Querido Pai. Te lembra quando nasceu a tua chará, Mariana? Ela agora me entregou um xará, João. Ele ainda saiu pouco da concha do sono, mas trouxe exigências. Nada de fraldas tamanho p, nem berço pequeno. João é tecido de uma matéria que juntou delicadeza e peso, tudo em proporções equilibradas, espantosamente belas, como se fora trabalho de desig de qualidade superior.

João só pensa em dormir, mas, por entre as frestas do sono, com um jeito de premir os lábios, informa a todos que aquelas roupas pequenas podem ser repartidas com outras crianças, só quer as mantas, o ursinho da tia Dinha, as fraldas de boca feitas pela mãe, no tempo da espera.

João chegou na hora que eu mais gosto. Quando já se fez noitinha, quando as flores do copo-de-leite e espada de São Jorge começam a exalar seu perfume doce, quando nas casas se serve uma janta leve e os meninos maiores sentam-se no sofá, proprietários dos seus controles e dos tablets.

João chegou naquela hora em que eu sempre desejo pintar um quadro, com uma paleta de cores suaves, onde haja quilhas de silêncios, algum desenho sobre a calma da noite que se prepara, uma brisa leve agitando as plantas das jardineiras.

João é lindo mãe. Tia Lu, como você gostaria de tê-lo no colo! E um recadinho para o mano João: O tempo deu a corda no relógio das horas, os dias fizeram-se anos, e agora a família tem novamente um menino João, a ocupar de novo o planeta, na mesma família, a encher até ao transbordamento, nossos corações de ternura.

Mãe, pai, João, Raimundo. O mundo em que João chegou já não é o mesmo de vocês. Eu agora lhes escrevo via computador, servido por uma banda larga. As pessoas ficam caladas, enquanto mandam mensagens pelo whatsapp. Há toda sorte de panelas elétricas mãe, e Lu, você gostaria das novas caixas de som, pequenas e pesadas em sonoridade.

O mundo em que João viverá, é mesmo muito diferente do mundo onde vocês viveram. Mas acreditem, no mundo de João, há todos os rastros do que vocês nos deixaram: Gentileza, amizade, amor pelos filhos, coragem de lutar por uma causa.

A tua xará, pai, se é que isso possa ser possível, ficou muito mais bonita sendo mãe, os olhos entregues aos olhos de João, a lembrar minha própria mãe, em gesto de devoção, quando rezava para o menino Jesus.

E eu, que sou avó pela segunda vez, vivo o milagre de amar até não mais poder, minha Gabriela e meu João. João está dormindo. Não se interessou ainda por esse mundo velho, a renovar-se todos os dias, em façanhas cruéis, ou em extremos de alegria. João é a nota suave da minha alegria desmedida, a percutir todas as cordas do meu coração. João, eu sei, é o arranjo desse mistério que juntou meu pai e minha mãe, esse mistério que teceu nossa família, e que, inventou o tempo de estarmos eu e Lau, a inventar a família nova onde João veio viver.

Pai, mãe, Lu, Raimundo, João… Venham devagar, vamos abraçar juntos o nosso menino.

Cenas que Eu Nunca Vou Viver

Por esses dias em que me posto diante da tevê, para acompanhar os fatos políticos que sacodem o país, penso muito no meu pai, que se ainda estivesse entre nós, teria completado, no último domingo, 91 anos de vida.

Imagino uma cena em que eu e ele, sentados lado a lado, falaríamos sobre o processo de impeachment da presidente Dilma, e, comemoraríamos juntos a última decisão do ministro do Supremo, Teori Zavasck, de afastar da presidência da Câmara dos Deputados, o deputado Eduardo Cunha.

Quando meu pai nos deixou, em 1993, o país dava os primeiros passos lentos para o desenvolvimento e a difusão da telefonia móvel. Alguns anos depois, iniciava-se o boom dos computadores pessoais e da expansão dos primeiros provedores de internet.

Meu pai não chegou a conhecer nem utilizar um celular, tampouco acompanhou o modo novo como passamos a nos comunicar, via computador, modens conectados, e agora, via smartphones.

No campo político, meu pai ainda assistiu à disputa Collor Lula, de 1989, na qual o petista foi derrotado. Na sua própria casa, meu pai assistiu ao fortalecimento do Partido dos Trabalhadores, porque muitas vezes, nós, jovens militantes, nos reuníamos na varanda de casa, para pensar estratégias e ações de mobilização.

Meu pai viveu a maior parte da sua vida adulta na zona rural, erguendo cercas, cuidando da terra dos latifundiários de Pernambuco, algumas vezes fazendo as vezes de vaqueiro, nas fazendas em que trabalhou.

Quando veio para João Pessoa, converteu-se em vigia noturno de uma empresa de construção.

Meu pai, analfabeto, só sabia ler o mundo através da régua da justiça, da honestidade. Imagino pois a cena em que eu teria que lhe explicar porque considero que na atualidade, o país vive um processo de golpe parlamentar jurídico midiático.

Pessoas simples como o meu pai, não conseguem compreender as peças parlamentares que constituem a justificativa para o impeachment. Tanto na Câmara como no Senado, os relatores produziram em centenas de páginas, não propriamente as provas dos supostos crimes que a presidente teria cometido, mas destilaram, em palavrório jurídico-político, tentativas explicativas incompreensíveis no universo da população mais humilde, das justificativas para o exercício do “Fora PT, Fora Dilma”.

Para pessoas simples como o meu pai, a verdade que salta aos olhos, e que não necessita senão de apenas algumas frases curtas, é a de que a presidente Dilma, no exercício do mandato, não esteve envolvida em nenhum ato em que pessoalmente atentou contra a constituição do país, conforme rezam os dispositivos legais do impedimento.

O governo da presidente, em seu segundo mandato, empossado em janeiro de 2015, ainda não conseguiu decolar, vendo corroídas as suas bases de sustentação parlamentar, e tendo de conviver com uma crise econômica de proporções mundiais.

Imagino eu e o meu pai assistindo aos discursos da presidenta, à força da sua indignação. Imagino mesmo o gesto do meu pai, afastando com mãos trêmulas uma mecha de cabelo do meu rosto, e dizendo, com sua voz serena: Dilma fica.

 

(Este post foi publicado na última sexta-feira, em minha coluna impressa do Jornal A União).

O Homem que me Fez

Todo dia 1 de maio eu escrevo. Com as mãos, com os olhos, com o corpo todo embebido da saudade dele. Como se estivesse brincando com legos, procuro na memória pedaços da sua vida, refaço trilhas, conversas, silêncios, sofro de novo com as suas crises asmáticas, sorrio com o mundo fantasmático que ele despejava nos causos que contava.

Toda vez me surpreende a força e a meiguice com as quais ele fora tecido. Nasceu a 1 de maio de 1915, num mundo ainda assombrado com o pós-guerra, num pedaço de nordeste crestado de sol, Riacho Fundo, onde água era produto de luxo.

Ali o futuro dos homens estava cinzelado em poucas letras de pedra. Ser pobre, ser honesto, trabalhar, de sol a sol, nas terras dos latifundiários, que apadrinhavam seus filhos, apertavam suas mãos calosas, fiavam suas compras na feira de quarta-feira e ficavam com quase todo o seu lucro que saísse da terra.

Hoje me veio uma lembrança da infância. Estávamos nos anos sessenta. Localização, Angico Torto, um sítio perdido no município de Itapetim, alto sertão de Pernambuco. Um dia ele chegou em casa cansado da asma, a ira nos olhos, brigando pelo ar, gritando contra a injustiça. Apanhei a história aos bocados, com minhas mãos de menina pequena. Minha mãe se negara a votar no cabresto do fazendeiro, Joaquim Paulino da Silva.

O homem rico, dono do gado, dono da fazenda, veio a cavalo, interrompeu meu pai, na faina de fazer suas cercas. Pediu a casa de taipa. Pediu a terra. Engoliu de um sorvo irado, anos e anos de trabalho duro, de servidão, de valentia, de horas de conversas amenas, latifundiário e meieiro preparando juntos a terra para a plantação do milho.

A ventania no sertão é como um pássaro grande, batendo portas, retorcendo arbustos ressequidos, atirando para longe a poeira escura. Foi como um redemoinho, a ira de Joaquim, atirando meu pai com seus filhos, sua mulher e o voto insubordinado para longe da pequena casa agora vazia das suas crianças.

A vida do meu pai encerrou-se em 15 de maio de 1993. Oito dias antes, meu irmão, na uti do hospital, cantou-lhe um aboio, enquanto eu, perdida em lágrimas, segurava sua mão calosa e inerte.

Todo dia 1 de maio eu escrevo, tentando aplacar um pouco a saudade dele. Em vão, as palavras chegam, tisnadas de assombro, porque sentem que não são senão, uma quilha inútil, um vão que jamais abrirá novamente o caminho por onde eu possa correr, abrir porteiras, derrubar cercas, chegar de novo perto do meu pai.

O Natal Chegou

O natal chegou, e veio rápido, tão rápido que sequer deu tempo da gente se desembaraçar das lembranças do natal passado, do ano passado, e, pasmem, esse ano já é passado também.

O natal chegou, feito um caminhão enfeitado, atrelado dos seus presentes, dos seus slogans, dos seus enfeites, das suas ruas atochadas de gente, correndo de lá pra cá, calculando, comprando, empacotando, esse frenesi de natal que ora nos alegra, ora nos coloca a roer as unhas, com uma saudade esquisita de não se sabe o que.

Eu as vezes fujo dessa correria. Abro de par em par as portas do meu refúgio, escondo-me por trás de alguma quilha de silêncio e palpo as lembranças de natais antigos, natais onde a palavra natal estava envolta numa zona de magia e mistério, enfeitada por uma espécie de teia rendada das nossas crenças infantis, tão vagas e tão doces.

Corro em busca dos natais da minha infância, natais onde não havia presentes, nem ceias grandiosas, nem missa do galo, nem presépios.

Quatro, cinco, seis anos, nossos natais eram cheios de sonhos de infância. Acreditávamos em papai Noel, e, perto da janela da sala, enfileirávamos nossas pequenas chinelas, pensando: “E se o velhinho se atrapalhar? E se ele colocar o presente do meu irmão na minha sandália?

Tagarelices e risadas regavam nossas noites de natal, e prometíamos aguardar a chegada de papai Noel, mas, quem vinha mesmo era o sono, apagando as cortinas da nossa mente, fazendo-nos mergulhar na doçura de sermos pequenos, confiantes, envoltos nos nossos sonhos de natal.

O dia 25 de dezembro chegava como todos os outros, com o sol nascido, aquecendo as pedras, bebendo as gotas de orvalho do mato rasteiro, a passarada saudando a manhã, acordando as casas, a meninada esperando a sua primeira caneca de leite.

Silenciosamente, cada irmão recolhia a sua sandália, e, ao constatar que a mesma estava vazia, ninguém chorava ou batia o pé. No coração, o conforto dos risos e dos sonhos da noite era como um lençol morno, feito todo da ternura de ser criança.

O natal chegou, tão depressa, e não houve tempo sequer para planejar a ceia, comprar todos os presentes, enviar todos os cartões. Chegou e partirá, tão depressa quanto os seus slogans, seus papais Noéis, gordos, vermelhos de riso, desenfastiando as crianças, deixando se fotografar com elas, enquanto o tempo se esvai, implacavelmente rápido.

Em todos os natais, em algum momento da azáfama do dia, fujo para esse meu lugar íntimo, para revisitar aqueles natais. Quase posso tocar na minha chinela infantil, ao pé da janela, ainda fresca da brisa suave da madrugada. Recordo meu próprio riso, e de repente me acode uma leve mágoa, uma tristeza que parece vir de dentro. E logo sei, essa mágoa, essa pequena pontada de tristeza, não vem da infância, mas dos dias que correm.

Minha Mãe e Eu

Não me pergunte o dia, não vou me lembrar, nem o ano, tampouco. Me lembro da tarde, da cena, eu e minha mãe, ao pé do grande rádio de madeira, escutando sabe-se lá qual capítulo da novela Couvades, na rádio Clube de Pernambuco.

Por que me lembro com tanta nitidez daquela cena? Nós duas, uma de frente para a outra, tendo entre nós o rádio grande, as descargas, as intermitências, o beijo soprado entre os personagens centrais da trama?

Como pôde minha mãe parar a faina da casa, e postar-se comigo naquela tarde de sol a pino, para escutar juras de amor em vozes melodiosas, beijos soprados em vagos “ohohohohoh” suspirados?

Não, não me peça, não tenho nenhuma fotografia da cena, senão a imagem na memória, cheia das nossas presenças, do nosso silêncio, da nossa atenção às descargas, às intermitências, aos beijos soprados, às batidas de porta, às músicas, aos comerciais de sabonete Rexona.

Eu e minha mãe, no canto mais nobre da sala de jantar, ali onde se postava o rádio, eu e minha mãe, inteiramente alheias ao bulício da rua, às brigas dos meus irmãos, EU E MINHA MÃE, UNIDAS PELAS ONDAS DO RÁDIO,SOFRENDO AS DORES DAQUELES QUE HABITAVAM AQUELA RÁDIO-NOVELA, SUSPENSAS DA TARDE, DO SOL, AFERRADAS ÀQUELAS VOZES.

Aos meus dezessete anos, chegou lá em casa a primeira televisão. Era grande, também de madeira, como o velho rádio da sala de jantar. Muitas vezes sentei-me ao lado da minha mãe, para assistir à novela “Vejo A Lua no Céu.

E vieram outras novelas. Anjo Mal, Pecado Capital, Mulheres de areia.

Nenhuma delas porém, gravou-se com tanta força na minha memória, como a cena daquela tarde, eu e minha mãe, ao pé do rádio, nossas alegrias, nossa angústia, nosso desespero atados à angústia, às alegrias, ao desespero daqueles personagens dos quais só conhecíamos as vozes.

Tantos anos passados, revejo aquela tarde, e não sei se por artes da minha saudade, não sei se por força do amor, sinto que vivi com minha mãe um raro momento de intimidade, de beleza, de serenidade, um raro momento em que nosso vínculo se me mostrou, como um halo de prata a nos enredar, mãe e filha, irmanadas de modo tão simples e tão profundo, naquele pedaço de tarde, naquele pedaço de sala, onde estávamos só nós, como se numa ilha distante.

Não, você não vai entender se eu não lhe explicar. Naquela tarde, minha mãe foi só minha. Naquela tarde, eu fui só da minha mãe, que os seus outros doze filhos não tinham lugar naquele pedaço de tarde, naquele pedaço de sala, feito ilha distante, ocupada pelos personagens de Couvades, a nos dar notícias das suas dores, suas angústias, suas alegrias.

Nem me lembro como acabou aquele capítulo da novela, nem do momento em que minha mãe desligou o rádio. Só sinto a força de ter estado lá, com ela, naquele lugar em que ela estava toda comigo e eu, encantada de tê-la só para mim.

A Crônica do Destempo

Nos calendários, nas memórias, mais um ano que se acaba, com sua trilha sonora a tocar vorazmente nas máquinas registradoras, o concerto dos minutos, dos dias,

das horas, dos acidentes, dos negócios, dos abraços cheios de um misto de alegria e de nostálgica saudade.

Medo? Que palavra é essa que se mistura à receita do bolo, ao borbulhar do champanhe, ao toque das mãos, palma contra palma, levemente trêmulas?

Streptease singular esse em que o ano velho livra-se das horas, despejando seus últimos bocados na bacia do tempo, íntima entrega sem alarde,ano que se desfaz, sem pedidos de identidade, átomo contra átomo, massa revolvida, emaranhado de prótons e neutros a reinventar o agora.

Diante do espelho, eu queria gritar para este senhor implacável das nossas horas, a cavar no meu rosto, os caminhos sinuosos das minhas rugas.

Queria bradar feito louca um pedido extremo, para que se destravasse a ilusão, para que me fosse dada a alegria de conhecer o destempo, um alegre  destempero do mundo a misturar-se em presente e passado, minha palma contra a palma da minha mãe, minha cabeça sobre o ombro do meu pai, minha irmã a segurar, na sua bolsa predileta, o cadeado das horas, nossos rostos estufados de riso, nossas costas a desencostar-se das quinas do mundo, brisa de infância a sacudir as velhas árvores da memória, minhas filhas, a neta do meu sonho a destapar o caldeirão do futuro, nós todos emaranhados nesse desacontecer,abraçados, adormecidos no silêncio de um mundo limpo e virgem, cheirando a chuva, cheirando a marmeleiro, e o som da enxada do meu pai, exumando o cheiro bom do fundo da terra.

Um dia apenas começado, onde o implacável senhor do tempo tenha se esquecido de contar as horas, invenção de um agora onde a tragédia não se imiscua na nossa festa, onde a infância não seja vulnerável, onde o rio possa fluir, com cheiro de mato, de flor e de barro.

Invenção de futuro onde não haja anos caindo inertes na bacia do tempo, lugares de sonho, lugares onde já não habitem essas duas estacas, a da vida e a da morte a dividir o mar das coisas.

E resvalo para dentro de um sonho improvável, onde vejo minha mãe, a segurar nas mãos um universo bebê, a cortar com energia e doçura, uma espécie de cordão prateado que o prende ao destempo,  gotejante de vida. E no quintal cósmico, vejo meu pai a esforçar-se por arrancar duas pesadas estacas, a da vida e a da morte. E vejo vocês todos a inventar estrelas, como se quisessem tatuar o céu com uma espécie de braille que eu luto por decifrar.

E de repente vejo que Deus acordou. Esfrega os olhos e abre seus braços para o pobre universo faminto que a minha mãe acabou de lavar.

Ouço bater de portas, chuva fina lavando a cidade, e antes que o meu pai arranque a estaca da morte, estou de novo em casa,  e sinto todas as minhas células a recender, com essa saudade de vocês.

(Este post está publicado no Jornal A União, em minha coluna de hoje)

Do Meu Diário Íntimo para Gabi

Você não sabe, mas foi como no meu sonho. Você segurando minha mão, você me conduzindo pela porta leste, seus olhos maravilhados com o brilho das velas, sua voz a espalhar seus pequenos diamantes entre os elementais, cada um disputando aqueles farelos deliciosos de sílabas,grandes espirais do seu riso limpo e cristalino, que você mandou para a lua nova,sem sequer suspeitar da rapinagem que o vento fazia, dos bocados de riso seu que caíam das bordas do espaço.

Fizemos nossa pequena jornada com cuidado, seus pés à frente dos meus, pousando delicadamente no capim cidreira, nos pequenos montes de terra. Desviamos o cume do velho formigueiro e, um passo atrás do seu passo, meu dedão esquerdo foi novamente vítima das formigas guardiãs, desconfiadas do meu esmalte quase sem cor.

Nossa marcha, a desenhar na terra do quintal a trama da nossa dança íntima. E, ao modo dos pequenos tambores, a contar para a terra o segredo do nosso amor.

Você não sabe, mas foi como no meu sonho. Nós duas plantadas junto da pedra da nossa escolha, a suavidade do seu abraço a tecer para mim toda a circularidade da sua ternura, tão íntegra, tão doce, tão plena.

Naquele instante, escutei todas as portas de dentro a se destrancarem, e deixei-me inundar pela tepidez do calor da sua pele, pelo pulsar suave do seu coração,e juro, briguei feio com o vento para guardar só pra mim, o cheiro bom do seu cabelo.

Naquele instante, por arte da chama daquela vela amarela que você escolheu para si, vi toda a delicadeza dos elos que nos ligam.E naquele lugar só nosso, sem relógios nem agendas, com a lua nova a preparar sua carta de intenções de luz, refizemos nossa jura de eterno querer bem,que se renovará, a cada lua nova.

E você sabe, porque não deve haver segredos entre nós, vou lhe contar uma coisa que eu descobri, antes das minhas portas se fecharem para o sono da noite. A lua nova tem inveja de nós!E escuto você, já de dentro do sonho, esfarelando meu segredo com suas palavras sábias inundadas de riso: E nós, você e eu, temos inveja da lua cheia!

Crônica para meu Pai

Venha me ditar a crônica que eu não sei escrever, porque todas as palavras que tenho são pesos mortos para a minha saudade.

Venha sentar-se comigo na  longa mesa de madeira da sala de jantar, a velha bacia de zinco entre nós, pesada das vagens de feijão verde, que iremos debulhando devagar, enquanto você conta seus causos, parando de vez em quando para beber um café da sua térmica azul, recomeçando aquela antiga conversa de vacas bravas e cercas grandes nas fazendas alheias, mesmo enquanto prepara e acende o seu cigarro de fumo.

Debulhado o feijão, não se importe com as rusgas da minha mãe, porque desde que me entendi por gente, foi sempre assim entre vocês. Desamarre a linha do tempo. Vasculhemos juntos no velho baú do quarto da minha mãe, espere enquanto vou  vestir aquele velho macaquito de listras.

Empreste-me sua mão, vamos ao boteco de dona Madalena, porque hoje ela cismou que quer fazer um bolo, e a farinha de trigo que tem em casa não vai dar.

Olhe como a rua ficou bonita lavada da chuva de ontem.

Você não sente o cheiro de antigos trilhos de bonde? É sempre assim, a chuva da noite exumando cheiros de antigamente, como você, cavolcando em seu alforje as históricas lendas do seu tempo de rapaz.

Sim, já tinha me contado sobre a vez em que apanhou uma surra danada do seu pai, intrigas da sua madrasta, só porque furtou uma rapadura da dispensa. Foi dessa vez que você fugiu de casa?

Falando da chuva, olhe ela que vem com vontade, espantando a pelada dos meninos, alisando nossos cabelos, o seu, cheio e curto, o meu, abaixo do ombro. Hoje não vamos correr. Aproveitaremos os salpicos da água, enquanto você me conta dos violeiros, das noitadas alegres à beira do fogo, dos seus olhares de boi manso para as meninas do lugar.

Olhe como a casa está tomada pelo cheiro bom do almoço de domingo. Você não vê como a longa mesa de madeira, agora limpa das cascas do feijão debulhado, resplandecente em sua grossa toalha branca espera por nós?

Depois lhe conto sobre um pensamento tolo que tenho nessa hora em que a minha mãe serve a galinha do almoço de domingo.

Um pensamento tolo de que essa grossa mesa somente deixou de ser árvore para viver esse momento em que os talheres trabalham, velho exercício de limpar os pratos, oração comum em que as nossas bocas rendem sua homenagem aos sabores inventados na cozinha da minha mãe, magia singular somente dela, criando em todos os domingos, um único dia branco, regado a molho pardo, crônica singular, feita somente dos gestos do seu tempo, crônica do seu amor de mãe pela sua família grande.

Venha se sentar comigo no sofá da sala, faça pouco caso desses desenhos animados da televisão,  empreste-me a longa colcha dos retalhos das suas histórias, para o meu sono de depois do almoço de domingo.

Os Gestos da Minha Mãe

As vezes, no meio da manhã, minha mãe lavava os cabelos e depois ia secá-los ao sol. Ali por perto, eu ficava observando o ir e vir do pente grande naqueles cabelos, e, em pensamento, tocava naqueles fios lisos e claros, percorria com dedos da minha imaginação, a onda suave a escorrer cintura abaixo, e me espantava por aquela mulher miúda, mais para gordinha, ter cabelos tão compridos.

Era somente naqueles curtos momentos de sol e de pente que o cabelo dela respirava. Depois de haver secado, ela o prendia num coque alto, e recomeçava sua lida, a preparar a comida para sua família grande, uma família que nem cabia toda na mesa do almoço.

Da onde viria toda a força daquela mulher? Minha mãe era uma mulher estranha. Sorria poucas vezes, mas, quando o fazia, a sua risada inundava a casa inteira.  Nunca disperdiçava nada. Era justa na partilha dos alimentos, assim como na distribuição das broncas.  Na partilha do amor, minha mãe era exata. Os abraços, somente nos momentos de separação, quando queria que levássemos na nossa bagagem interior, o calor fugaz dos seus braços.

Os gestos da minha mãe, era preciso saber apreciá-los por dentro. Nos gestos da minha mãe, a ternura, o carinho, estavam escondidos como jóias raras, que ficavam ali zunindo suavemente, brilhando sem estardalhaço. Como naquele dia em que deixei a minha casa e fui viver a liberdade atropelada e cheia de medo dos meus 25 anos.

Naquela manhã, o cabelo preso, lágrimas a aquecerem seus olhos, ela me disse: “eu não tenho nada pra te dar”, e me entregou uma das suas conchas de alumínio, com que tantas vezes havia mexido o nosso feijão. A concha da minha mãe ainda está comigo. Reproduz em minha casa, a mesma função de quando auxiliava na faina da mão da minha mãe. Você me deu tanta coisa mãe. Foi escondendo seus presentes no mais íntimo de mim, e sempre que penso em você, descubro uma coisa nova que você me deu.

Mas hoje mãe, se me fosse dado tecer no tempo uma ruga, hoje se me fosse dada a chance de recriar um lugar, eu inventaria de novo uma manhã de sexta-feira, plena de sol, e ainda que você brigasse, eu mergulharia meu rosto de menina na onda dos seus cabelos claros.

 

O Natal de Gabi

Gabi, minha neta de nove anos teve um natal tranquilo. Ganhou seus presentes, tocou violino para a família reunida, executando com maestria o clássico “Hoje a Noite é Bela”.

No domingo, 22 de dezembro, conversando comigo, Gabi confessou que somente uma coisa iria faltar no seu natal: Não haveria neve.

Pensamos sobre o assunto e começamos a sonhar juntas. “Só se o mundo desse um giro e a neve da Europa viesse pra cá”, brinquei com ela.

Conversa daqui, conversa dali, começamos a inventar uma estória.

– Quem poderia nos ajudar a girar o mundo?

Gabio olhou pro céu e logo tivemos a ideia de pedir ajuda às nuvens.

Chamamos nuvem-galinha, nuvem-golfinho-com a cauda torta, nuvem-papagaio, nuvem-foca, nuvem-boca de jacaré, nuvem-porco, nuvem-cabeça de cavalo o e explicamos a todas que queríamos neve no natal de Gabi.

As nuvens tremeram, giraram, fugiram. E, naquela corrida desabalada, deixaram uma mensagem para nós: “Somente Nimbus poderia nos ajudar”.

– Nimbus, quem é Ninbus? Perguntei a Gabi.

– é a grande nuvem toda de água, explicou ela, contando que aprendeu isso nos desenhos animados sobre escoteiros.

E mesmo naquele momento, Gabio avistou Nimbus, a grande nuvem cheia de água que faz chover.

Contamos a Nimbus o nosso dilema, massa grande nuvem, pesada como estava, não entendeu direito aquele estranho pedido.

Gabi explicou novamente, olho fito no céu, mirando a grande e gorda Nimbus: – Se não der pra girar o mundo todo, poderia girar somente a parte em que fica nosso prédio. A neve viria pra cá e toda a nossa rua ficaria encantada, e todo mundo sairia de casa, e viria sentir a neve, brincar com a neve…

a grande nuvem pensou, pensou, por fim  salpicou a grama com pequenas gotas das suas sílabas líquidas: “No natal, tudo pode acontecer, inclusive neve no verão”.

Veio a noite de natal, e Gabi, completamente esquecida da sua neve, foi abrindo seus presentes, um por um: Um capacete novo para suas corridas de bicicleta, uma coleção de enfeites de cabelo, um vestido todo florido, livros infantis…

E a neve? Somente eu ainda pensava na nossa deliciosa conversa com as nuvens, somente eu ainda esperava pela vaga promessa de Nimbus, de que o mundo girasse, de que a neve da Europa fizesse plantão na fachada do nosso prédio, espalhasse sua brancura por nossa grama, batucasse no asfalto, sua alegra canção de natal.

Intimamente abri a porta, desci as escadas, pé ante pé, imaginei um asfalto coberto do tapete branco de neve inventei bonecos e bonecos de neve, e depois fundi todos eles num alegre e barrigudo papai Noel.