Intervalo para a }Ternura

Ou seria uma carta para os meus leitores?

Sim, queridos leitores, farei um breve intervalo para a ternura, o silêncio, o recolhimento. O mundo onde vivemos está tão difícil, minhas crônicas andam tão duras, que precisarei parar para me reabastecer, para o repouso do verbo, para o desacelerar da maquinaria das narrativas, para a quietude e os gestos da calmaria.

Quando eu era pequena, em todas as vezes que ia dormir, ficava sonhando com uma casa muito pequena, onde eu vivesse, com economia de gestos, com ações delicadas, com coisinhas miúdas, cada uma no seu lugar.

Era talvez a minha versão privada de uma casa de bonecas. Mas eu cresci, li romances, e descobri a metáfora do poço.

O poço privado de cada um pode ser uma experiência terrível, mas, pode ser também um lugar de aprendizado profundo, de felicidade conquistada no silêncio da terra, num único raio de sol iluminando obliquamente as profundidades.

Aprendi isso com Harumi Murakami, no seu livro, “A Crônica do Pássaro de Corda”. Desde então minha pequena casa de bonecas da infância transmudou-se para a versão do poço privado.

O problema do mundo contemporâneo, é que parece que todos nós mergulhamos num poço coletivo, e nesse lugar há pouca luz, pouco ar, e nenhum silêncio, senão o clamor terrível da guerra das narrativas, o barulho dos carimbos da lei, a arenga perpétua das torcidas, em uma partida onde se perdeu a ética, o respeito, o zelo pelas coisas do mundo.

Como num imenso jogo de ping-pong, as coisas más colidem umas com as outras e viram notícias do dia. Atentados em Londres e no Irã, estupros coletivos na baixada fluminense, Trump fugindo do acordo do clima, a guerra brasileira, com seus trezentos mil jovens negros pobres mortos, sua elite corrupta e sua política de porões e vozes sussurradas.

Vou sair. Ou seria melhor que eu dissesse que vou ficar em mim, vivendo um cotidiano feito de pequenos gestos, coisas delicadas, cantigas de ninar e hálito de presença de criança?

Vou guardar as chaves do mundo na terceira gaveta da minha escrivaninha. Vou deixar inconclusa essa minha longa crônica desse poço coletivo. Saltarei barrancos, retrocederei, até essa esquina  de lugar nenhum, onde eu mesma, acordada, ouço cantos de pássaros, sinto cheiro do primeiro café, assisto à calma dos gatos nas suas almofadas, canto para um menino ocupado em crescer, invento só para ele a ternura de que um dia também precisará, para tecer o mundo de lá fora.

Vou visitar minha casa de bonecas, arejar seus pequenos cômodos, deixar que o vento brinque com seus ínfimos esconderijos. Trarei de lá, delicadezas, gestos cuidadosos, colheres tortas e invenção de ternuras para o menino que dorme.

Crônica de um Grande Apequenamento

Narrar a história recente do Brasil, sobretudo o capítulo relativo à vitória da presidenta Dilma Rousseff nas eleições de 2014, até a atualidade,quando rege o governo de Michel Temer,  não será uma tarefa fácil para os historiadores. Os especialistas da área hão de se defrontar com alguns problemas fundamentais que lhes darão um volume incalculável de trabalho.

O cenário onde se desenrolam os fatos da república é no mínimo sombrio. Envolve porões de garagens, como no filme “Matadores de Velhinhas”; envolve mochilas de dinheiro, como no magistral enredo de “O Trem Pagador”; envolve sobretudo uma narrativa tão ampla, e tão diversificada, que esse será o principal empecilho para que a história seja contada.

A verdade fria e cristalina é a de que o país se apequena. Como se por artes de uma espécie de lipo-aspiração interior, as figuras políticas do Brasil  vão perdendo estatura, e, entre gorduras e lipídios, esvaem-se os princípios éticos e morais. Os discursos ganham a superficialidade do biscoito recheado,com excesso de glicose e nenhuma substância formadora.

A mentira, o falseamento, a minimização dos escândalos que se sucedem, como no jogo de Pokémon, ganham a centralidade da mídia, em suas manchetes garrafais, e, como num espetáculo macabro, mídia e sociedade deglutem os acontecimentos, até à saciedade que nunca se resolve.

Na república de agora, os personagens centrais são os ratos, com meus mil perdões a esses animaizinhos que só querem defender o seu queijo. Os ratos daqui, são gordos, grandes e perfumados, mas têm armas as mais poderosas. A principal delas é o cinismo, e com este, a invenção da pós-verdade, essa narrativa esvaída de sentido e de verdade, essa narrativa contaminada com o artifício da retórica vazia, e com a única meta possível desse cacho discursivo: Ludibriar e confundir.

A história recente também conta com um personagem central. A própria mídia, que opera como um difusor das falas cínicas, dos desaforos, dos bips, que fingem escamotear a imoralidade. A mídia opera com o silêncio, quando a notícia fere sua linha editorial, ou promove a balbúrdia em horário nobre, sem tempo para acabar o jornal, quando é preciso desalojar um dos reis dessa república convulsionada.

Mas não nos esqueçamos, o personagem mais importante está nos bastidores. Atua em silêncio. Maneja cordéis e apronta cenários para o futuro. É vago e difuso na superfície, mas, nos bastidores, é organizado, persistente e corajoso. Chama-se de diversas maneiras. Aqui vou chamá-lo de O Grande Capital.

Ao grande capital, quando se trata de presidentes, interessa-lhes essa figura política patética, sem moral  e ética, mas, capaz de manejar seu cinismo e sua covardia, com artes de circo de péssima qualidade.  Ao grande capital interessam os ratos, com sua fria esperteza e a capacidade de defender o queijo forjado no lucro e na acumulação. Na mídia, quando acaba o jornal, aciona-se a vinheta dos aplausos e do frouxo de riso dos programas de auditório.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União)

Entre Vidraças Quebradas, Lágrimas por um País Desmontado

As manchetes midiáticasdesse meio de semana, rasas, superficiais, em alto volume, dão conta de vidraças quebradas, furtos, focos de incêndio, ministérios evacuados às pressas, servidores públicos amedrontados e perplexos.

Não, não vou aplaudir esses episódios, tampouco quero explorar as suas nefastas razões. Infiltrados teriam tentado desqualificar a manifestação pacífica com dezenas de milhares de trabalhadores, sindicalistas, movimentos sociais?

O discurso ambíguo da comentarista Míriam Leitão, no Bom Dia Brasil da quinta-feira, expressou claramente o tom azedo com que os sindicalistas são tratados no jornalismo global. Segundo Míriam, os manifestantes foram à Brasília financiados pelo dinheiro do imposto sindical, e agora, disse ela, será com o dinheiro dos nossos impostos que os estragos serão reparados. Digo que o discurso é ambíguo, porque a pouco mais de dez dias, Míriam Leitão louvava o governo Temer, agora ecoa suas mazelas e fraquezas. O que não muda, na sua fala, assim como nas inserções de Alexandre Garcia, William Bonner e tantos outros globais, é o tom de beligerância com respeito aos movimentos de trabalhadores, sobretudo àqueles ligados aos partidos de esquerda.

Enquanto o país assistia aos fatos quentes de Brasília, ocorria no Pará, uma chacina com dez trabalhadores mortos. Seguindo seu modus operandi, a Globo somente ouviu a voz das autoridades e dos policiais. A culpa, como sempre, recaiu sobre os posseiros, mas a eles não foi dada defesa, nem direito de resposta.

Em verdade vos digo, pouco me importa essas vidraças quebradas, pouco me interessa essa ação enraivecida de pequenos grupos encapuzados. O que me entristece, o que me faz acordar todos os dias com a angústia pesando no peito, é ver o meu país desmontado por dentro, quebrado, fraturado nos seus princípios, de ética, de moralidade, de respeito ao outro, de garantia dos direitos sociais e da cidadania.

O país vai sendo desmontado por dentro das suas estruturas. Não há ruídos de bombas, não se escuta o estilhaçar de vidraças, tampouco o estampido das automáticas. O desmonte é silencioso e rápido. A cada dia assistimos cair por terra um pedaço de floresta preservada, uma política social conquistada à duras penas, um instrumento de negociação e de participação popular.

E enquanto essas vidraças não são reparadas, olhemos bem para dentro desse ministério vazio. Vazio de políticas culturais, de diálogo, de música e de arte genuinamente brasileira, vazio de comando, num país sem comando.

Da boca pra fora, a retórica do combate à corrupção. Dentro dos gabinetes, nos porões e garagens, as tramas, as negociatas, a conspirata permanente e subterrânea que preside o jogo político desde sempre.

A metralhadora midiática prossegue no trabalho apressado da implosão. Aniquilar as esquerdas, e agora, aniquilar o governo Temer o qual ela colocou no poder. Retomar a direção das eleições indiretas, bater à prego e martelo, a política e os interesses do capital. Por que hei de lamentar vidraças quebradas, se tenho um país todo de cabeça baixa, com vergonha de si próprio?

 

Os Estalos da República

Nunca se soube que uma República pudesse envelhecer, recuar para trás, recuperar períodos de valorização de coisas como a desigualdade extrema, a desvalorização do trabalho, a desqualificação do estado, a intolerância para com o diálogo e a plenitude da democracia.

 

A República corre para trás, aos empurrões, à força do que há de mais execrável no jogo político, o chamado “toma lá dá cá”, corre para trás aos estalos, recuperando períodos históricos anteriores a Getúlio Vargas, apressa-se em abrir gavetas facilitadoras, para rasgar a Consolidação das Leis Trabalhistas, para colocar a classe trabalhadora  num lugar onde estava antes dos anos quarenta, sem proteção, sem direito à férias integrais, sem garantias na manutenção da empregabilidade.

 

A República estala por dentro, nos seus alicerces, mas, os artífices desse desmantelamento pregam o discurso do novo, do moderno, do fim do conservadorismo e dos privilégios, discurso que trata os trabalhadores como histéricos, intimidadores, e os seus sindicatos como quadrilhas, que devem ser estirpadas do novo mundo do trabalho.

 

Foi isso o que se ouviu na quarta-feira à tarde, quando da sessão de aprovação, na }Câmara dos Deputados, da Lei de reformas trabalhistas, sobretudo da boca do relator, Rogério Marinho, que com sua voz mansa, levemente enrouquecida, leu seu parecer conclamando às mudanças.

 

A república corre para trás, em velocidade de cruzeiro, num processo unilateral em que divorcia-se radicalmente dos direitos democráticos e populares. Tudo se faz num momento em que o governo interino conta com seu mais alto grau de rejeição popular e quando o parlamento vive a sua mais aguda crise de credibilidade, quando a maioria da sociedade começa a sair do conformismo e passa a se manifestar abertamente contra essas mudanças.

 

Mas o que se aprovou nesta longa quarta-feira, não é moderno, nem novo. A narrativa pode ser pomposa: Monetização da vida útil das pessoas, trabalhador horista, valor do negociado sobre o legislado,a narrativa é de fato pomposa, mas as consequências do processo serão desastrosas.

 

O golpe maior será dado contra os sindicatos e centrais de trabalhadores, que já vêm sendo enfraquecidos por campanhas menores, porém sistemáticas. O fim do imposto sindical e o estabelecimento da negociação direta entre patrões e empregados vai minar de vez a força dessas organizações.

 

A república corre para trás, suas estruturas estalam, desmantelam-se modos de fazer política. Aos trabalhadores, resta inventar de novo a força da sua luta, nas ruas, nos postos de trabalho, nas greves, até que não possam mais cruzar as mãos em defesa dos seus direitos.

 

 

A Política e os seus Movimentos

Prenunciam-se os próximos movimentos da política brasileira, que em alguns casos, serão lentos e cuidadosos, em outros, acelerados e com intensa cobertura midiática.

O movimento principal, refere-se ao fim do governo Temer. Caíram por terra, todas as fábulas habilidosamente gestadas desde março passado. Ruiu a fábula juridicamente construída num powerpoint, de que Lula era o chefe da quadrilha de corruptores do dinheiro público brasileiro; ruiu a fábula de que não se deu um golpe parlamentar, jurídico midiático no país; finalmente, desmantelou-se a fábula de que o presidente Temer faria um Brasil novo, com a sua famosa ponte para o futuro, reequilibrando as contas públicas e recolocando novamente o país nos trilhos do capital internacional.

Esse primeiro movimento, do fim do governo Temer, será lento, contará com proteção midiática e com inúmeros eventos de blindagem. O governo acabou, mas pode ser que Temer persista agarrado ao mandato, por artifícios os mais variados, por muito tempo ainda. Segurar-se-á nos privilégios e benesses que o cargo oferece, e poderá tomar medidas importantes, como a reforma e a mudança para o alvorada, e a formidável volta, às arrecuas, para o palácio do Jaburu, sem que na mídia se promova qualquer levante importante.

Para não falarmos de reformas mais definitivas, como a Pec do fim do mundo e a reforma da previdência,

Já o segundo movimento da política, diz respeito às eleições de 2018, e a possível participação do ex-presidente Lula como candidato. Prosseguirá, na mídia, no judiciário e no parlamento, o brutal desgaste da personalidade do político, mesmo que as investigações não tenham ainda topado com provas importantes que possam levar ao seu encarceramento e futuro julgamento.

O terceiro e decisivo movimento da política, apoiado pela mídia, pelo judiciário e parte do parlamento, diz respeito ao PSDB, que aliado à Eduardo Cunha, forjou o golpe, apoiou o plano Michel e agora vem ocupando postos importantes no governo, enquanto se dá curso à sua primeira cartada, o pedido de cassação da chapa Dilma Temer.

Nas democracias, seria lícito que o perdedor aceitasse os resultados, como bem disse o ex-presidente Obama, nas últimas eleições dos Estados Unidos. O candidato do PSDB, assim como seus apoiadores, chegaram a comemorar a vitória em 2014. A comemoração durou pouco tempo. A candidatura Dilma reagiu e ela foi eleita com três milhões de votos a mais.

A inconformidade de Aécio Neves trouxe o país até aqui. Quem sabe os líderes do seu partido possam agora embarcar no poder, como já está ocorrendo, sem um voto sequer que lhes dê lastro.

(Este post foi publicado ontem, em minha coluna impressa do Jornal  #AUniao)

Sob o Manto da Irracionalidade

Não há dúvidas de que estamos caindo de rojo no regime da irracionalidade.  Uma série ampla de eventos demonstra isso. Tudo começou com o processo de impedimento da presidenta Dilma Rousseff, que, finalizado, abriu as comportas do estado para a implementação do governo de exceção.

Num governo de exceção tudo é possível. Fenômenos que antes eram tidos como condenáveis e combatíveis até à última instância, no governo de exceção, ganham o álibi da necessidade, e, à toda pressa, empreendem-se as tratativas e diretivas para que sejam instituídos como norma, ganhando os carimbos e os selos da legalidade.

A maior excepcionalidade talvez, seja aquela que permite a um governo cujo mandato indireto durará  pouco mais de dois anos, empreender reformas econômicas que impactarão a vida do país por mais de vinte anos. No bojo dessa medida, busca-se a aprovação da reforma previdenciária, a qual modificará completamente a vida de cada trabalhador individual, que terá de atuar por cerca de 49 anos, a fim de merecer o justo descanso da aposentadoria.

E tem mais medidas inquietantes. A reforma do ensino médio, prometendo colocar no limbo ou na obscuridade de inúmeras rubricas, conteúdos como filosofia, sociologia, em favor de conteúdos técnicos e informáticos, numa canetada que por si só, travou as portas do diálogo com os estudantes, os educadores e as comunidades, demonstram mais nuances desse governo de exceção.

O mais grave desse processo acontece na política. O foro privilegiado tem sido utilizado em plena luz do dia, para que se evitem investigações na primeira instância, cadeiras de ministérios são negociadas e posses são permitidas, traindo-se abertamente veredicto anterior, que caçara o direito do ex-presidente Lula ocupar o cargo de ministro da casa civil.

Um governo de exceção, com pouco mais de dois anos de mandato indireto, também pôde indicar um ministro do Supremo, que vinha a ser o seu ministro de Justiça, num flagrante desrespeito à Constituição do país. O novo ministro revisor poderá ocupar a pasta por mais de vinte anos,  e emalado pelos poderes de um governo de exceção, negocia em barcos ou em gabinetes, as maneiras pelas quais deseja ser sabatinado.

Os leitores poderiam se perguntar, de que maneira o projeto excepcional do interinato pode dar certo? De certeza há um modus operandi que vem assegurando o sucesso desse governo de exceção. Há que se fabricar uma sucessão de acontecimentos, a fim de que um fato vá substituindo o precedente, sem que nada possa ser guardado na memória do cidadão desatento, que na maioria dos casos, sequer sabe em quem votou nas últimas eleições. A estratégia fundamental, porém, radica na aliança com a mídia. O governo de exceção, perfeitamente sintonizado com a mídia, impõe a cobertura da irracionalidade como se estivéssemos vivendo num estado pleno de normalidade.

É o que vem sendo feito. No Brasil editado pela mídia, tudo está bem, a fora pequenas rusgas críticas, que toda imprensa que se preza tem de ser independente. No Brasil real, a irracionalidade governa os cidadãos, mas brasileiro só fecha a porta quando o ladrão se foi.

 

(Este post foi publicado hoje, em minha coluna impressa do #JornalAUnião)

Um Engavetamento Colossal

Você faz uma busca no Google por maiores engavetamentos da história recente e dá de cara com um monstruoso,  ocorrido em São Paulo, em 2011, na via Imigrantes, envolvendo centenas de carros, dezenas de feridos e um morto. Notícias do ocorrido dão conta de que uma forte neblina, na hora do acidente, prejudicava a visibilidade dos motoristas. O acidente ocupou mais de quatro quilômetros da via litorânea, isolando a baixada santista.

O segundo ocorreu em dezembro daquele ano, desta feita no Japão, sendo considerado o mais caro do mundo em razão do horário da ocorrência e dos prejuízos estimados.

E se você procurasse por um engavetamento colossal na autoestrada da política brasileira? Não perca seu tempo. Não haveria resultados no Google para essa sua busca, entretanto, é certo que se prepara, de maneira célere, atabalhoada, o maior engavetamento da história recente do país, com prejuízos incalculáveis para a democracia, a justiça social e o desenvolvimento nacional.

Na política, a palavra engavetamento tem um sentido completamente diverso do usual. No trânsito, um engavetamento é um acidente de grandes proporções, com muitos veículos envolvidos. Na política, engavetamento significa ocultação de escândalos, jeitinho brasileiro, trâmites e diligências para frear ou estancar, com investigações, “com tudo”, como disse o senador Jucá em seus áudios, amarrando num mesmo quite o senado, a câmara, o supremo e o impeachment pelo fim da Lava Jato.

Aqui, tal como ocorrera na Imigrantes, há também neblina, nuvens escuras, estranhas e terríveis tragédias, nos presídios, nas ruas de algumas cidades, no próprio congresso.

Há um país que sangra e outro que trama, como se não houvesse nada a temer. Há um país estupefato, perplexo e ao mesmo tempo refém de uma espécie de “pileque homérico”, enquanto que no país da corte, elaboram-se tratativas, cada uma mais ousada que a anterior, limpam-se arestas, desobstruem-se pendências, prepara-se o cenário para o engavetamento colossal.

Supostos pecados cometidos pelo governo anterior, agora são brandidos como dogmas religiosos, como remédio permitido no governo de exceção.

Distribuem-se foros privilegiados antes condenados até à exaustão, o mandatário da casa da Justiça deixa seu cargo, abandona seu plano nacional de segurança, e se prepara para a sabatina que o elevará à corte suprema, como revisor da Lava Jato.

Tudo pela ponte para o futuro, tudo pela salvação nacional. Salvação de quem? De quantos? O engavetamento será colossal. Eduardo Cunha poderá ganhar seu salvo conduto para um tratamento digno; Moreira Franco há de recuperar seu ministério que já quase lhe escapa das unhas, Jucá, um dos ideólogos centrais desse plano de engavetamento colossal logrará quem sabe o seu antigo posto.

Nuvens escuras rondam a Lava Jato, mas, seja na política, seja no trânsito, um engavetamento tem que ser grande, fazer vítimas muitas. Se a Lava Jato for a vítima da vez, esse será de fato o maior engavetamento da história política do país.

Preparado com esmero, esse engavetamento já incinerou 54 milhões de votos, arruinou um dos maiores partidos de esquerda do país, e fará ainda mais, com os servidores públicos, a educação, a saúde, tudo  pela ponte para o futuro.

A Sina dos nossos Dias

Nunca pensei que houvesse tanta dificuldade em escrever, em dizer algo que pudesse valer a pena, que pudesse ser guardado para o sempre da história. Penso na linguagem como uma velha locomotiva, os acontecimentos passando céleres, feito ventos de tempestade, e as palavras, abismadas, regurgitando avalanches de sílabas que não poderão ser aproveitadas.

Não, de há muito eclipsou-se o espaço e o tempo da crônica tranquila, leve, a escrita contemplativa da cidade num final de tarde, a crônica poética da vigília madrugadora, a crônica travessa do amanhecer de sábado, pleno de sol, com o vendedor de camarões palmilhando a rua com sua voz de barítono: “Camarou, camarou, camarou”!

Não há amanhecer tranquilo, não há fim de tarde, não há noite nem madrugada, senão o perpétuo longo dia cerzido na crueldade dos acontecimentos. Não há crônica, senão a escrita apressada de palavras a esmo, o carro que esmaga o corpo fatigado do trabalho, a foice que desmantela crânios, a asa do avião esgrimindo com o oceano, decapitações, decapitações, essa palavra tão grande e tão sangrenta, enchendo dias e dias com a dura verdade dos seus acontecimentos.

A infância de todos os dias perdida num átimo de tempo para o estampido, o ódio, todo travestido em sorrisos e em bater de panelas, o cinza nos muros da cidade quatrocentona, os protetores do mal com seus novos muros na prancha dos arquitetos, que há que se impor a lei e a censura, a ordem e o progresso, as grades, as tornozeleiras, os carimbos para a liberdade dos donos da propriedade, tão poucos, tão ínfimos, cabendo todos num parágrafo de crônica, nos dedos de uma mão aberta.

“Perdeu, perdeu”, berra o assaltante, enquanto engatilha a arma e atira. “perdeu, perdeu”, digo eu às palavras da minha crônica, chegando atrasadas, caindo feito moscas mortas na tela do computador, virando cristais de gelo na página impressa, enquanto o mundo brame, estruge e prepara crueldades novas no seu caldeirão infernal.

Há repasto para todas as formas de noticiar o mal. Mas já não há o que dizer, senão correr para preparar o reality show das tragédias do dia.

Cada cidade, em cada dia, preparando a sua própria tragédia, que engrossa o menu mundial. Imagens macabras, sucedendo-se umas às outras, como num vídeo preparado pelo facebook.

A repórter regurgita o noticiário, em frases curtas, arrematando tudo com um sorriso pronto, não vá perder seu posto, não vá ter que assinar seu pedido de demissão voluntária.

Já não escrevo o que pede a minha vontade. Apenas, com um jeito de mão, tento dar ordem aos acontecimentos, em atropelo, cada um querendo ocupar a linha de frente da locomotiva da tragédia. Não há mais lugar para a crônica, senão a irrupção de palavras soltas, rabiscadas à pressa, escrita telegráfica e desgovernada, cumprindo num ritmo alucinado a sina dos nossos dias.

 

Este post foi publicado hoje em minha coluna impressa do #JornalAUniao

Um, Dois Três, Feliz ano Novo

Um minuto, um segundo, e você desemboca no novo ano, com uma taça de champanhe na mão, os ouvidos meio surdos por conta do estrondear dos fogos, os braços ocupados em abraçar, na boca, aquela frase de sempre, com suas exclamações: Feliz ano novo! No fundo você sabe, a ideia de renovação não passa de propaganda pesada, de clima preparado pelo natal, as férias, para muitos, os calendários, que você tem pelo menos uns três, dados por lojas de departamentos e farmácias.

O ano novo recomeça implacavelmente de onde parou o velho. Isto porque os anos não passam de invenção, da civilização e da cultura, para monitorar as horas úteis e inúteis dos indivíduos, para organizar as políticas, a economia, para disciplinar os planos educacionais e criar uma trilha comum por onde possam contar a história.

Na verdade, o que temos mesmo é o tempo, esse conceito, essa ideia poderosa que nos permite observar os acontecimentos e a sua duração no espaço, o seu começo e o seu fim. O tempo, esse poderoso conceito que equilibra o nascimento e a duração dos nossos sonhos, nossas esperanças, esse poderoso conceito que sustenta no espaço as unhas da nossa angústia, o auge do seu aperto em nosso peito e o doce alívio de vê-la desvanecer-se.

O ano acaba, e só temos esse segundo mágico em que contamos três, dois, um, para de novo estarmos irremediavelmente atirados no bojo do tempo presente, com seus acontecimentos terríveis.

A morte, essa senhora de mil faces continua dando as suas cartas: Este vai, essa também, este ainda não está pronto, aquela jovem, aquela menina, essa mulher de sacola na mão, esses assassinos, todos eles, num só pacote de violência pura. E essa família aqui, filho, mãe, irmãs, sobrinhas, que todas já engoliram a champanhe do ano novo.

Você pondo toda a sua atenção nesse segundo mágico, três, dois, um, e as mesmas caras retocando a política de ontem, com o velho cinismo, as meias palavras, as linhas privativas, o escoamento das propinas, que ainda há tempo para os restos a pagar.

Ano novo, os primeiros dias sendo destacados dos calendários, e os velhos problemas desabando sobre a sua cabeça, com a força de um tsunami.

Guarde o seu livro de autoajuda, feche aquela gaveta onde num caderninho novo em folha fez as suas metas para 2017. Deixe intacto, o calendário da sua mesa de trabalho.  Contemple por algum momento os segundos passando. Tente olhar para os acontecimentos como grandes molhos de fatos entrelaçados, olhe para a sua duração no espaço, tente encontrar o fio emaranhado onde tudo isso começou.

Faça um acordo consigo mesmo e abandone essa ideia de ano novo. Lave a cara e olhe para a realidade como ela é, essa grande ágora onde os acontecimentos precipitam-se, trazendo cada um, a marca do gesto de alguém, de um grupo, de uma coletividade. Entenda de uma vez, não há novo tempo, senão na trilha da tevê. O que há é somente o momento presente, pedindo sua atenção, sua escolha, sua intervenção.

Os dilemas da Crise

Os acontecimentos dos últimos dias na política brasileira são estarrecedores e revelam a verdade sombria: O país caminha celeremente para a deriva, o governo interino não conseguirá cumprir o objetivo falacioso com o qual foi elevado ao poder, conciliar, unificar, apaziguar a sociedade.

As últimas manifestações da presidente do Supremo, Ministra Carmem Lúcia, conclamando a união do poder judiciário, assim como a ação da mesa do Senado, desafiando e não acatando uma determinação judicial revelam um momento assombroso da crise: As forças estão se entrincheirando, ou pelo menos caminham para essa ação, como um último recurso para se proteger da convulsão social que já se instalou em algumas localidades do país.

Esta semana que se encerra hoje, foi talvez uma das mais insólitas dessa situação de crise. O rio de Janeiro assolado por uma amostra da guerra vivida entre o poder político e os servidores públicos; os estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul formulando a agenda da sua própria hecatombe, Ribeirão Preto sem comando e sem qualquer pessoa idônea que possa assumir a prefeitura.

As promessas do impeachment não se cumpriram, nem há probabilidade de serem cumpridas, a médio e longo prazo. A Lava Jato, que prometia encarcerar todos os membros do governo petista, confirmando assim a fábula midiática de que Lula comandava uma quadrilha de corruptos, atingiu proporções inimagináveis e cifras monetárias impressionantes. A Lava Jato apresentou ao país, a corrupção sistêmica que infesta todas as operações de governo e de política, e que tem um rastro tão longo na nossa história, que fatalmente pede freio, cautela e ações de longo prazo para o seu extermínio ou minimização.

O jornalista Franklin Martins, em excelente entrevista dada ao portal Sul 21 na última quarta-feira, tentou traçar um paralelo entre o que se viveu por ocasião do golpe de 1964 e a atual crise política, na qual, por via de um golpe jurídico político midiático, destituiu-se o poder e o mandato da presidenta eleita.

A situação atual, diz ele, ainda que com outras palavras, é diversa da anterior, mas apresenta uma face muito grave. Uma elite predadora, um poder político completamente contaminado pela corrupção, um poder judiciário ocupado com o justiçamento, uma população despolitizada e completamente órfã de uma mídia que promova uma leitura crítica da situação.

O mais dramático porém, radica na qualidade do poder interino que hoje comanda os destinos do país. Ele próprio profundamente contaminado por práticas de corrupção, sem um projeto de desenvolvimento do país, senão o de desmantelamento imediato das políticas sociais, em favor da implementação de um projeto ditado pelo capital rentista, que empurrará as populações menos privilegiadas a um conjunto de sacrifícios que beiram à crueldade.

O que não disse Franklin Martins, eu o digo agora, de modo telegráfico: Já não temos governo, nem país, senão o conflito aberto, com gosto de gás lacrimogênio e o estampido das balas de borracha.