Chegou a Hora!

Chegou a hora em que mulheres de todo o país vão falar da sua escrita, da sua literatura, vão encher nossa #Jampa de palavras, no #MulherioDasLetras! Mais que isso, chegou a hora de apresentar #TiaLila ao mundo, à cidade de Jampa, aos leitores que arriscam perseguir meus delírios!

 

O lançamento será no sábado, 14, a partir das 18h, e já tou com aquele frio na barriga. O que dizer sobre esse ensaio de romance? É uma brincadeira. Um nano-romance, cujos capítulos mais longos não chegam a dez linhas.

Uma estória de ficção científica, cheia de improváveis acontecimentos! E mais não conto.

 

Você pode ler o livro em ebook ou em papel, se preferi. Dê uma conferida em

 

https://www.editoracrv.com.br/produtos/detalhes/32320-tia-lila

 

Se quiser, vá conferir ao vivo sábado, no lançamento do #MulherioDasLetras!

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Foi Golpe

 

 

A manchete que os jornalistas da grande mídia não ousam formular, aparece e grita dentro da sua narrativa. No dia 31 de agosto de 2016,consumou-se mais um golpe de estado, chancelado pelo parlamento, pela justiça e pelas organizações de imprensa do país, retirando do poder, a quarta presidenta eleita pelo voto popular.

O desfecho surpreendente daquela votação, separando o julgamento dos senadores em dois momentos distintos, revelou exatamente o que a oposição apregoara até à exaustão, no decorrer do processo. A presidenta foi afastada por artimanhas retóricas e processuais, não havia crime de responsabilidade, não havia dolo ou má fé. Por que então torná-la inabilitada para as funções públicas?

Quando brandiu a constituição, quando apelou para a linguagem coloquial, própria da sua região, para apregoar, “Depois da queda, não se pode escoicear”, o presidente do senado, Renan Calheiros encontrava um sinônimo primoroso para não mencionar o golpe: Queda, derrubada.

Alguns minutos após o golpe, Michel Temer, o presidente indireto, falou aos seus ministros, reclamando da divisão na sua base e dizendo que a suspenção da inabilitação poderia ter sido um gesto claro de boa vontade do parlamento. Nem naquela hora o presidente indireto disse a verdade. Ela não poderia mesmo ser dita. A suspenção da inabilitação era um pequeno suspiro de alívio, uma pequena pílula de destensionamento para a consciência de políticos que até o início de março faziam parte do governo da presidenta deposta, e que, nos últimos meses, utilizaram o melhor dos seus esforços para conspirar, negociar, consolidar o golpe que se acelerava dentro do parlamento.

Uma segunda recomendação, daquela curta fala do presidente, antes de embarcar para a China, merece o destaque da nossa coluna. “Divulguem o governo. Dou-lhes toda a liberdade para falar à imprensa, mas divulguem o governo”, disse ele, ainda que com outras palavras. O presidente indireto sempre soube, e sabe-o ainda agora, o governo não poderá prosperar sem o apoio da grande mídia.

A grande mídia aliás, escreveu nesse processo, um dos mais tristes capítulos da sua história recente. Cinquenta e dois anos antes, constituía-se no braço principal do golpe de 1964, construindo e difundindo para a sociedade, a narrativa da revolução, da mudança, do país novo.

Novamente colaborou grandemente agora, construindo e inflacionando manchetes negativas contra a presidenta e seu governo, agendando e convocando para manifestações, mantendo como pauta consonante, onipresente, ubíqua e monotemática, a crítica incisiva em favor da desqualificação da presidenta.

E prosseguirá agora, no esforço de valorizar o “plano Michel”, dispondo dos seus ancoras e dos seus horários mais flexíveis em seus canais fechados e em seu jornalismo de revista. E ainda contará com um puxadinho latino americano, via “El Clarín”, em Argentina, e também na imprensa comercial colombiana.

Não me surpreenderei se nas próximas eleições, a maioria da população fugir dos descaminhos da política, e dar vitória ao voto nulo. Penso na sociedade brasileira como um grande trem desgovernado. As elites, os políticos e a grande mídia divorciam-se flagrantemente de um projeto de cidadania. O país retrocede irremediavelmente e o remédio do impeachment é mais um veneno importante nessa derrocada.

A Colheita de Dora

 

 

Dora Limeira se foi. Não, a frase não é de uma crônica, de um conto, não foi escrita em um romance. A frase está cravada em nossos corações, com sua adaga de ponta afiada.

Apronta-se o obituário, resolvem-se as demandas da burocracia, e nós, tentamos digerir o telegrama bruto, tão curto como uma pedra atirada num lago.

Dora Limeira se foi. Encerrou-se no mutismo obrigatório do não mais estar aqui, enquanto uma saudade sem aviso já bate as portas, pede passagem, espreme-se e invade todas as comportas.

Atarantada, vou buscar uma antiga crônica que fiz pra ela, no seu sexagésimo nono aniversário. Vou buscar a crônica, as mãos do meu espírito trêmulas de tristeza.

 

A Colheita de Dora

 

Naquele dia prometeu a si mesma que escreveria 69 palavras. Sim. Sessenta e nove palavras, que escolheria a dedo, sopesando as sílabas, avaliando a sonoridade, arranjando o conjunto, como se todas elas formassem um imenso ramo de flores.

E com seu passo lépido rumou para o jardim dos seus pensamentos, agachou-se junto à plantação das palavras, e com as mãos, como gostava de fazer, escavou aquela sementeira a fim de escolher as melhores palavras do ramo.

E cada palavra que subia à tona, estava úmida de vontade por se fazer traçado, por habitar entre vírgulas, por conhecer, como se de boca serrada estivesse, o breve silêncio do ponto final.

Palavras brotos, maduras, palavras tolas, sem força nenhuma, todas vinham pousar no seu regaço, pedir um lugar, e assombrada, encantada, ela cedia a todas elas, arrumava seu ramo heterogêneo, vacilava entre um se e um não, mas não recusava nenhuma delas.

E vieram as palavras da multiplicação, todas bojudas de sonoridade, todas ansiosas por vergar aquele ramo nos seus ponto e vírgulas, suas interrogações, muitas delas a dormitar um pequeno cochilo na quietude do ponto. E bondosa como era ela, apaixonada como era ela, teve uma idéia. “E se eu multiplicasse essas 69 palavras 69 vezes?

E no jardim pleno de riso, leva a vida toda a

arranjar palavras nos seus ramos de flores.

Passagem para Solidão

 

Deu no Estadão do domingo. Edilson de Souza, 33 anos, se prepara para deixar São Paulo e regressar a Flores, pequena cidade do interior de Pernambuco. Maurício Barbosa da silva também volta para o Piauí, onde vai trabalhar por conta própria no município de Santana. Solon de Lima voltará para o Crato, com toda a família. Aparecido fernandes de Souza volta para Salgueiro , interior de Pernambuco.

O mantra geral é a crise econômica, que desacelerou a construção civil, os postos de trabalho no comércio, assim como nas indústrias automobilísticas.

A leva de pessoas retornando ao nordeste me faz correr ao meu ebook, para rever o magistral livro do saudoso amigo Geraldo Maciel, “Aqui as Noites são mais Longas”, onde ele narra a saga de milhares, senão milhões de nordestinos, os chamados “cabeças-chatas”, voltando todos para o nordeste, deixando São paulo em grandes multidões, à pé, à cavalo, em velhas carroças, ônibus desconjuntados, caminhões abarrotados de gente.

A presciente narrativa de Geraldo Maciel, retrata uma verdade irrecorrível. São Paulo, a grande metrópole de ferro e concreto, é sustentada pelos nordestinos. São eles que erguem os prédios, limpam a sujeira do dia a dia da cidade, abrem as escolas, vigiam o sono dos empresários, limpam suas casas, servem-lhes comida nos restaurantes, depilam e manicuram seus pelos e unhas, limpam seus banheiros, em apartamentos de luxo ou em prédios de escritórios… … São garis, motoristas de ônibus, vendedores ambulantes, vigias noturnos, guardas de trânsito, alguns são bombeiros, muitos são policiais.

Os personagens de Geraldo Maciel têm nomes parecidos com os dos cidadãos nordestinos que agora deixam São Paulo, e voltam para o nordeste. José Nazário, personagem do conto, pede uma passagem para “Solidão”, um “paraíba” acossado por uma saudade intensa da terra, do cheiro do mato, da liberdade e da alegria nunca mais sentida, do ar puro, do canto dos pássaros, do calor do meio dia, do sol a pino.

Ele era só o primeiro da fila de uma multidão que queria o mesmo. Deixar São Paulo, regressar ao nordeste, apossar-se de novo de um naco de vida da infância, tecido de pobreza e de liberdade, tudo junto, feito uma comida simples e conhecida.

A literatura pode fazer isso. Escavar uma situação, aumentar suas cores, ampliar sua natureza, ficcionar sobre a sua realidade. Geraldo Maciel escreveu como se pintasse um quadro grandioso da situação dos nordestinos em São Paulo, e não economizou nas tintas. E agora assistimos a centenas, senão milhares de pessoas regressando ao nordeste, deixando à pressa uma cidade sem água, sem emprego, sem transporte, sem saúde, sem moradia.

E quem ganhará com esse novo êxodo? Certamente não serão esses nordestinos que regressam e que se alimentarão da curta alegria de chegar e rever seus parentes e amigos. Saídos da estrada da pobreza e da desigualdade, permanecerão na mesma trilha das faltas e carecimentos. O capital mundial, este ser invisível, apesar de robusto, é quem de fato ganha com as crises. Deixa de investir no emprego de alto custo, e passa a investir em si mesmo, em paraísos fiscais onde já não há noção de pátria nem de cidadania.

Retorno ao romance de Geraldo Maciel, a ver se Nazário terá um final mais feliz, empurrado ao encontro de sua longínqua Solidão.

(Maciel, Geraldo. Aqui As Noites São Mais Longas, São Paulo, Mombak, 2014, livro em formato digital, da coleção Latitudes, organizada pela escritora Maria Valéria Resende).

Latitudes: Aqui vou eu!

Chegou como um presente de natal antecipado, e já nasceu sob o signo da revolução. Revolução no formato, revolução no pequeno-grande agrupamento que congregou, até mesmo revolução arquitetada do lugar de onde partiu.

Latitude foi mesmo gestada como um ato de ousadia. Ao modo de apanhar pássaros à mão, com a firmeza que lhe é própria, a escritora Maria Valéria Resende chamou os editores e disse: Há que se publicar o que está fora do eixo, literatura brasileira feita à mão livre, sem os ditames do mercado, histórias tecidas na liberdade de se pensar uma literatura de anônimos, compartilhada na toca do pastel, ou mesmo em oficinas literárias organizadas de modo improvisado, em feiras solidárias.

Assim nasceu “Latitudes”, a coleção organizada por Maria Valéria Resende, chancelada pela Editora Monbak de São Paulo, distribuída em modo digital, pelas grandes distribuidoras: Apple, Googleplay, amazon, Livraria Cultura, entre outras.

Inauguram o projeto, cinco escritores nordestinos, eu entre eles. Ronaldo Monte colaborou com “Paixão Insone”, Dora Limeira escreveu “O Beijo de Deus”, Roberto Menezes entregou o seu “Palavras que Devoram Lágrimas”, Geraldo Maciel (in memoriam), contou-nos que “Aqui as noites são mais Longas”. Os meus contos vieram em forma de alerta, quem sabe um poema gritado sob a quilha da brisa do rio, “Já não Há golfinhos no Tejo”.

Já devem ter compreendido, os livros já nasceram sem a interface do papel. Caíram no oceano da cibervia, e sabe-se por quantas mãos já andam a ser palmilhados… Livros digitais, e pensam que não dá o mesmo frio na barriga, a mesma alegria desvairada, quando ficamos sabendo da publicação, dos protocolos de compra, da correria louca em busca do ipad, do kindle, para baixar sua coleção?

Baixei meus cinco livros entre o sábado e o domingo. Deliciei-me ao folhear as obras, e, alegria das alegrias, ler em minha linha braille, os primeiros contos, constatar o primor e a qualidade das publicações, o zelo com que “Latitudes” foi tecida.

Estou feliz. Penso no meu pequeno livro encapsulado em bits e bits, me lembro do conto “A biblioteca de Titã”, conto que eu escrevera num dos sábados do clube do conto da Paraíba, e constato: Todos os contos que estão ali, foram colhidos nessa faina de preparação para o sábado, o clube do conto reunido em alguma esquina improvável, em algum café, na toca do pastel, compartilhando em ânsias, alegrias e silêncios, a escritura de cada um.

“Latitudes” nasce pois no âmago da revolução tecnológica, mas foi toda tecida desse gesto primordial do escritor, de arrancar, do oceano do si mesmo, as histórias que conta.

Alice no País de Si Mesma

Comprar um livro, desembrulha-lo e começar a ler. Não, não foi propriamente assim que aconteceu. Fui ao lançamento do novo romance de Maria Valéria Resende, na noite do último dia 21 de maio e lá mesmo fiquei sabendo que além do livro em papel foi também publicado um ebook.

Corri pra casa, entrei no www.amazon.com.br, busquei pelo título Quarenta Dias e pronto. O livro despachou-se para o meu ipad e imediatamente mergulhei no mundo de Alice, surpreendente, simples e complexo ao mesmo tempo, o novo mundo de uma Alice despejada à força de João Pessoa para Porto Alegre, um mundo insuspeitado entre as dobras de uma cidade, a abrigar dores, cansaços, solidariedades de ocasião, histórias de sofrimentos de mãe a fazer liga com os seus relacionamentos.

Ainda não acabei a leitura. Resisto em abocanhar a história de um sorvo, vou lendo de vagar, parando em alguma esquina improvável, querendo e não querendo antecipar o final que Valéria destinará às andanças de Alice.

Alice, de que argamassa Valéria a tece? De que liames é feita essa planta humana, resistente ao sol, à chuva, ao frio de Porto Alegre, aos sonhos maus, dentro do apartamento claro, aos bons sonhos, sob alguma arcada, enfestada de gente andarilha como ela?

Rebeldia. Terna rebeldia. Este é o cimento de que é feita Alice. Inconformada com os desígnios que lhe roubam de assalto a liberdade, ela foge do mundo organizado e uniforme, e, ao modo de uma bengala, encontra uma perda, uma mãe, um vago nome de um filho nordestino perdido.

Alice foge, levando consigo o vazio, simulado por uma sala sem móveis, um telefone a tocar, sem ninguém para o atender.

Valéria sabe que Alice não precisará de muito. Um caderno em branco, grosso, um velho caderno com a Barbie na capa, servindo como a sua espécie de ponte entre o país de si mesma e o mundo, vasto mundo.

Leva consigo o desassossego, fala interior, profusa, tantas vezes tocando em cordas de sonhos e angústias tão próprias de cada um de nós, escrita

que me tomou de assalto, os quarenta dias de Alice, invadindo meus intervalos de tempo nessa minha semana de fim de maio, os quarenta dias de Alice transbordando para além dos meus afazeres, os quarenta dias de Alice espraiando-se pela minha noite, esse monólogo escrito em um caderno grosso, velho, falando comigo em toda a sua profusão de vozes.

Sem complacência alguma, Valéria Resende, com sua mão firme, empresta ao mundo de Alice a sua magistral narrativa, e, ao modo de uma diretora oculta por entre as cortinas, vai lhe dando leves toques no ombro, alguns empurrões, para a deixar solta, sozinha, a fazer suas alianças no acaso das esquinas, das vielas, das arcadas, a buscar um lugar onde descansar a cabeça em um banco de hospital.

Quem sai ganhando é o leitor, irremediavelmente preso ao passo dessa andarilha, aos seus encontros e desencontros, a vasculhar lugares improváveis dentro da cidade.

E mais não direi, porque ainda não li tudo, e quero encostar agora mesmo o meu passo ao passo de Alice.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União)

Minha Despedida de Saramago

Que silêncio é este que habita à  casa de Pilar? E do lado de fora, que falas são estas do mar d’Espanha,ressaibradas por essa vaga de tristeza?

Somente os milhares de livros, nas suas estantes, ruminam a inércia e o peso das palavras, inventariam fórmulas, arqueiam-se sob o volume de todos os nomes dos muitos romances inacabados, pelas intermitências da vida.

No frio da madrugada, nenhuma nesga de tempo para vigiar o seu memorial do convento, grande obra lavrada pela pá, cimentada pela palavra. Não será na jangada de pedra que ele se libertará da sua quilha de respirar, tampouco haverá tempo e vontade para uma última inspeção à caverna, nenhum vislumbre de desespero por não ter podido assentar um ponto final no seu ensaio sobre a cegueira do mundo.

Tão longe já, uma houtra madrugada brumosa, quando o almoáden cego ergueu-se até a montanha, acordou os seus para a oração, riscando na pedra as primeiras sílabas da história do cerco de Lisboa, e, sem o saber, anunciando de antemão,antigas e futuras  histórias de tantos outros cercos, tantas prisões, inquisições, tantos caminhos alinhavados, como se adivinhasse já, as múltiplas pontas do novelo azul de Maria de Guavaíra.

Não será de blimunda, a última lembrança que lhe acudirá,nessa breve agonia que já lhe toma de assalto o fôlego, os sonhos, o vago desejo de acordar e conferir no antigo relógio, a hora exata do princípio do seu amor.  Entre um e outro combate de células fatigadas, incofmormadas, lembra-se de uma das suas mais belas narrativas de morte,e sabe que morrer é isso, o esforço supremo da vida por querer reter aquele que aqui já não quer estar.

Não vai conferir tampouco a escrita do seu Evangelho, espalhada aqui e além, por todas as suasnarrativas, onde falaram com a mesma veemência, as formigas, os camponeses, os poetas, as mulheres à dias, os elefantes, as invernias a engrossarem a fala do Tejo.

Levantado do chão, permite-se uma vaga saudade do seu cobertor, da voz ciciada de Pilar, do ritual de final de tarde, onde se deixava ficar pacientemente a alimentar e conversar com seus animais.

E quando Joana Carda riscar o chão com a sua vara de tordilho, quando os cães de Cerbère começarem a latir, o mar d”Espanha, encapelado, bramirá sua saudade daqueles olhos inquiridores, daquelas mãos incansáveis na sua faina de cinzelar a força e a riqueza das suas idéias.

“A Fórmula de Deus”

Acabei de ler ontem, “A Fórmula de Deus, de José Rodrigues dos Santos. Como havia um mail de contato, decidi apresentar ao autor minhas primeiras impressões dessa viagem literária. Surpreendida e grata, reproduzo aqui minha carta e a réplica do próprio José Rodrigues.

 

Caro José rodrigues.

Em princípio queria agradecer-lhe pelo vigoroso romance. Acho que sua escritura foi sobretudo um ato de coragem. Traduzir teorias científicas de alta complexidade

em uma narrativa ficcional poderia ter dado errado, e não deu. Preservou-se a qualidade da teoria, ratificou-se a importância da sua divulgação, sem entretanto

perder-se a qualidade do romance em si.

tenho lido muito sobre todas essas questões, limitando-me entretanto às traduções em português, das obras de Michio Kaku, Pau Davies e outros teóricos desta

linha. O seu romance despertou em mim um misto de sensações diversas. Descrevo-as aqui livremente, para não perder a “primeiridade” das impressões, se

é que isto ainda seja possível.

Fiquei com um amargor na boca, uma espécie de sensação de que de fato caminhamos inexoravelmente rumo à uma evolução, a um fim teleológico. E porque me

amarga a boca? Porque pressinto que por agora, a vida é um instrumento desse caminho. Ou seja, nossa geração, e as gerações mais próximas num futuro, provavelmente

são instrumentos dessa viagem cíclica, mas não conheceremos este estágio final, sequer conheceremos estádios diversos precedentes.

Como se ocupássemos nosso ponto determinado nesse trem cósmico, nosso ponto determinado e imprescindível para que a aventura da criação da inteligência

não malogre. Mas com esta consciência transitória que agora temos, ínfimo suspiro da inteligência maior, não provaremos da aventura final. O que me diz?

Por outro lado, experimento um sentimento de quase regozijo por fazer parte disso, dessa aventura cósmica, ainda que o meu lugar pareça ínfimo. Não é contraditório?

 

acabada a leitura, senti vontade de descer do sétimo andar do meu prédio e tocar a terra, essa terra que tanto amo, experimentar em minhas próprias mãos,

suas fibras, sua tecedura de átomos. Acariciei os meus braços, e sorri ante à idéia de ser eu um conglomerado dos mesmos átomos que participaram da criação

inicial.

Muitas perguntas ficam aqui encapsuladas, mas um vívido agradecimento por tudo o que escreveu.

Joana Belarmino

 

Cara Joana,

Muito obrigado pelo seu amável e-mail.

Ainda bem que gostou do romance. Não me parece que me tenha colocado qualquer pergunta, mas o que fez foram sobretudo reflexões. E, a não saber que venhamos

a descobrir alguma coisa que o contrarie (o que é bem natural), parece-me que as suas reflexões reflectem exactamente o pouco que a ciência sabe sobre

o sentido da vida.

Um abraço do

José Rodrigues dos Santos

A Fórmula de Deus, Editora Gradiva, 2006.

“O Sétimo Selo”

Saí da leitura de “O Sétimo Selo”, último romance de José rodrigues dos Santos, munida com duas certezas: O escritor de “A Fórmula de Deus”,  tem um longo e bem sucedido caminho de criatividade a percorrer, situando-se entre aqueles escritores que foram aguilhoados pela pontada do inconformismo,  da denúncia, da pesquisa e da perquirição.

A segunda certeza, eu a partilho com o próprio José rodrigues dos Santos. O futuro da humanidade, ou, como eu gosto de dizer aos meus alunos de jornalismo, o futuro dos seres de carbono será sombrio.

“O Sétimo Selo” exibe o meticuloso trabalho do jornalista José Rodrigues dos Santos. O traço do escritor é leve, muitas vezes quase coloquial, repetindo-se aqui o exercício de “A Fórmula de Deus”, onde o autor traz para a linguagem comum, os grandes dilemas da ciência, das religiões, do esoterismo e das origens da vida.

Nos reencontramos com Tomás Noronha, que era também o personagem principal de “A Fórmula de Deus”, que na sua argúcia de criptoanalista, desvenda logo uma mensagem codificada, e, sem o saber, coloca os gangsters das indústrias petrolíferas no encalço dos cientistas que trabalham na busca da descoberta de uma fonte de energia alternativa que venha substituir o ouro negro.

José Rodrigues não perde tempo com os detalhes do trabalho criptoanalítico. De pronto, envolve o leitor nas intrincadas malhas da indústria petrolífera mundial, mostrando que, seja pela via do ganancioso capitalismo neoliberal, seja pela via das políticas desenvolvimentistas dos vários países do mundo, nosso futuro está engessado pelo sustentáculo desse modelo energético de sustentação da economia, ou seja, o uso do petróleo como energia fundamental.

Alimentado por laboriosa pesquisa documental, e com leves pinceladas de uma escrita exata, substantiva, o autor nos mostra a verdade que a grande imprensa sequer ousa tocar. Na maioria dos países produtores/exportadores de petróleo, a produção alcançou um pico, o que significa dizer que caminha inexoravelmente para o esgotamento.

O trabalho de perquirição de José Rodrigues vai mais longe. Nos apresenta o dilema para o qual nos empurra o aquecimento global, claramente forjado pela ação humana. E crava diante de nós, perguntas simples, que só têm merecido a indiferença da política e da economia mundial, e mesmo a indiferença da responsabilidade pessoal de cada um, obscurecida pela busca do consumo e do conforto fácil. Quem vai pagar a conta do aquecimento global? Para onde nos empurrará o planeta, em seu quente desequilíbrio?

O tema da velhice humana, é mais uma linha aguda e sombria no romance de José Rodrigues. Um ícone do próprio envelhecimento da humanidade, presa num gargalo  irracional, a cultivar seus dogmas, a endeusar seus carros de luxo, indiferente ao safanão, à parada breve, numa esquina qualquer de um mundo que tende a descambar, irremediavelmente.

O Sétimo Selo

José Rodrigues dos Santos

Gradiva, 2007.