Os Quatro Tempos da Morte

 

Os legistas disseram que não é possível determinar de que fuzil partiu a bala assassina que vitimou Agatha Félix. Os legistas disseram muita coisa. A bala partiu de um fuzil, mas, no corpo da menina, fragmentou-se toda, como se quisesse esconder rastros, como se quisesse mascarar o crime.

Os legistas devem ter visto que a menina morreu rápido. Apartou-se do lençol pesado de medo que a cobria, do pequeno travesseiro de alegria que  percutia em seu corpo, por conta da sua última aula de balé.

Os legistas não souberam dizer de onde partiu a bala de fuzil. Rápida, certeira, vindo direto ao banco da combe onde a menina mastigava seu medo e sua alegria, como se fosse uma refeição incongruente, pedaços de coisas estranhas dançando no seu estômago, nas suas vértebras, nas suas mãozinhas

suadas.

Por causa do seu protocolo, da sua linguagem técnica, dos seus rituais, das suasconveniências, os legistas não disseram o essencial, fizeram silêncio absoluto sobre o que viram, na pequena coluna destroçada, no rostinho exangue, nas mãozinhas hirtas e geladas.

Os legistas calaram-se ante à retumbante verdade debruçada sobre aquele cadáver pequeno, gritando suas sílabas peremptórias: Eu sou a máquina da morte. Estou aqui para a debulha, a ceifa,  o trucidamento. Sou fruto de leis, protocolos, decretos.

Eu sou a máquina da guerra: contra os pobres, os negros, e não pouparei meninos e meninas fardadas, vestidas para o balé, com suas mochilas quase vazias, guardando suas merendas caseiras.

Os legistas ajustaram suas máscaras, desviaram o rosto, mas, debruçada sobre o pequeno corpo de Agatha Félix,  a verdade prosseguiu no seu libelo: Sou inflexível, imperiosa, envolta nesse vórtice poderoso de ódio que imprime sua fala definitiva nos corpos, nas vielas, nos becos, no caminho nervoso do trânsito, até os hospitais, os necrotérios, as pedras frias da morte.

Os legistas têm pressa. Encerram o trabalho com mãos nervosas. Envolvem o corpo em seus lençóis brancos. Arrancam máscaras, batem portas, abandonam a sala da morte. Lavam vigorosamente as mãos, enquanto lá fora, a máquina da guerra executa seu bailado. O som é áspero e duro, aqui não há semibreves.  e semicolchêias retumbantes, atritando-se, esbatendo-se em corpos tenros de meninos e meninas, esburacando paredes, pedaços de asfaltos, bancos de combes em fuga.

E eis que a única semibreve vibra seus quatro longos tempos. Os quatro tempos da morte.

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O Dia do Fogo

As árvores sabem quando o dia do fogo vem chegando. A árvore que fica perto da rodovia pressente em suas fibras, em seus galhos, o trepidar dos pneus dos caminhões, o calor das vozes alteradas, o aprontamento e o disparo das tochas, a velocidade do fogo em busca da floresta.

A árvore lança para as companheiras, através do entrelaçar de suas raízes, a única mensagem de alerta: Está vindo. É mais quente que o sol. Vai nos matar.

Não há pânico. Especialistas da paciência, as árvores mantêm-se eretas, sorvendo as últimas carícias do vento, os velhos cheiros da mata milenar.

O fogo chega. As árvores vão rachando em bando, como espigas de tempo abertas em posições esquisitas, crestando aos pedaços.

Morrem de vagar, numa agonia coletiva, desmentindo sílaba por sílaba o velho poema: “Por que as árvores morrem de pé”? Morrem caindo juntas, suas últimas palavras aprisionadas no fundo das raízes, intenções de abraços desfeitas em brasas, o fogo rasgando suas fibras, seus anéis de tempo, as feridas dos insetos, as frágeis ninhadas de arbustos agarradas aos troncos ardentes.

Deformam-se, as árvores, numa espécie de procissão demoníaca, para baixo, sempre para baixo, lá onde não há Deus, senão a língua vermelha do espírito do mal.

Viram cinza esvoaçante, abraçam-se em fumaça cheirosa, abatem-se sobre a terra de toda sua vida, mas não há descanso, não há paz, não há lugar onde acalentar galhos caídos, queimando.

As árvores não rezam nem pedem clemência, apenas queimam em estalos que já não são aquele vozear de galhos abraçados, raízes ocupadas em recolher da terra o alimento vital.

Apenas queimam, as árvores, em estalos e espasmos medonhos e esbarram à pressa na terra que pega fogo.

A risada medonha do fogo lambe o solo da lembrança das árvores, espalha cinza como curativo escuro por sobre as crateras abertas. Num último frêmito, , as árvores vomitam aos bocados, o carbono guardado em suas reservas milenares. Vomitam sobre a terra, e o jorro volta surpreso a um céu vermelho e fumacento.

Tocos quase mortos de febre ainda resistem, agarrados ao chão, vigias da sanha de queimar, destruir. Testemunhas do incêndio, os tocos quase mortos de febre escutam o riso cínico, a galhofa dos homens maus.

Trementes de febre, finalmente os tocos se lembram da velha oração de todos os dias, crepitando aos borbotões por entre suasfendas. A prece da cura para as rachaduras milenares, a oração calma de engendrar anéis de tempo, o ofício do socorro para as árvores tristes, pelos golpes de motosserras, pela sanha dos carunchos…

Os tocos esgotam suas orações, quando já tisnados e feitos em carvão.

O silêncio é medonho agora. A terra cansada, então dá-se conta, por entre os rescaldos: Não há mais a ternura pesada das árvores vivas sobre o solo, senão a implacável nudez, feita da solidão das escaras, rachaduras   cobertas de cinza.

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa do jornal #AUniao, em 30 de agosto).

O Gigante Encolhido

Passados quase oito meses do governo Bolsonaro, algumas perguntas estão sendo feitas por especialistas, cidadãos comuns, formadores de opinião em geral. As respostas são preocupantes. A primeira pergunta que se impõe é a de saber se as reformas impostas ao país trarão consequências de longo prazo, e, algumas delas, irreparáveis.

Para algumas dessas questões, as previsões são inquietantes. A reforma da previdência, por exemplo, poderá gerar uma horda muito grande de indivíduos que nunca conseguirão se aposentar, seja porque dependerão do mercado informal ou do sub emprego, e assim não alcançarão fazer parte daqueles coletivos de trabalhadores que contribuirão para a previdência, podendo fazer jus ao direito após quarenta anos de trabalho.

Os cortes impostos à pesquisa científica e à educação no ensino superior já acarretam perdas irreparáveis. Descontinuidade dos processos habituais de formação, precariedade na prestação dos serviços terceirizados, impossibilidade, em quase todas as universidades, da participação de docentes e estudantes em eventos nacionais e internacionais para o compartilhamento do conhecimento produzido.

Nas universidades, aliás, uma espécie de espada de Dâmocles paira sobre as cabeças das comunidades universitárias. Em setembro, por exemplo, a nossa UFPB ameaça parar suas atividades, por falta de serviços essenciais como energia, telefones, e atividades de limpeza e manutenção das salas de aulas, laboratórios e demais ambientes de trabalho.

O incisivo processo de privatizações, celebrado pela grande mídia, pela classe política e por expressivos setores da sociedade civil demonstra a tenacidade do governo para reduzir o tamanho do estado, que se centrará, como diz o próprio presidente, em políticas de segurança, de atendimento a demandas na educação básica e desenvolvimento do país.

Nessa estreita rubrica, entenda-se como política de segurança, o fortalecimento das ações ostensivas da polícia nas comunidades pobres, associada ao armamento dos cidadãos do campo e da cidade; para a atenção à educação básica, entenda-se censura aos conteúdos, militarização do ensino e extinção de disciplinas como filosofia, sociologia e história; na área do desenvolvimento, há que se facilitar a liberação dos agrotóxicos, a liberação de terras indígenas para a exploração da garimpagem e de outras riquezas naturais; a abertura integral do mercado para o capital estrangeiro; a entrega dos parques e reservas para os negócios do turismo mundial.

O grito mais alto de alerta vem do meio ambiente. Os desfalques criminosos perpetrados contra a floresta amazônica já são irreparáveis. Florestas são coletivos vivos. Ecossistemas complexos que levam centenas, senão milhares de anos para se recomporem. A sanha liberal progressista do atual governo não compreende a relevância dessa biodiversidade e não olha senão para a mesma, com uma caneta bic em riste, calculando as cifras que serão auferidas com o garimpo, o agronegócio e a especulação imobiliária.

O país do futuro pode ser um território estéril, com um amontoado de problemas insolúveis, um povo sisudo e revoltado, demarcado por uma clara cisão entre uma grande maioria de empobrecidos e uma pequena casta de gente branca muito rica. Há que se inventar um novo nome para esse lugar, que vem celeremente se convertendo num gigante encolhido.

Um Fastfood Macabro

 

“Tem dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu”. Os versos fortes da canção de Chico Buarque caem como uma luva em nosso estado de espírito. Uma tristeza profunda rega nossos gestos, nosso modo de caminhar, as frases que ousamos escrever, aos arrancos, sobre  um mundo estranho que cresce à nossa volta, como um polvo de mil tentáculos, a deglutir nosso presente, a inventar, aos gritos de “future-se”,uma maneira ousada de desmantelar o que então havíamos erguido com nossas mãos, nosso esforço, nosso suor.

Tem dias que a gente se sente paralisada, e até o ato de escrever a coluna é como uma espécie de guerra perdida com as palavras, com a lucidez, verbos e pronomes arrastando-se pela latitude da tela, enquanto um mundo sórdido abastece-se de fatos reais, cifras aterradoras.

Prossegue o desfile dos corpos caindo, por entre as balas do justiçamento. Persiste o estonteante zunir das motosserras, no âmago da floresta, caminhando de modo galopante para se tornar uma savana desértica. Prossegue a matança infame das mulheres, com facas, com chaves de fenda, com porretes, com armas cujo registro foi convenientemente raspado.         Persiste a insônia, uma espécie de vigília, com suas tenazes de fogo, a abrir nossos olhos para o irremediável, a escancarar nossos ouvidos para a estupidez protocolar, frases insólitas, ditas com a languidez de quem afirma que faltam calcinhas na ilha de Marajó, por isso as índias pequenas são abusadas e estupradas.

Frases celeradas, salgadas com a estupidez, em lives com milhares de curtidas, dando conta de que já não há fome, de que não há desmatamento, de que o aquecimento global é uma falácia, de que a “revolução” de 1964 foi um bálsamo para o progresso do país, de que não houve incineramentos, torturas, silenciamento das vozes e dos sonhos.

Tem dias que a gente se sente imersa numa trituradora de mundos. E olha para nossas filhas mais jovens, e segura as mãos das nossas crianças, e permite que lágrimas de angústia ensopem nosso espírito, a sentir que o presente se acha envolto numa tempestade, e que o futuro não passa de uma palavra vã, imprensada entre o desespero e a morte.

Tem dias que a gente arranca de não se sabe onde, um frêmito de esperança, e vai buscar algum alento na máxima de Marcelo Gleizer: Então, não somos poeira reciclada de estrelas? Nossas células, nossos ossos, são tão velhos quanto o universo. Nós nos regeneraremos, e ergueremos nossos sonhos de novo, num lugar limpo e saudável.

Nesses dias, olhamos para a terra, e ela está ensopada de sangue. E sentimos, sem ver, os dutos da vida contaminados pelos novos agrotóxicos liberados. E tapamos os ouvidos para hecatombe das rochas perfuradas, sob o vigor dos garimpos nas terras dos índios.

Tem dias que a gente escuta o canto tupi guarani, e ele é triste, e zune como aço na alma da gente.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna do #JornalAUnião)

Crônica Amanhecida

Sexta-feira. Acordei com um pássaro gritando. Deixei-me ficar dentro daquela película de entorpecimento, olhos fechados, toda ouvidos, toda memória, tentando entender a urgência, o quase desespero daqueles trinados.

Minha imaginação, essa pobre besta doente, liberta das imagens do mundo, afeita à sua própria modelagem, cinzelou engrenagens ferrugentas de condicionadores de ar, e um pássaro estripado, ainda cantando.

Outros ruídos foram invadindo a cena da sexta-feira. Os conhecidos latidos dos cães da vizinhança, a monotonia do trânsito, uma pequena nuvem a desfazer-se em plena manhã, como se fora o mundo a carpir uma dor crônica, espécie de unha encravada no espírito do tempo.

E de novo, sem aviso, o pássaro gritou. Vive. Trina com a força de quem não tem sequer uma unha partida.

Repórter do mundo das coisas que não falam, canta para os seus, alguma notícia rutilante.  Tece a rede do discurso a ser pronunciado por cada pássaro que o entenda.

E me dou conta de que desde que me entendi por gente, foi sempre assim, os pássaros acordando o mundo, vigiando com seus trinados, algum entorno desconhecido, alertando os seres que não se alimentam de televisão, nem de jornal, com pequenos grãos de cuidado, bem menos de 140 caracteres, milésimos de bits desse mistério, essa insondabilidade, algo que nunca poderemos ler.

Totalmente desperta, dou-me conta de que sou eu, e o meu mundo, que temos uma unha encravada, uma dor crônica, um desespero latente que tentamos disfarçar, encenando com brilho, cores e letras garrafais, as notícias que serão lidas no dia seguinte, curtidas, sublinhadas, compartilhadas, escorrer de uma fala inútil, que não nos afeta.

Atiro para longe os lençóis, tento sacudir esse torpor, visto-me do dia de sexta-feira, gratificada por aquela urgência, aquele desespero, aquele canto matinal, de cujo mistério nada sei.

E eis que como uma lupa clarividente, a tristeza se me apresenta, para reavivar as achas da minha angústia.

Tento ludibriar o tempo ácido. Tento inventar uma letra para o canto do pássaro.

não enxote a tristeza. não queira que ela vá logo embora. A tristeza pode lhe ensinar com quantos fios de algodão se tece a sua alma.

Tristeza não se cura com o limite do cartão de crédito. Tristeza se vive até o seu limite, depois é lexotan e sonoterapia.

Se a tristeza veio lhe visitar, ofereça-lhe o melhor lugar da casa e aprenda com ela a tecer a crônica das suas horas.

Seja o governador da sua tristeza. Dê-lhe pão, vinho e pague você mesmo a conta da conveniência.

E quando a tristeza for partir, cuide para que leve todos os pertences, a fim de que não haja desculpas para retornar à casa do seu coração.

 

 

A Tempestade dos Dias

Não sei se você também escuta a tempestade. Ela é persistente, absoluta, espécie de música frenética de martelos batendo seus pingos de ferro na vida da gente. Uma tempestade sem tréguas, renovando-se em força e vigor desde as primeiras horas desses dias de julho, até as madrugadas frias, devassadas com o barulho do que se planeja, do que se vota, do que se prepara para um país que  esmagado por forças centrípetas, recua para trás, para longe dos marcos da democracia e da justiça social.

É dramática e titânica, a luta dos partidos de oposição, no sentido de atalhar a chuva de medidas que destruirão a previdência social, sob a pecha de que se estará acabando com privilégios, de que, com a reforma, se resgatará o pleno emprego, se estará abrindo as portas do país para os investimentos estrangeiros, e, mentira das mentiras, se garantirá uma velhice tranquila para as próximas gerações.

Bátegas grossas de conteúdos divergentes trafegam pelas ondas da tv e das redes sociais. Os partidos da situação, inflamados e quase às lágrimas, falam em “amor pela pátria”, compromisso com os pobres, ocultando os bilhões de reais travestidos em emendas parlamentares, como garantia de que o voto de cada um será a favor da reforma.

A oposição, em discursos não menos inflamados, aponta as cifras da tragédia. O regime da previdência geral arcará com oitenta por cento dos recursos que o governo espera economizar nos próximos anos. Como falar de privilégios, quando as aposentadorias do regime geral da previdência alcançam hoje o teto de 5.800 reais?

Más notícias ainda virão. Passada a fase de votação na câmara e no senado, certamente se voltará a discutir o malfadado regime de capitalização, que, se vier a ser aprovado, destruirá o regime de colaboração tripartite que sempre apoiou a previdência, cuja manutenção está solidarizada entre o estado, o empresariado e os trabalhadores.

Mas a tempestade dos dias não se abate somente sobre os trabalhadores, dentro do Congresso Nacional. Há uma chuva malsã de acontecimentos muito ruins. No poder judiciário, consolida-se a insólita tese de que não há mais um regime de justiça no Brasil. O tecido social, completamente esgarçado, esbate-se entre ondas de violência e desespero.

Aumento dos crimes de feminicídio; mortes estúpidas em salas de cinema, supermercados, favelas, muitas mortes estúpidas nas favelas, nas ruas de São Paulo, a pobreza morrendo de frio e inanição.

O país sendo dissolvido no torvelinho dessa tempestade dos dias. E o ruído solerte do capital, aniquilando, comprando, forjando o marco cruel para a submissão e o empobrecimento absoluto.

É uma sinfonia terrível esta, que agora ganha tons de agonia e de tristeza. O último golpe, a última bátega, atingiu o dono da ironia fina, inteligente, do combate agressivo em defesa da justiça social e do jornalismo focado na autonomia e na propagação da verdade. O seu coração valente não resistiu às pressões do golpismo. Adeus Paulo enrique Amorim, que nos deixa órfãos, a escutar sozinhos esse fragor de destruição.

Não sei se você escuta a tempestade. Veja como ela estruge, lembrando a tropelia macabra das ratazanas de terno…

 

 

Os Crimes do Brasil

Não, os verdadeiros crimes do Brasil não são estes dos quais o ex-presidente Lula é acusado e é mantido preso por mais de quatrocentos dias na polícia federal de Curitiba.

Os verdadeiros crimes do Brasil são de toda ordem, e se sucedem numa escalada assustadora, a maior parte deles sob o manto do silêncio da mídia tradicional, do parlamento, do poder judiciário.

Os verdadeiros crimes do Brasil ocorrem as claras, enquanto a suprema corte destila sua retórica inócua e antiquada, para justificar sua incapacidade de fazer justiça.

Os verdadeiros crimes do Brasil buscam o aniquilamento do país como nação. Chegam como disparos de fuzis, e vão abrindo feridas incuráveis na vida brasileira.

Quero aqui falar de alguns desses crimes, perpetrados sem qualquer barreira impeditiva, arranjados com selos, carimbos e protocolos do governo central.

A entrega da base de Alcântara aos Estados Unidos. Eis aqui um crime grave e verdadeiro, uma espécie de escravização do Brasil à tecnologia de ponta americana, um golpe fundo na soberania nacional, sob o manto do silencio da lei.

A drástica redução nos orçamentos da educação superior, da ciência e tecnologia. Este crime comunica-se com o primeiro. Interna e externamente, o país precisa estar submetido à nação de Donald Trump.

Outros crimes eclodem em muitas outras searas. Os oitenta tiros no músico carioca; as centenas de mortes de crianças e adolescentes nas favelas brasileiras; a perseguição às populações indígenas e aos movimentos sem-terra e sem teto.

Há crimes verdadeiros consagrados no próprio âmago do poder executivo. Os trinta e nove quilos de cocaína num dos aviões da comitiva presidencial é um crime verdadeiro.

As descobertas do Coaf envolvendo um dos filhos do presidente, eis um crime verdadeiro, que sequer mobiliza trabalho jornalístico de peso na mídia tradicional. O arsenal com cerca de 117 armas descoberto numa das casas do condomínio do próprio presidente, e, ao encerrar-se desta noite de quarta-feira, o estampido de um outro crime: Arsenal de mais de mil armas apreendido na Argentina, com destino final, o país de Bolsonaro.

O verdadeiro crime brasileiro, é o desmonte do país, que se faz a mãos largas, com brutalidade e ignorância, um país grande, sendo atirado ao despenhadeiro.

A sociedade, parte distraída, parte angustiada, assiste à retórica do Supremo em um jogo de cartas marcadas. Sítio de Atibaia, pedalinhos e triplex do Guarujá. A parcialidade, como um longo lençol de ferro, recobre a longa noite do ex-presidente Lula. Os verdadeiros crimes prosseguem, com uma sanha avassaladora, sob o manto da covardia e da indiferença dos poderes do país.

Escute a terra estalando. É o repicar de mais um crime verdadeiro, com centenas de agrotóxicos sendo liberados direto na veia dos brasileiros.

Escute essa dura sonoplastia de guerra. Escute o país arrojando-se para o abismo, com tantas mãos sujas de sangue e de ódio. É madrugada, e quantos de nós não conseguem conciliar o sono, à escuta dessa sinfonia sórdida…

Todas as Cronicas Deviam ser Bonitas

As vezes, não há como escrever. As mãos travam, as palavras como que se transformam num borrão, o pensamento divaga, as ideias como que se eclipsam, no fundo de um buraco negro, irremediavelmente perdidas.

Sentada diante do computador, com a responsabilidade de lhe dizer algo plausível como uma espada de Dâmocles sobre minha cabeça, tento arranjar as palavras em um conjunto aceitável. Não há mais papel para amarrotar, não há mais o velho caixão de lixo da redação de O Norte, abarrotado dos restos das frases mal sucedidas.

Todas as cronicas deviam ser bonitas. Todas elas deviam narrar o belo, o suave, a vida cotidiana salpicada de alegrias. O domingo, a tarde, o passeio de carro, o chá de bebê.

O domingo, a tarde, o passeio de carro, o chá de bebê.

Essas palavras tolas estão todas sujas de sangue. O sangue que respingou na cara da mulher, interrompendo seu sorriso de satisfação. O sangue que travou a fala dos adultos, enquanto a criança pequena segurava entre os dedos suados, o presente embrulhado em papel colorido.

O domingo, a tarde, o carro crivado de balas, o grito desabrido da mulher, o papel colorido como uma denúncia viva de que todas as cronicas são mal sucedidas agora.

Como escrever? Como aguentar esse desarranjo de palavras? Vá pedir explicações à morte, me diz uma ideia tola,sem nexo nem propósito. A morte? A morte não pode mais abrigar culpas. A morte, aquela senhora velha, seca, alta e determinada,essa senhora morte não passa de uma quimera.

A morte de verdade é uma grande máquina de extermínio. Uma máquina poderosa, ocupada com sua limpa, nos socavões, nos morros, nas periferias, nas esquinas de bares sórdidos, nos assentamentos, nas rodovias,nos povoados distantes onde vivem os indígenas.

As vezes a morte é lacõnica, outras porém, desaba a gritar seus estampidos. Oitenta. Oitenta estampidos de fuzil.

Oitenta estampidos de fuzil, e somente depois é que a morte perguntou-se, entre o riso demente   e o barulho de represar das armas: Por que tantos tiros? Precisaríamos de tudo isso?

A cronica de Evaldo era bonita. Evaldo trabalhava duro, e depois, tocava o seu cavaquinho junto com os amigos. No trabalho ele era o segurança. Na hora da música Evaldo virava Manduca.

Na cronica de Evaldo, o domingo era da família. Do filho pequeno. Da felicidade simples de quem se sente bem com aquilo que tem.

Oitenta estampidos, oitenta palavras de chumbo, eis no que se transformou a cronica de Evaldo.A beleza do domingo fuzilada, sem dó, sem piedade, um pelotão do exército brasileiro destilando seu ódio contra um homem negro e sua família. É o que há para hoje, queridos leitores. Uma cronica suja de sangue de um inocente.

 

(Este post foi publicado ontem em minha coluna do Jornal A União(

Até a Morte tem Medo

 

Eu queria perguntar por Marielle, queria pensar sobre suas últimas palavras, no Buraco do Lume, perguntar por sua sensação de dever cumprido, sua urgência em saber que o tanto por fazer estava mesmo ali, na sua cidade, no seu mandato.

Eu queria perguntar quais teriam sido suas últimas palavras, Prosaicas? Alegres? Preocupadas? Eu queria perguntar, no corpo todo dessa crônica, quem mandou matar Marielle? Quem pagou pela submetralhadora, pela locação do carro, pela ousadia e frieza   do matador, o braço todo tatuado, todo empenhado em atirar, atirar, enquanto a gosma do seu ódio empestava sua própria bílis?

Eu queria perguntar por esse ano todo sem Marielle, mas agora não posso. Há cadáveres esperando no pátio da escola, na geladeira do IML, nos caixões, velados por suas famílias.

Eu queria cantar essa dor coletiva por Marielle, mas agora uma dor nova se apossa de mim, com força de saibro de machado, com virulência de arma de fogo, destroçando artérias, músculos, restos de merenda, planos, juventude, muita juventude.

Queria me juntar ao festival das mulheres, incisivo, jogral dolorido, mas não posso, porque até a morte atalha essa minha vontade, até a morte recolhe seus despojos, com um nó na boca do estômago, a morte, estupefata, fazendo a colheita com uma espécie de tremor nas mãos, a morte, esta senhora incansável, até ela está triste.

Eu queria falar da luta incansável de Marielle, pelas comunidades pobres, pelo empoderamento das mulheres negras, pela defesa intransigente da democracia, mas agora deixo que o pranto indignado distorça frases, desarrume parágrafos, enquanto as vozes cínicas dos gestores do estado contam os mortos e inventam lágrimas para a televisão.

Mataremos uns trinta mil, prometeram os que agora estão no poder. Agora assistem ao derrame de cadáveres, nas tempestades de verão, na sanha virulenta dos atiradores, nos confrontos com a polícia, nas casas de família, onde as cifras de feminicídio engordam assustadoramente.

Queria me juntar às mulheres, e dizer a Marielle que aquela noite terrível não foi em vão. Queria lhe contar que nesse ano todo, nos investimos de coragem, lutamos, e o país dos seus sonhos começou a ser reerguido.

Não posso dizer nada disso. Não posso lhe contar de um país ferido de morte, fedendo a pólvora, os dutos do ódio alimentados sem trégua por todos os dias, os corpos soterrados na lama das mãos impunes da ganância capitalista, os corpos no meio da rua, cadáveres no pátio da escola.

Não posso contar a |Marielle que até a morte, esta senhora circunspecta, empenhada em sua colheita macabra, até a morte se acha assustada.

Até a morte pede trégua, com mãos trêmulas e um quase pranto nos olhos de serpente.