As Forças do Golpe

Os ancoras de televisão não gostam quando se afirma que há um golpe em marcha, um golpe que ora perde força, ora assoma ao topo da agenda política, e que visa destituir o governo da presidente Dilma Rousseff, eleita para governar o país até dezembro de 2018.

Para aqueles que já vivenciaram momentos difíceis no Brasil, os quais redundaram na deflagração de golpes e destituição de governos, o golpe pode acontecer num dia qualquer, quase sem aviso, provavelmente numa manhã de meio de semana, quando a mídia precisará de fatos quentes que rendam até o domingo.

O golpe é como uma fruta grande e madura, pronta para ser colhida, só carecendo das condições ideais para que isso ocorra. Foi germinado a partir de um conjunto de idéias que germinam os golpes, as quais desacreditam o estado na sua capacidade de governo, insuflam pequenas e grandes revoltas diárias, demonizam as autoridades máximas do país, plantando no centro da cultura, um ideário sobre os governantes, que os pintam como criminosos, irresponsáveis e corruptos.

A força maior de um golpe é a capacidade de mobilização da imprensa em favor do seu ideário. Uma imprensa mobilizada trabalha dioturnamente em favor do golpe, organizando e difundindo os discursos, recrutando seus melhores ancoras para a faina diária de divulgação e manutenção das táticas e práticas, repetição dessas táticas e práticas, tanto como exercício de crença, como trabalho de domesticação das massas.

Porque é certo que um grande contingente da imprensa nacional acredita piamente no conjunto de idéias que conformam o espírito golpista. Um grande contingente de jornalistas que não ousa questionar, mas antes, dá curso à narrativa que lhe é solicitada, sob encomenda, e que é diuturnamente repetida pelos ancoras,eles que estão no topo desse processo narrativo e aos quais caberá sempre a última palavra.

Uma imprensa mobilizada trabalha sob os auspícios de outras forças: Os políticos de oposição, representantes das cortes de justiça, extratos da polícia federal. Uma imprensa mobilizada é mesmo a voz de todas essas narrativas, lhes dá chancela e credibilidade.

Uma imprensa mobilizada limpa a área, para que a narrativa baseada na acumulação e na consonância das coberturas, possa estar sempre num lugar de centralidade. Não existirão denúncias, mas antes, a denúncia. Não existirá corrupção na política, mas antes, corruptos de ocasião, instalados no âmago da República, quadrilha criminosa a dilapidar as riquezas do país.

Uma imprensa mobilizada narra a fábula inverossímil na qual cabe uma corte de políticos virtuosos, presididos por um presidente capaz de levar a cabo um processo de impeachment. Sim, porque uma imprensa mobilizada defende que se cair o presidente da Câmara, levará consigo a presidente do país.

O golpe espera pois, na sua bandeja de prata, o momento de ser colhido. Com paciência, técnica e táticas diversas, a imprensa mobilizada do país dá safanões na bandeja, a ver se a fruta cairá na concha da história.

Manchetes de Jornal

Não posso desligar a tevê, nem ignorar as Newsletters que recebo todos os dias na minha caixa de correio. A verdade é que as manchetes são as mais difíceis de digerir, e desaguam de todos os lados.

Na minha cidade, os jornalistas falam de crianças mortas encontradas no lixo. Crianças morrem de fome e de cansaço nas fronteiras europeias. E agorinha mesmo, enquanto escrevo minhas 36 linhas, o jornalismo mundial repercute o terrível embuste perpetrado pela Volkswagen, tecnologia embutida em seus automóveis de luxo, para enganar ao mundo, aos ambientalistas, aos governos, que está reduzindo a poluição.

É verdade que o Papa Francisco tem alertado ao mundo, com sua generosidade, com frases curtas, simples e certeiras, sobre o terrível caminho que estamos palmilhando, em sociedades garroteadas pelas exigências da propriedade, do capital, e onde a vida é flagrantemente ameaçada, descartada, ignorada.

Um país justo, é aquele que se preocupa com as pessoas, disse o Papa Francisco em Cuba, e depois rumou para os Estados Unidos, onde espera intermediar o fim do terrível embargo econômico imposto pelo país de Obama à ilha de Fidel, há cinquenta anos.

Fico pensando se existirá de fato um país justo. As manchetes dos jornais, as chamadas de rádio e tevê, nos entremostram um mundo marcado pela violência, a desigualdade, injustiças de toda ordem, e estados servidos por regimes políticos ocupados em promover democracias baseadas em ajustes fiscais que protegem muito mais as bases de manutenção do status quo de defesa das riquezas concentradas nas mãos de poucos, e em muitos casos, de total abandono dos direitos de cidadania.

Para fugir do peso desse mundo amargo, corro atrás das descobertas científicas na área das missões espaciais. A terra vista do espaço, não passa de um belo e pálido ponto azul, como diria Karl Sagan. Sondas em diversos pontos do cosmos, nos mostram a espantosa e intrigante beleza das montanhas de Plutão, ou a misteriosa Hidra, uma das pequenas luas de Urano, tão distante de nós.

Em pensamento, faço coro com o Papa Francisco. Um país justo, preocupa-se com as pessoas, com suas riquezas naturais, com todas as outras espécies vivas, com a saúde da terra.

E de repente me dou conta, a política, as instituições, vivem sob a égide de um contrato social em que todos já estão meio mortos, soterrados por protocolos que os ajudam a fazer de conta, armados por formas de ludibrio e de fingimento, apoiados em legendas que abandonam ou acatam, com um simples jeito de mão, um pequeno discurso insólito, que possa caber em uma manchete de jornal, que possa ser decorado e repetido, na inútil prosopopeia da política.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna impressa do jornal A União).

O Quarto Poder Desgoverna o País

O quadro atual da crise vivida pelo país é dos mais preocupantes. Temos um governo abalroado por uma crise econômica que ele próprio se encarrega de aprofundar, uma oposição irresponsável instilando a amargura de estar na oposição, abalroada por sua própria incapacidade de pensar um projeto de desenvolvimento que a recoloque novamente na mira dos eleitores, que lhe dê o estatuto de ser capaz de retomar os trilhos do desenvolvimento, e ainda, lideranças que supostamente apoiam o governo, mas vêem no âmago da crise, a oportunidade de ouro para desengavetar projetos neo liberais que reconduzirão o Brasil à linha traçada pelo capital mundial para a américa latina, a qual prevê as rubricas do estado mínimo, livre iniciativa, arrocho salarial, desemprego e enfraquecimento dos movimentos sindicais já combalidos.

No centro de tudo isso, feito um árbitro implacável, para a guerra ou para a festa, coloca-se a mídia brasileira, comercial, privada, hegemônica, concentrada nas mãos de poucos, instilando numa sociedade atordoada, dia após dia, doses maciças de pessimismo, de intolerância, de ódio, tudo tramado no tecido do espetáculo, do drama, da tragédia cuja trilha sonora é o hino nacional.

Quanto custa um minuto de publicidade na tevê globo? A pergunta pelos custos não se coloca mais. Vinte quatro horas por dia a serviço de uma publicidade nefasta contra o governo democraticamente eleito, a rede Globo espera dividendos importantes, já conquistados em episódios da história recente, quando apoiou o golpe de 64, e conquistou o maior império comunicativo do Brasil, segundo da América Latina, só perdendo para a rede Televisa do México.A oposição espera pelas balas de prata da mídia, o governo, acuado, mantém os pagamentos dos dividendos publicitários, e, enfraquecido, apanha dioturnamente, uma saraivada de fatos negativos despejados sobre sua república desgovernada, engrossada pelas outras cadeias de radiodifusão e da imprensa escrita, que disciplinadamente seguem o script global.

Encurralado, o governo, como numa obstinação bíblica, apresenta a outra face e exalta a liberdade e a democracia.

Sim, não tenho dúvidas. O quarto poder, robusto, bem constituído, e com uma horda disciplinada de outros seguidores midiáticos, desgoverna o país, rasga seus livros de ética, cospe na Constituição, chuta o balde da República. A narrativa é digna do roteiro da novela das nove: O governo é o vilão, a quadrilha, e, é uma república comunista, que agora se chama Partido dos Traidores.

A oposição aplaude, o governo veste o manto do mal que a mídia lhe preparou, a sociedade compra o folhetim e vive o paroxismo e a histeria à frente dos microfones e das câmeras, louvando o único herói capaz de salvar o Brasil, o juiz da Lava Jato.

E já agora, uma última linha para essa narrativa triste. Não são somente os da Lava Jato que estão presos. A presidente dilma, o ex presidente Lula, já foram enforcados pela mídia brasileira, reféns das próximas manchetes que já se preparam nas redações.

 

Rumores do Jornalismo

Vai chegando a hora daquele tete-à-tete com os leitores, a hora das 36 linhas da coluna, e você pensa: O que vou dizer a eles? O que vou escrever? Não quero desperdiçar papel, não quero desperdiçar espaço, mesmo se for para embrulhar o peixe do dia seguinte, quero que haja dito coisas essenciais no jornal de hoje.

Quantos estão pensando sobre isso agora? Repórteres, editores, plantados em lugares estratégicos no mundo todo, farão eles esse exame de consciência? Sentirão esse vago amargo na boca do estômago, essa sensação de que há palavras de mais no mundo, e quase nenhuma é essencial?

Desde que se inventou o jornal, e desde que se consolidou a forma moderna de se fazer jornal, em meados do século XIX, a cobertura tem se especializado em priorizar algumas tendências: Violência, Tragédia, Celebridades, Economia, política, com todo o seu agregado de corrupção, cultura, esportes, lazer.

Imagine que o jornal seja o supermercado das notícias. Você chega com seu carrinho de necessidades de informação e pergunta: “|O que temos hoje”?

O vendedor entrega-lhe as letras garrafais da décima sexta fase da operação Lava Jato. Essa é a mercadoria de primeira ordem no Brasil e se mantém à venda, com cotação artificial ou não, já há mais de um ano.

Na Folha, no Estadão, em todos os portais de notícias, só se fala da prisão de mais 31 pessoas, com os números milionários da propina.

Enfastiada, você pede outra coisa. “Algo que venha de fora por favor”.

Feito um vendedor de badulaques, barulhento e insidioso, as manchetes se impõem como se gritassem: “Veja um raio-x das 16 fases da operação Lava Jato”! Você olha para mais longe, procura outra coisa, e dá de cara com outra manchete terrível , porém, com um milagroso e provisório final feliz: “Exército peruano resgata crianças reféns do Sendero Luminoso”!

E eis que na sua busca, você topa com outro caso rumoroso e trágico: “Polícia de caso Madeleine investiga corpo de menina descoberto na Austrália”!

Com um vago alívio, você segue a pista da notícia. Vai célere, pulando cabeçalhos, banners publicitários, e estaca cheia de horror. Restos mortais de uma criança, entre dois e quatro anos, encontrados dentro de uma mala, próximo à uma rodovia, nas cercanias da cidade de Adelaide, onde fica isso? Na Austrália, informa a reportagem da BBC.

Você há de se lembrar, por causa do mistério. Você talvez se lembre, porque era apenas uma menina de três anos, em férias com seus pais, numa praia do Algarve, em Portugal. Madeleine desapareceu misteriosamente em 2007, e agora essa mala, esse corpo, essas trinta linhas de jornalismo frio, sobre a sua tela, e esse meu jeito de gritar para dentro, uma angústia que não pode ser descrita em times new Roman.

 

As Notícias não nos Contam Nada

Meio minuto talvez, mas era a notícia sobree a inauguração da nova cidade reconstruída em um dos vilarejos destruídos pelo tsunami ocorrido no Japão em 2011. O repórter falou rápido, talvez premido pela agenda do tempo de tevê. Nem entendi direito o nome da nova cidade.

Querendo saber mais, fui ao G1, e lá encontrei dezessete linhas sobre o acontecimento. Fiquei sabendo que a cidade se chama… benditos control c contro v, a cidade se chama Tamaura-nishi, e recebeu ontem seus primeiros moradores, vindos de seis cidades que foram destruídas pelos terremoto e tsunami ocorridos em 2011 no nordeste do país.

A cidade recebeu 833 moradores, que vão dividir as 315 casas.

Fechada a notícia em seus números frios, o telespectador mais atento, o leitor mais percuciente, engole em seco, e se prepara para o tsunami de questões que então passa a formular.

Quantas famílias terão ficado intactas? Há órfãos? Em que casa vai viver a menina pequena que ficou sem os pais? Quantos idosos desemparelhados vão para casas desemparelhadas?

Recordo que na notícia da tevê, Evaristo Costa exibia o seu sorriso mais otimista. Estava alegre. E então me pergunto, terá havido alegria nessa primeira ocupação?

Suspeito que sobretudo os jovens estavam alegres no primeiro momento de chegar, abrir pela primeira vez a porta nova da casa nova, precipitar-se para dentro, desembrulhar pequenos volumes dos seus pertences.

Suspeito que os velhos não estavam alegres. Suspeito que neles houvesse uma contenção de gestos, um respirar sutil mas nervoso, um vazio no estomago, um vago suor nas mãos enrugadas.

A tragédia do Japão foi de tal magnitude, que fica difícil medir esse acontecimento da inauguração da cidade em dezessete linhas, ou em menos de um minuto de tempo de televisão.

Pense por um segundo em milhares de pessoas vivas perdendo essa condição, sendo esmagadas, soterradas, desaparecidas. Pense nos que ficaram, na sua dor, no medo profundo a lhes tirar do chão e a lhes plantar em algum lugar sem nome, onde a angústia, o medo, são o único vibrato contínuo e sem tréguas…

Imagino que se falou pouco nessas primeiras horas de ocupação. Cozinhou-se arroz, preparou-se alguma bebida quente,pode ser que alguém, um senhor idoso, tenha experimentado tocar sua flauta, na sala nova da casa nova.

Não, as notícias não são senão, frágeis chaves que sempre se quebram, à primeira tentativa de abrirmos portas. As notícias dizem-nos o que menos importa, ou nos entregam somente o discurso insosso da generalidade. Não, as notícias não nos contam nada.

 

Philae, Um Reporter Cósmico?

Endereço, 67P/Churyumov-Gerasimenko. Localização, a uma distância de mais de trezentos milhões de quilômetros do planeta terra. É onde mora a mais de sete meses, o robô Philae,um dos módulos da sonda Rosseta, da Agência Espacial Europeia. A notícia de que ele reviveu e fez contato com aterra, na noite do último sábado, 13 de junho, é talvez uma das mais importantes para o século XXI, no campo da corrida espacial e das suas descobertas.

O robô havia sido deixado no cometa em novembro, mas, em sua aterrisagem, foi parar em um lugar pouco iluminado, um incidente lamentável, já que suas baterias estavam no fim e se autocarregariam através de painéis de energia solar. Mesmo assim, Philae ainda trabalhou por cerca de sessenta horas, falou com a terra por oitenta segundos, enviou mais de trezentos pacotes de dados, e hibernou.

Foram sete meses de sono profundo, mas, não se pode dizer que a nova casa de Philae seja um lugar ttranquilo. Safanões, explosões, erupções de grandes volumes de gazes, fizeram com que Philae chegasse mais perto do sol, e, num sábado à noite, em vez de ir à balada, o robô despertou e mandou um tweet, chamando todos ao trabalho.

Pronto, estava dada a notícia do dia, do mês, quem sabe, a notícia do século. Um robô não sofre de enxaqueca, não pede aumento de salário, e, desde que fique perto do sol, garantirá muito mais do que os doze mil lotes de informação que já acumulou em sua memória.

Um robô como Philae, com seu corpo compacto, do tamanho de uma máquina de lavar roupa, não pensa duas vezes sobre vírgulas, substantivos, sequer fica ponderando sobre a necessidade ou não de adjetivações.

Philae sabe usar o Twitter, mas não desperdiça tempo nem palavras. Philae trabalha, coletando imagens espetaculares para enviar à terra.

Philae não sente solidão nem saudade, tampouco suspende o ato de fotografar ou de escrever, por conta de um dilema ético.

Sou tentada em pensar no robô, como uma espécie de repórter cósmico,para quem furos de reportagens nunca serão problemas. A exploração espacial envolve um universo tão amplo, com acontecimentos tão complexos, que sempre terão um grande público fiel.

Sentado sobre o cometa, Philae vasculha o que poderíamos chamar de a “escrita” mais primitiva da história do universo. Como se viajássemos no tempo, porém, sem o impacto terrível de ultrapassarmos a gravidade, para irmos viver num lugar ao mesmo tempo belo e insólito. Philae fará isso por nós, e torço para que nos envie muitos e muitos furos da sua longa e fascinante reportagem.

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As Pedaladas de Dilma

A cada semana, sob o ruído intermitente da repercussão da operação Lava-jato, que a mídia se ocupa em reverberar, em todas as suas tonalidades, surge um fato novo para erguer as manchetes contra o governo Dilma.

Como se vivêssemos uma espécie de processo de escavação, lenta, porém furiosa, a qual pudesse desgastar os alicerces, fazer ruir a casa inteira, desde as suas fundações, implodir qualquer vestígio da sua existência, casa esta que não é senão, metaforicamente, o partido dos trabalhadores.

O último achado veio para a imprensa batizado como “as pedaladas de Dilma”. Explicando em linguagem leiga, o governo teria solicitado aos bancos públicos para fazer pagamentos de bolsas de programas sociais, cujas parcelas depois seriam quitadas.

De posse do achado, como se renovados com novo salário, os partidos de oposição redobraram seu trabalho de escavação. A ideia do impeachment, que parecia ter perdido força após os resultados das manifestações do dia 15 de abril, ganhou um novo fôlego, reaparecendo nos discursos parlamentares, sendo desfolhadas em atividades de políticos, e, naturalmente, ganhando espaços centrais na mídia brasileira.

O senador Cássio Cunha lima, com a oratória que lhe é própria, defendeu ardorosamente o impeachment da presidente, na condição de líder do PSDB no senado, fazendo-nos lembrar da sua própria cassação, por conta de malfadados cheques que segundo ele mesmo disse em sua defesa, eram para as pessoas pobres da Paraíba não morrerem de fome.

A última bala de prata porém, já parece ter vindo com seu poder de fogo estragado. De um lado, acusa-se o governo de ter pedido dinheiro emprestado aos bancos públicos para o pagamento de programas como o Bolsa Família, Bolsa Escola, entre outros programas que são, na verdade, curtos passos decisivos no sentido de distribuir-se uma pequena fatia da renda do país entre os mais pobres.

Por outro lado, ao revolver-se o calibre da tal bala de prata, verificou-se que a prática já era usual nos governos FHC, e dados dessa história recente comprovam que o sociólogo pedalava com maior desenvoltura, em processos que nada tinham a ver com políticas sociais.

Enfim, o caldeirão continua a ferver, com a única sopa que ainda rende suas boas manchetes, ou seja, a operação lava-jato. O modus operante é muito claro e já não apresenta qualquer disfarce. O jornalismo de revista, reverberado pelos veículos de rádio e tevê, repercutem dioturnamente a história construída à força de técnicas de enquadramento, seleção e repetição: O Partido dos Trabalhadores é o mais corrupto da história desse país, e a sua legenda precisa ser extinta.

A força dessa história, solapa da cobertura midiática, uma crise de fundo, que está no centro do parlamento brasileiro e que ameaça flagrantemente a frágil democracia do país. Sim, a recente democracia elegeu o seu parlamento mais conservador, que tem se servido da imprensa para fazer o Brasil recuar e encaixar-se novamente aos trilhos do capital mundial e dos seus interesses.

 

Este artigo será publicado amanhã, em minha coluna no Jornal A União

Antes que os Drones Cheguem

O jornalismo mundial vive uma crise sem precedentes. No que toca aos postos de trabalhos dos jornalistas, o fenômeno que ficou conhecido como “a revoada dos passaralhos”, tem se espalhado pelas empresas, pondo fim a milhares de postos de trabalho, com uma rapidez inquietante. A crise mais recente do capitalismo, ladeada pelas transformações que o paradigma tecnológico traz para os processos da divisão do trabalho, rearticulação de funções, que têm sido cada vez mais delegadas à autonomia das máquinas, parecem ser os principais fatores deflagradores dessa crise.

Se nas sociedades anteriores as que agora vivenciam as mudanças vividas no século XXI, o jornalismo tinha a primazia da coleta, investigação e distribuição da informação, hoje, vem perdendo esse lugar de centralidade, visto que as sociedades estão permanentemente no que poderíamos chamar de “esfera conectada”, ali onde todo mundo tem acesso à informação ao mesmo tempo.

A mídia comercial brasileira entretanto, parece não ter ainda compreendido essa retumbante lição. Produzindo informação para um público específico, uma classe dominante sintonizada com os interesses do capital mundial, e, no caso brasileiro, empenhada em responder à face mais reacionária da política, a mídia comercial ignora as vozes plurais da sociedade, despreza a variedade das suas expressões, e, parece passar ao largo dessa esfera da opinião pública conectada, a qual também produz, distribui e recebe informação.

A mídia comercial brasileira, com raríssimas exceções, transformou-se num partido de voz única, divorciando-se completamente do ideário clássico pensado para o jornalismo, tido como sustentáculo das democracias, como vigia e defensor dos cidadãos, como caixa de ressonância das vozes plurais da sociedade.

Mídia e sociedade vivem um divórcio que parece não ter, a longo prazo, forma alguma de reconciliação. Por outro lado, o trabalho distribuído e entregue à sociedade pelas empresas de comunicação, fere de morte o exercício do jornalismo, inibe, quando não oblitera completamente, o discurso crítico, interpretativo, colocando no ar, uma cobertura tão pífia que não precisaria sequer de cérebros, de trabalho de pensamento, para tal produção.

De fato, quando os drones chegarem à prática jornalística, quando robôs deixarem de ser mera novidade em feiras científicas e substituírem cérebros de humanos em coberturas de grandes eventos, a sociedade não sentirá diferença alguma. A cobertura insípida, redundante, crivada de adjetivos que a mídia tem produzido, talvez seja um pouco melhorada, quando os robôs trabalharem com seus algorítimos de produção de notícias, quando os drones chegarem para as suas coberturas.

Antes que os drones cheguem, antes que invadam de vez o trabalho de produzir e distribuir notícias, o que se oferta à sociedade, é um jornalismo panfletário, uma espécie de new lacerdismo,crivado de imperícias na apuração e coleta dos dados, arenga apressada e homogênea, , ecoando em todas as mídias,

 

“Vai que é Tua,, Dilma”!

Quem se lembra da partida contra a Alemanha, aquele pesadelo incompreensível e demolidor? Nos últimos tempos, fico com a impressão de que Os primeiros jogadores deixaram o campo, mas foram substituídos, e a partida vive seu terceiro tempo interminável.

Não que estejamos jogando contra a Alemanha. Penso que constituiu-se uma estranha configuração, na qual o Brasil joga contra o Brasil. De um lado da trave, está o governo petista, com seu principal jogador, a presidente Dilma. Do outro lado, joga a mídia hegemônica, comercial e conservadora, o maior e mais bem estruturado partido de oposição do país.

A jogada de Dilma é simples: Andar entre o maior congresso conservador já eleito, tentando se livrar dos seus achaques, dos seus modos de obstrução, das pedradas vindas da minoria opositora, e, missão quase impossível, aparar os petardos advindos daqueles que se dizem governistas, mas, colocam-se na posição mais estranha, auxiliando a base adversária.

Do outro lado, estrutura-se a jogada mais simples, e também a mais engenhosa. Torcer contra. Desqualificar cada passo dado, pregar o pessimismo absoluto, orquestrar o #VemPrarua, abrir seus microfones para os pequenos bolsões de panelaços, inflacionar números de manifestações, nocautear o país, segundo a segundo, não somente no horário nobre, mas em toda a programação midiática, pondo a serviço dessa jogada, os seus ancoras mais influentes.

Apupos, vaias, chacotas, o cenário é mesmo típico das grandes partidas, em que grandes adversários batalham. Solitária, a presidente avança, recua, bate portas, se cala, grita. A mídia implacável não arreda o pé da sua torcida contra.

Mas parece que agora, em seu tempo regulamentar, a presidente fez o seu gol. Arrimada ao seu bordão, “Pátria Educadora”, Dilma trouxe para a pasta uma pessoa que pensa. Pessoas que pensam hoje são raridade, num país de discurso hegemônico, em que o contraditório não tem visibilidade alguma.

Renato Janine Ribeiro pensa com independência, com o substrato da filosofia, da ética, do desassombro de dizer sobre a contemporaneidade.

Sabe que o que o país vive hoje, não é uma partida de sete a um, iniciada com os governos petistas. Fosse a corrupção uma endemia do petismo, a sua cura seria mais fácil. A corrupção é uma endemia antiga, costurada no âmago da política, no cerne das instituições, espalhada pelos diversos interstícios da sociedade.

Por isso dói tanto. Por isso o remédio não pode ser esse paliativo de colocar supostos corruptos petistas na cadeia e pronto.

Não existe o pronto. Existe uma sociedade corroída, que ainda não está apta a olhar para o tamanho da sua tragédia e parece embarcar na estratégia do “quanto pior melhor”, gritando em coro “Dilma pede pra sair”, sem sequer prever o que virá depois.

E já ao final do post, ouso mesmo dizer que Janine é o segundo gol. O primeiro, mal armado, um chute de muito longe da trave, o primeiro gol feito por Dilma é o de escancarar os processos de corrupção do seu país. O segundo gol, emplacando Janine na pasta, certamente não contará com o bordão de Galvão Bueno, “vai que é tua, Dilma!

Revista âncora: Um Legado da UFPB para o Jornalismo Paraibano

Âncora, Revista Latino americana de Jornalismo é o mais novo periódico científico da UFPB, destinado a produzir reflexões sobre o jornalismo, suas práticas, seus produtos, seus profissionais, seu permanente estado de crise e de mudanças.

Lançada hoje para a comunidade universitária e os profissionais do jornalismo paraibano, âncora é um produto do Programa de Pós-graduação em Jornalismo da UFPB, um programa pioneiro, por ser o primeiro do país de natureza profissional na área do jornalismo.

Lembro-me como se fosse hoje, do nosso empenho no planejamento da revista, logo que recebemos a notícia da aprovação do Programa via Capes. Naqueles dias, lendo o livro de Ítalo Calvino, “seis Propostas para o Próximo Milênio”, topei com suas recordações da antiga máxima latina, “Festina Lente”, que adotara, desde a sua juventude, a qual pode ser traduzida como, “Apressa-te, lentamente”. Calvino admite que, mais do que as palavras, foram os emblemas marinhos que o atraíram, os quais aparecem nos frontispícios das obras do editor humanista dos idos de 1700, Aldo Manuzio, que como conta em sua obra, simbolizava o lema Festina lente com um golfinho que desliza sinuoso em torno de uma âncora”.

Estava ali o nome da nossa revista, por sugestão das minhas leituras, simbolizando um lugar, mas também o esforço intelectual de juntar as visões diversas que permeiam o campo jornalístico, assim como a contemporaneidade, que no campo acadêmico, como na ceara profissional, exige que busquemos empreender nossas incursões, perseguindo sempre direções firmes, competências que assegurem o nosso lugar na sociedade, assim como nossa contribuição ao pensamento científico e acadêmico.

Âncora chega pois com essa vocação e é o primeiro saldo de um esforço de colegas dedicados. O professor Pedro Nunes, editor geral da revista, emprestou-nos seu cérebro, sua energia e criatividade para gestar esse projeto. Os colegas do Programa receberam com entusiasmo a proposta e estão quase todos no nosso conselho editorial. No conselho científico, âncora reúne 55 ícones da pesquisa jornalística do Brasil e do Exterior, do quilate da pesquisadora Cremilda Medina, ao lado do investigador português das tecnologias móveis, João Canavilhas.

Nesse primeiro número, âncora explora as transformações pelas quais passa o campo jornalístico, sob o incremento dos dispositivos móveis e dos processos de convergência midiática e da automação das redações.

Com periodicidade semestral, a revista abre-se à reflexão acadêmica, e em seu segundo número, focalizará o tema da participação e da cidadania no jornalismo.

Em alguma medida, a máxima latina presidiu nosso trabalho nesses dois anos. Os primeiros frutos chegam com sabor de alegria, com toda a minha gratidão aos meus pares no Programa de Pós-graduação em Jornalismo.