Vou de Táxi

– Tem bala de café, de menta, de mel, de iogurte. Quer de que?

Não, não estou descrevendo uma cena de um boteco ou de uma loja de doces. Estou falando do táxi do seu Francisco, de número 2822, que de vez em quando me conduz ao meu destino de todos os dias, o centro de Comunicação, Turismo e Artes da UFPB.

Vou de táxi, quase todos os dias, e aprendo com esses fiéis companheiros de viagem, sobre como eles veem a cidade, a política brasileira, a insegurança, a violência, os pequenos dramas e alegrias das suas famílias que as vezes compartilham comigo.

O táxi do sr Francisco, que ele dirige a 22 anos, não tem somente as balas. Tem também um porta-revistas, que ele abastece com produções de João Pessoa, como a revista Acrópole, ao lado de revistas como a Época, e outras revistas nacionais de entretenimento.

– Compro cerca de cinco quilos de balas ao mês, me conta ele, enquanto cruzamos o portão principal da universidade.

– E tem valido a pena, pergunto.

O sr Francisco conta que tudo começou quando uma criança entrou chorando no táxi, e a mãe, pra consolá-lo, prometeu balas. Ele então pensou que seria um diferencial, ter balas no carro para acalmar as birras infantis. Na verdade, as balas são uma gentileza para todos, adultos e crianças.

De gentileza em gentileza, vieram as revistas. – Gosto de ter coisa para distrair os clientes, sobretudo se a corrida é longa, diz ele, com uma ponta de orgulho.

E sonha com algo mais, enquanto cruza ruas, espera nos engarrafamentos, dobra esquinas. O sr francisco acha que o táxi poderia ser muito mais do que um mero transporte privado de passageiros.

– Nós poderíamos também incentivar a leitura, diz ele. Os editores podiam fazer parceria com a gente. Podíamos andar com livros no carro. Os passageiros, só por verem livros em um táxi, iam aprender a gostar de ler.

Estava ali, abrindo a porta do táxi para mim, um homem simples, de estatura mediana, um homem que pensa para além do seu veículo de quatro rodas, das suas corridas, do dinheiro amealhado ao final do mês.

Estava ali, um ser humano valorizando seus iguais e pensando em tornar o seu táxi, um veículo a serviço da educação, da leitura, do bem-estar e da criatividade.

O táxi do sr Francisco não é só mais um no meio dos mais de três mil veículos que rodam pelas ruas de João Pessoa. O táxi do sr Francisco não transporta apenas passageiros. Carrega os seus sonhos, alguns deles, travestidos em pequenos doces embrulhados em papel colorido.O sr Francisco porém, sonha mais alto e mais longe. Na sua simplicidade, sonha com leitores de livros, dentro do seu táxi, desbravando as esquinas imprevisíveis da cultura.

Esta coluna foi publicada hoje também no impresso Jornal A União.

Cochichos de Deus

Posso dizer que nossa Páscoa começou na sexta-feira pela manhã, quando eu, Mayra e Gabriela, mochilas às costas, embarcamos rumo à Aldeia, em Camaragibe, Pe, para o retiro de ioga na pousada Meteora.

A proposta era nos desapegarmos do mundo cotidiano, dos perfis e das senhas, para nos reintegrarmos com a natureza, meditarmos, escutar as lições dos mestres e dos santos, cantar e comungar a alegria genuína e sem artifícios, dizer coisa nenhuma, com a boca cheia de sorrisos e de jambos.

Foi assim. E foi mais. Habitamos um mundo paralelo, escutamos o vento a desfiar sua poética por entre as árvores e a fina poeira das folhas secas.

Escutamos o chamado dos pássaros, vimos a lua antes do sol acordar, desafiamos os nós do nosso corpo, na grama cheirosa, enquanto as cigarras cantavam e riam de nós.

Meditamos. Permiti que a estrada me habitasse, contaminasse as minhas células do anseio da partida. Saí de mim e vaguei pela terra, feito inseto, feito planta, feito bicho do mato. Ergui-me de um salto e já não tinha nome, senão um ponto no oceano, a encharcar-me de vida.

E meditamos mais, inventando bolas azuis, amarelas, violetas, rosas, sendo as bolas de Deus as mais engraçadas, feitas do mais tolo material que há, bolas de sucata, lixo cósmico reciclado, a embaterem em minha cabeça, minhas bochechas, bolas grandes e pequenas, feitas da pura graça do ser.

Abracei-me à uma árvore velha, que em sua meditação, contou-me das viagens que faz, entre a alquimia do ser e do não-ser, na corda bamba dos longos intervalos entre vento e silêncio, em que a palavra urdida não se diz, senão como um mantra criador.

A velha árvore me contou dos cochichos de Deus, das suas longas gargalhadas, da gritaria que faz quando precisa de concreto para inventar seus novos mundos.

Na última noite, uma cerimônia para nossos ancestrais. Invoquei os índios, os negros, os celtas. Nosso pequeno mundo era simplesmente grande, feito somente de um pouco de lua, na terra, nossa pequena fogueira e um círculo de mentes acordadas, vigiando o agora. Naquela noite conheci meu nome índio, tecido como um mantra que desce a corredeira e se perde na água.

Regressamos ontem. Encontramos o mesmo mundo fraturado, com seus acidentes, suas depressões, suas montanhas de entulhos, sua guerra de egos, seus aparteids, sua intolerância.

Descobri que regressar é ficar um pouco lá, numa estranha coreografia de tentar equilibrar essas duas esferas, de trazer para o mundo de cá, o cuidado e a delicadeza, para a ancoragem de alguma alegria, alguma serenidade, paz.

 

Cronica para o Rio amazonas

 

 

Que queres que te diga? Fomos escutar o rio,  aquele caudal discursivo de milhares de quilômetros, fala líquida e universal, ora calma, ora encapelada, a bramir sua força, a desdobrar sua multiplicidade de cheiros, cheiros inventados entre o limo e a terra, cheiros de vida e de morte, entrecruzadas.

Depois, no Forte de São José, que deveria se chamar Forte dos Negros, tocamos na pedra desbastada enquanto no meu íntimo, encenou-se novamente o tear da morte, vida despedaçando-se naquelas altitudes, quando tudo ainda era força de mão de obra, suor e sangue.

E ali, perto da floresta que não pudemos ir visitar, teci no meu coração, um refúgio de floresta outra,  onde houvesse grama verde e cheirosa, e onde o rio ainda pudesse entoar para mim, uma canção de ninar.

Neno, Nena e muito mais

Amanhece em Bitinguí e os pássaros daqui têm uma alegria desmedida. O mar, orlado pelo coqueiral, inventa sua eternidade, ondas a se desmancharem, brincando de enrugar e alisar a terra.

Abro a portada da varanda e não há notícias do frenesi  de cidade grande, apenas o povoado acordando para o sol, para a pesca, a faina de cada um, simplesmente amanhecem em Bitinguí e sei que o dia seguirá seu curso, sem pressa.

Se eu pudesse me dar o tempo de aprender sobre esse pedaço de mar quase esquecido, protegido pelo renque dos coqueiros, seu eu pudesse me dar os dias de caminhar por essa pequena faixa de terra, para decifrar suas rugosidades, seus aplainamentos, suas folhas secas, eu ficava aqui.

Ficava aqui para assistir ao dia começado de Neno e Nena, tocando a pousada Lua Cheia. Ela, pequena, falar suave, as palavras tecidas com uma antiguidade menineira guardada numa mulher cujas mãos estão sempre a tecer e destecer o manto do cuidado, do arranjo, da gentileza  e generosidade.

Neno, econômico no falar, seu mundo construído por ele mesmo, determinação e simplicidade sendo a argamassa melhor da sua obra.

Foi Nena que chamou a pousada de Lua Cheia. E a cada quarto deu um nome ligado à lua. Estou no Lua Nascente, bem ao pé do dia amanhecido, ao final do corredor.

Fico assistindo aos retalhos da manhã. A alegria dos bentevis, um grilo esquecido de que já é dia, a martelar o concerto das aves. Não sei se é Neno ou Nena que varre sem pressa as folhas de ontem.

Não, queridos leitores, essa não é uma invenção da minha escrita, tão pobre ela é para traçar as margens, a simplicidade e a beleza de Bitinguí.

Bitinguí, Neno, Nena, o mar todo entregue somente para quem chegar, isso tudo existe de verdade, em Japaratinga, alagoas.

Você chega e Nena lhe entrega a chave do quarto. Lua Nova, Lua Minguante, Lua nascente… Nena lhe entrega a pousada Lua Cheia, esse pequeno edifício plantado na linha dos coqueiros, e de presente, Nena lhe aponta a praia, indica o caminho por onde ir, desviando você dos buracos, sem falar nada, que palavras aqui não são necessárias, Nena lhe entrega o mar, e ele é todo seu, quase como um amigo íntimo, a quem você não precisa contar nada, mas apenas deixar-se lavar por essa água morna de fim de dia.

Não tenho nenhuma fotografia, somente as mãos e a alma imundas de encantamento, por Bitinguí, sua paz, suas horas cheias de vento e silêncio, a alegria dos bentevis, seu cheiro de mar e de mato, a faina de Neno e Nena,  a cuidarem desse lugar de conto de fada, encravado nesse pequeno recanto de mundo. Esse lugar existe e nos ensina sobre outro ritmo, outro modo de caminhar, sem pressa, parando aqui e ali, para escutar o dia, os pássaros, o silêncio, tingido da música do mar.