Canto à Tristeza

Ao som da música Blowin’in-the Wind, cantada por Diana Pequeno

 

Não, não se ofenda comigo. Deixe que eu cante a minha tristeza. Deixe que eu cante a minha tristeza. Pelos que partiram, por todos nós, que ainda estamos nesse barco estranho.

Deixe que eu cante a minha tristeza como quem chora baixo, o pranto deslizando pelo meu rosto, as palavras caindo no ritmo da música, a música tocando como se viesse de outro mundo, a música como que adentrando e tomando o leme desse barco triste.

Deixe que eu cante a minha tristeza como quem inventa mundos impossíveis, para logo vê-los destroçados, sobre o tremor das minhas mãos. Escute o canto da minha tristeza, como quem quer fugir da tempestade. Escute esse canto triste, como quem quer evadir-se desse barco, arremessado contra os arrecifes da insensatez. Escute como quem quer dormir, para fugir ao tropel absurdo dos cavaleiros, para não escutar o barulho dos ossos partidos, para não chorar por aquela imagem perpétua do menino voando livre para a morte.

Deixe que eu cante a minha tristeza como se respirasse lentamente. Como quem respira pelos que já não podem, como quem espreita pelo cheiro das flores, como quem limpa o cheiro da pólvora malsã da ignorância e do mal. Quantos anos pode um povo morrer, sem conhecer a liberdade?

Deixe que eu cante a minha tristeza, com a suavidade da imagem de uma gaivota deitada na areia, descansando, depois de haver sulcado os mares todos do mundo. Veja-me no meu canto triste, postada numa janela onde a indiferença das ruas tolda minhas lágrimas. Postada numa janela onde só o meu canto é presença, como um estribilho eterno, como uma procura inútil, como um adeus que não foi dado.

Deixe que eu cante com minha voz ao mesmo tempo embargada e firme. O meu canto triste, como aquele da minha irmã, que tinha perdido nossa mãe, e cantava, para embalar minha filha pequena. Um canto triste, um canto triste, como se o tremor da minha voz percutisse uma harpa antiga, tentando aplacar a dor.

Deixe que eu cante a nota infinita da minha tristeza, com a voz embargada, as lágrimas como dilúvio sobre o meu rosto, as sílabas desconexas sob a quilha dos soluços.

A Filosofia das Alcachofras                

Hermana querida.

 

Você se lembra dos dias em que ficávamos à mesa do almoço, esquecidas de tudo, raspando com nossos dentes, nossas línguas tenazes, as flores de alcachofra que Mantsi preparava para nós? Nunca lhe disse, mas naqueles momentos eu como que adentrava num mundo paralelo, como que me suspendia de mim, do meu corpo presente,para habitar uma espécie de nuvem, de suspensão leve, uma espécie de barato que não havia alcançado nem com marijuana nem com vinho.

Não me pergunte porque, mas ultimamente aquelas alcachofras que eu raspava  com meus dentes, que eu escrutinava com minha língua, até alcançar um não?gosto, pálido, etério, não me pergunte porque, mas essas alcachofras estão conversando comigo.

Agradeço por essa memória ter invadido o meu dia. Agradeço por haver filósofos, espiritualistas, budistas, físicos quânticos que dizem que fios sutis ligam tudo que há no universo. Sim mana, por ter vivido aquelas experiências na sua mesa de almoço, agora sei que fios muito sutis nos ligam com as alcachofras.

Conversei com as alcachofras, mas, não me pergunte porque, somente agora me veio a tradução daqueles diálogos.

As alcachofras nos falam de leveza, de sutileza, de sussurros inflamados de delicadeza. Mas, para se chegar a esse nível de conversa, há que se ter disciplina, tenacidade. Não é como pegar um martelo e partir a pata do caranguejo, na mesa de um bar ruidoso.

As alcachofras se come em família, em estado de quase meditação. Mas para escutar o que dizem, há que se possuir, suavemente, e sem pressa, o seu sabor indescritível, meio sabor de cerveja morna, ou quem sabe um vago sabor à brócolis cozido no vapor. Há que se aspirar o seu cheiro, como se fosse preparação para um entendimento tântrico.

Quando você chega ao não/sabor, então já pode escutar e ruminar sobre tudo o que foi dito.

Naqueles dias, mana, na sua mesa de almoço, compreendi que as alcachofras não são desse mundo. Um mundo virulento, apressado, um mundo onde martelos quebram patas de caranguejo, competindo com as buzinas e os estampidos. Um mundo onde frenéticas máquinas de calcular expulsam comensais de restaurantes caros, um mundo onde inimigos se dão tapinhas nas costas enquanto ruminam a vingança como o prato do dia seguinte.

Quanto tempo o universo terá levado para inventar as alcachofras? Quantos de nós terão falado com elas? Outro dia li alguma coisa em que o escritor dizia que já não dançamos valsa. Mana, nunca dancei uma valsa, mas, sinto-me plena, por ter conversado com as alcachofras. E que eu ainda possa,transpor a soleira desse mundo virulento, e que eu ainda tenha entre a língua e os dentes, as sílabas suaves da filosofia das alcachofras.

João, o descobridor

João brincando com as mãos dentro de um depósito de arroz, espalhando arroz pra todo lado

João está descobrindo que a vida é inteligente, saborosa, divertida, brincalhona, para além do colo da sua mãe.

Aprendeu a andar há poucos dias, primeiro ensaiando aquela caminhada do pinguim medroso, depois, apostando os pulinhos e corridas consigo mesmo, ou até a grade, seu ponto final de segurança.

João fala, estreando pela primeira vez, palavras como banana, papai, mamãe, e tem também sua palavra predileta: goool!

João inventou uma assobio soprado para imitar o canto dos pássaros.

João gosta da lua. Será que quando ele crescer, vai ser astronauta?

Memórias numa Lata de Biscoitoes

Guardava tudo lá. Tuas cartas, as parcas fotografias de família, um panfleto de Café Filho, os documentos da casa, folhinhas amarelas de calendários, tudo lá, naquela lata de biscoito que você trouxe para ela, numa tarde quente de janeiro.  Eu era tão pequena! Mas me lembro de você ter chegado com sua mala surrada, trazendo nos braços, no corpo todo, uma distância tão distante, tão distante,  uma distância tão distante que você não tinha mais palavras. Me lembro quando você deu a lata de biscoitos à minha mãe, me lembro do sorriso dela,  a apertar contra o peito a sua pequena fortuna. Minha mãe olhando nos seus olhos, pesando seu silêncio, tentando apreender de você todas as dores, as saudades, as visões de morte. Minha mãe procurando o filho que já não era seu, o seu Raimundo.

E você soltou no meio da sala o que agora lhe pertencia. Você disse à minha mãe que agora era mestre de obras. Você disse aquilo como se rezasse, disse aquilo como se tentasse desvestir a pele de uma cidade construída sobre os seus mortos.

Me lembrei de tudo numa noite também distante, enquanto assistia “O Romance do Vaqueiro Voador”. Mistura de linguagens, notícia sem jornal, e você no meio de tudo aquilo, raimundo. Você candango, cuspindo cimento, cuspindo a reforma, você tentando conter o bramido da saudade no peito sem gibão. Você vendo aquele montão de homens morrendo, você ocultando a lágrima e rezando, padre nossos pesados no terço da minha mãe.

Vaqueiro voador, último abraço de cimento e ferro.  Com você também foi assim mano. Abraço retardado de cimento e ferro, noutra construção, noutro lugar. Rio de Janeiro? Onde você estava quando a sina do vaqueiro veio lhe pegar?

E agora, quando tento atualizar essa carta que não vai chegar até você, minha mão de repente fica paralisada, as palavras como que se afastam de mim, e só sinto a dor pela ausência, de Marielle, arrancada brutalmente do seu ativismo, de crianças e crianças mortas nas favelas desse Rio de Janeiro onde você fincou morada e de onde se foi, sem entender direito o que disse a música no seu rádio de pilhas, “ viver é melhor que sonhar”.

Sim, mano, ele tinha razão. “Viver é melhor que sonhar”, e cada certeza que a gente arranca desse punhado de sílabas,  dói como corte de faca amolada. Viver é melhor que sonhar. E é por isso que estamos sempre nos juntando, para dizer: Marielle, presente! Anderson, presente! Onilma, presente! Viver é melhor que sonhar mano, mas agora, em todas as horas, estamos chamando os que nos são arrancados pela morte brutal dos nossos dias, para embebê-los na nossa saudade, para envolvê-los com as últimas flores brancas e vermelhas do nosso tempo, para viver, no íntimo das nossas  memórias, o brilho feliz dos seus sorrisos.

 

À Craseado: Um Conto para as Mulheres

 

– O que será que uns estimulozinhos extra teriam feito comigo? Agora é tarde pra pensar nisso. Só me restam os ácidos gamálicos, por que então essa teimosia das minhas células, a desejarem ser o que nunca eu vou ser?

Explico-lhes todos os dias: A carta de vocês foi traçada com letras grossas e curtas de quem escrevia pouco e ruim. Onde vocês se forjariam senão naquele povoado de duas ruas, uma igreja pequena, a casa do prefeito sendo a maior de todas?

Comadre Alta sendo a Comadre da minha avó, que levava seu Joãozinho pra visita de domingo, brinca daqui, brinca dali, Joãozinho e Amélia casados, forjaram a trilha curta por onde vocês desembocariam, na geração vindoura, aquela em que minha mãe, Otacília, casou-se com Tiago, filho de Jó, compadre do meu avô.

Quando penso nesse caminho de porta-cancela, nesse campo de mato ralo onde vocês se forjaram, fico impressionada de haver me distanciado tanto do que fora a primeira geração, depois a dos meus pais, depois a minha.

Dito tudo em traçado curto, as mulheres da primeira geração tinham vida que podia ser escrita em papel de embrulho de armazém, letra grossa e grande, frases de palavra única. Cozinhar, lavar, parir. Só tinha uma frase um pouco maior nessa agenda velha: Satisfazer ao marido.

E vocês, células impertinentes, a me perguntarem pelas crases. Tinha crase sim, tanto na vida da minha avó, quanto na da minha mãe, pois elas iam juntas à missa de domingo, levando as sandálias nas mãos, pra não sujarem a igreja de lama.

Falando no crase, tenho certeza que minha avó nunca pensou sequer em algo parecido. Minha avó, quando pegava num lápis, era pra ameaçar meu tio Raul,quando ele entrava em casa, atazanando todo mundo.

Minha mãe, de leitura pouca, leitura de folhinha e de bula de Regulador Xavier, será que minha mãe sabia o que era um a craseado?

– Sabia não! Berram vocês, alto e bom som, como se se tratasse aqui do “boca de forno”.

Pasmada, vejo que a grande distância, a grande diferença que marca a minha vida em relação às vidas da minha mãe e da minha avó são os craseados. Fui à escola, fui à formatura, à igreja, quando do casamento, à juíza, quando do divórcio. À Europa, à bolsa, para as aplicações, à bienal, à noite de autógrafos.

E agora, vou à minha timeline, ver o que se passa no mundo virtual, ver o que dizem de mim os meus seguidores. Fazer o que minha avó e minha mãe faziam, aos gritos, falando das suas janelas para as das vizinhas, num tempo sem crases e sem banda larga.

 

Salve-se quem apanhar Primeiro o Pomo de Ouro

Você olha para o facebook, e se depara com posts à procura da criança que cada um deve carregar dentro de si. Nada contra as pílulas encapsuladas em frases que tentam despertar a alegria, mas eu não consigo abrir a caixa das palavras mágicas, e sei que a varinha de condão, que as estórias de fada incutiram tão bem em nossas cabeças, a varinha de condão hoje, não passa de um jeito de falar, de interpretar a lei, de arrebanhar os seus, sob o manto da justiça, e cuidar da sua salvação.

Eu nunca me esqueço da estória antiga, que minha irmã Maria me contava na hora de dormir. Minha irmã não conseguiu aprender a ler e escrever. Passava o dia todo cuidando das lides da casa da nossa família grande, e de noite, com um riso bom no rosto manso, deitava minha cabeça no colo e me contava a estória do castelo belo belo.

A menina andava à procura de uma chave que abrisse o castelo belo belo, mas, no seu caminho, só havia monstros, o de uma cabeça, de duas, de três… Eu dormia sempre nesse ponto da estória, e assim nunca cheguei à casa do último monstro, com suas sete cabeças torpes. O castelo belo belo persistia intocado, fechado dentro do meu sono.

Não há estória de fada que nos haja preparado para o mundo em que agora vivemos. A grande partida na qual estamosenvolvidos, não se assemelha em nada com o fantástico campeonato de quadribol, no qual os jogadores empenham-se para apanhar primeiro o pomo de ouro.

Na nossa história, o pomo de ouro já foi apanhado, e ainda que a tv, o rádio, os jornais e a cibesfera nos digam para corrermos atrás dele, o pomo de ouro está bem guardado nas pregas do manto da justiça, e só é empregado em ocasiões muito especiais, para salvar do rigor punitivo, os eleitos da sua corte.

O pomo de ouro nem é tão bonito assim. Dependendo da ocasião, ele pode ser um intrincado de palavras difíceis, um discurso enviesado e vago, mas que tem o condão de abrir portas e mudar uma realidade,  torcer a chave da lei e abrir as asas da liberdade sobre as cabeças dos seus protegidos. Abracadabra? Pocos pocos salamocos? Na nossa história, cabem muito mais coisas nessas palavras, do que sonha nossa vã inocência.

O castelo belo belo existe de verdade, mas a sua chave é guardada por monstros normais, de uma cabeça apenas, com dentes excelentes e propósitos torpes. A mesma chave que abre o castelo belo belo, abre e lacra malas cheias de dinheiro.

O castelo belo belo não é tão belo assim. Nele, os passos ecoam à noite, na direção do porão, ali onde se decidem as coisas grandes da república, na certeza de que o pomo de ouro está bem guardado sob as pregas do manto da justiça, um suspiro de alívio agitando a fumaça dos charutos, porque sabem que na hora certa, o pomo de ouro será usado com maestria para que tudo fique assim, na ordem e na lei.

Peço perdão à Maria, peço perdão à infância, peço perdão à criança que ainda vai crescer, os monstros estão todos juntos, no primeiro castelo, guardam muito bem o pomo de ouro, e não há o “viveram felizes para sempre”. Só existe o próximo minuto dramático de cada dia, só existe a terrível máquina ceifadeira do futuro, só existe o primeiro monstro, com seu riso mal e sua habilidade, preparando a próxima manchete trágica para o jornal da noite.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do #JOrnalAUnião).

 

 

Entre Lula e o meu Pai: Um Título Eterno

Publiquei o post abaixo na minha coluna impressa da sexta-feira. Consternada, soube que por razões político-partidárias, o título de Doutor Honoris Causa que seria concedido ao ex-presidente Lula foi adiado. A história nos cobrará, cedo ou tarde, pelas injustiças que vêm sendo cometidas contra esse homem do campo que ousou sonhar e vencer. Segue minha homenagem, ao meu pai e ao presidente, com os timbres do afeto, da gratidão e saudade do velho Mariano, “In memoriam”

 

Ele estará todo paramentado com as vestes cerimoniais, e, seguido por um grupo também paramentado, será conduzido ao posto de honra, para receber o título de Doutor Honoris Causa. Nessa hora, e por todo o tempo que durar a cerimônia, eu me lembrarei do meu pai, das suas mãos trêmulas, do seu cigarro de fumo de rolo, da sua asma, das horas de fim de tarde em que eu lavava os seus pés, depois da lida na roça, do jeito que ele tinha de brincar comigo, imitando a voz do carteiro, diante do portão fechado.

Me lembrarei do medo que o meu pai tinha dos comunistas, me recordarei da tristeza que lhe assolava os olhos, em todo o fim de colheita, quando contava o dinheiro que havia apurado, para levar à casa do fazendeiro, que era o fiador de tudo que ele havia comprado durante o ano: Açúcar, café, sabão, bolacha canela para as crianças, e o seu fumo de rolo.

Me lembrarei de um dia longínquo da minha infância, e da raiva do meu pai, entre apressadas respirações asmáticas. O fazendeiro o tinha expulsado das terras, porque minha mãe havia votado num político diferente daquele que o fazendeiro pedira a meu pai para que ela votasse.

Naquele dia, mastigando sua raiva, meu pai soube que gosto tinha a injustiça, ainda que precariamente, conheceu o amargo da situação em que vivia, vendendo suas horas, seu suor, sua força, a custo da subserviência e da servilidade.

Meu pai tinha medo dos comunistas e, olhava desconfiado para o bando de jovens que muitas vezes iam à nossa casa para as primeiras reuniões de formação do Partido dos Trabalhadores. Quando falávamos em Luís Inácio da Silva, ele sorria e desconversava. Morreu em 1993, quando Lula era a força mais importante do movimento sindical brasileiro.

Quando for lido o panegírico cerimonial, e mesmo depois, eu me lembrarei do meu pai, das suas lágrimas fáceis, do seu sorriso, das muitas cercas que ergueu, ao longo da vida, para proteger terra e gado alheio, das muitas noites insones, já na cidade grande, vigia de uma fábrica de cimento. Como numa espécie de quebra do protocolo, dedicarei também ao meu pai, o título que Lula recebe da UFPB.

Em silêncio, e em pensamento, farei o meu próprio panegírico e o entregarei a Lula, com o os timbres do afeto e da gratidão.

Gratidão por esse homem do campo, que abriu porteiras, passadiços, portões, levando a alma nordestina ao mais alto topo das esferas de poder. A alma nordestina simples, corajosa, resistente, pronta para a luta e para o acolhimento, tecida na partilha do pão e da fome, da seca e da água, do rezar quase dormindo, do olhar erguido aos céus, entremesclado de tristeza e esperança.

Junto com as honrarias do título formal, lhe entregarei o mapa do solo comum onde nos forjamos, todos os nordestinos pobres do campo, onde ele reina, como aquele que mais trabalhou, para que agora andemos de cabeça erguida, envoltos na mesma luta encarniçada por justiça e por igualdade.

Carta Para os Meus

Querido Pai. Te lembra quando nasceu a tua chará, Mariana? Ela agora me entregou um xará, João. Ele ainda saiu pouco da concha do sono, mas trouxe exigências. Nada de fraldas tamanho p, nem berço pequeno. João é tecido de uma matéria que juntou delicadeza e peso, tudo em proporções equilibradas, espantosamente belas, como se fora trabalho de desig de qualidade superior.

João só pensa em dormir, mas, por entre as frestas do sono, com um jeito de premir os lábios, informa a todos que aquelas roupas pequenas podem ser repartidas com outras crianças, só quer as mantas, o ursinho da tia Dinha, as fraldas de boca feitas pela mãe, no tempo da espera.

João chegou na hora que eu mais gosto. Quando já se fez noitinha, quando as flores do copo-de-leite e espada de São Jorge começam a exalar seu perfume doce, quando nas casas se serve uma janta leve e os meninos maiores sentam-se no sofá, proprietários dos seus controles e dos tablets.

João chegou naquela hora em que eu sempre desejo pintar um quadro, com uma paleta de cores suaves, onde haja quilhas de silêncios, algum desenho sobre a calma da noite que se prepara, uma brisa leve agitando as plantas das jardineiras.

João é lindo mãe. Tia Lu, como você gostaria de tê-lo no colo! E um recadinho para o mano João: O tempo deu a corda no relógio das horas, os dias fizeram-se anos, e agora a família tem novamente um menino João, a ocupar de novo o planeta, na mesma família, a encher até ao transbordamento, nossos corações de ternura.

Mãe, pai, João, Raimundo. O mundo em que João chegou já não é o mesmo de vocês. Eu agora lhes escrevo via computador, servido por uma banda larga. As pessoas ficam caladas, enquanto mandam mensagens pelo whatsapp. Há toda sorte de panelas elétricas mãe, e Lu, você gostaria das novas caixas de som, pequenas e pesadas em sonoridade.

O mundo em que João viverá, é mesmo muito diferente do mundo onde vocês viveram. Mas acreditem, no mundo de João, há todos os rastros do que vocês nos deixaram: Gentileza, amizade, amor pelos filhos, coragem de lutar por uma causa.

A tua xará, pai, se é que isso possa ser possível, ficou muito mais bonita sendo mãe, os olhos entregues aos olhos de João, a lembrar minha própria mãe, em gesto de devoção, quando rezava para o menino Jesus.

E eu, que sou avó pela segunda vez, vivo o milagre de amar até não mais poder, minha Gabriela e meu João. João está dormindo. Não se interessou ainda por esse mundo velho, a renovar-se todos os dias, em façanhas cruéis, ou em extremos de alegria. João é a nota suave da minha alegria desmedida, a percutir todas as cordas do meu coração. João, eu sei, é o arranjo desse mistério que juntou meu pai e minha mãe, esse mistério que teceu nossa família, e que, inventou o tempo de estarmos eu e Lau, a inventar a família nova onde João veio viver.

Pai, mãe, Lu, Raimundo, João… Venham devagar, vamos abraçar juntos o nosso menino.

Cenas que Eu Nunca Vou Viver

Por esses dias em que me posto diante da tevê, para acompanhar os fatos políticos que sacodem o país, penso muito no meu pai, que se ainda estivesse entre nós, teria completado, no último domingo, 91 anos de vida.

Imagino uma cena em que eu e ele, sentados lado a lado, falaríamos sobre o processo de impeachment da presidente Dilma, e, comemoraríamos juntos a última decisão do ministro do Supremo, Teori Zavasck, de afastar da presidência da Câmara dos Deputados, o deputado Eduardo Cunha.

Quando meu pai nos deixou, em 1993, o país dava os primeiros passos lentos para o desenvolvimento e a difusão da telefonia móvel. Alguns anos depois, iniciava-se o boom dos computadores pessoais e da expansão dos primeiros provedores de internet.

Meu pai não chegou a conhecer nem utilizar um celular, tampouco acompanhou o modo novo como passamos a nos comunicar, via computador, modens conectados, e agora, via smartphones.

No campo político, meu pai ainda assistiu à disputa Collor Lula, de 1989, na qual o petista foi derrotado. Na sua própria casa, meu pai assistiu ao fortalecimento do Partido dos Trabalhadores, porque muitas vezes, nós, jovens militantes, nos reuníamos na varanda de casa, para pensar estratégias e ações de mobilização.

Meu pai viveu a maior parte da sua vida adulta na zona rural, erguendo cercas, cuidando da terra dos latifundiários de Pernambuco, algumas vezes fazendo as vezes de vaqueiro, nas fazendas em que trabalhou.

Quando veio para João Pessoa, converteu-se em vigia noturno de uma empresa de construção.

Meu pai, analfabeto, só sabia ler o mundo através da régua da justiça, da honestidade. Imagino pois a cena em que eu teria que lhe explicar porque considero que na atualidade, o país vive um processo de golpe parlamentar jurídico midiático.

Pessoas simples como o meu pai, não conseguem compreender as peças parlamentares que constituem a justificativa para o impeachment. Tanto na Câmara como no Senado, os relatores produziram em centenas de páginas, não propriamente as provas dos supostos crimes que a presidente teria cometido, mas destilaram, em palavrório jurídico-político, tentativas explicativas incompreensíveis no universo da população mais humilde, das justificativas para o exercício do “Fora PT, Fora Dilma”.

Para pessoas simples como o meu pai, a verdade que salta aos olhos, e que não necessita senão de apenas algumas frases curtas, é a de que a presidente Dilma, no exercício do mandato, não esteve envolvida em nenhum ato em que pessoalmente atentou contra a constituição do país, conforme rezam os dispositivos legais do impedimento.

O governo da presidente, em seu segundo mandato, empossado em janeiro de 2015, ainda não conseguiu decolar, vendo corroídas as suas bases de sustentação parlamentar, e tendo de conviver com uma crise econômica de proporções mundiais.

Imagino eu e o meu pai assistindo aos discursos da presidenta, à força da sua indignação. Imagino mesmo o gesto do meu pai, afastando com mãos trêmulas uma mecha de cabelo do meu rosto, e dizendo, com sua voz serena: Dilma fica.

 

(Este post foi publicado na última sexta-feira, em minha coluna impressa do Jornal A União).

O Homem que me Fez

Todo dia 1 de maio eu escrevo. Com as mãos, com os olhos, com o corpo todo embebido da saudade dele. Como se estivesse brincando com legos, procuro na memória pedaços da sua vida, refaço trilhas, conversas, silêncios, sofro de novo com as suas crises asmáticas, sorrio com o mundo fantasmático que ele despejava nos causos que contava.

Toda vez me surpreende a força e a meiguice com as quais ele fora tecido. Nasceu a 1 de maio de 1915, num mundo ainda assombrado com o pós-guerra, num pedaço de nordeste crestado de sol, Riacho Fundo, onde água era produto de luxo.

Ali o futuro dos homens estava cinzelado em poucas letras de pedra. Ser pobre, ser honesto, trabalhar, de sol a sol, nas terras dos latifundiários, que apadrinhavam seus filhos, apertavam suas mãos calosas, fiavam suas compras na feira de quarta-feira e ficavam com quase todo o seu lucro que saísse da terra.

Hoje me veio uma lembrança da infância. Estávamos nos anos sessenta. Localização, Angico Torto, um sítio perdido no município de Itapetim, alto sertão de Pernambuco. Um dia ele chegou em casa cansado da asma, a ira nos olhos, brigando pelo ar, gritando contra a injustiça. Apanhei a história aos bocados, com minhas mãos de menina pequena. Minha mãe se negara a votar no cabresto do fazendeiro, Joaquim Paulino da Silva.

O homem rico, dono do gado, dono da fazenda, veio a cavalo, interrompeu meu pai, na faina de fazer suas cercas. Pediu a casa de taipa. Pediu a terra. Engoliu de um sorvo irado, anos e anos de trabalho duro, de servidão, de valentia, de horas de conversas amenas, latifundiário e meieiro preparando juntos a terra para a plantação do milho.

A ventania no sertão é como um pássaro grande, batendo portas, retorcendo arbustos ressequidos, atirando para longe a poeira escura. Foi como um redemoinho, a ira de Joaquim, atirando meu pai com seus filhos, sua mulher e o voto insubordinado para longe da pequena casa agora vazia das suas crianças.

A vida do meu pai encerrou-se em 15 de maio de 1993. Oito dias antes, meu irmão, na uti do hospital, cantou-lhe um aboio, enquanto eu, perdida em lágrimas, segurava sua mão calosa e inerte.

Todo dia 1 de maio eu escrevo, tentando aplacar um pouco a saudade dele. Em vão, as palavras chegam, tisnadas de assombro, porque sentem que não são senão, uma quilha inútil, um vão que jamais abrirá novamente o caminho por onde eu possa correr, abrir porteiras, derrubar cercas, chegar de novo perto do meu pai.