Livros Revistas e Rostos de Família: A Tecnologia Cria Pontes entre Visão e Cigueira

Estou no mundo há  mais de cinquenta anos, mas somente ontem, pela primeira vez, pude pegar minha neta Gabi pelo braço, e rumar para uma banca de revistas na Feirinha de Tambaú. Nos abastecemos de revistas. Ela comprou aquelas de que mais gosta: revistas de kpop famosos. Eu peguei “Carta Capital”, “Super Interessante” e uma revista vegetariana.

Detalhe fundamental, eu sou cega de nascença. Saímos de lá com nossa sacola e rumamos ao Café Empório, para nos abastecermos de lanche. Eu fiquei pensando na vendedora da banca de revistas. Nas perguntas íntimas que ela deve ter formulado: “Quem vai ler pra ela”? “Por que uma pessoa cega gasta com revistas”?

Sou jornalista. Professora universitária. É natural eu possuir revistas. Mas, de fato, para que compra-las se não as posso ler?

Vai aqui um aviso aos navegantes: Pessoas cegas já podem ler revistas impressas, jornais e livros feitos para pessoas que enxergam. Compramos as revistas, comemos nosso lanche perfeito no Café Empório e viemos para casa. Me sentei no sofá, e pela primeira vez na minha vida, comecei a ler Carta Capital, depois explorei Super Interessante, e ainda tenho para a semana, minha revista vegetariana.

Você há de me perguntar, e como foi isso? Voltou a enxergar? Não, nada de magia. Mas lhe digo que para que uma pessoa cega leia revistas impressas, do jeito que saíram das bancas, exige dinheiro, uma quantia razoável; exige um pouco de treino para focar, mirar o conteúdo. Exige que você possua um #OrcamMyEye, um óculos inteligente, servido por uma mini câmera, que lê pra você, de forma instantânea, conteúdos impressos.

#OrcamMyEye faz mais: identifica cores, cédulas em papel, rostos previamente memorizados, conteúdos de embalagens, placas e avisos.

Eu diria que se trata de um dos produtos que lhe entrega uma espécie de visão mediada ou indireta. Lhe dá autonomia para fazer coisas que antes você tinha de pedir aos outros.Abre janelas, coloca você dentro de cenários que antes lhes eram interditos.

O mundo caminha a passos largos no capítulo da internet das coisas. Um óculos não é mais um instrumento inanimado, servindo apenas para proteger seus olhos do sol. Um óculos, agora, não é somente uma lente para auxiliar uma pessoa idosa que está perdendo a visão. Um óculos, pode sim, ser um competente óculos de leitura para pessoas completamente cegas.

O meu #OrcamMyEye chegou no início da semana. Fiquei apreensiva. Será que vou conseguir fazer algo que preste com essa coisa? Intuitivo, de fácil manuseio, #OrcamMyEye é surpreendente.

Até o início desta semana, eu somente podia cheirar os livros que comprava. Somente podia me deliciar com o cheiro de novidade das revistas impressas. Agora meus livros e minhas revistas deixaram de ser objetos de culto olfativo. Posso ler cada um deles, munida com meu #OrcamMyEye.

#OrcamMyEye me conta coisas sobre Gabi: Me contou hoje que ela está usando uma camiseta Puma de cor preta.

 

 

 

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Os Cidadãos de Bem Estão na Rússia

O Brasil midiático está envergonhado com as peraltices dos brasileiros com as mulheres russas. Sim, toda indignação é pouca para essa bandalheira. Entretanto, eu tenho aqui um rol de observações incômodas a serem feitas para mídia brasileira.

Senão vejamos: Recordam-se da abertura da Copa do Mundo em 2014, quando a presidenta Dilma Rousseff foi veementemente ofendida por um bando ruidoso de torcedores, que em alto e bom som, mandavam que ela fosse tomar ali onde não pode ser escrito?

Não duvido nada que alguns desses espécimes, brancos, endinheirados, também foram para a Rússia, levando na bagagem o seu machismo, a sua educação de quinta categoria, o seu smartphone de alta resolução, para causar com as garotas russas.

Pois bem, no episódio de 2014, ficou o dito pelo não dito. A imprensa falou pouquíssimo sobre o episódio, e não duvido que alguns âncoras até tenham se regozijado, pois vivia-se o terrível clima pré-eleitoral.

A mais alta autoridade do país, diante de inúmeros estadistas estrangeiros, sendo literalmente mandada a tomar onde não pode ser escrito, e tudo depois sendo tratado como peraltice, como brincadeirinha de jovens rebeldes. A grande mídia, esta senhora conveniente, fez cara de pouco caso e desprezou o tema, apesar do seu alto valor de noticiabilidade, da forte capacidade de indignação que a cena continha.

Por que agora todo esse espanto para os episódios da Rússia? A mídia não reconhece esse tipo de gente? Não identifica a formação do seu DNA, naquilo que há de pior na cultura brasileira, perpetuado e reforçado por uma flagrante falta de impunidade? A mídia Vende a ideia de que o povo brasileiro é simpático, acolhedor, gentil. Oi? E então o episódio de 2014? E as lamentáveis cenas de mulheres sendo violentadas para que depois se exponha tudo com todas as cores bizarras nas redes sociais? Pior, gente! E os ancoras de tv que desancam impunemente as mulheres, destilando misoginia e machismo, de maneira impune, com louvação inclusive de grandes levas de comentaristas de ocasião?

E no parlamento, então a mídia não se indigna com esses senhores de paletó e mandato, fazendo apologia ao estupro e à degradação da mulher?

Pois bem, senhora grande mídia, apresento-lhe o que há de pior na cultura brasileira, essa massa cheirosa que gasta muito dinheiro e resfolega, tanto aqui como lá, sobre as noções mínimas de boa educação e de respeito, para mostrar-se  como realmente é, machista, misógina, porque nem nada nem ninguém pode atrapalhar sua brincadeirinha. São da mesma leva daqueles meninos do plano piloto, lembra-se, senhora grande mídia. Aqueles meninos só queriam brincar, quando acenderam, e levaram à morte, até as últimas células, o índio pataxó que dormia na calçada.

Esse povo vive aqui, senhora grande mídia, e tanto aqui como lá, eles só querem brincar. E se algo der errado, o manto protetor da lei os há de proteger.

 

A “Tropa de Choque Perdeu”

Eu poderia dizer tanta coisa sobre o julgamento do recurso do Ex Presidente Lula, ocorrido no TRF 4, na última quarta-feira! As impressões como que se atropelam, numa espécie de fila desordenada, como aquelas da vacina da febre amarela. Falar do rito da justiça é um tanto arriscado para uma pessoa leiga no tema como eu. Ouvi os três votos, alternando entre atenção máxima e mínima.

Antes escutara as sustentações orais e fiquei assustada com a fragilidade das mesmas, ao mesmo tempo impressionada com a clareza da sustentação do advogado de defesa de Lula, Cristiano Zanin Martins.

Sobre os votos, devo dizer que todos continham uma mensagem clara: Ali os julgadores disseram: “Aqui é o meu palco, aqui posso transformar indícios em prova verdadeira, aqui, fiel aos autos do processo e à sentença sapiente da primeira instância, posso confirmar a culpa e o crime”.

A verdade é que havia excessos de recados naqueles votos. Os juízes estavam indignados com a pressão popular sofrida, e mesmo dentro do voto, era preciso enquadrar aquela gente, dar-lhe um epíteto mais adequado, chamando pois as manifestações populares de “tropa de choque”, que juiz que se preza e que sabe que está sendo visto e ouvido por todo o país, tem de falar com linguagem clara e cirúrgica.

O voto de cada um tinha também de tipificar o crime cometido pelo ex presidente. Mais que isso, era preciso caracterizar a personalidade e a trajetória do proprietário do tríplex do Guarujá. Então era recorrer ao vasto manancial da narrativa instituída acerca do mensalão, cuja síntese mais brilhante fora feita em um power point que precisava ser confirmado naquela espetacular sessão. Nem houve muito esforço para retomar a narrativa, e assim auxiliar a mídia em recuperar sua fábula predileta, a qual tinha perdido força com os escândalos recentes: Malas de Geddel, de Rodrigo Loures, propina para Serra e Aécio, essa também em malas carregadas por seu primo.

De fato,  ao revalidar os termos do power pointe do procurador Dallagnol, os juízes do TRF4 revificaram a narrativa midiática: Lula chefe da quadrilha, servindo-se da Petrobrás para constituir um polo de poder para o partido dos trabalhadores.

O recado mais claro a ser depreendido dos três a zero, é o de que nesse caso, a justiça assumiu claramente o lado do capital, do mercado financeiro, do governo interino e do seu parlamento sórdido. Ignorou a mobilização popular, cerrou portões aos brados do que chamou de “tropa de choque” a segurar com unhas e dentes, os vagos contornos de uma democracia em ruínas.

E aqui uma última impressão: A vitória maior desse espetáculo foi alcançada pela mídia comercial. É a mídia que sintetiza o script e o desenrolar da agenda dos próximos acontecimentos. Até agosto, julgados alguns recursos da defesa, Lula será enquadrado na Lei da Ficha Limpa. Mas a mídia sabe que um líder de massas não se destrói facilmente. Como numa série espetacular, os outros processos de Lula serão julgados, mantendo acesa a chama do espetáculo telenovelesco que dá tanta audiência. A sociedade perdeu, e já não se poderá sonhar, a médio prazo, com um outro governo popular e democrático. O judiciário, a mídia, todos trabalharão para que o líder de massas não suba mais à rampa do Planalto. “Com o supremo, com tudo”, como vaticinara o senador Romero Jucá.

No horizonte, já se vê a nova onda de ódio, que se espalhará pelas vias e praças do país, que já vocifera na cibervia, com os mais de cinquenta tons da estupidez humana.

Ler em Braille: Um Gesto Fundador da Cultura do Relevo

Após a inauguração da imprensa braille do Jornal A União, alguns amigos me perguntam se este não seria um projeto obsoleto, na medida em que há hoje uma grande ecologia de aplicativos que permitem às pessoas cegas acessar conteúdo online, nas telas de smartphones e de celulares.

Como pessoa cega, aferrada ao mundo da escrita, como pessoa que sempre leu e escreveu em braille, como pessoa que dedicou seus anos de doutorado a pesquisar as potencialidades do braille, ou, por assim dizer, a força do relevo dentro da cultura da escrita, preciso dar resposta a esse debate, para que se compreenda a importância desse encarte em relevo que agora A União entregará às pessoas cegas da Paraíba.

O método de leitura e escrita das pessoas cegas foi inventado e divulgado pela primeira vez, em 1929, quando o jovem cego francês, Luís Braille deu a conhecer o seu invento para os franceses do seu tempo. Cem anos depois, o método era reconhecido e se expandia pela maior parte dos países do mundo. Mas estava confinado às instituições dedicadas à educação dos cegos. Não era plenamente reconhecido na cultura social em geral, não aparecia em rótulos, roupas, tampouco era disseminado como meio de leitura direta pelo mercado editorial.

Os inventos das últimas décadas do século XX, deram novo impulso à expansão do braille. Sistemas informáticos incorporaram fontes braille em seus aplicativos de escrita, suprimentos como impressoras braille de custos menos elevados foram criadas. Display braille para leitura do braille em direto, por conexão USB com computadores, ou via bluetooth com smartphones, permitiram que o braille tomasse acento privilegiado na esfera tecnológica.

A Indústria farmacêutica, em larga maioria, incorporou informação braille em suas embalagens, assim como alguns empreendimentos de cosméticos e de alimentos.

As cidades do mundo estão atravessadas por coisas escritas. Cartazes, letreiros, placas, panfletos, propaganda de toda ordem para leitura direta por quem enxerga. O braille, por sua vez, virou artefato de luxo, que só pode ser consumido ou nos livros didáticos, que nem sempre chegam na hora certa, ou por pessoas privilegiadas que podem consumir novos produtos como os displays braille e smartphones de alta performance.

Por isso o gesto de A União em Braille é tão importante. Ler em braille, em pleno século XXI, é valorizar o gesto fundador de Luís Braille. Mais que isso, é dar visibilidade e relevo a uma coletividade que se afirma nesse gesto fundador de tocar as palavras, decifrar as combinações e associações de pontos, coletividade esta que em geral é esquecida em meio à montanha de publicações em tinta que povoam a cultura do texto e da escrita.

É possível que num futuro, uma pessoa cega chegue num stand e compre o seu magazine predileto no formato que desejar: Braille, áudio ou PDF.

Aqui mesmo na Paraíba, a FUNAD está lutando para que contas de água e energia sejam impressas em braille, com código de barra, para que a pessoa cega tenha autonomia para ver o seu consumo e quitar seu débito.

O gesto de tocar as palavras com a polpa do dedo só será suprimido da cultura, quando não mais houver pessoas cegas no mundo. Então, ler em braille, em papel, por uma pessoa cega, é um gesto de reconhecimento e de cidadania.

 

As Coisas do Arco do Velho

O velho Temer não tem medidas para a implementação do seu projeto de recuo do país a um estado anterior ao tempo em que ele ainda era jovem, a pobreza e a desigualdade só cabiam em discursos de alguns religiosos progressistas, a política era realizada por senhores oligarcas, negociantes de café, de ouro, e da agropecuária.

O estado brasileiro na era Temer, vai ficar tão pequeno, ao ponto de caber num fusca. O apequenamento começa com a chamada “Pec do fim do mundo”, congelando os gastos primários por vinte anos, e prossegue com avidez nos processos de privatização, nos cortes brutais dos orçamentos da saúde, da educação, da ciência e tecnologia.

No país do velho Temer, a reforma trabalhista só tem a retórica de que é uma legislação moderna. Dissolvem-se as estruturas clássicas de proteção dos trabalhadores, é bem verdade, mas  eles, num passe de mágica, convertem-se em vendedores de horas. Os horalistas, transitando de empresa em empresa, ofertando horas de fim de semana em quiosques ou postos voláteis de trabalho, porque a chamada indústria nacional também deixará de existir, subsumida em grandes fusões mundiais do capital global.

Não têm medida, as coisas do arco do velho. Extinção da cultura, desmantelamento das políticas públicas de comunicação, facilitação da prática do trabalho escravo, essa terrível praga que por tanto tempo empestou a América Latina, e que no Brasil, demorou muito mais do que em qualquer lugar para ser abolida.

Com a boca cheia de mesóclises, avança sobre os planos de saúde dos mais velhos, permite os aumentos de gás de cozinha e combustíveis, extingue as farmácias poulares e corta medicamentos de alto custo para doenças raras.

Como um velho trem desgovernado, o país segue em marcha ré, aos arrancos, recuando a um tempo em que a política se fazia à base do compadrio, doapadrinhamento, da constituição de um grupelho minoritário orbitando em torno de privilégios, troca de favores, subordinação da maquinaria do estado aos seus interesses.

De vice presidente decorativo a desmantelador da república, o velho Temer demonstra uma coragem inflexível para fazer o que tem de ser feito. Pouco lhe importam os menos de três por cento de popularidade, aferrado ao seu posto de destruidor de um projeto de Brasil democrático,  vai manejando as forças que o apoiam, vai torcendo a manivela do tempo, para trás, sempre para trás, na reconquista de um país antigo, subordinado ao capital estrangeiro, entregando suas comodities à exploração mundial.

No país velho onde Temer governa, não cabem as descobertas científicas do beneficiamento de urânio, ou a participação da física paraibana no experimento do século: A captação da explosão entre duas estrelas de newtron, ocorrida há mais de cento e trinta milhões de anos e que somente agora pôde ser observada.

No velho país onde Temer governa, o arco estreita-se sempre para trás, enquanto ele e a sua força de apoio comemoram seus feitos em jantares palacianos, entregando à população um cinismo sem medidas.

Entre Capas e Manchetes: O “Pacto de Sangue” da Rede Globo

Mal terminava na última quarta-feira, o depoimento do ex-ministro Palocci ao juiz Moro, e o advogado que cuida da sua delação ofertou à imprensa as deixas principais que fariam parte das edições da noite. Com ímpeto renovado, o Sistema Globo de Comunicações deu curso à sua cobertura de guerra contra o ex-presidente Lula, seguida no mesmo tom, por todos os outros sistemas comerciais privados.

Antes de qualquer coisa, permitam-me fazer uma declaração importante. Não habito o planeta daqueles que julgam que o ex-presidente Lula não haja mergulhado na estrutura política herdada dos governos FHC, na qual o voto popular é somente um ingrediente fraco na luta pela democracia. Interesses empresariais sempre estiveram à frente da política, e, infelizmente, sobretudo em candidaturas de coalisão, compram antecipadamente os mandatos para os quais candidamente, milhões de votos são depositados em urnas. Aconteceu assim também com os governos do PT, ainda que tenham sido estes que criaram as condições para que se fortalecessem, o Ministério Público e a Polícia Federal.

As duras lições que se tiram desses últimos dois dias frenéticos, entretanto, são as mesmas com as quais venho trabalhando ao longo desses últimos dois anos, em muitas das minhas colunas. O sistema Globo de Comunicações tem atuado com determinação no sentido de destruir a figura política do ex-presidente, pondo a serviço dessa empreitada, o melhor das suas estratégias: Tematização, onipresença e ubiquidade do tema da criminalização de Lula em todos os seus programas políticos. Editoração de capas, com publicidade subliminar de reforço ao tema, efeito enciclopédico para “recordar” à sua audiência,  passagens antigas do enredo jurídico/midiático que já trouxe a república à uma situação insustentável.

No sistema Globo, pratica-se o que eles chamam de “bom jornalismo”, que assim que é divulgado, encontra uma chuva de críticas nas redes sociais e na imprensa independente, que evidencia as marcas grosseiras da manipulação, da edição e de uma cobertura orientada para a destruição do Partido dos Trabalhadores e do seu líder maior.

E, para não ser injusta, o certo é que os outros sistemas comerciais privados seguem como mansos cordeirinhos, o mesmo diapasão da cobertura encabeçada pela rede Globo. A mídia, é bem verdade, fez um “pacto de sangue” com o empresariado, com o mercado e com o judiciário, para implodir de vez a liderança de Lula.

Esse pacto ora recrudesce, ora é retomado em todo o seu vigor. Nos últimos dias agudizaram-se sobremaneira essas estratégias.  Lula voltou a ter centralidade na grande mídia, com manchetes de uma virulência corrosiva e devastadora, e com atuação sincronizada da tv, do rádio, dos portais e do cinema, que em todo o país, estreou hoje, o polêmico filme monotemático, “Polícia Federal, A Lei é para Todos”, onde o enredo conhecido vem sendo despejado há anos na cabeça da audiência dos telejornais da Globo.

O enredo telenovelesco já dura mais de treze anos, e sempre que algo sacode a república em seus alicerces, e ameaça as instituições e sua vasta sacola de adjetivações, honorabilidade, respeitabilidade, imparcialidade, ética e moral irrestrita, sempre que a lama dos palácios ameaça apresentar-se em toda a sua sujeira, e ainda que fortunas escusas jorrem de malas e caixas, assaca-se novamente o tema central, Lula e o quadrilhão do Pt.

É a velha fórmula de sucesso, arrumando em manchetes editadas, a antiga luta entre o bem e o mal. É o velho esquema a exibir um diagrama perverso, que se vende como “bom jornalismo”, mas, infelizmente, só nos apresenta o cadáver decrépito da imprensa brasileira.

E antes que comecem a me chamar de “petralha comunista”, façam um pequeno exercício: Comparem as coberturas: O que se disse sobre a denúncia feita por Janot sobre Serra: E os milhões de Aécio, como foram cobertos? O silêncio de Gedell, a estranha prisão de Eduardo Cunha, como é a cobertura da mídia sobre esses fatos?

Em política, os santos são bem raros. Olhemos porém, para a lista dos demônios da rede Globo, quase todos eles são vermelhos.

 

(Com pequenos ajustes, este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do #JornalAUniao)

Entre Vidraças Quebradas, Lágrimas por um País Desmontado

As manchetes midiáticasdesse meio de semana, rasas, superficiais, em alto volume, dão conta de vidraças quebradas, furtos, focos de incêndio, ministérios evacuados às pressas, servidores públicos amedrontados e perplexos.

Não, não vou aplaudir esses episódios, tampouco quero explorar as suas nefastas razões. Infiltrados teriam tentado desqualificar a manifestação pacífica com dezenas de milhares de trabalhadores, sindicalistas, movimentos sociais?

O discurso ambíguo da comentarista Míriam Leitão, no Bom Dia Brasil da quinta-feira, expressou claramente o tom azedo com que os sindicalistas são tratados no jornalismo global. Segundo Míriam, os manifestantes foram à Brasília financiados pelo dinheiro do imposto sindical, e agora, disse ela, será com o dinheiro dos nossos impostos que os estragos serão reparados. Digo que o discurso é ambíguo, porque a pouco mais de dez dias, Míriam Leitão louvava o governo Temer, agora ecoa suas mazelas e fraquezas. O que não muda, na sua fala, assim como nas inserções de Alexandre Garcia, William Bonner e tantos outros globais, é o tom de beligerância com respeito aos movimentos de trabalhadores, sobretudo àqueles ligados aos partidos de esquerda.

Enquanto o país assistia aos fatos quentes de Brasília, ocorria no Pará, uma chacina com dez trabalhadores mortos. Seguindo seu modus operandi, a Globo somente ouviu a voz das autoridades e dos policiais. A culpa, como sempre, recaiu sobre os posseiros, mas a eles não foi dada defesa, nem direito de resposta.

Em verdade vos digo, pouco me importa essas vidraças quebradas, pouco me interessa essa ação enraivecida de pequenos grupos encapuzados. O que me entristece, o que me faz acordar todos os dias com a angústia pesando no peito, é ver o meu país desmontado por dentro, quebrado, fraturado nos seus princípios, de ética, de moralidade, de respeito ao outro, de garantia dos direitos sociais e da cidadania.

O país vai sendo desmontado por dentro das suas estruturas. Não há ruídos de bombas, não se escuta o estilhaçar de vidraças, tampouco o estampido das automáticas. O desmonte é silencioso e rápido. A cada dia assistimos cair por terra um pedaço de floresta preservada, uma política social conquistada à duras penas, um instrumento de negociação e de participação popular.

E enquanto essas vidraças não são reparadas, olhemos bem para dentro desse ministério vazio. Vazio de políticas culturais, de diálogo, de música e de arte genuinamente brasileira, vazio de comando, num país sem comando.

Da boca pra fora, a retórica do combate à corrupção. Dentro dos gabinetes, nos porões e garagens, as tramas, as negociatas, a conspirata permanente e subterrânea que preside o jogo político desde sempre.

A metralhadora midiática prossegue no trabalho apressado da implosão. Aniquilar as esquerdas, e agora, aniquilar o governo Temer o qual ela colocou no poder. Retomar a direção das eleições indiretas, bater à prego e martelo, a política e os interesses do capital. Por que hei de lamentar vidraças quebradas, se tenho um país todo de cabeça baixa, com vergonha de si próprio?

 

A Crônica dos nossos Dias

A crônica dos nossos dias flui como se fora um rio virulento, pesado e sem método, arrancando casas, derrubando prédios, dos maiores aos mais pequenos, desmantelando escolas, igrejas, soterrando vidas inteiras, paralisando pequenos e grandes gestos, enterrando esperanças, sonhos, pequenos e grandes sonhos.

A crônica dos nossos dias não economiza papel, mas o alfabeto da sua escrita perdeu a métrica, o alento ritmado de cada linha, o cuidado com o desenho da letra, a escolha das palavras.

A crônica dos nossos dias exibe, sem meias palavras, um rio que já fora doce, agora morto, despovoado da sua flora, desabitado por seus peixes, os grandes, os pequenos, todos irmanados nesse terrível silêncio do morrer.

A crônica dos nossos dias é o discurso estrito com a morte, escrito com as letras terríveis dos toros de árvores arrancados e atirados sobre outros destroços. É o palco onde a própria morte inventa seu balé macabro, toda vestida de lama.

Chorássemos todas as nossas lágrimas, e não sei se o rio voltaria a viver. Desdobrássemos todas as laudas da nossa lei, assinássemos, com nossas canetas sujas de lamas, todas as cifras das multas previstas, não sei se o rio voltaria a viver.

Já matamos ou adoecemos outros rios. O Jaguaribe, o Tietê, o Beberibe… Nunca tínhamos matado um rio assim, de repelão, arrancando-o do seu ir e vir, esmagando o seu ser, a sua essência, a sua serenidade.

Nunca tínhamos perpetrado a morte súbita de um rio, sem que houvesse tempo para uma última sílaba da sua fala líquida e bela, sem que pudéssemos aprontar as primeiras notas desse lamento que agora tentamos compor, com nossas lágrimas, nosso coração ferido.

– Cadê o rio doce? E o que vamos dizer às nossas crianças quando elas nos perguntarem sobre isso.

– Bento Rodrigues, Paracatu, o que foi feito deles? O que dizermos a quem veio de longe, procurando seu lugar de nascença?

Não pudemos salvar o rio, Bento Rodrigues, Paracatu, são lugares que não existem mais. Desmantelaram-se sob a virulência de um rio novo, sujo e pesado, o rio dos rejeitos de lama. Somos menores agora. Andamos de cabeça baixa, falamos com voz sumida, e já não escutamos o fluir das águas, límpidas e doces do rio que vivia.

A morte venceu de novo, e carrega a experiência nova de haver matado o rio, de haver pisoteado suas margens, revirado o seu fundo, arquivado o seu curso nos terríveis redutos de lama.

Perderam-se os lenços do adeus, perderam-se os dias, não há mais rio, nem meninos correndo pelas suas margens.

 

 

 

Canção Íntima para a Morte

Vou lhes confessar uma coisa. A morte sempre me comove, seja ela de quem for, e ontem, lendo mais um dos magistrais artigos de Eliane Brun sobre a morte, encontrei a explicação para essa minha íntima comoção. Com a morte dos outros, ilumina-se em nós, a certeza de que também iremos, de que num dia qualquer, “deixaremos de estar”, como tão sabiamente apontou a jornalista.

A morte como que ilumina em nós uma canção de tristeza, que pode ser longa ou curta, dependendo da pessoa que se foi e do lugar que ela ocupava em nossas vidas.

No final de semana, intimamente, compus pequenas canções curtas, íntimas comoções, quem sabe forjadas por um simples “ai”, por causa dos imigrantes mortos em barcos, ou asfixiados em caminhões de carga, tentando num último esforço desesperado, encontrarem e agarrarem um naco de mundo onde pudessem viver melhor.

No domingo porém, compus uma canção íntima e longa, para a perda do grande neurologista Oliver Sacks, que despediu-se do mundo dos vivos, vitimado por um câncer.

Conhecia o pesquisador por conta da sua produção científica. Com sua narrativa magistral, ele legou ao mundo dos leigos, histórias sobre doenças raras, como aquela em que um homem confundiu a sua mulher com um chapéu, e candidamente, assassinou-a.

Consternada pela perda do pesquisador, fui buscar algumas das palavras que ele havia dito no auge da sua vida, e que agora ganhavam força nova, face à realidade da morte.

Na obra sobre o título “Sempre em Movimento: Uma Vida”, Sacks narra de forma desapiedada e corajosa, os episódios cruciais dos seus oitenta e dois anos. Dá ao leitor, uma fotografia ao mesmo tempo constrangedora e grandiosa de si próprio.

Suspeitaria o leitor de que o escritor de obras como “O Homem que Confundiu sua Mulher com Um Chapéu”, “Vendo Vozes”, “Um Antropólogo em Marte”, entre tantas outras, foi um contumaz usuário de anfetaminas e outras drogas na juventude? Imaginaria que muitos dos achados científicos tão difundidos, resultaram de idas e vindas, erros e fracassos retumbantes, e até mesmo de descuidos e irresponsabilidades?

Saks não nos poupa de nada. A sua biografia entretanto, é além de tudo, um belo tratado sobre as emoções humanas, sobre fracassos e vitórias, sobre o tema da homossexualidade e o incômodo que isso criou no seio da sua família na Inglaterra dos anos 50 do século XX.

Saímos da leitura da sua obra, amando ainda mais aquele que só conhecíamos como um divulgador de ciências. Amando suas fragilidades e a força que tinha, tanto a física quanto a espiritual. Amando sobretudo, um homem que soube despedir-se dos outros, antes de morrer, deixando-lhes o legado da coragem, da persistência, da ousadia, deixando-lhes a mensagem de que a vida, é mesmo movimento, sempre.