O Natal Chegou

O natal chegou, e veio rápido, tão rápido que sequer deu tempo da gente se desembaraçar das lembranças do natal passado, do ano passado, e, pasmem, esse ano já é passado também.

O natal chegou, feito um caminhão enfeitado, atrelado dos seus presentes, dos seus slogans, dos seus enfeites, das suas ruas atochadas de gente, correndo de lá pra cá, calculando, comprando, empacotando, esse frenesi de natal que ora nos alegra, ora nos coloca a roer as unhas, com uma saudade esquisita de não se sabe o que.

Eu as vezes fujo dessa correria. Abro de par em par as portas do meu refúgio, escondo-me por trás de alguma quilha de silêncio e palpo as lembranças de natais antigos, natais onde a palavra natal estava envolta numa zona de magia e mistério, enfeitada por uma espécie de teia rendada das nossas crenças infantis, tão vagas e tão doces.

Corro em busca dos natais da minha infância, natais onde não havia presentes, nem ceias grandiosas, nem missa do galo, nem presépios.

Quatro, cinco, seis anos, nossos natais eram cheios de sonhos de infância. Acreditávamos em papai Noel, e, perto da janela da sala, enfileirávamos nossas pequenas chinelas, pensando: “E se o velhinho se atrapalhar? E se ele colocar o presente do meu irmão na minha sandália?

Tagarelices e risadas regavam nossas noites de natal, e prometíamos aguardar a chegada de papai Noel, mas, quem vinha mesmo era o sono, apagando as cortinas da nossa mente, fazendo-nos mergulhar na doçura de sermos pequenos, confiantes, envoltos nos nossos sonhos de natal.

O dia 25 de dezembro chegava como todos os outros, com o sol nascido, aquecendo as pedras, bebendo as gotas de orvalho do mato rasteiro, a passarada saudando a manhã, acordando as casas, a meninada esperando a sua primeira caneca de leite.

Silenciosamente, cada irmão recolhia a sua sandália, e, ao constatar que a mesma estava vazia, ninguém chorava ou batia o pé. No coração, o conforto dos risos e dos sonhos da noite era como um lençol morno, feito todo da ternura de ser criança.

O natal chegou, tão depressa, e não houve tempo sequer para planejar a ceia, comprar todos os presentes, enviar todos os cartões. Chegou e partirá, tão depressa quanto os seus slogans, seus papais Noéis, gordos, vermelhos de riso, desenfastiando as crianças, deixando se fotografar com elas, enquanto o tempo se esvai, implacavelmente rápido.

Em todos os natais, em algum momento da azáfama do dia, fujo para esse meu lugar íntimo, para revisitar aqueles natais. Quase posso tocar na minha chinela infantil, ao pé da janela, ainda fresca da brisa suave da madrugada. Recordo meu próprio riso, e de repente me acode uma leve mágoa, uma tristeza que parece vir de dentro. E logo sei, essa mágoa, essa pequena pontada de tristeza, não vem da infância, mas dos dias que correm.

Minha Mãe e Eu

Não me pergunte o dia, não vou me lembrar, nem o ano, tampouco. Me lembro da tarde, da cena, eu e minha mãe, ao pé do grande rádio de madeira, escutando sabe-se lá qual capítulo da novela Couvades, na rádio Clube de Pernambuco.

Por que me lembro com tanta nitidez daquela cena? Nós duas, uma de frente para a outra, tendo entre nós o rádio grande, as descargas, as intermitências, o beijo soprado entre os personagens centrais da trama?

Como pôde minha mãe parar a faina da casa, e postar-se comigo naquela tarde de sol a pino, para escutar juras de amor em vozes melodiosas, beijos soprados em vagos “ohohohohoh” suspirados?

Não, não me peça, não tenho nenhuma fotografia da cena, senão a imagem na memória, cheia das nossas presenças, do nosso silêncio, da nossa atenção às descargas, às intermitências, aos beijos soprados, às batidas de porta, às músicas, aos comerciais de sabonete Rexona.

Eu e minha mãe, no canto mais nobre da sala de jantar, ali onde se postava o rádio, eu e minha mãe, inteiramente alheias ao bulício da rua, às brigas dos meus irmãos, EU E MINHA MÃE, UNIDAS PELAS ONDAS DO RÁDIO,SOFRENDO AS DORES DAQUELES QUE HABITAVAM AQUELA RÁDIO-NOVELA, SUSPENSAS DA TARDE, DO SOL, AFERRADAS ÀQUELAS VOZES.

Aos meus dezessete anos, chegou lá em casa a primeira televisão. Era grande, também de madeira, como o velho rádio da sala de jantar. Muitas vezes sentei-me ao lado da minha mãe, para assistir à novela “Vejo A Lua no Céu.

E vieram outras novelas. Anjo Mal, Pecado Capital, Mulheres de areia.

Nenhuma delas porém, gravou-se com tanta força na minha memória, como a cena daquela tarde, eu e minha mãe, ao pé do rádio, nossas alegrias, nossa angústia, nosso desespero atados à angústia, às alegrias, ao desespero daqueles personagens dos quais só conhecíamos as vozes.

Tantos anos passados, revejo aquela tarde, e não sei se por artes da minha saudade, não sei se por força do amor, sinto que vivi com minha mãe um raro momento de intimidade, de beleza, de serenidade, um raro momento em que nosso vínculo se me mostrou, como um halo de prata a nos enredar, mãe e filha, irmanadas de modo tão simples e tão profundo, naquele pedaço de tarde, naquele pedaço de sala, onde estávamos só nós, como se numa ilha distante.

Não, você não vai entender se eu não lhe explicar. Naquela tarde, minha mãe foi só minha. Naquela tarde, eu fui só da minha mãe, que os seus outros doze filhos não tinham lugar naquele pedaço de tarde, naquele pedaço de sala, feito ilha distante, ocupada pelos personagens de Couvades, a nos dar notícias das suas dores, suas angústias, suas alegrias.

Nem me lembro como acabou aquele capítulo da novela, nem do momento em que minha mãe desligou o rádio. Só sinto a força de ter estado lá, com ela, naquele lugar em que ela estava toda comigo e eu, encantada de tê-la só para mim.

A Crônica do Destempo

Nos calendários, nas memórias, mais um ano que se acaba, com sua trilha sonora a tocar vorazmente nas máquinas registradoras, o concerto dos minutos, dos dias,

das horas, dos acidentes, dos negócios, dos abraços cheios de um misto de alegria e de nostálgica saudade.

Medo? Que palavra é essa que se mistura à receita do bolo, ao borbulhar do champanhe, ao toque das mãos, palma contra palma, levemente trêmulas?

Streptease singular esse em que o ano velho livra-se das horas, despejando seus últimos bocados na bacia do tempo, íntima entrega sem alarde,ano que se desfaz, sem pedidos de identidade, átomo contra átomo, massa revolvida, emaranhado de prótons e neutros a reinventar o agora.

Diante do espelho, eu queria gritar para este senhor implacável das nossas horas, a cavar no meu rosto, os caminhos sinuosos das minhas rugas.

Queria bradar feito louca um pedido extremo, para que se destravasse a ilusão, para que me fosse dada a alegria de conhecer o destempo, um alegre  destempero do mundo a misturar-se em presente e passado, minha palma contra a palma da minha mãe, minha cabeça sobre o ombro do meu pai, minha irmã a segurar, na sua bolsa predileta, o cadeado das horas, nossos rostos estufados de riso, nossas costas a desencostar-se das quinas do mundo, brisa de infância a sacudir as velhas árvores da memória, minhas filhas, a neta do meu sonho a destapar o caldeirão do futuro, nós todos emaranhados nesse desacontecer,abraçados, adormecidos no silêncio de um mundo limpo e virgem, cheirando a chuva, cheirando a marmeleiro, e o som da enxada do meu pai, exumando o cheiro bom do fundo da terra.

Um dia apenas começado, onde o implacável senhor do tempo tenha se esquecido de contar as horas, invenção de um agora onde a tragédia não se imiscua na nossa festa, onde a infância não seja vulnerável, onde o rio possa fluir, com cheiro de mato, de flor e de barro.

Invenção de futuro onde não haja anos caindo inertes na bacia do tempo, lugares de sonho, lugares onde já não habitem essas duas estacas, a da vida e a da morte a dividir o mar das coisas.

E resvalo para dentro de um sonho improvável, onde vejo minha mãe, a segurar nas mãos um universo bebê, a cortar com energia e doçura, uma espécie de cordão prateado que o prende ao destempo,  gotejante de vida. E no quintal cósmico, vejo meu pai a esforçar-se por arrancar duas pesadas estacas, a da vida e a da morte. E vejo vocês todos a inventar estrelas, como se quisessem tatuar o céu com uma espécie de braille que eu luto por decifrar.

E de repente vejo que Deus acordou. Esfrega os olhos e abre seus braços para o pobre universo faminto que a minha mãe acabou de lavar.

Ouço bater de portas, chuva fina lavando a cidade, e antes que o meu pai arranque a estaca da morte, estou de novo em casa,  e sinto todas as minhas células a recender, com essa saudade de vocês.

(Este post está publicado no Jornal A União, em minha coluna de hoje)

Do Meu Diário Íntimo para Gabi

Você não sabe, mas foi como no meu sonho. Você segurando minha mão, você me conduzindo pela porta leste, seus olhos maravilhados com o brilho das velas, sua voz a espalhar seus pequenos diamantes entre os elementais, cada um disputando aqueles farelos deliciosos de sílabas,grandes espirais do seu riso limpo e cristalino, que você mandou para a lua nova,sem sequer suspeitar da rapinagem que o vento fazia, dos bocados de riso seu que caíam das bordas do espaço.

Fizemos nossa pequena jornada com cuidado, seus pés à frente dos meus, pousando delicadamente no capim cidreira, nos pequenos montes de terra. Desviamos o cume do velho formigueiro e, um passo atrás do seu passo, meu dedão esquerdo foi novamente vítima das formigas guardiãs, desconfiadas do meu esmalte quase sem cor.

Nossa marcha, a desenhar na terra do quintal a trama da nossa dança íntima. E, ao modo dos pequenos tambores, a contar para a terra o segredo do nosso amor.

Você não sabe, mas foi como no meu sonho. Nós duas plantadas junto da pedra da nossa escolha, a suavidade do seu abraço a tecer para mim toda a circularidade da sua ternura, tão íntegra, tão doce, tão plena.

Naquele instante, escutei todas as portas de dentro a se destrancarem, e deixei-me inundar pela tepidez do calor da sua pele, pelo pulsar suave do seu coração,e juro, briguei feio com o vento para guardar só pra mim, o cheiro bom do seu cabelo.

Naquele instante, por arte da chama daquela vela amarela que você escolheu para si, vi toda a delicadeza dos elos que nos ligam.E naquele lugar só nosso, sem relógios nem agendas, com a lua nova a preparar sua carta de intenções de luz, refizemos nossa jura de eterno querer bem,que se renovará, a cada lua nova.

E você sabe, porque não deve haver segredos entre nós, vou lhe contar uma coisa que eu descobri, antes das minhas portas se fecharem para o sono da noite. A lua nova tem inveja de nós!E escuto você, já de dentro do sonho, esfarelando meu segredo com suas palavras sábias inundadas de riso: E nós, você e eu, temos inveja da lua cheia!

Crônica para meu Pai

Venha me ditar a crônica que eu não sei escrever, porque todas as palavras que tenho são pesos mortos para a minha saudade.

Venha sentar-se comigo na  longa mesa de madeira da sala de jantar, a velha bacia de zinco entre nós, pesada das vagens de feijão verde, que iremos debulhando devagar, enquanto você conta seus causos, parando de vez em quando para beber um café da sua térmica azul, recomeçando aquela antiga conversa de vacas bravas e cercas grandes nas fazendas alheias, mesmo enquanto prepara e acende o seu cigarro de fumo.

Debulhado o feijão, não se importe com as rusgas da minha mãe, porque desde que me entendi por gente, foi sempre assim entre vocês. Desamarre a linha do tempo. Vasculhemos juntos no velho baú do quarto da minha mãe, espere enquanto vou  vestir aquele velho macaquito de listras.

Empreste-me sua mão, vamos ao boteco de dona Madalena, porque hoje ela cismou que quer fazer um bolo, e a farinha de trigo que tem em casa não vai dar.

Olhe como a rua ficou bonita lavada da chuva de ontem.

Você não sente o cheiro de antigos trilhos de bonde? É sempre assim, a chuva da noite exumando cheiros de antigamente, como você, cavolcando em seu alforje as históricas lendas do seu tempo de rapaz.

Sim, já tinha me contado sobre a vez em que apanhou uma surra danada do seu pai, intrigas da sua madrasta, só porque furtou uma rapadura da dispensa. Foi dessa vez que você fugiu de casa?

Falando da chuva, olhe ela que vem com vontade, espantando a pelada dos meninos, alisando nossos cabelos, o seu, cheio e curto, o meu, abaixo do ombro. Hoje não vamos correr. Aproveitaremos os salpicos da água, enquanto você me conta dos violeiros, das noitadas alegres à beira do fogo, dos seus olhares de boi manso para as meninas do lugar.

Olhe como a casa está tomada pelo cheiro bom do almoço de domingo. Você não vê como a longa mesa de madeira, agora limpa das cascas do feijão debulhado, resplandecente em sua grossa toalha branca espera por nós?

Depois lhe conto sobre um pensamento tolo que tenho nessa hora em que a minha mãe serve a galinha do almoço de domingo.

Um pensamento tolo de que essa grossa mesa somente deixou de ser árvore para viver esse momento em que os talheres trabalham, velho exercício de limpar os pratos, oração comum em que as nossas bocas rendem sua homenagem aos sabores inventados na cozinha da minha mãe, magia singular somente dela, criando em todos os domingos, um único dia branco, regado a molho pardo, crônica singular, feita somente dos gestos do seu tempo, crônica do seu amor de mãe pela sua família grande.

Venha se sentar comigo no sofá da sala, faça pouco caso desses desenhos animados da televisão,  empreste-me a longa colcha dos retalhos das suas histórias, para o meu sono de depois do almoço de domingo.

Os Gestos da Minha Mãe

As vezes, no meio da manhã, minha mãe lavava os cabelos e depois ia secá-los ao sol. Ali por perto, eu ficava observando o ir e vir do pente grande naqueles cabelos, e, em pensamento, tocava naqueles fios lisos e claros, percorria com dedos da minha imaginação, a onda suave a escorrer cintura abaixo, e me espantava por aquela mulher miúda, mais para gordinha, ter cabelos tão compridos.

Era somente naqueles curtos momentos de sol e de pente que o cabelo dela respirava. Depois de haver secado, ela o prendia num coque alto, e recomeçava sua lida, a preparar a comida para sua família grande, uma família que nem cabia toda na mesa do almoço.

Da onde viria toda a força daquela mulher? Minha mãe era uma mulher estranha. Sorria poucas vezes, mas, quando o fazia, a sua risada inundava a casa inteira.  Nunca disperdiçava nada. Era justa na partilha dos alimentos, assim como na distribuição das broncas.  Na partilha do amor, minha mãe era exata. Os abraços, somente nos momentos de separação, quando queria que levássemos na nossa bagagem interior, o calor fugaz dos seus braços.

Os gestos da minha mãe, era preciso saber apreciá-los por dentro. Nos gestos da minha mãe, a ternura, o carinho, estavam escondidos como jóias raras, que ficavam ali zunindo suavemente, brilhando sem estardalhaço. Como naquele dia em que deixei a minha casa e fui viver a liberdade atropelada e cheia de medo dos meus 25 anos.

Naquela manhã, o cabelo preso, lágrimas a aquecerem seus olhos, ela me disse: “eu não tenho nada pra te dar”, e me entregou uma das suas conchas de alumínio, com que tantas vezes havia mexido o nosso feijão. A concha da minha mãe ainda está comigo. Reproduz em minha casa, a mesma função de quando auxiliava na faina da mão da minha mãe. Você me deu tanta coisa mãe. Foi escondendo seus presentes no mais íntimo de mim, e sempre que penso em você, descubro uma coisa nova que você me deu.

Mas hoje mãe, se me fosse dado tecer no tempo uma ruga, hoje se me fosse dada a chance de recriar um lugar, eu inventaria de novo uma manhã de sexta-feira, plena de sol, e ainda que você brigasse, eu mergulharia meu rosto de menina na onda dos seus cabelos claros.

 

O Natal de Gabi

Gabi, minha neta de nove anos teve um natal tranquilo. Ganhou seus presentes, tocou violino para a família reunida, executando com maestria o clássico “Hoje a Noite é Bela”.

No domingo, 22 de dezembro, conversando comigo, Gabi confessou que somente uma coisa iria faltar no seu natal: Não haveria neve.

Pensamos sobre o assunto e começamos a sonhar juntas. “Só se o mundo desse um giro e a neve da Europa viesse pra cá”, brinquei com ela.

Conversa daqui, conversa dali, começamos a inventar uma estória.

– Quem poderia nos ajudar a girar o mundo?

Gabio olhou pro céu e logo tivemos a ideia de pedir ajuda às nuvens.

Chamamos nuvem-galinha, nuvem-golfinho-com a cauda torta, nuvem-papagaio, nuvem-foca, nuvem-boca de jacaré, nuvem-porco, nuvem-cabeça de cavalo o e explicamos a todas que queríamos neve no natal de Gabi.

As nuvens tremeram, giraram, fugiram. E, naquela corrida desabalada, deixaram uma mensagem para nós: “Somente Nimbus poderia nos ajudar”.

– Nimbus, quem é Ninbus? Perguntei a Gabi.

– é a grande nuvem toda de água, explicou ela, contando que aprendeu isso nos desenhos animados sobre escoteiros.

E mesmo naquele momento, Gabio avistou Nimbus, a grande nuvem cheia de água que faz chover.

Contamos a Nimbus o nosso dilema, massa grande nuvem, pesada como estava, não entendeu direito aquele estranho pedido.

Gabi explicou novamente, olho fito no céu, mirando a grande e gorda Nimbus: – Se não der pra girar o mundo todo, poderia girar somente a parte em que fica nosso prédio. A neve viria pra cá e toda a nossa rua ficaria encantada, e todo mundo sairia de casa, e viria sentir a neve, brincar com a neve…

a grande nuvem pensou, pensou, por fim  salpicou a grama com pequenas gotas das suas sílabas líquidas: “No natal, tudo pode acontecer, inclusive neve no verão”.

Veio a noite de natal, e Gabi, completamente esquecida da sua neve, foi abrindo seus presentes, um por um: Um capacete novo para suas corridas de bicicleta, uma coleção de enfeites de cabelo, um vestido todo florido, livros infantis…

E a neve? Somente eu ainda pensava na nossa deliciosa conversa com as nuvens, somente eu ainda esperava pela vaga promessa de Nimbus, de que o mundo girasse, de que a neve da Europa fizesse plantão na fachada do nosso prédio, espalhasse sua brancura por nossa grama, batucasse no asfalto, sua alegra canção de natal.

Intimamente abri a porta, desci as escadas, pé ante pé, imaginei um asfalto coberto do tapete branco de neve inventei bonecos e bonecos de neve, e depois fundi todos eles num alegre e barrigudo papai Noel.

Dia do Pai

(Este post foi publicado originalmente em www.joanabelarmino.zip.net)

 

 

Domingo, 8 de agosto de 2004,E uma chuva de agosto a batucar suas sílabas na minha janela. experimento de escutar as águas, ruído branco, líquida saudade escorrendo por entre as folhas das árvores, ensaio de beijo a revolver a terra, perto da calçada, onde a lata de refrigerante esquecida, inconscientemente se banha. chuva lá fora, rio

cá de dentro, a revolver outras águas, outro lugar. Um homem sentado e eu ajoelhada a lavar-lhe os pés.

Porque essa lembrança guardada como relíquia antiga, porque agora essa senssação de ter entre as mãos de menina os pés rugosos e sujos de terra, donde os

meus dedos hábeis extraíam o texto do dia, ranhuras, tocos de graveto ressequido, tensão boa de estar amoldado a terra, abrindo covas, semeando, aplainando

o lugar donde viria o broto?

Era a hora morna da tarde em que os pássaros haviam se calado. A hora morna em que no rosto do meu pai, o prazer assistia ao seu siLêncio calmo. Só havia

a fala dos seus pés, a me contar do dia, a me dizer do trabalho duro. A fala dos seus pés, sob a música da água na concha das minhas mãos de criança, decifração

de uma ternura que não se metamorfoseava em frases decoradas, em gestos medidos; decifração de uma ternura que se engendrava em cada gesto nascido do agora,

do momento de estarmos ali, sob a cúpula da cena sagrada em que de joelhos, eu lavava os pés do meu pai.

E a chuva calma que brota agora dos meus olhos, é um canto de agradecimento por todas aquelas tardes em que eu e o meu pai, sem o saber, nos entregamos

a essa ternura composta de terra e água, mãos e pés, e umprofundo respeito pela vida!

 

Jantar a Doiis

(Este post foi publicado originalmente em www.joanabelarmino.zip.net)

 

 

Sentada, sozinha, na minha sala de jantar, comia satisfeita minhas adoráveis rodelas de inhame com peito de frango assado, quando de repente ele veio sem aviso, vestido de distância,e como quem pega ao acaso um pedaço de pão, recomeçou aquela nossa conversa de tanto tempo, conversa banal, na mesa da sala da sua casa, as frases agora adoçadas por uma saudade que não havia antes.

Meu pai adorava peito de frango assado.   Na partilha da galinha de domingo, num gesto mecânico, minha mãe separava a parte dele e ali naquela mesa cheia de gente ávida por molho pardo, cumpria-se o rito sagrado de honra ao senhor do trabalho, a saborear seu naco de carne e a nos contar suas histórias de terras.

Silenciosa, minha mãe deslindava com maestria o dicionário das nossas preferências. Para mim, o fígado, a entre-coxa, e, se possível, uma asinha. A moela era de Manuel e, para todos, a silabaria comum da rega do molho pardo.

No meu prato raso de porcelana clara, cortei e comi devagar as três fatias de peito de frango assado,  rindo com meu pai, escutando o som da sua conversa, sentindo o brilho do seu sorriso, tudo como música de fundo para o meu jantar a dois,  na minha mesa de quatro lugares.

Naqueles poucos minutos quentes, cheios de sons encantados, desenrolamos a nossa vida, desenredamos a cortina das lembranças, pejadas de um vago esquecimento.

Filhos indo embora, filhos casando, a casa ficando maior. E sempre a se cumprir, aquela promessa do peito de frango no almoço de domingo.

Até que um dia… Regamos nossas lágrimas com canja de galinha, numa mesa tão comprida, tão despovoada das suas facas de trinchar.

Fiquei junto do meu pai, e naquela hora não dissemos nada, mas cada um, do seu jeito, acalentou o coração do outro.

Mas eu sabia, meu pai agora tecia já o lençol comprido da sua solidão,  e sequer se importava com a inutilidade do seu tempo, a recolher do mundo todas as suas histórias.

Limpei a boca com o guardanapo de papel, e quase que senti, aquele peteleco divertido que ele me dava na orelha. Sorriu para mim, seu riso orgulhoso de menino antigo e voltou para o seu lugar de bruma, onde sei que é feliz.

a Essência do “Farninzim”

(Este post foi publicado originalmente em www.joanabelarmino.zip.net)

 

As vezes, no meio da tarde, minha mãe soltava uma de suas frases históricas, enquanto varria com virulência os ciscos da nossa infância. As frases não tinham

nada de retórica; pequenos queixumes embrulhados em poucas palavras; O mais importante naquela pequena trouxa de pronomes, adjetivos e verbos eram os achados

da sua língua materna, que certamente nunca foram arrolados por qualquer dicionário, antiguidades de uma semântica tão rara quanto a velha porcelana guardada

no fundo do armário, lembrança de uma bisavó caprichosa.

Varria pedaços de pão, farelos de rapadura e dizia: “Eu hoje amanheci com um farninzim…”

A frase ficava reboando no meu espírito como um velho trovão que a chuva houvesse esquecido a rolar pelo céu, órfão do seu relâmpago matriz. Farninzim. Sopesava

aquela palavra como se ela fosse um pedaço de bolo de chocolate, uma banana a que eu fosse tirando a casca devagar, sentindo-lhe o cheiro, conferindo-lhe

as membranas, adivinhando-lhe a semente pouco firme no fundo.

Chuva passageira, infância corredeira. caixotinho que houvesse no cérebro para guardar coisinhas miúdas, para lá ia o achado semântico, envolto em seu nicho de pontuações vagarosas, ruído de vassoura varredeira, cheiro de tarde preguiçenta.

Somente hoje descobri a essência do farninzim. Eu tinha plantado a noite do sábado no centro de uma dose de vodka; vodka, limão, gelo e a noite foi ficando redonda,

sem ser laranja, sendo esfera, sendo circularidades bailando e embalando as

 

serpentes que viriam enrroscar-se no meu domingo.

De manhã o sol já havia rebentado a crosta do mundo. Destapei o pequeno caixote, farrapos de sílabas saltando em círculos, sendo já palavras, sendo já frase velha e íntegra, com todo seu envoltório próprio. “Hoje eu amanheci com um farninzim…”