O Trabalho da Dissimulação

O jornalismo informativo, estabelecido no mundo pós-industrial há mais de dois séculos, destinado a destilar notícias ligeiras para uma cultura de massas, ao tempo em que cumpre essa função primordial com maestria, vai estabelecendo com engenho, o que poderíamos chamar de a arte da dissimulação.

Funciona assim: Os acontecimentos do mundo trafegam em grande velocidade nos trilhos da sociedade, e a mídia, de prontidão, leva às casas do público, os fatos como eles são. Temos aqui o primeiro artifício. Os fatos da mídia não são os acontecimentos do mundo. São representações da realidade, editadas, empacotadas em técnica e conteúdo ligeiro, em geral revestidos de interesses, de grupos empresariais, grupos políticos, crenças religiosas, modelo de cultura, que no ocidente, é a cultura branca, civilizada, cristã e capitalista.

Esse curto preâmbulo serve para que eu possa comentar o que ocorreu na última quarta-feira, na Câmara dos Deputados, quando um grupo de manifestantes desfraldou a bandeira da insanidade e da estupidez, clamando em altos brados pela volta da ditadura militar e pedindo o fechamento do Brasil.

Tendo se estabelecido como o vigia principal da sociedade, a mídia deu curso à sua arte da dissimulação, cobrindo aquele acontecimento como algo surpreendente, um fato novo, original e inusitado, mas sobretudo, como algo que em nenhuma medida lhe dissesse respeito, cumprindo-se assim, a segunda etapa do simulacro, qual seja, a de fazer crer à sociedade, que os fatos se sucedem uns aos outros, sem qualquer ligação, sem qualquer fio condutor que os articule e os explique dentro da própria série histórica.

A mídia, ao bradar que está fazendo seu trabalho, exime-se de qualquer responsabilidade sobre aqueles acontecimentos terríveis. Na sua narrativa ligeira, com auxílio de tecnologia de ponta, a mídia diz espelhar os fatos como eles são, mas oculta o fundamental do acontecimento. Aqueles cinquenta manifestantes que ela agora chamou de vândalos e criminosos, em março de 2015, desfilavam em grandes multidões nos domingos da avenida Paulista, contando com a convocação, os microfones, câmeras e ampla cobertura da mídia, a mesma mídia que então os chamou de patriotas, vestidos de verde e amarelo, manifestantes defensores da democracia e de um país de futuro.

O que se viu na quarta-feira na Câmara dos deputados, foi uma pequena amostra do que já ocorrera na Paulista, em grande estilo, e sobretudo com a chancela da mídia, que naquela ocasião, impunha à sociedade como pauta única, o ódio ao governo do PT, cobrindo diuturnamente, cenas de Lula vestido de presidiário, flashes de uma presidenta Dilma enforcada que virava capas nos jornalismo de revista ecoado depois na maior rede de televisão.

Na Câmara dos Deputados, o que se viu na quarta-feira, foram espécimes daqueles que Umberto Eco chamou de Midiotas, e que no Brasil, são filhos da incitação permanente do ódio às esquerdas, parceiros domesticados de uma comunicação monocrática e oligopolista, arquitetando a construção e a defesa de um modelo de país neoliberal, branco, devotado às leis do capitalismo rentista.

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O Diapasão Midiático

 

A notícia da semana gira em torno da prisão do ex-deputado Eduardo Cunha. A narrativa que ganha o mundo, porém, exibe a um telespectador mais atento, os mecanismos de uma mídia volúvel, superficial, telenovelesca, interessada em ficar bem diante da sua débil audiência, ficar bem em qualquer situação.

Vivemos em meio aos escombros de um país que a própria mídia ajudou a construir. A grande imprensa trabalhou ativamente em favor da candidatura do então deputado eduardo Cunha à presidência da Câmara dos Deputados. Festejou a derrota do candidato petista, e, com a força do presidente eleito, realizou a louvação cotidiana da necessidade do impeachment.

Com frieza e determinação, Eduardo Cunha deu curso ao processo, garantindo inclusive cobertura em horário nobre, determinando a última sessão de votação para um domingo, 17 de abril.

A grande narrativa da época, aliás, recorde de publicização midiática nos últimos cinco anos, era a de que o Partido dos Trabalhadores precisava ser extirpado da cena política, por ter se constituído como uma quadrilha, em assalto aos recursos públicos, tendo protagonizado os maiores escândalos de corrupção da cena política do país.

Cumpria-se assim, um dos primeiros princípios do diapasão midiático: Se não aparece na mídia, não é escândalo, não há corrupção. Ignoraram-se outros escândalos, a exemplo do Panamá Papers, as inquietantes denúncias das obras do metrô paulista, o escândalo conhecido como “mensalão de Minas”. Inculcou-se na mente da débil audiência, a ideia do partido corrupto, forjaram-se os ícones do Lula presidiário, da Dilma enforcada, e, em contrapartida, a sinfonia do país novo, limpo, de gente trabalhadora e honesta.

Consciente da memória curta da sua débil audiência, a grande mídia cumpre agora, o segundo princípio do seu diapasão: A mídia sempre ficará por cima e terá a última palavra, sempre ficará com o melhor ângulo, na cobertura da informação. Menosprezou as denúncias do Partido dos Trabalhadores, de que seus líderes estavam sendo vítimas de uma perseguição seletiva, reforçada pela própria mídia. Nesse episódio da prisão de Eduardo Cunha, a mídia de novo exibe como narrativa central, a ideia de que perde força a hipótese do PT, de que está sofrendo perseguição política.

Na verdade, o que flagrantemente se desmantelou, foi a tese central do processo de impeachment. A corrupção infesta a política em séries históricas implacáveis, empestando todos os mandatos políticos do país, debilitando a sua frágil democracia no momento atual, quando se impõe à força, à uma sociedade atônita, um projeto político indireto, filho do poder econômico e com todo o aval da grande mídia.

Cumpre-se também, o terceiro princípio do diapasão midiático. O capital tem pressa em cobrar a fatura do impeachment. A mídia passa seus recados ao presidente indireto Michel Temer. Clama pela aprovação em segundo turno da Pec 241, e, com sua narrativa sintética e suas imagens em hd, avisa: Somos mestres em erguer e derreter personalidades e autoridades. E sempre ficaremos com o melhor ângulo da cobertura.

 

 

Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União.

 

 

 

Onde o Jornalismo não Vai, O Cinema Denuncia

Assisti quarta-feira à noite, na tevê Brasil, ao documentário completo do cineasta Sílvio tendler, “Militares que disseram Não”, entregue ao público em 2014. Trata-se de uma grande reportagem audiovisual, sobre a situação dos militares que resistiram ao golpe de 64, em apoio ao governo do presidente João Goulart.

Mais que isso, é um capítulo tenebroso do período, um relato duro para ser guardado na memória da nossa história recente, onde apresentam-se, com todas as tintas, os requintes de crueldade, arbitrariedades variadas, assassinatos e prisões,  sem falar das torturas morais e físicas impingidas a esses militares.

No documentário, os sobreviventes falam do orgulho de haverem defendido a nação, o governo do presidente Jango, mas denunciam as marcas dos terríveis dias que viveram presos ou fugitivos da sanha golpista.

Em um depoimento, um militar conta de que maneira quebraram a sua força espiritual, minaram a sua vontade de viver. O torturador descreveu, com riqueza de gestos e detalhes verbais, como faria para arrancar com as mãos, do útero da sua mulher, o filho que os dois estavam esperando.

Não direi que estejamos vivendo uma espécie de repetição desse ciclo tenebroso. Mas é certo que os desenvolvimentos recentes da política brasileira nos arremessam para um perigoso estado de exceção, chancelado por parte do poder judiciário, pelo grupo político que planejou e executou o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, pela imprensa comercial privada, monopolista e sintonizada com esse processo, responsável por consolidar junto à opinião pública, a narrativa de desqualificação dos 13 anos de governança do Partido dos Trabalhadores e de transformar em espetáculo midiático, a vigorosa criminalização que se abate diuturnamente sobre os líderes do partido.

O trabalho da imprensa é sistemático. Trazer à linha de frente das suas pautas, a narrativa  de cada episódio do processo, como numa espécie de novela, que pode ser consumida vinte e quatro horas por dia, nos canais de tevê fechada, com flashes nas tevês abertas e ampla cobertura nos jornais de circulação nacional.

O episódio de hoje trata da prisão do ex-ministro Guido Mantega, numa situação dramática. Foi retirado do bloco cirúrgico de um hospital paulista, onde acompanhava sua mulher, que se submeteria a uma cirurgia de tratamento de um câncer.

Ausentes da pauta midiática, estão a aprovação do Projeto de Lei 257, aprovado ontem na câmara dos deputados, e que promoverá um profundo arrocho salarial para os servidores públicos, que em todo o Brasil, fazem hoje uma paralisação de protesto associada à paralizações em diversos setores, convocadas pelas centrais sindicais.

Fecha-se o cerco em torno do ex-presidente lula, com ampla cobertura midiática, enquanto que as notícias sobre Eduardo Cunha dão conta da sua andança pelo país, da feitura do livro que promete divulgar até o natal, sobre os bastidores do impeachment.

O jornalismo brasileiro não pode mesmo ir até onde estiveram as câmeras de Sílvio tendler. O jornalismo, em nosso país, está ocupado em publicizar a narrativa dominante do tempo presente. Se antes era preciso narrar a caça aos comunistas, agora é preciso narrar o extermínio do PT, e das esquerdas que o apoiam.

 

Esta coluna será publicada amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União

Jornalista Desde Sempre

 

Não foi uma pergunta, sequer uma pauta, preparada com antecedência, ou rabiscada às pressas no verso de um envelope usado.  Não foi nem mesmo um lead. Se quisermos dizer assim, foi uma sentença curta, sem apelação. Um aneurisma retirou Geneton morais Neto do convívio do jornalismo brasileiro, e amanhã, dia 29, enquanto a política revolve as cinzas da democracia, será celebrada sua missa de sétimo dia, onde já sinto, com muita pena, a falta da sua devoção à nossa senhora do eterno espanto.

Não se pode dizer que a sua carreira foi curta. Pode-se quando muito, afirmar que ele saiu cedo da vida. Saiu cedo, mas aproveitou cada minuto da sua vocação de jornalista, para pensar, ficar em silêncio, indagar, como se no arranjo bem articulado das suas perguntas, houvesse pinças muito finas a segurar as notícias.

Nas suas mãos, aliás, notícia era coisa rara, muito para além do “quem, diz o quê, a quem, com que efeito”.  As suas notícias tinham um ângulo próprio, original, nascidas que    eram, do artesanato de juntar entusiasmo, curiosidade e atenção concentrada no fazer profissional.

É assim que digo, foi uma carreira longa, rica, densa, onde escreveu livros, dossiês, realizou documentários, produziu crítica jornalística, editou para tevê e para rádio. Esculpiu para a história, narrativas magistrais, em páginas e páginas de memória jornalística.

Quando se vai um jornalista desse quilate, num momento tão difícil da imprensa brasileira, quando se juntam mãos em prece e se cantam os hinos da despedida, há que se ter paciência para se suportar o nó na garganta, o soco na boca do estômago, o desânimo a esfriar as mãos.

Há que se ter coragem para mirar a galeria dos que ficaram, a grande leva dos congratuladores, dos bajuladores, dos farsantes, dos vaidosos, a engrossarem as fileiras dos especialistas que nunca alcançaram o diploma da ética, que nunca seguraram a bandeira de defesa da democracia e da justiça social.

Costumo dizer aos meus alunos, que há três tipos de jornalistas. Os que já nasceram, os que se tornam e os que nunca o serão. Geneton Morais Neto já nasceu jornalista. Veio para mergulhar fundo no ofício, veio para iluminar os acontecimentos e nos ensinar que a surpresa, a curiosidade, o espanto, a ética, são os ingredientes próprios da vida jornalística.

Há os que chegam à carreira munidos de tais artefatos, qualificando sobremaneira a prática profissional. Geneton era um deles, por isso o seu legado será para sempre reverenciado.

Fecham-se os livros de oração, cerram-se as cortinas. Numa tarde silenciosa e sombria, prossegue a contagem da espera de que um jornalista novo possa abrandar o vazio e o luto.

O Vigia das Horas

O tempo caminha no seu passo de sempre, recebendo os segundos, os minutos, as horas, na colhedeira dos dias. A mídia, os comentadores, os políticos, em alguma medida, tentam apressar o recolher das horas, à espera de que chegue a segunda-feira, 29 de agosto, e assim seja consumado o terrível plano de impedimento da presidenta Dilma Rousseff.

De fato, a segunda-feira já chegou, nas especulações, nas narrativas, nas predições e profecias. Como a presença de Lula vai interferir na situação da presidenta?  Indaga uma jornalista ciosa do seu dever, articular e desenvolver as táticas de rejeição ao governo afastado, sempre com um sorriso no rosto.

Haverá um peso negativo terrível, apressa-se em responder um comentarista. Lula e sua esposa indiciados pela polícia federal, levarão a Lava Jato para dentro desse último dia do processo de impeachment.

Seria de ingenuidade, de cinismo, ou de malcaratismo  essa frase articulada de maneira quase coloquial, e difundida nos microfones da Globo News?

Indiferentes à uma opinião formada no contraditório, difundido nas redes sociais, os comentadores de mídia prosseguem na sua louvação à necessidade do impeachment, cumprindo com bravura e fidelidade canina, a pauta editorial que lhes é imposta pelos empresários de comunicações do país.

Às perguntas dos jornalistas, que não fazem mais do que anunciar o seu lado, a sua posição, a defesa da sua linha editorial, nuvens de críticas e respostas contraditórias eclodem nas redes sociais.

A Lava Jato sempre esteve dentro do processo de impeachment. Pelo menos quarenta senadores são citados na operação, não fossem as blindagens do judiciário, da mídia e do Supremo.

Um dos maiores operadores dos esquemas de corrupção, que tem juntado, ao longo dos séculos, a política e os empresários, o deputado Eduardo Cunha, ele próprio ainda mantém seu mandato, e age nas sombras, costurando e chuleando essa terrível tecedura do impeachment.

E qual será a influência da imprensa nesse último dia de impedimento? Estouram perguntas do gênero nas redes sociais. Como se portariam os senadores, não houvesse ali a presença das câmeras, dos âncoras, dos jornalistas internacionais, os documentaristas?

Porque é certo que a mídia, com seu poder de monopólio, é o grande braço publicitário do plano de impedimento. Jornalismo como o da Globo News, repetindo diuturnamente os mantras do processo, presta um serviço indispensável para que se obtenha o resultado já apregoado nas suas manchetes: Sessenta, sessenta e um votos a favor do afastamento definitivo da presidenta.

A mídia é o grande vigia dessas horas, do minuto em que cada senador depositará sua máxima nos microfones, quando uma máquina registradora invisível fará a contagem e vibrará, ruidosa ou silenciosamente, em selfs, em cliques, em vinhetas.

Pergunto-me o que farão os jornalistas da Globo News, quando cessar a necessidade do ódio e da rejeição. O que farão eles que nesses últimos anos, somente trabalharam com a plataforma do ódio, do cinismo e da desfaçatez?

Por agora não há como pensar sobre isso. A mídia está plenamente ocupada na vigilância das horas, dos votos, do final feliz para a sua fábula insensata.

Morrer é a Grande Notícia

Imagino o mundo midiático como uma estreita e movimentada faixa por onde trafegam os acontecimentos midiáticos. Me pergunto sobre quais as vantagens que teríamos, caso vivêssemos nessa movimentada faixa de acontecimentos.

A única vantagem, me parece, seria a de trafegarmos em segundos, pelas vias do Brasil, da Turquia, Bélgica, África do Sul, Bangladesh, e, por artes de um pequeno cutucão num cacho de sílabas, nos instalarmos nas esquinas badaladas de Nova York, ou na beleza agreste e fria da Patagônia.

Olho para os acontecimentos, acotovelando-se para ganharem o maior naco de atenção nas telas, e vejo que aquilo que chamei de vantagem não é vantagem alguma. Vivêssemos no mundo midiático, e certamente seríamos esmagados por esse terrível tráfego das notícias de morte. Morreríamos junto com reféns, em restaurantes de Bangladesh, morreríamos em aeroportos, salpicados por explosões terroristas fatais. Morreríamos junto com as vítimas inocentes da perseguição policial, morreríamos por apenas estarmos segurando um saco de pipoca, morreríamos, ali mesmo na esquina da minha rua, olhos esbugalhados para a inútil placa de Pare.

Morreríamos, mesmo caminhando feito mortas vivas, vítimas de estupros coletivos, nos metrôs, nos vãos escuros de viadutos, nas ressacas das baladas cariocas, dentro de hotéis de luxo, mortas vivas, carregando a dor das costelas quebradas, mortas vivas, dentro de barracos, dentes perdidos, olhos inchados, maxilares deslocados, mortas vivas, tatuadas pela brutalidade de pés, ou do que haja à mão, em apartamentos tipo 1 ou em coberturas de mais de seis dígitos.

Morrer é a grande notícia, a gritar como um pregoeiro, ou a empurrar para baixo o que não seja acontecimento de morte, para instalar-se no centro do mundo midiático, fatiar suas faixas de tráfego, invadir vielas, becos, vicinais, artérias movimentadas, capilarizar toda a atenção, todo e qualquer espaço entre o ir e vir, o inspirar, o expirar.

Vivêssemos no mundo midiático, e a toda hora estaríamos buscando ar, erguendo a voz, acima do tumulto, para uma pergunta tola. Não se nasce nesse mundo?

A nuvem dos acontecimentos desabaria sobre nossas cabeças: Crianças mortas porque a dona fome engole suas tenras células, crianças assassinadas pela ira dos seus pais, num momento de fraqueza, meninos e meninas desfalcados por balas perdidas, crianças pequenas assassinadas na paciência e determinação das artes de feitiçaria, bandos de meninos e meninas mortos em barcos lacrados ou em alto mar, fugindo da guerra, mãos estendidas num último pedido de asilo.

Vivêssemos no mundo midiático e assistiríamos em tempo real, sob diversos ângulos, à nossa própria esganadura, ao nosso atropelamento, à bala perdida que nos tiraria de cena.

A Fabulação da Mídia: Por um Caçador de Corruptos

Tudo já foi dito sobre os protestos do último domingo, que desta feita expressaram com mais clareza, o profundo fosso que vem se criando, entre a classe política e a sociedade brasileira. Emblemas dessa realidade, foram os xingamentos ofertados em alto e bom som, aos líderes do PSDB e DEM que foram à Paulista, e a hostil recepção à pré-candidata pelo PMDB daquele estado, Marta Suplicy.

Resta-nos uma conclusão óbvia, se extratos da política visavam capitalizar a manifestação das ruas, todos foram perdedores. A pergunta que se impõe, agora, é saber, quem perdeu mais, quem perdeu menos.

Para os atores da política, acendeu-se a lanterna amarela. Se hoje pede-se o impeachment da presidente Dilma e a prisão para o ex-presidente Lula, essas parecem ser, para os manifestantes do domingo, a tarefa prioritária. Amanhã esta mesma população pode erguer-se contra os líderes políticos que no parlamento, também lutam pelas duas agendas.

Mas há um terceiro e estratégico ator desse processo que também perdeu no domingo e vem perdendo progressivamente a batalha simbólica empreendida em favor da destruição do partido dos trabalhadores e de uma esquerda simpatizante ao governo Dilma. Esse terceiro ator é a mídia comercial privada, que escudou-se no discurso jurídico e político para construir a narrativa fabular de que o Partido dos Trabalhadores constituiu-se como uma quadrilha criminosa para assaltar os cofres do país e assim conformar-se como um polo de poder na América Latina.

Essa fabulação, ora com tons mais fortes, ora com menos influxo, vem sendo reproduzida desde o início do primeiro governo Lula, atingindo, na atualidade, o auge da sua força.

O esforço que reuniu o discurso jurídico, a narrativa política de direita, e as estratégias midiáticas, no sentido da difusão do processo de desgaste do presidente Lula e do governo Dilma, rebateu no domingo, em uma massa que verdadeiramente não está comprando a fábula como ela vem e promete fazer valer a força da chamada “voz das ruas”

A voz das ruas encheu de espanto e perplexidade, os políticos, os juristas, e à própria mídia, que permanentemente teve de retificar imagens, desligar microfones e omitir notícias que entretanto pipocavam estrondosamente nas redes sociais e na blogosfera.

A voz do domingo já elegeu seus líderes políticos: Abraçou-se a Jair Bolsonaro e fez louvação, em camisetas e cartazes, ao juiz Sérgio Moro.

Para os políticos que apostavam nas manifestações como o pavimento para o impeachment, resta um breve recuo, o pesar e medir da situação, a adoção de novas estratégias. A mídia, por sua vez, prosseguirá na sua fabulação suicida, à espera de que um imponderável aconteça, e assim ela possa investir todo o seu capital técnico manipulatório na derrocada final do governo petista.

Estará a mídia privada trabalhando na construção de um “caçador de corruptos”, tal como fez nos anos oitenta, ao colocar no topo da política brasileira, “o caçador de marajás”?

Se estas impressões se confirmarem, é possível que num futuro breve, a legenda do PSDB acolha Sérgio Moro e o coloque no centro da disputa em 2018. Já o eleitor, esse agente flutuante, imprevisível e escorregadio, não se pode prever para onde irá, quando chegar o tempo da colheita.

O Príncipe e O Metalúrgico

Era uma vez, uma velha rainha chamada República, que vivia com seus dois filhos numa casa grande, sendo o mais velho deles conhecido como O Príncipe, enquanto que o mais novo era conhecido como Metalúrgico.

A rainha distribuiu aos dois, em proporções semelhantes, doses de coragem e de vaidade, e ao Príncipe, por ser mais velho, entregou o governo da casa grande por oito anos.

Tendo estudado a fundo, tanto nos Estados Unidos, na Inglaterra e França, os mistérios das sociedades latino americanas, tendo mesmo elaborado a sua Teoria da Dependência, o príncipe governou a casa grande em sintonia com o capital internacional, e, internamente, em íntima ligação com a rede de televisão global. Gabava-se de ter aberto as portas do reino da República para o neoliberalismo, vendeu companhias de aço e de ferro, privatizou a telefonia, comprou sua reeleição, mas, espertamente, tinha a seu serviço, o engavetador geral da República, que não permitia que sua mãe, tampouco os outros súditos, ficassem sabendo das suas peripécias.

Finalmente chegou a vez da República entregar ao Metalúrgico o mando da casa grande. Metalúrgico era muito diferente do Príncipe. Se alfabetizara em um grupo escolar do interior do país, não falava inglês, tinha tido por longos anos, a companhia da fome, tinha perdido um dedo numa indústria do ABC, mas foi avante, organizou um partido político e começou a sonhar com um país mais justo para todos.

Pois bem, sua mãe, a República, entregou-lhe o governo da Casa Grande também por oito anos, e Metalúrgico disse que sua primeira tarefa seria cuidar da fome que ele tinha de acabar com a fome dos seus súditos. À socapa, o príncipe sorria do irmão pobre. De fato, o reino da República era habitado por dragões achacadores, e, os donos do capital, queriam mais capital, pelo que Metalúrgico resolveu aliar-se a todos eles.

Minimizou os efeitos da fome, e, por não ter um diploma universitário, como seu irmão, construiu mais escolas técnicas, universidades, onde acolheu negros, pessoas com deficiência, e sobretudo os mais pobres.

E fez mais, o humilde Metalúrgico. Quando chegou ao fim o seu reinado de oito anos, quis que uma mulher o substituísse no comando da casa grande, e assim foi feito.

O Príncipe não gostou do que via. Então era o Metalúrgico que ganhava fama internacional, elogios públicos do presidente dos Eua, e ainda por cima ganhava mais dinheiro do que ele em palestras pelo mundo a fora?

O príncipe queria de novo o mando da casa grande, mas, apesar de contar com apoio da rede global de tevê, que todos os anos criava uma pauta única contra Metalúrgico e sua sucessora, não conseguia mais os votos necessários para recolher ao seu próprio cofre a chave da República.

Foi então que a rede global de tevê deu início à Guerra Midiática contra Metalúrgico. Tinha expertise em manter e derrubar governantes, apoiara os mais de vinte anos de ditadura, derrubaria o Metalúrgico com edições diárias da Pauta única. Metalúrgico faz a regra do jogo, é o líder maior da quadrilha que se instalou na República. Era esse o script, pelo qual trabalhava o exército da rede global de tevê. Assim foi feito.

Essa estória não teve ainda nenhum final feliz. Metalúrgico é tão vaidoso quanto o Príncipe, mas, a sua vaidade radica nas coisas que fez. Tirou a república do mapa da fome, democratizou a educação, fortaleceu as instituições de fiscalização e de controle, desfez a dependência com o FMI, e, ergueu as cabeças dos seus súditos pobres. Esse é o grande pecado que o Príncipe não perdoa.

 

O Jornalismo Comercial quer Audiência, mas não se preocupa com Ela

Essa é a conclusão a que chego nesta semana em que a operação midiática, bombardeando sua audiência com fatos e boatos sobre a Lava Jato, alcança picos impressionantes.

Hoje, com a expansão das redes sociais, já não podemos falar em leitores de jornal, mas antes, em audiência. Em minhas aulas de jornalismo, eu costumo dizer que esta audiência receptora foi reabilitada, tem uma janela de onde fala, protesta, reage, critica.

Há que se avaliar porém, uma hipótese perturbadora. A mídia comercial busca essa audiência, mas não se importa minimamente com a sua reação, suas críticas, seus protestos.

Os portões da comunicação foram arrombados. O círculo redacional não é mais um ambiente circunscrito aos jornalistas. Agora, de qualquer lugar, a audiência, através de menções ou hashtags, implica, critica, reclama por uma retificação, mas recebe em troca, o monopólio da pauta única, dos boatos divulgados pela manhã, como pautas bomba, para serem desmentidos à tarde, em pequenos espaços de retificação.

Onde será que vai parar a avalanche de mêmis,de críticas e repercussões, dirigidas às redações e portais? Que tamanho terá a lixeira virtual da mídia comercial privada?

O profundo divórcio entre jornalismo e pluralidade amplia-se, a audiência das grandes redes televisivas despenca vertiginosamente, entretanto o modelo da pauta única prossegue, alastrando boatos, evidenciando circunstâncias mal apuradas, ignorando claramente outros fatos envolvendo poíticos ou sonegações milionárias de empresários, em clara sintonia com uma oposição irresponsável, em estreito vínculo com os velhos ditames de uma economia neoliberal.

Rasgaram-se os manuais de redação, cospe-se no código de ética dos jornalistas. Retificações e desmentidos enchem o dia a dia dos tele jornais e dos portais de notícias online, enxovalham-se personalidades e carreiras, e tudo se faz com o sorriso nos lábios dos ancoras de tevê.

O modus operandi já se instituiu como a prática corrente no processo de produção e distribuição das notícias. Uma revista de circulação nacional lança a matéria bomba do início da semana, que depois é repercutida até as últimas consequências em toda a cadeia. “A notícia caiu como uma bomba”, “o governo está assustado”, “, “Dilma está muuuuito preocupada”, essas são algumas das frases de efeito ecoadas e repetidas ao longo da semana.

Há mais. Fatos que não são notícia ganham a centralidade da cobertura no horário nobre, veja-se por exemplo o caso dos pedalinhos. A pauta única, a música de uma nota só, é empurrada sem qualquer artifício, pelos escoadouros da comunicação.

E os gritos da audiência? Suspeito que nas redações, eles não merecem senão, o perpétuo o encolher de ombros, o ricto de desprezo, como se esta não passasse de um primo do mosquito transmissor do Zica vírus, que é preciso ignorar e combater.

A audiência não tem mídia, senão o alerta apressado nas redes sociais, que cai na vala comum da indiferença. A mídia é na verdade, o braço mais estratégico de um modelo elitista de poder, que busca solapara frágil democracia, para reinstalar a política do arroxo, do enfraquecimento dos movimentos sindicais e sociais, uma economia privatista sintonizada com os ditames do capital internacional, que internamente, é conformado por um conjunto de empresas que sonegam, corrompem e difamam, inclusive, parcela importante das empresas de mídia.

Como diria Bakhtin, toda mensagem tem um claro endereçamento. . As mensagens midiáticas de agora, em sua alta circulação e repetição, a curto prazo, pretendem alimentar as manifestações pró impeachment marcadas para o dia 13 de março. A longo prazo, querem criminalizar o partido que ainda é o favorito nas eleições de 2018.

Uma Estranha Cronica sobre um Colóquio amoroso

Não poupa nada nem ninguém,, a mídia contemporânea. Feito um polvo de múltiplos braços, vai agarrando suspiros, caretas, as 111 visitas ao sítio de Atibaia, os vendavais e suas desconcertantes destruições, a esterilização em massa dos mosquitos, e, no meio de tudo, as mais de trezentas cartas trocadas entre o Papa João Paulo II e a filósofa Anna-Teresa Tymieniecka.

Com a voracidade e a pressa que lhe são peculiares nos dias que correm, a mídia despreza a linearidade dessa correspondência, seus intervalos, o encadeamento dos diálogos, a suposição dos silêncios, os selos e carimbos oficiais, a beleza por si só, a emanar desse fato, um Sumo Pontífice, em colóquio com uma filósofa.

Não, à mídia interessa mesmo espremer esses trinta anos de amizade e correspondências, debulhar e regurgitar para o mundo os fatos essenciais: ”O Papa João Paulo II manteve uma íntima e intensa correspondência com uma mulher casada, com quem se encontrou, fosse em presença de outros ou muitas vezes sozinho”.

Há que se deixar no ar o cheiro do escândalo, os presumidos sussurros,  ao lado de uma pequena nota explicativa: “Não há indícios de que o Papa haja quebrado seus votos”.

Assombrada com esta essencialidade midiática, impressionada com o vago perfil construído para Anna-Teresa Tymieniecka,a mulher casada, a filósofa com quem o Papa se correspondia de forma intensa, quis saber mais sobre a distinta senhora. A Wikipédia nos oferta uma biografia sua, portanto, devo pedir perdão aos leitores, por transmitir aqui, fatos os quais não posso comprovar.

Filósofa, o interesse central de Anna-Teresa Tymieniecka era a fenomenologia, entretanto transitou pelas áreas da matemática e das ciências sociais. O perfil disponibilizado via Wikipédia, revela a trajetória de uma pesquisadora universitária, produtiva, tendo alcançado o ápice da carreira, com pós-doutoramento e várias obras publicadas.

Nem a Wikipédia, nem o rolo compressor midiático, nos falam sobre as qualidades essenciais da pesquisadora, melhor dizendo, da mulher que aos poucos foi encantando ao então Cardeal de Cracovia,e cabe à nós, o exercício imaginativo de moldar a personalidade, provavelmente ao mesmo tempo forte e delicada de Anna-Teresa.

Ou será que temos mesmo o direito de expor ao mundo esses fatos? A bulha midiática sempre se beneficia de indiscrições, vazamentos, deslizes.

As cartas de Anna-Teresa Tymienieckachegaram ao rolo compressor, graças a um funcionário menos zeloso, que sentiu naquele espólio, o faro de um furo jornalístico.

O que se pede agora, a um mundo que só se alimenta do fatídico, do trágico e do bizarro, o que se pede é que se olhe com respeito para a beleza desses trinta anos, marcados por um diálogo entre arte, ciência, religião e amor.