Intervalo para a }Ternura

Ou seria uma carta para os meus leitores?

Sim, queridos leitores, farei um breve intervalo para a ternura, o silêncio, o recolhimento. O mundo onde vivemos está tão difícil, minhas crônicas andam tão duras, que precisarei parar para me reabastecer, para o repouso do verbo, para o desacelerar da maquinaria das narrativas, para a quietude e os gestos da calmaria.

Quando eu era pequena, em todas as vezes que ia dormir, ficava sonhando com uma casa muito pequena, onde eu vivesse, com economia de gestos, com ações delicadas, com coisinhas miúdas, cada uma no seu lugar.

Era talvez a minha versão privada de uma casa de bonecas. Mas eu cresci, li romances, e descobri a metáfora do poço.

O poço privado de cada um pode ser uma experiência terrível, mas, pode ser também um lugar de aprendizado profundo, de felicidade conquistada no silêncio da terra, num único raio de sol iluminando obliquamente as profundidades.

Aprendi isso com Harumi Murakami, no seu livro, “A Crônica do Pássaro de Corda”. Desde então minha pequena casa de bonecas da infância transmudou-se para a versão do poço privado.

O problema do mundo contemporâneo, é que parece que todos nós mergulhamos num poço coletivo, e nesse lugar há pouca luz, pouco ar, e nenhum silêncio, senão o clamor terrível da guerra das narrativas, o barulho dos carimbos da lei, a arenga perpétua das torcidas, em uma partida onde se perdeu a ética, o respeito, o zelo pelas coisas do mundo.

Como num imenso jogo de ping-pong, as coisas más colidem umas com as outras e viram notícias do dia. Atentados em Londres e no Irã, estupros coletivos na baixada fluminense, Trump fugindo do acordo do clima, a guerra brasileira, com seus trezentos mil jovens negros pobres mortos, sua elite corrupta e sua política de porões e vozes sussurradas.

Vou sair. Ou seria melhor que eu dissesse que vou ficar em mim, vivendo um cotidiano feito de pequenos gestos, coisas delicadas, cantigas de ninar e hálito de presença de criança?

Vou guardar as chaves do mundo na terceira gaveta da minha escrivaninha. Vou deixar inconclusa essa minha longa crônica desse poço coletivo. Saltarei barrancos, retrocederei, até essa esquina  de lugar nenhum, onde eu mesma, acordada, ouço cantos de pássaros, sinto cheiro do primeiro café, assisto à calma dos gatos nas suas almofadas, canto para um menino ocupado em crescer, invento só para ele a ternura de que um dia também precisará, para tecer o mundo de lá fora.

Vou visitar minha casa de bonecas, arejar seus pequenos cômodos, deixar que o vento brinque com seus ínfimos esconderijos. Trarei de lá, delicadezas, gestos cuidadosos, colheres tortas e invenção de ternuras para o menino que dorme.

Crônica de um Grande Apequenamento

Narrar a história recente do Brasil, sobretudo o capítulo relativo à vitória da presidenta Dilma Rousseff nas eleições de 2014, até a atualidade,quando rege o governo de Michel Temer,  não será uma tarefa fácil para os historiadores. Os especialistas da área hão de se defrontar com alguns problemas fundamentais que lhes darão um volume incalculável de trabalho.

O cenário onde se desenrolam os fatos da república é no mínimo sombrio. Envolve porões de garagens, como no filme “Matadores de Velhinhas”; envolve mochilas de dinheiro, como no magistral enredo de “O Trem Pagador”; envolve sobretudo uma narrativa tão ampla, e tão diversificada, que esse será o principal empecilho para que a história seja contada.

A verdade fria e cristalina é a de que o país se apequena. Como se por artes de uma espécie de lipo-aspiração interior, as figuras políticas do Brasil  vão perdendo estatura, e, entre gorduras e lipídios, esvaem-se os princípios éticos e morais. Os discursos ganham a superficialidade do biscoito recheado,com excesso de glicose e nenhuma substância formadora.

A mentira, o falseamento, a minimização dos escândalos que se sucedem, como no jogo de Pokémon, ganham a centralidade da mídia, em suas manchetes garrafais, e, como num espetáculo macabro, mídia e sociedade deglutem os acontecimentos, até à saciedade que nunca se resolve.

Na república de agora, os personagens centrais são os ratos, com meus mil perdões a esses animaizinhos que só querem defender o seu queijo. Os ratos daqui, são gordos, grandes e perfumados, mas têm armas as mais poderosas. A principal delas é o cinismo, e com este, a invenção da pós-verdade, essa narrativa esvaída de sentido e de verdade, essa narrativa contaminada com o artifício da retórica vazia, e com a única meta possível desse cacho discursivo: Ludibriar e confundir.

A história recente também conta com um personagem central. A própria mídia, que opera como um difusor das falas cínicas, dos desaforos, dos bips, que fingem escamotear a imoralidade. A mídia opera com o silêncio, quando a notícia fere sua linha editorial, ou promove a balbúrdia em horário nobre, sem tempo para acabar o jornal, quando é preciso desalojar um dos reis dessa república convulsionada.

Mas não nos esqueçamos, o personagem mais importante está nos bastidores. Atua em silêncio. Maneja cordéis e apronta cenários para o futuro. É vago e difuso na superfície, mas, nos bastidores, é organizado, persistente e corajoso. Chama-se de diversas maneiras. Aqui vou chamá-lo de O Grande Capital.

Ao grande capital, quando se trata de presidentes, interessa-lhes essa figura política patética, sem moral  e ética, mas, capaz de manejar seu cinismo e sua covardia, com artes de circo de péssima qualidade.  Ao grande capital interessam os ratos, com sua fria esperteza e a capacidade de defender o queijo forjado no lucro e na acumulação. Na mídia, quando acaba o jornal, aciona-se a vinheta dos aplausos e do frouxo de riso dos programas de auditório.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União)

Coisas de Uma Infância Antiga

Ela tinha brincadeiras tão estranhas, que pareciam vir de uma infância muito antiga, pareciam escorregar de um tempo onde não havia religião, nem dogmas, nem anteparo de palavras duras.

Como se, de uma matéria entre líquida e plástica, ela fosse inventando coisas que eu nunca tinha visto.

Um dia, me lembro, estávamos brincando perto do lago. Eu sempre lhe perguntava, o que há do outro lado? Ela sorria, fazia um jeito de boca, do tipo puffff e coisas estranhas aconteciam.

Naquele dia, quando lhe perguntei sobre o outro lado, ela fez puffffff com a boca, e, de repente, da neblina que eu via de longe, surgiram duas pessoas de mãos dadas, sorrindo para nós, um riso fugidio, tão cortante como uma ponta de faca.

  • Eles são o bem e o mal, disse-me ela com sua voz de neve adormecida.
  • Olhei para as duas figuras enfumaçadas de frio, a girarem por sobre o barranco, a se arrepelarem, a sorrirem de modo ao mesmo tempo tão estreptoso e frio.
  • – O bem e o mal sempre foram amigos. Sempre andaram juntos. Nunca, nunca brigaram, prosseguiu ela.
  • – O bem e o mal são uma e a mesma criatura. Capazes de inventar o doce e o azedo, o áspero e o liso, o mistério e a certeza, a palidez e o corado das faces, a palavra e o silêncio, a vida e a morte.
  • Eu estava de olhos arregalados, ela fez puffff no meu rosto perplexo. Acordei e lhe disse:
  • – como você sabe de tudo isso?
  • Ela então me pegou da mão e falou:
  • – Por que eu tenho um poço. Um poço profundo onde vou buscar essas coisas.

E girou comigo por entre as plantas rasteiras que circundavam o lago, e me preciptou para dentro de um longo poço escuro, e me deixou lá, petrificada de frio e de medo.

Entre Vidraças Quebradas, Lágrimas por um País Desmontado

As manchetes midiáticasdesse meio de semana, rasas, superficiais, em alto volume, dão conta de vidraças quebradas, furtos, focos de incêndio, ministérios evacuados às pressas, servidores públicos amedrontados e perplexos.

Não, não vou aplaudir esses episódios, tampouco quero explorar as suas nefastas razões. Infiltrados teriam tentado desqualificar a manifestação pacífica com dezenas de milhares de trabalhadores, sindicalistas, movimentos sociais?

O discurso ambíguo da comentarista Míriam Leitão, no Bom Dia Brasil da quinta-feira, expressou claramente o tom azedo com que os sindicalistas são tratados no jornalismo global. Segundo Míriam, os manifestantes foram à Brasília financiados pelo dinheiro do imposto sindical, e agora, disse ela, será com o dinheiro dos nossos impostos que os estragos serão reparados. Digo que o discurso é ambíguo, porque a pouco mais de dez dias, Míriam Leitão louvava o governo Temer, agora ecoa suas mazelas e fraquezas. O que não muda, na sua fala, assim como nas inserções de Alexandre Garcia, William Bonner e tantos outros globais, é o tom de beligerância com respeito aos movimentos de trabalhadores, sobretudo àqueles ligados aos partidos de esquerda.

Enquanto o país assistia aos fatos quentes de Brasília, ocorria no Pará, uma chacina com dez trabalhadores mortos. Seguindo seu modus operandi, a Globo somente ouviu a voz das autoridades e dos policiais. A culpa, como sempre, recaiu sobre os posseiros, mas a eles não foi dada defesa, nem direito de resposta.

Em verdade vos digo, pouco me importa essas vidraças quebradas, pouco me interessa essa ação enraivecida de pequenos grupos encapuzados. O que me entristece, o que me faz acordar todos os dias com a angústia pesando no peito, é ver o meu país desmontado por dentro, quebrado, fraturado nos seus princípios, de ética, de moralidade, de respeito ao outro, de garantia dos direitos sociais e da cidadania.

O país vai sendo desmontado por dentro das suas estruturas. Não há ruídos de bombas, não se escuta o estilhaçar de vidraças, tampouco o estampido das automáticas. O desmonte é silencioso e rápido. A cada dia assistimos cair por terra um pedaço de floresta preservada, uma política social conquistada à duras penas, um instrumento de negociação e de participação popular.

E enquanto essas vidraças não são reparadas, olhemos bem para dentro desse ministério vazio. Vazio de políticas culturais, de diálogo, de música e de arte genuinamente brasileira, vazio de comando, num país sem comando.

Da boca pra fora, a retórica do combate à corrupção. Dentro dos gabinetes, nos porões e garagens, as tramas, as negociatas, a conspirata permanente e subterrânea que preside o jogo político desde sempre.

A metralhadora midiática prossegue no trabalho apressado da implosão. Aniquilar as esquerdas, e agora, aniquilar o governo Temer o qual ela colocou no poder. Retomar a direção das eleições indiretas, bater à prego e martelo, a política e os interesses do capital. Por que hei de lamentar vidraças quebradas, se tenho um país todo de cabeça baixa, com vergonha de si próprio?

 

Entre Mortos e Feridos: A Mídia não se Salvará

Voltar para trás, correr de forma acelerada, saltando obstáculos, construindo algum lugar de equilíbrio, exige aprendizado, treino, exige elaboraro avesso de uma narrativa, aos sopapos, às arrecuas, entre respirações apressadas e risos nervosos.

Voltar para trás, recuperar o marco zero da cobertura midiática dos últimos treze anos, ali onde iniciaram-se os governos do PT, voltar para trás à força, numa colisão com os fatos, exige defeitos colaterais na narrativa, os quais podem ser compreensíveis, mas jamais desculpados.

A gagueira coletiva que acometeu os ancoras da Rede Globo, na cobertura dos acontecimentos que sacudiram a política do país, revelam um fato incontestável. A mídia comercial brasileira apostou na narrativa única durante um longo período de 13 anos, com fervor, religiosidade e periodicidade permanente, apoiada por uma cúpula jurídica e parlamentar que definiam um único parágrafo central e definitivo: A quadrilha do PT, sob o comando do ex-presidente Lula.

O slogan rendeu campanhas bem sucedidas. O impeachment da presidenta Dilma, o plano Michel e a sua ponte para o futuro, o fim da corrupção e a limpeza do país das mazelas petistas, a implementação tardia da política neoliberal iniciada nos governos FHC, com sua rubrica implacável: Estado mínimo, arrocho salarial, enfraquecimento dos movimentos sindicais, privatização de serviços essenciais do estado brasileiro.

Os acontecimentos divulgados na tarde da última quarta-feira, com a força de um iceberg, impactaram de maneira profunda, toda a sociedade brasileira. A lama exposta é das mais nefastas. Uma reflexão, no entanto, precisa ser feita. A mídia brasileira, que nos últimos treze anos, operou como um verdadeiro partido de sustentação da narrativa única, faz parte dessa lama nefasta. Comungou com ela, alienou a sociedade, da verdadeira realidade da política e do empresariado do país. Conspirou com a classe política, inflou egos de figuras do judiciário,convocou extratos da sociedade para as ruas, reforçou as manifestações de ódio e de violência que têm presidido as relações sociais nos últimos anos.

Nossa política é trágica e o nosso jornalismo também. Não foram somente o presidente Temer e o senador Aécio Neves que foram nocauteados com as últimas delações. A comunicação brasileira levou um golpe profundo na sua receita de narrativa única.

A mídia, ela mesma surpreendida, arrancada à força da sua narrativa predileta, experimenta agora a encenação: Encena a sua isenção e imparcialidade, encena a falsa ideia de que não tem nada a ver com esses fatos. Numa cobertura atropelada, nervosa, a mídia brasileira encena para a sociedade, a mentira estereofônica de que nunca atuou como um partido e que zela pelos interesses do país.

Submergindo da lama, ajeitando a gravata e a canópula, a mídia brasileira lava as mãos e desembrulha os cadávers da história que ela própria ajudou a construir, empurrando para baixo do tapete, o seu próprio cadáver fraturado.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União).

Querido Pai. Te lembra quando nasceu a tua chará, Mariana? Ela agora me entregou um xará, João. Ele ainda saiu pouco da concha do sono, mas trouxe exigências. Nada de fraldas tamanho p, nem berço pequeno. João é tecido de uma matéria que juntou delicadeza e peso, tudo em proporções equilibradas, espantosamente belas, como se fora trabalho de desig de qualidade superior.

João só pensa em dormir, mas, por entre as frestas do sono, com um jeito de premir os lábios, informa a todos que aquelas roupas pequenas podem ser repartidas com outras crianças, só quer as mantas, o ursinho da tia Dinha, as fraldas de boca feitas pela mãe, no tempo da espera.

João chegou na hora que eu mais gosto. Quando já se fez noitinha, quando as flores do copo-de-leite e espada de São Jorge começam a exalar seu perfume doce, quando nas casas se serve uma janta leve e os meninos maiores sentam-se no sofá, proprietários dos seus controles e dos tablets.

João chegou naquela hora em que eu sempre desejo pintar um quadro, com uma paleta de cores suaves, onde haja quilhas de silêncios, algum desenho sobre a calma da noite que se prepara, uma brisa leve agitando as plantas das jardineiras.

João é lindo mãe. Tia Lu, como você gostaria de tê-lo no colo! E um recadinho para o mano João: O tempo deu a corda no relógio das horas, os dias fizeram-se anos, e agora a família tem novamente um menino João, a ocupar de novo o planeta, na mesma família, a encher até ao transbordamento, nossos corações de ternura.

Mãe, pai, João, Raimundo. O mundo em que João chegou já não é o mesmo de vocês. Eu agora lhes escrevo via computador, servido por uma banda larga. As pessoas ficam caladas, enquanto mandam mensagens pelo whatsapp. Há toda sorte de panelas elétricas mãe, e Lu, você gostaria das novas caixas de som, pequenas e pesadas em sonoridade.

O mundo em que João viverá, é mesmo muito diferente do mundo onde vocês viveram. Mas acreditem, no mundo de João, há todos os rastros do que vocês nos deixaram: Gentileza, amizade, amor pelos filhos, coragem de lutar por uma causa.

A tua xará, pai, se é que isso possa ser possível, ficou muito mais bonita sendo mãe, os olhos entregues aos olhos de João, a lembrar minha própria mãe, em gesto de devoção, quando rezava para o menino Jesus.

E eu, que sou avó pela segunda vez, vivo o milagre de amar até não mais poder, minha Gabriela e meu João. João está dormindo. Não se interessou ainda por esse mundo velho, a renovar-se todos os dias, em façanhas cruéis, ou em extremos de alegria. João é a nota suave da minha alegria desmedida, a percutir todas as cordas do meu coração. João, eu sei, é o arranjo desse mistério que juntou meu pai e minha mãe, esse mistério que teceu nossa família, e que, inventou o tempo de estarmos eu e Lau, a inventar a família nova onde João veio viver.

Pai, mãe, Lu, Raimundo, João… Venham devagar, vamos abraçar juntos o nosso menino.

Os Estalos da República

Nunca se soube que uma República pudesse envelhecer, recuar para trás, recuperar períodos de valorização de coisas como a desigualdade extrema, a desvalorização do trabalho, a desqualificação do estado, a intolerância para com o diálogo e a plenitude da democracia.

 

A República corre para trás, aos empurrões, à força do que há de mais execrável no jogo político, o chamado “toma lá dá cá”, corre para trás aos estalos, recuperando períodos históricos anteriores a Getúlio Vargas, apressa-se em abrir gavetas facilitadoras, para rasgar a Consolidação das Leis Trabalhistas, para colocar a classe trabalhadora  num lugar onde estava antes dos anos quarenta, sem proteção, sem direito à férias integrais, sem garantias na manutenção da empregabilidade.

 

A República estala por dentro, nos seus alicerces, mas, os artífices desse desmantelamento pregam o discurso do novo, do moderno, do fim do conservadorismo e dos privilégios, discurso que trata os trabalhadores como histéricos, intimidadores, e os seus sindicatos como quadrilhas, que devem ser estirpadas do novo mundo do trabalho.

 

Foi isso o que se ouviu na quarta-feira à tarde, quando da sessão de aprovação, na }Câmara dos Deputados, da Lei de reformas trabalhistas, sobretudo da boca do relator, Rogério Marinho, que com sua voz mansa, levemente enrouquecida, leu seu parecer conclamando às mudanças.

 

A república corre para trás, em velocidade de cruzeiro, num processo unilateral em que divorcia-se radicalmente dos direitos democráticos e populares. Tudo se faz num momento em que o governo interino conta com seu mais alto grau de rejeição popular e quando o parlamento vive a sua mais aguda crise de credibilidade, quando a maioria da sociedade começa a sair do conformismo e passa a se manifestar abertamente contra essas mudanças.

 

Mas o que se aprovou nesta longa quarta-feira, não é moderno, nem novo. A narrativa pode ser pomposa: Monetização da vida útil das pessoas, trabalhador horista, valor do negociado sobre o legislado,a narrativa é de fato pomposa, mas as consequências do processo serão desastrosas.

 

O golpe maior será dado contra os sindicatos e centrais de trabalhadores, que já vêm sendo enfraquecidos por campanhas menores, porém sistemáticas. O fim do imposto sindical e o estabelecimento da negociação direta entre patrões e empregados vai minar de vez a força dessas organizações.

 

A república corre para trás, suas estruturas estalam, desmantelam-se modos de fazer política. Aos trabalhadores, resta inventar de novo a força da sua luta, nas ruas, nos postos de trabalho, nas greves, até que não possam mais cruzar as mãos em defesa dos seus direitos.

 

 

A Fábula Revificada?

A Fábula Revificada?

A mídia comercial brasileira, liderada pelo sistema Globo de comunicações, após a divulgação da lista do Fachin, com as mais de novecentas horas de vídeos gravados com os depoimentos dos delatores, retomou com gosto o trabalho de revificação da fábula de que o partido dos trabalhadores instalou-se no poder como a maior quadrilha de ladrões do dinheiro público, tendo como chefe o ex-presidente Lula.

O modus operandi é o mesmo dos últimos treze anos. Destacar os trechos em que a fábula pode ser reconfirmada, e dar-lhes evidências em todos os telejornais, ignorando ou retirando do caminho da narrativa, tudo aquilo que possa perturbá-la ou contradizê-la.

Dezesseis partidos aparecem como alvos das delações. Só o candidato à presidência pelo PSDB, o senador Aécio Neves, tem cinco inquéritos na lava jato. Mas, o jornalismo está empenhado em dedicar suas horas nobres ao caso Lula, e de quebra, encontrar os crimes para fechar a conta do impeachment da presidenta Dilma. O cardápio é o mesmo dos últimos treze anos: A reforma do sítio de Atibaia, as palestras de Lula, as doações de campanha. Fico imaginando o setor midiático que poderia ser chamado operação Lula, com estagiários, jornalistas mais jovens, todos empenhados em destacar os trechos que vão virar manchetes, e despachá-los para os ancoras de tv, devidamente recortados e descontextualizados.

Editar, mascarar, silenciar. Longos trechos emblemáticos podem passar inteiramente despercebidos, como o que disse Emílio Odebrecht sobre o modelo de financiamento da política brasileira. O caixa dois, disse, existe na política há trinta anos, e mais, toda a imprensa sabe disso, e se omitiu, como omitiram-se as autoridades fiscalizadoras, o poder executivo e o parlamento.

Manipulação grosseira, classificou Mario Marona, ex-editor do Jornal Nacional, em seu perfil no facebook, comentando trecho destacado pela rede globo, em que Emílio Odebrecht narra o episódio em que a então presidenta Dilma soube dos maus feitos e tentou coibir os abusos com broncas e demissões.  A Globo explora o trecho em notícia que diz exatamente o oposto. Manipulando, comentando, etoma a prática da criminalização da ex-presidenta.

As lições a serem extraídas do papel da imprensa nesses treze anos são duras e desalentadoras. Simular surpresa e tomar como notícia bombástica, um sistema corrupto instalado no país há três décadas, com o beneplácito de todos os poderes e o silêncio cúmplice da imprensa, revelam o desapego que se tem pela democracia, ali no âmago das forças que deveriam preservá-la.

Mas a situação é ainda mais cruel. O país está entregue a um poder judiciário preocupado com o justiçamento de alguns e um poder midiático empenhado no julgamento e na condenação prévia dos seus inimigos políticos. A aventura pode sair muito cara ao país. O fascismo coloca na linha de frente os seus líderes, de dentes arreganhados, prontos para o próximo bote eleitoral.

Uma outra questão amarga precisa ser feita: O que mais a mídia está silenciando? Em que outros escândalos a imprensa tem se omitido? Operação Zelotes, Furnas, Telemig, e o mais recente escândalo da venda do país ao capital estrangeiro, quando e como a mídia brasileira vai pautar essas questões?

O Mundo do Divertimento Perpétuo

Sim, não há dúvidas de que caímos no planeta do divertimento perpétuo, e tudo pode ter começado há muito tempo, depois do progresso haver rasgado a terra e os mares para conectar o mundo através dos cabos, depois de os continentes haverem sido fatiados, no século XIX, em zonas de cobertura informativa, depois de havermos inventado o lead, essa pequena pílula informativa apta a capturar um leitor apressado, de espírito fugidio, sofrendo dessa síndrome do consumo rápido, e sempre a pedir mais e mais, nesse fast-food noticioso.

Eça de Queiroz falou desse sintoma nascente, flagrou essa doença dos primórdios do século XX, dessa satisfação em se poder, por dentro desse coleante amálgama de fios e cabos, palpar o mundo, subtrair suas distâncias, comprimir em pequenas pílulas de informação, o saber sobre as coisas.

Evoluímos tecnicamente, suprimimos os cabos, miniaturizamos as telas, e, aumentou a nossa fome por informação, proporcionalmente à capacidade da matéria prima ofertada, numa espécie de gigantesco banquete da notícia rápida, sobre tudo e qualquer coisa.

Gulosamente insatisfeitos, presas de um íntimo divertimento, deglutimos de tudo: A fofoca, o jogo, a tecnologia, a guerra, as mortes por gás sarin, o incêndio no campo de concentração francês, as duras horas dos refugiados comprimidas em pequenos bits informativos, a prisão do criminoso de colarinho branco, a bala perdida, a criança encontrada na lata de lixo, a dor da menina de vinte anos, a sua culpa, desvelando a culpa ancestral da mulher submetida, essa culpa exibida na tevê, sem anteparos, com a clareza das imagens digitais e a terrível cobertura do embrutecimento.

Você poderá pular o anúncio, esse breve atalho que pode levá-lo ao reinado do consumo, ali onde você também se diverte. Você pode pular o anúncio e voltará a experimentar essa satisfação íntima pelos pacotes de estórias ofertadas. A briga entre Trump e Putin, a refrega da lava jato, o embate entre os chavistas e a oposição venezuelana, a chuva de desaforos grotescos de Bolssonaro. A usurpação do poder de uma presidenta eleita, o embate entre sindicalistas e as reformas do governo Temer.

É como se nunca houvéssemos saído da caverna platônica, mas, as sombras que se nos apresentam são coloridas, fartas, há som da melhor qualidade para alargar cada vez mais o nosso sorriso nesse planeta do divertimento perpétuo.

E como sorriem os nossos jornalistas! Diante das câmeras e fora delas, e ainda aproveitam o seu sorriso para uma vinheta. Nossos jornalistas também habitam o mundo do perpétuo divertimento. Retalham os fatos, extraem o que há de mais superficial, para que nada atrapalhe a bela orgia diversional. São bons nisso, os nossos jornalistas. São bons em sorrir, sorrir até a última gota, são bons em esticar a corda, o cabo de guerra, na infância triste do nosso mundo desenvolvido.

E não, não há somente a caverna platônica. O mundo está todo dividido em cavernas, devidamente iluminadas, servidas por câmeras, drones, microfones de todo tipo. Sitiados, envoltos em nossas trincheiras, atiramos pílulas de informação uns nos outros, distribuindo curtidas, reações diversas,  frouxos de riso, com a tragédia e o futebol, tudo servindo ao repasto do divertimento perpétuo.

O Jornalismo Mínimo e as suas Vítimas

O jornalismo declaratório faz suas vítimas, e elas são muitas. Toda a sociedade distancia-se, ignora ou, em alguns casos, fica indignada com esse tipo de narrativa, que divorcia-se vertiginosamente do ideário clássico que havia pensado a imprensa, os repórteres, a comunicação e a sua capacidade para fortalecer as democracias, harmonizar o tecido da sociedade, compor uma esfera de opinião pública crítica e esclarecida.

É desanimador o desfile de mediocridades na tevê, nos portais online, nos impressos. O modelo mínimo de jornalismo tem suas máximas: Fique o mais distanciado possível do fato. Só diga aquilo que disserem pra você. Apresente números, muitos números, até ao empanturramento, mas se comentar, o faça como se estivesse na mesa da cozinha, debicando o que todo mundo já sabe. Não perturbe o ambiente com investigações próprias, com apurações profundas, com textos autorais. Guarde isso para um blog pessoal, ou para quando for demitido.

Se fizer uma reportagem longa, bombástica, sente-se em cima dela, guarde-a para o “Número Zero”, aquele jornal do romance de mesmo título de Umberto Eco, que estaria ali, sempre pronto para chantagear alguém: Um político, um magnata, um vendedor de petróleo.

Morreu um homem num condomínio em João Pessoa. Fique longe disso. Diga o que se diz sempre nesses casos: Control-c control-v e pronto. “Não se sabe o nome do homem, não se sabe as razões do crime, o que importa é mais esse número flácido, sujo de sangue, caindo na estatística fria da violência”.

Ataque com gás sarin na Síria. Com o rabo do olho, mire o que estão dizendo as agências de notícias mundiais. Só existem quatro grandes agências mundiais. Repita o que elas dizem, papagueie até à exaustão, garanta suas vinte linhas, sem dissonância, sem divergência, que Deus o livre de apuração e aprofundamento!

Ataque terrorista na Rússia? Mire para onde vai o fluxo. Ignore isso. Notinha curta, um box talvez. Quanto vale a morte de cinquenta chineses? Cem africanos? Faça uns cálculos rápidos. A morte de um americano, de um europeu, essas sim, dão manchetes.

Reforma da previdência? Fique do lado de quem lhe paga os salários. Faça propaganda aberta. Ameace os trabalhadores, combata greves, edite passeatas, porque dessa vez os menores números serão a manchete.

Está cobrindo a política? A receita é simples. Coloque o PT nas tragédias. Enfatize isso o dia todo. Acompanhe o fluxo. Invente uma pérola do tipo Cristiana Lôbo que afirma: “De tédio a gente não vai morrer”. Não sabe ela que sua voz, sua narrativa, tem jeito, eco e  cheiro de catacumbas.