Entre Explosões de Bancos, Furtos a Escolas e Farmácias: A Inutilidade do Jornalismo Factual

Enquanto a imprensa segue divulgando o assalto do dia, as explosões de bancos ocorridas na semana, o furto de um ônibus em Pe, onde até a roupa do motorista foi levada, todas as perguntas estão por serem feitas.

A cobertura é factual, desconectada dos veios da história, completamente desvinculada de algum processo investigativo que possa auxiliar a sociedade a compreender as razões profundas desses acontecimentos trágicos.

É certo que há padrões, regularidades, modos de agir previsíveis envolvendo esses atos de crueldade extrema. Sobretudo nos atos envolvendo explosões de bancos, há com certeza uma mensagem que precisa ser publicizada, há caminhos investigativos a serem explorados, entretanto, a imprensa que temos não tem capacidade para tais esforços.

A cobertura da imprensa é farta em imagens semelhantes. A narrativa também é previsível, de tal sorte que se poderia colar o texto da explosão de ontem àquela que ocorreu na madrugada de hoje. Em geral há um vídeo de colaboração espontânea, e, a notícia de um minuto e meio coloca na boca do estômago da sociedade, um mal-estar, uma sensação de inutilidade do jornalismo.

Por que noticiar a explosão de ontem, a de hoje, a de amanhã, sem qualquer esforço de compreender o padrão, o modus operande, sem qualquer esforço para escavar a profundidade desse mar de crueldade?

O tempo jornalístico, aferrado à máquina comercial da publicidade, só pode mesmo esguelar-se, comunicando o óbvio, o superficial, o agora. A pele e as vísceras da cultura do crime estão por ser exploradas. As perguntas sobre os perfis das quadrilhas, a ousadia das equipes que lidam com explosivos, a quase que inutilidade das ações policiais pós-explosão, tudo está por ser avaliado.

Os crimes que vêm se perpetrando contra o país, em todas as suas localidades, não podem ser tratados como meros atos de vandalismo e violência cotidiana. Há aqui uma mensagem mais profunda, como que uma operação em curso, de longa data, com apoio de forças invisíveis, mas reais. Forças locais, ou forças além fronteira? Quem é o braço político dessas operações de guerra? E o braço comercial? Que forças se interessam pelo estado de vulnerabilidade absoluta das comunidades, dos sistemas de vigilância que parecem ter se esgarçado?

Há aqui uma rede forte, bem organizada. Quais são seus atores? Por que é certo que a ousadia dos que carregam explosivos não pode ser somente fruto de químicos e de experiência no crime. Fazer reféns, roubar veículos, explodir bancos, em operações realizadas com sucesso? Isso só pode se dar quando há uma rede competente de produção, planejamento, organização e realização. Essa rede precisa de atores em todos os nós e circuitos do processo. Precisa ter mandantes e mandatários em lugares que ninguém de bom senso suspeitaria.

O jornalismo mínimo não tem competência para tratar disso. Esse tipo de jornalismo só pode acompanhar o fato, quando ele mesmo acontece, quando toda a operação profunda suspira aliviada com mais uma explosão de sucesso e festeja de forma invisível o capital amealhado. Pode ser dinheiro, pode ser experiência, pode ser a oportunidade para remanejar sujeitos mal sucedidos.  Uma sociedade em absoluto estado de vulnerabilidade. A quem interessa esse propósito, barulhento na superfície, mas invisível na sua profundidade. Não, a imprensa que temos não nos dirá nada sobre isso.

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A Escuta do Outro Lado: Uma Imprensa que Falha todos os Dias

Não podemos viver sem a mídia que temos, mas a verdade é que o jornalismo precisa melhorar. Esta foi uma das conclusões do Simpósio Nacional sobre O Jornalismo Profissional e a Formação Universitária na Era da Convergência, realizado pelo programa de Pós-graduação em Jornalismo da UFPB, entre os dias 20 a 22 de novembro.

O evento reuniu pesquisadores de diversos programas de pós-graduação do país, mas trouxe também para o debate, profissionais do mercado, assim como os chamados jornalistas independentes, que trabalham em grandes agências alternativas, como a Agência Pública e a Lupa, que aplica uma metodologia para checar quando fatos jornalísticos publicados como notícias são verdadeiros ou falsos.

O professor Antonio Fausto Neto, da Unissinos, Rio Grande do Sul, proferiu a conferência de abertura, com o tema, “O Jornalismo como Narrativa do Presente”, demonstrando com muita ênfase que se, nas ambiências jornalísticas clássicas, a esfera da distribuição de conteúdos envolvia apenas protocolos técnicos, na contemporaneidade, essa esfera é talvez a mais importante, visto haver sido contaminada por uma grande avalanche de narrativas, modos de dizer, através das mídias sociais como facebook, Twitter, whatsapp, etc.

O pesquisador tratou brevemente da operação Lava Jato e do importante pacto feito com a mídia brasileira, a fim de que a narrativa central da operação sempre pudesse ser reproduzida na mídia. Ocorre porém, que tal narrativa não ouve, ou escuta mal o chamado “outro lado”, tão caro aos manuais de jornalismo, e que tem sido flagrantemente esquecido pela produção jornalística.

O “outro lado”. O tema também foi tratado na última mesa do evento, que reuniu midialivristas, além do projeto “Fora da Curva”, da UFPE, aqui apresentado pela professora Paula Reis.  Os participantes apresentaram a ideia de que a imprensa tem lado, e este, com poucas exceções, é sempre o lado das autoridades, do mercado financeiro, enquanto que a sociedade, através dos seus coletivos, luta por construir modos de dar publicidade à sua visão dos acontecimentos.

“É preciso elevar o custo da mentira”, esta máxima dos movimentos que trabalham contra o Fake news também reverberou nos debates. Considerou-se que notícias falsas não apenas elegem presidentes ou destróem reputações. As publicações falsas e o seu compartilhamento já fizeram vítimas fatais, como a chacina e a morte de Fabiane Maria de Jesus, na praia de Guarujá, cuja foto postada nas redes sociais, estava acompanhada da notícia falsa de que ela usava crianças para rituais de magia e bruxaria.

A negligência da imprensa para a escuta do “outro lado” também tem vítimas recentes, a exemplo do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, e do lastimável episódio do seu suicídio após denúncias de corrupção naquela instituição.

Checar e apurar, sempre. O jornalismo precisa tomar doses maciças desses cuidados, para que possa alcançar um pouco da sua credibilidade perdida.

 

Entre Capas e Manchetes: O “Pacto de Sangue” da Rede Globo

Mal terminava na última quarta-feira, o depoimento do ex-ministro Palocci ao juiz Moro, e o advogado que cuida da sua delação ofertou à imprensa as deixas principais que fariam parte das edições da noite. Com ímpeto renovado, o Sistema Globo de Comunicações deu curso à sua cobertura de guerra contra o ex-presidente Lula, seguida no mesmo tom, por todos os outros sistemas comerciais privados.

Antes de qualquer coisa, permitam-me fazer uma declaração importante. Não habito o planeta daqueles que julgam que o ex-presidente Lula não haja mergulhado na estrutura política herdada dos governos FHC, na qual o voto popular é somente um ingrediente fraco na luta pela democracia. Interesses empresariais sempre estiveram à frente da política, e, infelizmente, sobretudo em candidaturas de coalisão, compram antecipadamente os mandatos para os quais candidamente, milhões de votos são depositados em urnas. Aconteceu assim também com os governos do PT, ainda que tenham sido estes que criaram as condições para que se fortalecessem, o Ministério Público e a Polícia Federal.

As duras lições que se tiram desses últimos dois dias frenéticos, entretanto, são as mesmas com as quais venho trabalhando ao longo desses últimos dois anos, em muitas das minhas colunas. O sistema Globo de Comunicações tem atuado com determinação no sentido de destruir a figura política do ex-presidente, pondo a serviço dessa empreitada, o melhor das suas estratégias: Tematização, onipresença e ubiquidade do tema da criminalização de Lula em todos os seus programas políticos. Editoração de capas, com publicidade subliminar de reforço ao tema, efeito enciclopédico para “recordar” à sua audiência,  passagens antigas do enredo jurídico/midiático que já trouxe a república à uma situação insustentável.

No sistema Globo, pratica-se o que eles chamam de “bom jornalismo”, que assim que é divulgado, encontra uma chuva de críticas nas redes sociais e na imprensa independente, que evidencia as marcas grosseiras da manipulação, da edição e de uma cobertura orientada para a destruição do Partido dos Trabalhadores e do seu líder maior.

E, para não ser injusta, o certo é que os outros sistemas comerciais privados seguem como mansos cordeirinhos, o mesmo diapasão da cobertura encabeçada pela rede Globo. A mídia, é bem verdade, fez um “pacto de sangue” com o empresariado, com o mercado e com o judiciário, para implodir de vez a liderança de Lula.

Esse pacto ora recrudesce, ora é retomado em todo o seu vigor. Nos últimos dias agudizaram-se sobremaneira essas estratégias.  Lula voltou a ter centralidade na grande mídia, com manchetes de uma virulência corrosiva e devastadora, e com atuação sincronizada da tv, do rádio, dos portais e do cinema, que em todo o país, estreou hoje, o polêmico filme monotemático, “Polícia Federal, A Lei é para Todos”, onde o enredo conhecido vem sendo despejado há anos na cabeça da audiência dos telejornais da Globo.

O enredo telenovelesco já dura mais de treze anos, e sempre que algo sacode a república em seus alicerces, e ameaça as instituições e sua vasta sacola de adjetivações, honorabilidade, respeitabilidade, imparcialidade, ética e moral irrestrita, sempre que a lama dos palácios ameaça apresentar-se em toda a sua sujeira, e ainda que fortunas escusas jorrem de malas e caixas, assaca-se novamente o tema central, Lula e o quadrilhão do Pt.

É a velha fórmula de sucesso, arrumando em manchetes editadas, a antiga luta entre o bem e o mal. É o velho esquema a exibir um diagrama perverso, que se vende como “bom jornalismo”, mas, infelizmente, só nos apresenta o cadáver decrépito da imprensa brasileira.

E antes que comecem a me chamar de “petralha comunista”, façam um pequeno exercício: Comparem as coberturas: O que se disse sobre a denúncia feita por Janot sobre Serra: E os milhões de Aécio, como foram cobertos? O silêncio de Gedell, a estranha prisão de Eduardo Cunha, como é a cobertura da mídia sobre esses fatos?

Em política, os santos são bem raros. Olhemos porém, para a lista dos demônios da rede Globo, quase todos eles são vermelhos.

 

(Com pequenos ajustes, este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do #JornalAUniao)

Entre Mortos e Feridos: A Mídia não se Salvará

Voltar para trás, correr de forma acelerada, saltando obstáculos, construindo algum lugar de equilíbrio, exige aprendizado, treino, exige elaboraro avesso de uma narrativa, aos sopapos, às arrecuas, entre respirações apressadas e risos nervosos.

Voltar para trás, recuperar o marco zero da cobertura midiática dos últimos treze anos, ali onde iniciaram-se os governos do PT, voltar para trás à força, numa colisão com os fatos, exige defeitos colaterais na narrativa, os quais podem ser compreensíveis, mas jamais desculpados.

A gagueira coletiva que acometeu os ancoras da Rede Globo, na cobertura dos acontecimentos que sacudiram a política do país, revelam um fato incontestável. A mídia comercial brasileira apostou na narrativa única durante um longo período de 13 anos, com fervor, religiosidade e periodicidade permanente, apoiada por uma cúpula jurídica e parlamentar que definiam um único parágrafo central e definitivo: A quadrilha do PT, sob o comando do ex-presidente Lula.

O slogan rendeu campanhas bem sucedidas. O impeachment da presidenta Dilma, o plano Michel e a sua ponte para o futuro, o fim da corrupção e a limpeza do país das mazelas petistas, a implementação tardia da política neoliberal iniciada nos governos FHC, com sua rubrica implacável: Estado mínimo, arrocho salarial, enfraquecimento dos movimentos sindicais, privatização de serviços essenciais do estado brasileiro.

Os acontecimentos divulgados na tarde da última quarta-feira, com a força de um iceberg, impactaram de maneira profunda, toda a sociedade brasileira. A lama exposta é das mais nefastas. Uma reflexão, no entanto, precisa ser feita. A mídia brasileira, que nos últimos treze anos, operou como um verdadeiro partido de sustentação da narrativa única, faz parte dessa lama nefasta. Comungou com ela, alienou a sociedade, da verdadeira realidade da política e do empresariado do país. Conspirou com a classe política, inflou egos de figuras do judiciário,convocou extratos da sociedade para as ruas, reforçou as manifestações de ódio e de violência que têm presidido as relações sociais nos últimos anos.

Nossa política é trágica e o nosso jornalismo também. Não foram somente o presidente Temer e o senador Aécio Neves que foram nocauteados com as últimas delações. A comunicação brasileira levou um golpe profundo na sua receita de narrativa única.

A mídia, ela mesma surpreendida, arrancada à força da sua narrativa predileta, experimenta agora a encenação: Encena a sua isenção e imparcialidade, encena a falsa ideia de que não tem nada a ver com esses fatos. Numa cobertura atropelada, nervosa, a mídia brasileira encena para a sociedade, a mentira estereofônica de que nunca atuou como um partido e que zela pelos interesses do país.

Submergindo da lama, ajeitando a gravata e a canópula, a mídia brasileira lava as mãos e desembrulha os cadávers da história que ela própria ajudou a construir, empurrando para baixo do tapete, o seu próprio cadáver fraturado.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União).

A Fábula Revificada?

A Fábula Revificada?

A mídia comercial brasileira, liderada pelo sistema Globo de comunicações, após a divulgação da lista do Fachin, com as mais de novecentas horas de vídeos gravados com os depoimentos dos delatores, retomou com gosto o trabalho de revificação da fábula de que o partido dos trabalhadores instalou-se no poder como a maior quadrilha de ladrões do dinheiro público, tendo como chefe o ex-presidente Lula.

O modus operandi é o mesmo dos últimos treze anos. Destacar os trechos em que a fábula pode ser reconfirmada, e dar-lhes evidências em todos os telejornais, ignorando ou retirando do caminho da narrativa, tudo aquilo que possa perturbá-la ou contradizê-la.

Dezesseis partidos aparecem como alvos das delações. Só o candidato à presidência pelo PSDB, o senador Aécio Neves, tem cinco inquéritos na lava jato. Mas, o jornalismo está empenhado em dedicar suas horas nobres ao caso Lula, e de quebra, encontrar os crimes para fechar a conta do impeachment da presidenta Dilma. O cardápio é o mesmo dos últimos treze anos: A reforma do sítio de Atibaia, as palestras de Lula, as doações de campanha. Fico imaginando o setor midiático que poderia ser chamado operação Lula, com estagiários, jornalistas mais jovens, todos empenhados em destacar os trechos que vão virar manchetes, e despachá-los para os ancoras de tv, devidamente recortados e descontextualizados.

Editar, mascarar, silenciar. Longos trechos emblemáticos podem passar inteiramente despercebidos, como o que disse Emílio Odebrecht sobre o modelo de financiamento da política brasileira. O caixa dois, disse, existe na política há trinta anos, e mais, toda a imprensa sabe disso, e se omitiu, como omitiram-se as autoridades fiscalizadoras, o poder executivo e o parlamento.

Manipulação grosseira, classificou Mario Marona, ex-editor do Jornal Nacional, em seu perfil no facebook, comentando trecho destacado pela rede globo, em que Emílio Odebrecht narra o episódio em que a então presidenta Dilma soube dos maus feitos e tentou coibir os abusos com broncas e demissões.  A Globo explora o trecho em notícia que diz exatamente o oposto. Manipulando, comentando, etoma a prática da criminalização da ex-presidenta.

As lições a serem extraídas do papel da imprensa nesses treze anos são duras e desalentadoras. Simular surpresa e tomar como notícia bombástica, um sistema corrupto instalado no país há três décadas, com o beneplácito de todos os poderes e o silêncio cúmplice da imprensa, revelam o desapego que se tem pela democracia, ali no âmago das forças que deveriam preservá-la.

Mas a situação é ainda mais cruel. O país está entregue a um poder judiciário preocupado com o justiçamento de alguns e um poder midiático empenhado no julgamento e na condenação prévia dos seus inimigos políticos. A aventura pode sair muito cara ao país. O fascismo coloca na linha de frente os seus líderes, de dentes arreganhados, prontos para o próximo bote eleitoral.

Uma outra questão amarga precisa ser feita: O que mais a mídia está silenciando? Em que outros escândalos a imprensa tem se omitido? Operação Zelotes, Furnas, Telemig, e o mais recente escândalo da venda do país ao capital estrangeiro, quando e como a mídia brasileira vai pautar essas questões?

O Mundo do Divertimento Perpétuo

Sim, não há dúvidas de que caímos no planeta do divertimento perpétuo, e tudo pode ter começado há muito tempo, depois do progresso haver rasgado a terra e os mares para conectar o mundo através dos cabos, depois de os continentes haverem sido fatiados, no século XIX, em zonas de cobertura informativa, depois de havermos inventado o lead, essa pequena pílula informativa apta a capturar um leitor apressado, de espírito fugidio, sofrendo dessa síndrome do consumo rápido, e sempre a pedir mais e mais, nesse fast-food noticioso.

Eça de Queiroz falou desse sintoma nascente, flagrou essa doença dos primórdios do século XX, dessa satisfação em se poder, por dentro desse coleante amálgama de fios e cabos, palpar o mundo, subtrair suas distâncias, comprimir em pequenas pílulas de informação, o saber sobre as coisas.

Evoluímos tecnicamente, suprimimos os cabos, miniaturizamos as telas, e, aumentou a nossa fome por informação, proporcionalmente à capacidade da matéria prima ofertada, numa espécie de gigantesco banquete da notícia rápida, sobre tudo e qualquer coisa.

Gulosamente insatisfeitos, presas de um íntimo divertimento, deglutimos de tudo: A fofoca, o jogo, a tecnologia, a guerra, as mortes por gás sarin, o incêndio no campo de concentração francês, as duras horas dos refugiados comprimidas em pequenos bits informativos, a prisão do criminoso de colarinho branco, a bala perdida, a criança encontrada na lata de lixo, a dor da menina de vinte anos, a sua culpa, desvelando a culpa ancestral da mulher submetida, essa culpa exibida na tevê, sem anteparos, com a clareza das imagens digitais e a terrível cobertura do embrutecimento.

Você poderá pular o anúncio, esse breve atalho que pode levá-lo ao reinado do consumo, ali onde você também se diverte. Você pode pular o anúncio e voltará a experimentar essa satisfação íntima pelos pacotes de estórias ofertadas. A briga entre Trump e Putin, a refrega da lava jato, o embate entre os chavistas e a oposição venezuelana, a chuva de desaforos grotescos de Bolssonaro. A usurpação do poder de uma presidenta eleita, o embate entre sindicalistas e as reformas do governo Temer.

É como se nunca houvéssemos saído da caverna platônica, mas, as sombras que se nos apresentam são coloridas, fartas, há som da melhor qualidade para alargar cada vez mais o nosso sorriso nesse planeta do divertimento perpétuo.

E como sorriem os nossos jornalistas! Diante das câmeras e fora delas, e ainda aproveitam o seu sorriso para uma vinheta. Nossos jornalistas também habitam o mundo do perpétuo divertimento. Retalham os fatos, extraem o que há de mais superficial, para que nada atrapalhe a bela orgia diversional. São bons nisso, os nossos jornalistas. São bons em sorrir, sorrir até a última gota, são bons em esticar a corda, o cabo de guerra, na infância triste do nosso mundo desenvolvido.

E não, não há somente a caverna platônica. O mundo está todo dividido em cavernas, devidamente iluminadas, servidas por câmeras, drones, microfones de todo tipo. Sitiados, envoltos em nossas trincheiras, atiramos pílulas de informação uns nos outros, distribuindo curtidas, reações diversas,  frouxos de riso, com a tragédia e o futebol, tudo servindo ao repasto do divertimento perpétuo.

O Jornalismo Mínimo e as suas Vítimas

O jornalismo declaratório faz suas vítimas, e elas são muitas. Toda a sociedade distancia-se, ignora ou, em alguns casos, fica indignada com esse tipo de narrativa, que divorcia-se vertiginosamente do ideário clássico que havia pensado a imprensa, os repórteres, a comunicação e a sua capacidade para fortalecer as democracias, harmonizar o tecido da sociedade, compor uma esfera de opinião pública crítica e esclarecida.

É desanimador o desfile de mediocridades na tevê, nos portais online, nos impressos. O modelo mínimo de jornalismo tem suas máximas: Fique o mais distanciado possível do fato. Só diga aquilo que disserem pra você. Apresente números, muitos números, até ao empanturramento, mas se comentar, o faça como se estivesse na mesa da cozinha, debicando o que todo mundo já sabe. Não perturbe o ambiente com investigações próprias, com apurações profundas, com textos autorais. Guarde isso para um blog pessoal, ou para quando for demitido.

Se fizer uma reportagem longa, bombástica, sente-se em cima dela, guarde-a para o “Número Zero”, aquele jornal do romance de mesmo título de Umberto Eco, que estaria ali, sempre pronto para chantagear alguém: Um político, um magnata, um vendedor de petróleo.

Morreu um homem num condomínio em João Pessoa. Fique longe disso. Diga o que se diz sempre nesses casos: Control-c control-v e pronto. “Não se sabe o nome do homem, não se sabe as razões do crime, o que importa é mais esse número flácido, sujo de sangue, caindo na estatística fria da violência”.

Ataque com gás sarin na Síria. Com o rabo do olho, mire o que estão dizendo as agências de notícias mundiais. Só existem quatro grandes agências mundiais. Repita o que elas dizem, papagueie até à exaustão, garanta suas vinte linhas, sem dissonância, sem divergência, que Deus o livre de apuração e aprofundamento!

Ataque terrorista na Rússia? Mire para onde vai o fluxo. Ignore isso. Notinha curta, um box talvez. Quanto vale a morte de cinquenta chineses? Cem africanos? Faça uns cálculos rápidos. A morte de um americano, de um europeu, essas sim, dão manchetes.

Reforma da previdência? Fique do lado de quem lhe paga os salários. Faça propaganda aberta. Ameace os trabalhadores, combata greves, edite passeatas, porque dessa vez os menores números serão a manchete.

Está cobrindo a política? A receita é simples. Coloque o PT nas tragédias. Enfatize isso o dia todo. Acompanhe o fluxo. Invente uma pérola do tipo Cristiana Lôbo que afirma: “De tédio a gente não vai morrer”. Não sabe ela que sua voz, sua narrativa, tem jeito, eco e  cheiro de catacumbas.

A Matéria Fraca do Jornalismo Brasileiro

A carne está arruinada, dizia minha mãe, nos idos da minha infância, quando por alguma razão, a carne de casa havia se estragado. Quando isso ocorria, dava-se uma pequena tragédia na nossa família grande, de agricultores, onde os filhos maiores trabalhavam duro no campo, contando com quase nenhum recurso monetário, e onde a carne era, por assim dizer, produto de luxo, tal como o açúcar e o arroz, mas tinha de ser consumida rapidamente, pois não contávamos com energia elétrica e nenhum processo de refrigeração.

O episódio deflagrado pela operação Carne Fraca, é somente mais um capítulo da tragédia que se abate sobre o país dos nossos dias, no plano econômico, mergulhado em recessão profunda, e no plano político, amargando as consequências do golpe jurídico/parlamentar/midiático.

A cobertura desse episódio em particular, demonstra porém, a fraca matéria de que é feito o jornalismo comercial brasileiro, convertido em jornalismo publicista, artífice e difusor da narrativa oficial.

A cobertura do episódio tem objetivos implícitos: Por um lado, defender as empresas distribuidoras do produto, que são também grandes anunciantes dos grupos midiáticos. Por outro lado, alinhar-se com o discurso oficial do governo, na estratégia de abafar o escândalo e evitar os prejuízos que já se anunciam para a indústria, com a suspensão das exportações por diversos países.

O ápice dessa cobertura deu-se na edição do Jornal Nacional de hoje. Numa suposta aparência de transparência, o JN deu voz ao discurso oficial, de que os problemas da carne são pontuais e de que o grosso das investigações não se dá por problemas sanitários, mas antes, por problemas de corrupção.

Trata-se aqui da velha tática de contar uma meia verdade e obscurecer a inteireza dos fatos. De que corrupção a mídia e o governo estão falando? Que autoridades estão envolvidas nesse novo processo de corrupção, do qual não se sabe uma vírgula sequer?

A ruína ética e moral do jornalismo brasileiro não agendará essas questões, quando muito, divulgará listas e declarações, fingindo que faz jornalismo imparcial e ouve todos os lados do acontecimento. Estivéssemos, porém, no governo da presidenta Dilma, o viés da cobertura seria oposto ao modus operandi de hoje.

Estivesse no governo a presidenta Dilma, e a artilharia midiática não pouparia um bife ou um embutido sequer. Capas de revistas, manchetes de primeira página nos impressos, dia inteiro no noticiário televisivo e radiofônico, encontrariam maneiras de aplaudir a operação, ampliar seus efeitos e demonizar de todas as maneiras os agentes do estado envolvidos.

Mas a mídia necessita dar sua quota de contribuição para salvar o golpe que ela ajudou a deflagrar. Um golpe financiado pela mesma corrupção das empreiteiras, e quem sabe até, dos negócios da Seara e da Friboi.

Como diria minha mãe, a carne está arruinada. E eu digo com pesar, a carne, o leite e a matéria de que é feito o jornalismo brasileiro.

A Celebração e a Dança sobre a dor do Outro

O dia de hoje foi estranho. Na mídia, os fatos centrais foram a escolha do novo relator da Lava Jato, e a votação do novo presidente da Câmara dos Deputados. Nada de mais, a política e as suas patranhas, tem sido o foco da mídia nos últimos meses, que ora se porta como o narrador central dos acontecimentos, ora toma partido e engrossa golpes históricos do país, como no caso do impeachment da presidente Dilma Rousseff, claramente apoiado pelo oligopólio midiático.

O dia foi realmente estranho. Depois de longos dias em coma induzido, no hospital Sírio Libanês, morreu dona Marisa Letícia, mulher do presidente Lula, ex primeira dama do país.

E aí ocorreu a cobertura mais estranha já feita pela mídia sobre um caso de morte de uma pessoa famosa. Dona Marisa Letícia tinha sido notícia midiática o tempo todo, por conta do caso do tríplex do Guarujá, sendo manchete principal em horários nobres dos telejornais, através dos áudios vazados pela operação Lava Jato, que por uma terrível semana de março do ano passado, rodaram em toda a grande mídia, expondo intimidades da sua família e dela própria.

No dia da sua morte, porém, a mídia fez uma cobertura esquisita, lendo o boletim médico que decretou a morte cerebral da ex primeira dama, de modo apressado, para retomar a faina da cobertura política e das suas patranhas.

A mídia ignorou solenemente, inúmeras manifestações de ódio e de celebração, por ocasião da longa internação de dona Marisa. Buzinaços em frente ao hospital, tuitaços estimulando o ódio contra ela e sua família, novos vazamentos, do próprio Sírio Libanês, da situação médica da paciente, num claro crime contra a ética médica.

Dona Marisa se foi, de maneira discreta, como aliás sempre se portou, ao longo da sua vida.

A mídia oligopolista prosseguiu na sua faina por cobrir um país editado, um país que a própria mídia julga normal.

A mídia torce pelo governo de um presidente citado mais de quarenta vezes na operação Lava Jato. A mídia cobre com esmero, a escolha do novo presidente do Senado, suspeito de corrupção. Aplaude a nova eleição de Rodrigo Maia na Câmara dos Deputados e repele a fúria dos servidores do Rio de Janeiro, em luta pelos seus direitos e salários.

A mídia cobre com frenesi, a escolha do novo relator da Lava Jato, transformando em não-notícia, o terrível acontecimento da perda de Teori Zavascki.

A mídia ignora solenemente a notícia mais grave: O país está doente. Contaminado pelo ódio, pela crueldade, o país festeja a morte, celebra e dança sobre a dor do outro. A mídia edita seu país normal, celebrando e dançando sobre o cadáver da democracia, e, quando lhe é útil, a mídia convoca manifestações e insufla o ódio na sociedade, apresentando bonecos do ex presidente Lula e seus familiares, vestidos de presidiários.

Que dona Marisa descanse em paz, longe dos buzinaços e dos holofotes, e se houver um outro mundo onde dona Marisa possa rezar, que peça por nossa pátria doente.

 

O Long-play da Cobertura Midiática

O modus operandi da

mídia brasileira, no que se refere à cobertura política, é como um disco de duas faces, se quisermos, como uma espécie de mantra com dois polos bem nítidos, negativo, positivo, a depender do governo que esteja no poder. Há outras estratégias mais sutis, mas a principal delas envolve mesmo a operação de mudança de face, como se por muito tempo houvesse sido rodado o lado A do disco e agora se executasse o lado B.

Os treze anos do governo do PT na presidência da república, permitiram que conhecêssemos todas as faixas do polo negativo da cobertura política. Havia um noticiário ininterrupto cuja narrativa central era a quadrilha de corruptos, liderada pelo ex-presidente Lula e pela então presidente Dilma Rousseff, a partir de 2010.

Nunca foram tão úteis ao sucesso dessa estratégia, a rádio que “toca notícia” e a cobertura em tv fechada, em todas as horas do dia.

Agora porém, estamos conhecendo a outra face do disco da cobertura política. Agora a mídia roda a narrativa positiva do governo que ocupa o poder de forma indireta, após o longo e duro processo de impedimento da presidente eleita pelo voto popular.

Tocar a faixa positiva do governo, não é tão simples. O jornalismo, desde que o mundo é mundo, alimenta-se de noticiário forte, onde possa ser reproduzida com nitidez, a fórmula na qual a realidade possa lembrar a ficção, e onde as pessoas sejam claramente informadas sobre o bem e o mal. Com os governos petistas no poder, era fácil alimentar o ódio às esquerdas, era simples fazer a associação tão explorada pelos contos de fada, a bruxa má, o príncipe salvador, os quarenta ladrões, um país desgovernado e o mandatário correto e probo preso à torre do esquecimento, com seus trajes decorativos.

Óbvio que tocar a face B, com suas faixas positivas para o novo governo, exige estratégias sutis, para que não se perceba tão claramente as marcas da mudança de ângulo. A mais importante estratégia pede que o nome do presidente Temer somente apareça vinculado à notícias positivas. Quando as notícias são negativas, fala-se somente em presidente, mas não se pronuncia o seu nome.

Uma outra estratégia certeira é a de colocar as celebridades da tv para anunciarem as boas novas do governo. Pegue-se uma boa nova e a faça rodar a semana toda, com pequenas mudanças narrativas, nas vozes de Míriam Leitão, Alexandre Garcia, e todos os outros célebres da cobertura política.

O método é semelhante ao que se fazia nos governos do PT, só que com as notícias negativas, que rodavam toda a semana, com pequenas modificações no modo de apresentação.

A façanha midiática não tem tamanho. Rodar o polo positivo dessa cobertura não é tarefa simples, quando um governo por si só gera tantas notícias negativas. Uma pergunta porém, há que ser respondida: Por que a mídia brasileira faz coberturas tão polarizadas, e sempre nos extremos? A resposta é desalentadora. A mídia brasileira não faz jornalismo social, mas, realiza o que poderíamos chamar de jornalismo comercial. Assim, a face B do seu disco está reservada aos governos que pagam melhor a fatura.