do colarinho branco, desvios de reservas, tráfico de drogas, e muito mais. Como agirá o ministro no caso Queiroz, que se abeira perigosamente do palácio do Planalto, do senado da República e da vida pessoal do presidente?

Uma Lenda para o Novo Mundo

Muitos de nós estamos perplexos, impressionados de como pudemos chegar até aqui, no mundo rosa/azul da ministra Damares, um mundo do ministro Vélez, inimigo contumaz do marxismo cultural, um mundo capitaneado pelo presidente Jair Bolsonaro, que incita seus apoiadores ao extermínio da bandeira vermelha, nem que para isso seja necessário manchar a camisa de sangue.

E de que maneira chegamos até aqui? Tenho certeza de que esse quixotesco passo se deu por conta de uma narrativa. Sim, porque para se erguer uma multidão, para se fazer com que essa multidão vibre numa mesma sinfonia, para que se possa fazer com que essa multidão ecoe o mesmo brado, há que se ter arranjado as sílabas de uma narrativa, há que se ter inculcado nas cabeças dessa multidão, a síntese principal desse arrazoado.

Os veios dessa narrativa são simples, e já foram assacados em outras épocas históricas, tanto aqui no Brasil como em outras partes do mundo. O arranjo envolve a construção de um inimigo, o engendramento da sua derrocada, a forja dos heróis que darão sua vida e seu sangue para o seu extermínio.

No Brasil, o inimigo a ser combatido são os governos do PT, e, na proa do seu legado, a pessoa do ex-presidente Lula. A narrativa de combate foi sendo gestada desde o princípio do primeiro mandato do ex-presidente em 2003, e foi crescendo, ganhando contornos importantes e lapidares, à força de uma conjunção que envolveu a grande mídia comercial, o parlamento e o poder judiciário.

O inimigo foi vestido com as cores da corrupção, e, nas ruas e praças do país, ganhou bonecos infláveis vestidos de presidiários, para gáudio e urras de multidões convocadas pela própria mídia em seus horários nobres. Em 2014, a narrativa ganhava um novo herói, saído das hostes da justiça, empunhando a lava jato como a grande usina capaz de triturar o que era conhecido como o “quadrilhão do PT”. O modus operandi deu certo.

Levou algum tempo até que chegássemos aqui. Os detentores da narrativa de combate organizaram-se, e, em 2016, depunham Dilma Rousseff do palácio do planalto. Abriam as porteiras para que se estabelecesse um novo governo interino, apto a combater a corrupção e erguer sua ponte para o futuro. Instalado o processo eleitoral, encarcerado o ex-presidente cujo capital político era uma ameaça concreta, limpou-se a pista para que a narrativa pudesse apresentar-se em toda a sua limpidez.

Cada uma das candidaturas buscou tirar proveito da narrativa. Mas nenhuma conseguiu empunhá-la com mais maestria do que a candidatura de Jair Bolsonaro.

Ele, esse cidadão ordinário, no dizer de Eliane Brum, foi capaz de tocar nas cordas mais íntimas da parcela conservadora de nossa sociedade. Ele conseguiu aglutinar em torno de si, as outras vozes que ecoavam esses ditames: combate ao inimigo, que ora chamam de PT, ora chamam de socialismo, ora chamam de ideologia.

Chegamos até aqui, mas há uma profunda sede de vingança dos detentores dessa narrativa nefasta. Chegamos até aqui, mas ainda poderemos afundar muito mais, num novo modo de combate que apenas está começando.

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa de hoje do Jornal #AUniao)

Fabrício Queiroz: Um Cidadão de Bem

 

(Este post foi publicado na última sexta-feira, em minha coluna impressa do Jornal A União)

 

Assisti a íntegra da entrevista de Fabrício Queiroz à jornalista Débora Bergamasco no SBT. O ambiente era protegido. Não houve perguntas incômodas, ao contrário, havia o intuito de que ele se explicasse, pudesse contar a sua história plausível, e assim viesse a aplacar o enorme ruído em torno das suas operações financeiras descobertas pelo COAF.

Ao longo da entrevista, Queiroz foi desenhando em largos traços o seu perfil. Pai, marido, cumpridor dos seus deveres. Trabalhador contumaz, deu sangue e suor para a campanha ao senado do seu empregador, Flávio Bolsonaro. Alcançada a vitória, era hora de pensar em si mesmo.

Com um sorriso no rosto, Queiroz revelou os flagelos que enfrenta. Uma bursite no ombro, um pouco de sangue nas fezes, e, no dia mesmo em que deveria atender à quarta intimação do Ministério Público, a notícia de que tem um câncer no intestino, um tumor grande que precisa ser extirpado.

Não, Fabrício não usou essa palavra extirpado. Ele até se atrapalhou na hora em que revelou que havia feito uma biópsia. Queiroz fala de maneira simples, abusa dos rs, insiste no vício de que ele é o “pobrema”, na tentativa de afastar a família Bolsonaro das investigações do Coaf e do barulho da imprensa.

“Um cidadão de bem”, “um sujeito bacana”, “querido, muito querido”, e para provar, declara à jornalista que recebeu mensagens solidárias de dez, doze parlamentares da Alerj.

O tempo todo Fabrício usou uma tática que parece lhe ser habitual: Fabrício revelou coisas e omitiu outras, sempre com o mesmo sorriso e a certeza de que estava num lugar protegido. Com naturalidade, disse que só falaria sobre as movimentações da sua conta bancária no Ministério Público. Escondeu o sobrenome do seu médico, assim como o hospital onde esteve internado para exames invasivos.

Deu detalhes muitos sobre a sua doença. Falou do estado das suas fezes, riu ao descrever o exame de toque, o primeiro que fez na vida, segundo declarou. Até aproveitou para mandar um recado às filhas: “Papai tá bem, papai vai ser operado, mas tá bem”.

Uma história plausível? Eu diria que há na sua narrativa, um esforço canhestro de edição. Um jeito mal arrumado de dizer as coisas, colocando fatos díspares em cima de fatos díspares. Engenharia doméstica para forjar a sua casca de cidadão de bem, homem trabalhador, um sujeito que sabe “fazer dinheiro”.

A narrativa de Queiroz oscila entre uma esperança e o risco completo. Esperança em que o jornalismo declaratório e factual empacote sua história como verídica. Esperança de que o MP estadual, aliado ao Ministério da Justiça, endosse e dê plausibilidade ao seu discurso.

O risco vem do lado da possibilidade de um jornalismo investigativo prosseguir escavando as lacunas da sua história. Um jornalismo investigativo que queira insistir em perguntas incômodas, provas e contraprovas, um jornalismo ocupado em perseguir os rastros do dinheiro do Queiroz, isto sim, poderá ser um grande risco para a ruína da sua narrativa.

 

Ceia de Natal

 

Vivemos esses últimos dias feito sonâmbulos, arrancando sonhos às braçadas, do imenso caldeirão do consumo. Frenéticos, agarramos vestidos, sapatos, vinhos, maquiagens, longas argolas douradas e prateadas, celulares, muitos celulares, porta-retratos, velas perfumadas, um papai Noel esgoelado, à espera das pilhas, pacotes de viagens, pinheiros artificiais, grandes potes de sorvetes.

Somos um só e único bicho coleante, olhares esgazeados, risos descontrolados, mãos atarefadas, puxando, rasgando, segurando, apertando.

Siderados, contemplamos nossas mercadorias, enquanto os bips das máquinas registradoras e o ciciar plástico dos empacotadores abafam os guinchos do mundo.

Braços carregados de sacolas, seguramos com zelo os sonhos que pudemos arrancar do grande caldeirão do consumo. Outros são arrastados ciosamente pelos entregadores: móveis, carros, barcos, jatos novinhos deixados nos hangares feito pássaros inertes e brilhantes.

Compramos sonhos aos bocados, como se pudéssemos matar a sede, o vazio, o aperto no peito que nos tomam de assalto, enquanto o mundo real quebra os ossos da vida, esfarela possibilidades, cozinha suas litanias em fogo alto.

É assim todo fim de ano. Mergulhamos no imenso e viscoso mundo da publicidade, reféns das nossas antigas crenças, feito baratas tenazes, passeando na sopa fria da coalhada árabe. Imersos nesse mundo, com mãos ávidas, rompemos filas, ajuntamentos, para agarrarmos o que for possível. As canções, a profusão das luzes e enfeites, como que nos ajudam a vestir a fantasia dos frenéticos, dos sonhadores, enquanto que nosso peito rufa inutilmente seus vazios, sua espécie de fome, que nos encaminha de imediato ao mac donalds.

Poucas horas para a ceia, a missa do galo, mas nós continuamos nosso périplo, braços carregados de sonhos, as máquinas registradoras quase gritando para abafar a realidade que se prepara, a golpes de martelo, a carimbos ritmados, a tiros, gritos, papelotes e pedras.

– Feliz natal, dizemos com a boca cheia de peru, as mãos estendidas para a taça de vinho, olhos fitos no panetone trufado, à espera do primeiro corte.

– Feliz natal, dizemos todos com a boca cheia dos sonhos que pudemos arrancar do grande caldeirão do consumo, nossa pele vestida de sonhos, nossos pés trauteando a cantiga do sapato novo, nossos brincos grandes girando e brilhando debaixo das luzes da árvore de natal.

Batemos com os talheres nos pratos, cantamos ou falamos mais alto do que de costume, rasgamos papéis coloridos para esventrar os sonhos comprados no bazar.

Tudo para ocultar um mundo que brame e freme, um mundo que fere, corta, e cerze com o agulhão da maldade, as dores novas, por cima das dores velhas.

– Feliz natal, gritamos em coro, enquanto o mundo real estruge em gargalhada cínica, o grande ricto de maldade a selar os últimos atos, as últimas ordens, o pesado molho de chaves a trautear nas mãos infames, as últimas sílabas da sela fechada, o último gesto para o primeiro minuto da danação.