Coisas de Uma Infância Antiga

Ela tinha brincadeiras tão estranhas, que pareciam vir de uma infância muito antiga, pareciam escorregar de um tempo onde não havia religião, nem dogmas, nem anteparo de palavras duras.

Como se, de uma matéria entre líquida e plástica, ela fosse inventando coisas que eu nunca tinha visto.

Um dia, me lembro, estávamos brincando perto do lago. Eu sempre lhe perguntava, o que há do outro lado? Ela sorria, fazia um jeito de boca, do tipo puffff e coisas estranhas aconteciam.

Naquele dia, quando lhe perguntei sobre o outro lado, ela fez puffffff com a boca, e, de repente, da neblina que eu via de longe, surgiram duas pessoas de mãos dadas, sorrindo para nós, um riso fugidio, tão cortante como uma ponta de faca.

  • Eles são o bem e o mal, disse-me ela com sua voz de neve adormecida.
  • Olhei para as duas figuras enfumaçadas de frio, a girarem por sobre o barranco, a se arrepelarem, a sorrirem de modo ao mesmo tempo tão estreptoso e frio.
  • – O bem e o mal sempre foram amigos. Sempre andaram juntos. Nunca, nunca brigaram, prosseguiu ela.
  • – O bem e o mal são uma e a mesma criatura. Capazes de inventar o doce e o azedo, o áspero e o liso, o mistério e a certeza, a palidez e o corado das faces, a palavra e o silêncio, a vida e a morte.
  • Eu estava de olhos arregalados, ela fez puffff no meu rosto perplexo. Acordei e lhe disse:
  • – como você sabe de tudo isso?
  • Ela então me pegou da mão e falou:
  • – Por que eu tenho um poço. Um poço profundo onde vou buscar essas coisas.

E girou comigo por entre as plantas rasteiras que circundavam o lago, e me preciptou para dentro de um longo poço escuro, e me deixou lá, petrificada de frio e de medo.

Ter, Ter, Ter…

Tem coisas que eu não preciso ter. Descobri que gosto de não ter. Não preciso ter, em tese. Tenho na nuvem. É assim. Tenho muitos cds que dificilmente ouço. Tirar da caixa, ligar o player, tocar. Minhas mãos vivem a inércia/ocupação  de estar clicando, sobrevoando. Encontro meus cds na nuvem, coloco pra tocar, uma playlist, num que eu busquei, sem rótulo, sem caixa, só o nome o intérprete, e bum, Francis Hime, Chico Buarque, tocando aqui na telinha!

A Gramática da Maldade

Algumas palavras nunca deveriam ter sido inventadas. Não deveriam ter espaço nas páginas amarelas dos dicionários, assentadas entre verbos, substantivos, interjeições e conjunções. Não deveriam sequer figurar entre as frases bem articuladas dos âncoras de televisão, tampouco deveriam ser escritas daquele modo inteligível nos receituários, nos prontuários, grafadas nos boletins de ocorrência, derramadas quase à exaustão nas redes sociais.

Algumas palavras, tendo sido inventadas, poderiam padecer de alguma má formação, que as desobrigasse de encontrarem alguma materialização no estofo da carne, nos corpos machucados, no mais recôndito das almas torturadas, num perpétuo pavor, sem nome próprio e sem alívio.

Algumas palavras, pequeno arranjo de letras, são duras ao serem escritas, lidas, pronunciadas, porque carregam uma cadeia de inúmeras outras palavras terríveis: Ferocidade, egoísmo, crueldade, e todas as outras palavras marcadas à ferro e fogo nos corpos das vítimas: Hematomas, escoriações, sangramentos, esganaduras, arranhões, muitos arranhões, gritos, safanões, esgares e sorrisos diabólicos, mordidas, queimaduras, chicotadas, beliscões, privação de sentidos, bofetadas, soluços, desmaios.

Algumas palavras, ao encontrarem o ato que as define, são como tenazes de fogo, escavando, violando, macerando, penetrando, forcejando, esmagando, aniquilando, sujando, uma, duas, três, quatro, trinta vezes repetindo o ato selvagem, compactado nessa palavra infame de três sílabas, sete letras.

Nos vagões de metrô, nas paradas de transportes, com a palavra torpe, abate-se a alma das vítimas, sua dignidade, sua condição feminina. Com a palavra maldita, transforma-se em lixo o que poderia ser sonho e futuro.