Entre Mortos e Feridos: A Mídia não se Salvará

Voltar para trás, correr de forma acelerada, saltando obstáculos, construindo algum lugar de equilíbrio, exige aprendizado, treino, exige elaboraro avesso de uma narrativa, aos sopapos, às arrecuas, entre respirações apressadas e risos nervosos.

Voltar para trás, recuperar o marco zero da cobertura midiática dos últimos treze anos, ali onde iniciaram-se os governos do PT, voltar para trás à força, numa colisão com os fatos, exige defeitos colaterais na narrativa, os quais podem ser compreensíveis, mas jamais desculpados.

A gagueira coletiva que acometeu os ancoras da Rede Globo, na cobertura dos acontecimentos que sacudiram a política do país, revelam um fato incontestável. A mídia comercial brasileira apostou na narrativa única durante um longo período de 13 anos, com fervor, religiosidade e periodicidade permanente, apoiada por uma cúpula jurídica e parlamentar que definiam um único parágrafo central e definitivo: A quadrilha do PT, sob o comando do ex-presidente Lula.

O slogan rendeu campanhas bem sucedidas. O impeachment da presidenta Dilma, o plano Michel e a sua ponte para o futuro, o fim da corrupção e a limpeza do país das mazelas petistas, a implementação tardia da política neoliberal iniciada nos governos FHC, com sua rubrica implacável: Estado mínimo, arrocho salarial, enfraquecimento dos movimentos sindicais, privatização de serviços essenciais do estado brasileiro.

Os acontecimentos divulgados na tarde da última quarta-feira, com a força de um iceberg, impactaram de maneira profunda, toda a sociedade brasileira. A lama exposta é das mais nefastas. Uma reflexão, no entanto, precisa ser feita. A mídia brasileira, que nos últimos treze anos, operou como um verdadeiro partido de sustentação da narrativa única, faz parte dessa lama nefasta. Comungou com ela, alienou a sociedade, da verdadeira realidade da política e do empresariado do país. Conspirou com a classe política, inflou egos de figuras do judiciário,convocou extratos da sociedade para as ruas, reforçou as manifestações de ódio e de violência que têm presidido as relações sociais nos últimos anos.

Nossa política é trágica e o nosso jornalismo também. Não foram somente o presidente Temer e o senador Aécio Neves que foram nocauteados com as últimas delações. A comunicação brasileira levou um golpe profundo na sua receita de narrativa única.

A mídia, ela mesma surpreendida, arrancada à força da sua narrativa predileta, experimenta agora a encenação: Encena a sua isenção e imparcialidade, encena a falsa ideia de que não tem nada a ver com esses fatos. Numa cobertura atropelada, nervosa, a mídia brasileira encena para a sociedade, a mentira estereofônica de que nunca atuou como um partido e que zela pelos interesses do país.

Submergindo da lama, ajeitando a gravata e a canópula, a mídia brasileira lava as mãos e desembrulha os cadávers da história que ela própria ajudou a construir, empurrando para baixo do tapete, o seu próprio cadáver fraturado.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União).

A Fábula Revificada?

A Fábula Revificada?

A mídia comercial brasileira, liderada pelo sistema Globo de comunicações, após a divulgação da lista do Fachin, com as mais de novecentas horas de vídeos gravados com os depoimentos dos delatores, retomou com gosto o trabalho de revificação da fábula de que o partido dos trabalhadores instalou-se no poder como a maior quadrilha de ladrões do dinheiro público, tendo como chefe o ex-presidente Lula.

O modus operandi é o mesmo dos últimos treze anos. Destacar os trechos em que a fábula pode ser reconfirmada, e dar-lhes evidências em todos os telejornais, ignorando ou retirando do caminho da narrativa, tudo aquilo que possa perturbá-la ou contradizê-la.

Dezesseis partidos aparecem como alvos das delações. Só o candidato à presidência pelo PSDB, o senador Aécio Neves, tem cinco inquéritos na lava jato. Mas, o jornalismo está empenhado em dedicar suas horas nobres ao caso Lula, e de quebra, encontrar os crimes para fechar a conta do impeachment da presidenta Dilma. O cardápio é o mesmo dos últimos treze anos: A reforma do sítio de Atibaia, as palestras de Lula, as doações de campanha. Fico imaginando o setor midiático que poderia ser chamado operação Lula, com estagiários, jornalistas mais jovens, todos empenhados em destacar os trechos que vão virar manchetes, e despachá-los para os ancoras de tv, devidamente recortados e descontextualizados.

Editar, mascarar, silenciar. Longos trechos emblemáticos podem passar inteiramente despercebidos, como o que disse Emílio Odebrecht sobre o modelo de financiamento da política brasileira. O caixa dois, disse, existe na política há trinta anos, e mais, toda a imprensa sabe disso, e se omitiu, como omitiram-se as autoridades fiscalizadoras, o poder executivo e o parlamento.

Manipulação grosseira, classificou Mario Marona, ex-editor do Jornal Nacional, em seu perfil no facebook, comentando trecho destacado pela rede globo, em que Emílio Odebrecht narra o episódio em que a então presidenta Dilma soube dos maus feitos e tentou coibir os abusos com broncas e demissões.  A Globo explora o trecho em notícia que diz exatamente o oposto. Manipulando, comentando, etoma a prática da criminalização da ex-presidenta.

As lições a serem extraídas do papel da imprensa nesses treze anos são duras e desalentadoras. Simular surpresa e tomar como notícia bombástica, um sistema corrupto instalado no país há três décadas, com o beneplácito de todos os poderes e o silêncio cúmplice da imprensa, revelam o desapego que se tem pela democracia, ali no âmago das forças que deveriam preservá-la.

Mas a situação é ainda mais cruel. O país está entregue a um poder judiciário preocupado com o justiçamento de alguns e um poder midiático empenhado no julgamento e na condenação prévia dos seus inimigos políticos. A aventura pode sair muito cara ao país. O fascismo coloca na linha de frente os seus líderes, de dentes arreganhados, prontos para o próximo bote eleitoral.

Uma outra questão amarga precisa ser feita: O que mais a mídia está silenciando? Em que outros escândalos a imprensa tem se omitido? Operação Zelotes, Furnas, Telemig, e o mais recente escândalo da venda do país ao capital estrangeiro, quando e como a mídia brasileira vai pautar essas questões?

O Mundo do Divertimento Perpétuo

Sim, não há dúvidas de que caímos no planeta do divertimento perpétuo, e tudo pode ter começado há muito tempo, depois do progresso haver rasgado a terra e os mares para conectar o mundo através dos cabos, depois de os continentes haverem sido fatiados, no século XIX, em zonas de cobertura informativa, depois de havermos inventado o lead, essa pequena pílula informativa apta a capturar um leitor apressado, de espírito fugidio, sofrendo dessa síndrome do consumo rápido, e sempre a pedir mais e mais, nesse fast-food noticioso.

Eça de Queiroz falou desse sintoma nascente, flagrou essa doença dos primórdios do século XX, dessa satisfação em se poder, por dentro desse coleante amálgama de fios e cabos, palpar o mundo, subtrair suas distâncias, comprimir em pequenas pílulas de informação, o saber sobre as coisas.

Evoluímos tecnicamente, suprimimos os cabos, miniaturizamos as telas, e, aumentou a nossa fome por informação, proporcionalmente à capacidade da matéria prima ofertada, numa espécie de gigantesco banquete da notícia rápida, sobre tudo e qualquer coisa.

Gulosamente insatisfeitos, presas de um íntimo divertimento, deglutimos de tudo: A fofoca, o jogo, a tecnologia, a guerra, as mortes por gás sarin, o incêndio no campo de concentração francês, as duras horas dos refugiados comprimidas em pequenos bits informativos, a prisão do criminoso de colarinho branco, a bala perdida, a criança encontrada na lata de lixo, a dor da menina de vinte anos, a sua culpa, desvelando a culpa ancestral da mulher submetida, essa culpa exibida na tevê, sem anteparos, com a clareza das imagens digitais e a terrível cobertura do embrutecimento.

Você poderá pular o anúncio, esse breve atalho que pode levá-lo ao reinado do consumo, ali onde você também se diverte. Você pode pular o anúncio e voltará a experimentar essa satisfação íntima pelos pacotes de estórias ofertadas. A briga entre Trump e Putin, a refrega da lava jato, o embate entre os chavistas e a oposição venezuelana, a chuva de desaforos grotescos de Bolssonaro. A usurpação do poder de uma presidenta eleita, o embate entre sindicalistas e as reformas do governo Temer.

É como se nunca houvéssemos saído da caverna platônica, mas, as sombras que se nos apresentam são coloridas, fartas, há som da melhor qualidade para alargar cada vez mais o nosso sorriso nesse planeta do divertimento perpétuo.

E como sorriem os nossos jornalistas! Diante das câmeras e fora delas, e ainda aproveitam o seu sorriso para uma vinheta. Nossos jornalistas também habitam o mundo do perpétuo divertimento. Retalham os fatos, extraem o que há de mais superficial, para que nada atrapalhe a bela orgia diversional. São bons nisso, os nossos jornalistas. São bons em sorrir, sorrir até a última gota, são bons em esticar a corda, o cabo de guerra, na infância triste do nosso mundo desenvolvido.

E não, não há somente a caverna platônica. O mundo está todo dividido em cavernas, devidamente iluminadas, servidas por câmeras, drones, microfones de todo tipo. Sitiados, envoltos em nossas trincheiras, atiramos pílulas de informação uns nos outros, distribuindo curtidas, reações diversas,  frouxos de riso, com a tragédia e o futebol, tudo servindo ao repasto do divertimento perpétuo.

O Jornalismo Mínimo e as suas Vítimas

O jornalismo declaratório faz suas vítimas, e elas são muitas. Toda a sociedade distancia-se, ignora ou, em alguns casos, fica indignada com esse tipo de narrativa, que divorcia-se vertiginosamente do ideário clássico que havia pensado a imprensa, os repórteres, a comunicação e a sua capacidade para fortalecer as democracias, harmonizar o tecido da sociedade, compor uma esfera de opinião pública crítica e esclarecida.

É desanimador o desfile de mediocridades na tevê, nos portais online, nos impressos. O modelo mínimo de jornalismo tem suas máximas: Fique o mais distanciado possível do fato. Só diga aquilo que disserem pra você. Apresente números, muitos números, até ao empanturramento, mas se comentar, o faça como se estivesse na mesa da cozinha, debicando o que todo mundo já sabe. Não perturbe o ambiente com investigações próprias, com apurações profundas, com textos autorais. Guarde isso para um blog pessoal, ou para quando for demitido.

Se fizer uma reportagem longa, bombástica, sente-se em cima dela, guarde-a para o “Número Zero”, aquele jornal do romance de mesmo título de Umberto Eco, que estaria ali, sempre pronto para chantagear alguém: Um político, um magnata, um vendedor de petróleo.

Morreu um homem num condomínio em João Pessoa. Fique longe disso. Diga o que se diz sempre nesses casos: Control-c control-v e pronto. “Não se sabe o nome do homem, não se sabe as razões do crime, o que importa é mais esse número flácido, sujo de sangue, caindo na estatística fria da violência”.

Ataque com gás sarin na Síria. Com o rabo do olho, mire o que estão dizendo as agências de notícias mundiais. Só existem quatro grandes agências mundiais. Repita o que elas dizem, papagueie até à exaustão, garanta suas vinte linhas, sem dissonância, sem divergência, que Deus o livre de apuração e aprofundamento!

Ataque terrorista na Rússia? Mire para onde vai o fluxo. Ignore isso. Notinha curta, um box talvez. Quanto vale a morte de cinquenta chineses? Cem africanos? Faça uns cálculos rápidos. A morte de um americano, de um europeu, essas sim, dão manchetes.

Reforma da previdência? Fique do lado de quem lhe paga os salários. Faça propaganda aberta. Ameace os trabalhadores, combata greves, edite passeatas, porque dessa vez os menores números serão a manchete.

Está cobrindo a política? A receita é simples. Coloque o PT nas tragédias. Enfatize isso o dia todo. Acompanhe o fluxo. Invente uma pérola do tipo Cristiana Lôbo que afirma: “De tédio a gente não vai morrer”. Não sabe ela que sua voz, sua narrativa, tem jeito, eco e  cheiro de catacumbas.

A Matéria Fraca do Jornalismo Brasileiro

A carne está arruinada, dizia minha mãe, nos idos da minha infância, quando por alguma razão, a carne de casa havia se estragado. Quando isso ocorria, dava-se uma pequena tragédia na nossa família grande, de agricultores, onde os filhos maiores trabalhavam duro no campo, contando com quase nenhum recurso monetário, e onde a carne era, por assim dizer, produto de luxo, tal como o açúcar e o arroz, mas tinha de ser consumida rapidamente, pois não contávamos com energia elétrica e nenhum processo de refrigeração.

O episódio deflagrado pela operação Carne Fraca, é somente mais um capítulo da tragédia que se abate sobre o país dos nossos dias, no plano econômico, mergulhado em recessão profunda, e no plano político, amargando as consequências do golpe jurídico/parlamentar/midiático.

A cobertura desse episódio em particular, demonstra porém, a fraca matéria de que é feito o jornalismo comercial brasileiro, convertido em jornalismo publicista, artífice e difusor da narrativa oficial.

A cobertura do episódio tem objetivos implícitos: Por um lado, defender as empresas distribuidoras do produto, que são também grandes anunciantes dos grupos midiáticos. Por outro lado, alinhar-se com o discurso oficial do governo, na estratégia de abafar o escândalo e evitar os prejuízos que já se anunciam para a indústria, com a suspensão das exportações por diversos países.

O ápice dessa cobertura deu-se na edição do Jornal Nacional de hoje. Numa suposta aparência de transparência, o JN deu voz ao discurso oficial, de que os problemas da carne são pontuais e de que o grosso das investigações não se dá por problemas sanitários, mas antes, por problemas de corrupção.

Trata-se aqui da velha tática de contar uma meia verdade e obscurecer a inteireza dos fatos. De que corrupção a mídia e o governo estão falando? Que autoridades estão envolvidas nesse novo processo de corrupção, do qual não se sabe uma vírgula sequer?

A ruína ética e moral do jornalismo brasileiro não agendará essas questões, quando muito, divulgará listas e declarações, fingindo que faz jornalismo imparcial e ouve todos os lados do acontecimento. Estivéssemos, porém, no governo da presidenta Dilma, o viés da cobertura seria oposto ao modus operandi de hoje.

Estivesse no governo a presidenta Dilma, e a artilharia midiática não pouparia um bife ou um embutido sequer. Capas de revistas, manchetes de primeira página nos impressos, dia inteiro no noticiário televisivo e radiofônico, encontrariam maneiras de aplaudir a operação, ampliar seus efeitos e demonizar de todas as maneiras os agentes do estado envolvidos.

Mas a mídia necessita dar sua quota de contribuição para salvar o golpe que ela ajudou a deflagrar. Um golpe financiado pela mesma corrupção das empreiteiras, e quem sabe até, dos negócios da Seara e da Friboi.

Como diria minha mãe, a carne está arruinada. E eu digo com pesar, a carne, o leite e a matéria de que é feito o jornalismo brasileiro.

A Celebração e a Dança sobre a dor do Outro

O dia de hoje foi estranho. Na mídia, os fatos centrais foram a escolha do novo relator da Lava Jato, e a votação do novo presidente da Câmara dos Deputados. Nada de mais, a política e as suas patranhas, tem sido o foco da mídia nos últimos meses, que ora se porta como o narrador central dos acontecimentos, ora toma partido e engrossa golpes históricos do país, como no caso do impeachment da presidente Dilma Rousseff, claramente apoiado pelo oligopólio midiático.

O dia foi realmente estranho. Depois de longos dias em coma induzido, no hospital Sírio Libanês, morreu dona Marisa Letícia, mulher do presidente Lula, ex primeira dama do país.

E aí ocorreu a cobertura mais estranha já feita pela mídia sobre um caso de morte de uma pessoa famosa. Dona Marisa Letícia tinha sido notícia midiática o tempo todo, por conta do caso do tríplex do Guarujá, sendo manchete principal em horários nobres dos telejornais, através dos áudios vazados pela operação Lava Jato, que por uma terrível semana de março do ano passado, rodaram em toda a grande mídia, expondo intimidades da sua família e dela própria.

No dia da sua morte, porém, a mídia fez uma cobertura esquisita, lendo o boletim médico que decretou a morte cerebral da ex primeira dama, de modo apressado, para retomar a faina da cobertura política e das suas patranhas.

A mídia ignorou solenemente, inúmeras manifestações de ódio e de celebração, por ocasião da longa internação de dona Marisa. Buzinaços em frente ao hospital, tuitaços estimulando o ódio contra ela e sua família, novos vazamentos, do próprio Sírio Libanês, da situação médica da paciente, num claro crime contra a ética médica.

Dona Marisa se foi, de maneira discreta, como aliás sempre se portou, ao longo da sua vida.

A mídia oligopolista prosseguiu na sua faina por cobrir um país editado, um país que a própria mídia julga normal.

A mídia torce pelo governo de um presidente citado mais de quarenta vezes na operação Lava Jato. A mídia cobre com esmero, a escolha do novo presidente do Senado, suspeito de corrupção. Aplaude a nova eleição de Rodrigo Maia na Câmara dos Deputados e repele a fúria dos servidores do Rio de Janeiro, em luta pelos seus direitos e salários.

A mídia cobre com frenesi, a escolha do novo relator da Lava Jato, transformando em não-notícia, o terrível acontecimento da perda de Teori Zavascki.

A mídia ignora solenemente a notícia mais grave: O país está doente. Contaminado pelo ódio, pela crueldade, o país festeja a morte, celebra e dança sobre a dor do outro. A mídia edita seu país normal, celebrando e dançando sobre o cadáver da democracia, e, quando lhe é útil, a mídia convoca manifestações e insufla o ódio na sociedade, apresentando bonecos do ex presidente Lula e seus familiares, vestidos de presidiários.

Que dona Marisa descanse em paz, longe dos buzinaços e dos holofotes, e se houver um outro mundo onde dona Marisa possa rezar, que peça por nossa pátria doente.

 

O Long-play da Cobertura Midiática

O modus operandi da

mídia brasileira, no que se refere à cobertura política, é como um disco de duas faces, se quisermos, como uma espécie de mantra com dois polos bem nítidos, negativo, positivo, a depender do governo que esteja no poder. Há outras estratégias mais sutis, mas a principal delas envolve mesmo a operação de mudança de face, como se por muito tempo houvesse sido rodado o lado A do disco e agora se executasse o lado B.

Os treze anos do governo do PT na presidência da república, permitiram que conhecêssemos todas as faixas do polo negativo da cobertura política. Havia um noticiário ininterrupto cuja narrativa central era a quadrilha de corruptos, liderada pelo ex-presidente Lula e pela então presidente Dilma Rousseff, a partir de 2010.

Nunca foram tão úteis ao sucesso dessa estratégia, a rádio que “toca notícia” e a cobertura em tv fechada, em todas as horas do dia.

Agora porém, estamos conhecendo a outra face do disco da cobertura política. Agora a mídia roda a narrativa positiva do governo que ocupa o poder de forma indireta, após o longo e duro processo de impedimento da presidente eleita pelo voto popular.

Tocar a faixa positiva do governo, não é tão simples. O jornalismo, desde que o mundo é mundo, alimenta-se de noticiário forte, onde possa ser reproduzida com nitidez, a fórmula na qual a realidade possa lembrar a ficção, e onde as pessoas sejam claramente informadas sobre o bem e o mal. Com os governos petistas no poder, era fácil alimentar o ódio às esquerdas, era simples fazer a associação tão explorada pelos contos de fada, a bruxa má, o príncipe salvador, os quarenta ladrões, um país desgovernado e o mandatário correto e probo preso à torre do esquecimento, com seus trajes decorativos.

Óbvio que tocar a face B, com suas faixas positivas para o novo governo, exige estratégias sutis, para que não se perceba tão claramente as marcas da mudança de ângulo. A mais importante estratégia pede que o nome do presidente Temer somente apareça vinculado à notícias positivas. Quando as notícias são negativas, fala-se somente em presidente, mas não se pronuncia o seu nome.

Uma outra estratégia certeira é a de colocar as celebridades da tv para anunciarem as boas novas do governo. Pegue-se uma boa nova e a faça rodar a semana toda, com pequenas mudanças narrativas, nas vozes de Míriam Leitão, Alexandre Garcia, e todos os outros célebres da cobertura política.

O método é semelhante ao que se fazia nos governos do PT, só que com as notícias negativas, que rodavam toda a semana, com pequenas modificações no modo de apresentação.

A façanha midiática não tem tamanho. Rodar o polo positivo dessa cobertura não é tarefa simples, quando um governo por si só gera tantas notícias negativas. Uma pergunta porém, há que ser respondida: Por que a mídia brasileira faz coberturas tão polarizadas, e sempre nos extremos? A resposta é desalentadora. A mídia brasileira não faz jornalismo social, mas, realiza o que poderíamos chamar de jornalismo comercial. Assim, a face B do seu disco está reservada aos governos que pagam melhor a fatura.

O Trabalho da Dissimulação

O jornalismo informativo, estabelecido no mundo pós-industrial há mais de dois séculos, destinado a destilar notícias ligeiras para uma cultura de massas, ao tempo em que cumpre essa função primordial com maestria, vai estabelecendo com engenho, o que poderíamos chamar de a arte da dissimulação.

Funciona assim: Os acontecimentos do mundo trafegam em grande velocidade nos trilhos da sociedade, e a mídia, de prontidão, leva às casas do público, os fatos como eles são. Temos aqui o primeiro artifício. Os fatos da mídia não são os acontecimentos do mundo. São representações da realidade, editadas, empacotadas em técnica e conteúdo ligeiro, em geral revestidos de interesses, de grupos empresariais, grupos políticos, crenças religiosas, modelo de cultura, que no ocidente, é a cultura branca, civilizada, cristã e capitalista.

Esse curto preâmbulo serve para que eu possa comentar o que ocorreu na última quarta-feira, na Câmara dos Deputados, quando um grupo de manifestantes desfraldou a bandeira da insanidade e da estupidez, clamando em altos brados pela volta da ditadura militar e pedindo o fechamento do Brasil.

Tendo se estabelecido como o vigia principal da sociedade, a mídia deu curso à sua arte da dissimulação, cobrindo aquele acontecimento como algo surpreendente, um fato novo, original e inusitado, mas sobretudo, como algo que em nenhuma medida lhe dissesse respeito, cumprindo-se assim, a segunda etapa do simulacro, qual seja, a de fazer crer à sociedade, que os fatos se sucedem uns aos outros, sem qualquer ligação, sem qualquer fio condutor que os articule e os explique dentro da própria série histórica.

A mídia, ao bradar que está fazendo seu trabalho, exime-se de qualquer responsabilidade sobre aqueles acontecimentos terríveis. Na sua narrativa ligeira, com auxílio de tecnologia de ponta, a mídia diz espelhar os fatos como eles são, mas oculta o fundamental do acontecimento. Aqueles cinquenta manifestantes que ela agora chamou de vândalos e criminosos, em março de 2015, desfilavam em grandes multidões nos domingos da avenida Paulista, contando com a convocação, os microfones, câmeras e ampla cobertura da mídia, a mesma mídia que então os chamou de patriotas, vestidos de verde e amarelo, manifestantes defensores da democracia e de um país de futuro.

O que se viu na quarta-feira na Câmara dos deputados, foi uma pequena amostra do que já ocorrera na Paulista, em grande estilo, e sobretudo com a chancela da mídia, que naquela ocasião, impunha à sociedade como pauta única, o ódio ao governo do PT, cobrindo diuturnamente, cenas de Lula vestido de presidiário, flashes de uma presidenta Dilma enforcada que virava capas nos jornalismo de revista ecoado depois na maior rede de televisão.

Na Câmara dos Deputados, o que se viu na quarta-feira, foram espécimes daqueles que Umberto Eco chamou de Midiotas, e que no Brasil, são filhos da incitação permanente do ódio às esquerdas, parceiros domesticados de uma comunicação monocrática e oligopolista, arquitetando a construção e a defesa de um modelo de país neoliberal, branco, devotado às leis do capitalismo rentista.

O Diapasão Midiático

 

A notícia da semana gira em torno da prisão do ex-deputado Eduardo Cunha. A narrativa que ganha o mundo, porém, exibe a um telespectador mais atento, os mecanismos de uma mídia volúvel, superficial, telenovelesca, interessada em ficar bem diante da sua débil audiência, ficar bem em qualquer situação.

Vivemos em meio aos escombros de um país que a própria mídia ajudou a construir. A grande imprensa trabalhou ativamente em favor da candidatura do então deputado eduardo Cunha à presidência da Câmara dos Deputados. Festejou a derrota do candidato petista, e, com a força do presidente eleito, realizou a louvação cotidiana da necessidade do impeachment.

Com frieza e determinação, Eduardo Cunha deu curso ao processo, garantindo inclusive cobertura em horário nobre, determinando a última sessão de votação para um domingo, 17 de abril.

A grande narrativa da época, aliás, recorde de publicização midiática nos últimos cinco anos, era a de que o Partido dos Trabalhadores precisava ser extirpado da cena política, por ter se constituído como uma quadrilha, em assalto aos recursos públicos, tendo protagonizado os maiores escândalos de corrupção da cena política do país.

Cumpria-se assim, um dos primeiros princípios do diapasão midiático: Se não aparece na mídia, não é escândalo, não há corrupção. Ignoraram-se outros escândalos, a exemplo do Panamá Papers, as inquietantes denúncias das obras do metrô paulista, o escândalo conhecido como “mensalão de Minas”. Inculcou-se na mente da débil audiência, a ideia do partido corrupto, forjaram-se os ícones do Lula presidiário, da Dilma enforcada, e, em contrapartida, a sinfonia do país novo, limpo, de gente trabalhadora e honesta.

Consciente da memória curta da sua débil audiência, a grande mídia cumpre agora, o segundo princípio do seu diapasão: A mídia sempre ficará por cima e terá a última palavra, sempre ficará com o melhor ângulo, na cobertura da informação. Menosprezou as denúncias do Partido dos Trabalhadores, de que seus líderes estavam sendo vítimas de uma perseguição seletiva, reforçada pela própria mídia. Nesse episódio da prisão de Eduardo Cunha, a mídia de novo exibe como narrativa central, a ideia de que perde força a hipótese do PT, de que está sofrendo perseguição política.

Na verdade, o que flagrantemente se desmantelou, foi a tese central do processo de impeachment. A corrupção infesta a política em séries históricas implacáveis, empestando todos os mandatos políticos do país, debilitando a sua frágil democracia no momento atual, quando se impõe à força, à uma sociedade atônita, um projeto político indireto, filho do poder econômico e com todo o aval da grande mídia.

Cumpre-se também, o terceiro princípio do diapasão midiático. O capital tem pressa em cobrar a fatura do impeachment. A mídia passa seus recados ao presidente indireto Michel Temer. Clama pela aprovação em segundo turno da Pec 241, e, com sua narrativa sintética e suas imagens em hd, avisa: Somos mestres em erguer e derreter personalidades e autoridades. E sempre ficaremos com o melhor ângulo da cobertura.

 

 

Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União.

 

 

 

Onde o Jornalismo não Vai, O Cinema Denuncia

Assisti quarta-feira à noite, na tevê Brasil, ao documentário completo do cineasta Sílvio tendler, “Militares que disseram Não”, entregue ao público em 2014. Trata-se de uma grande reportagem audiovisual, sobre a situação dos militares que resistiram ao golpe de 64, em apoio ao governo do presidente João Goulart.

Mais que isso, é um capítulo tenebroso do período, um relato duro para ser guardado na memória da nossa história recente, onde apresentam-se, com todas as tintas, os requintes de crueldade, arbitrariedades variadas, assassinatos e prisões,  sem falar das torturas morais e físicas impingidas a esses militares.

No documentário, os sobreviventes falam do orgulho de haverem defendido a nação, o governo do presidente Jango, mas denunciam as marcas dos terríveis dias que viveram presos ou fugitivos da sanha golpista.

Em um depoimento, um militar conta de que maneira quebraram a sua força espiritual, minaram a sua vontade de viver. O torturador descreveu, com riqueza de gestos e detalhes verbais, como faria para arrancar com as mãos, do útero da sua mulher, o filho que os dois estavam esperando.

Não direi que estejamos vivendo uma espécie de repetição desse ciclo tenebroso. Mas é certo que os desenvolvimentos recentes da política brasileira nos arremessam para um perigoso estado de exceção, chancelado por parte do poder judiciário, pelo grupo político que planejou e executou o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, pela imprensa comercial privada, monopolista e sintonizada com esse processo, responsável por consolidar junto à opinião pública, a narrativa de desqualificação dos 13 anos de governança do Partido dos Trabalhadores e de transformar em espetáculo midiático, a vigorosa criminalização que se abate diuturnamente sobre os líderes do partido.

O trabalho da imprensa é sistemático. Trazer à linha de frente das suas pautas, a narrativa  de cada episódio do processo, como numa espécie de novela, que pode ser consumida vinte e quatro horas por dia, nos canais de tevê fechada, com flashes nas tevês abertas e ampla cobertura nos jornais de circulação nacional.

O episódio de hoje trata da prisão do ex-ministro Guido Mantega, numa situação dramática. Foi retirado do bloco cirúrgico de um hospital paulista, onde acompanhava sua mulher, que se submeteria a uma cirurgia de tratamento de um câncer.

Ausentes da pauta midiática, estão a aprovação do Projeto de Lei 257, aprovado ontem na câmara dos deputados, e que promoverá um profundo arrocho salarial para os servidores públicos, que em todo o Brasil, fazem hoje uma paralisação de protesto associada à paralizações em diversos setores, convocadas pelas centrais sindicais.

Fecha-se o cerco em torno do ex-presidente lula, com ampla cobertura midiática, enquanto que as notícias sobre Eduardo Cunha dão conta da sua andança pelo país, da feitura do livro que promete divulgar até o natal, sobre os bastidores do impeachment.

O jornalismo brasileiro não pode mesmo ir até onde estiveram as câmeras de Sílvio tendler. O jornalismo, em nosso país, está ocupado em publicizar a narrativa dominante do tempo presente. Se antes era preciso narrar a caça aos comunistas, agora é preciso narrar o extermínio do PT, e das esquerdas que o apoiam.

 

Esta coluna será publicada amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União