O Processo Continua na Vida Real

Na segunda-feira passada, em companhia do meu amigo Pedro Nunes, fui assistir o documentário “O Processo”, realizado por Maria Augusta Ramos e que narra de maneira cirúrgica, os episódios recentes da política brasileira, os quais culminaram, em 31 de agosto de 2016, com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Rever a súmula daqueles acontecimentos, exposta no longa de mais de duas horas, amplifica em nós, a angústia que nos tomou de assalto nesses dois anos, mas sobretudo recupera a nossa perplexidade pelo que foram capazes de arquitetar, os artífices do golpe. Apearam do poder, uma presidenta eleita com 54 milhões de votos, que não cometeu crime de responsabilidade. Com uma narrativa regada à falácias como “ponte para o futuro” e “salvação nacional”, entregaram o governo do país ao núcleo dos que delinquem e perpetuam as práticas de corrupção que infestam as hostes do poder político, do estado e do empresariado.

O documentário de Maria Augusta, que tem lotado sessões de cinema desde o último dia 17 de maio, já arrebatou diversas premiações: Melhor longa-metragem internacional no Festival Documenta Madri – Espanha; Melhor Filme no Festival Visions du Reel em Nyon – Suíça; Melhor Filme no Festival Indie – Lisboa; Grande Prêmio do Festival Internacional de Berlim. Regado à imagens ora chocantes, ora espetaculares, o filme inventaria a falência de um parlamento apodrecido, assim como a hipocrisia da principal autora do pedido de impeachment, a advogada Janaína Paschoal. É uma aguda e terrível fotografia de um parlamento corrupto, empenhado em sacrificar a democracia e o estado de direito, a fim de estancar processos de investigação e de quebra, instituírem um programa neoliberal sem qualquer perspectiva de apoio popular.

Conforme me relatou Pedro Nunes, ao final do documentário “vemos um tempo com nuvens fechadas com as fumaças de gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral lançadas em direção aos protestos pacíficos. Há sinais de INDIGNAÇÃO mesmo com as balas de borracha e estampidos dos fuzis que ecoam na sala de projeção. As fraturas estão literalmente expostas e há cantos de resistência entoados firmemente por mulheres, homens e crianças”.

E o que Maria Augusta nos mostra, nas cenas finais do seu documentário,  é o país pós-Dilma, executando seu balé macabro de recuo para trás, para o aumento dos índices de pobreza, os cortes dos direitos sociais, a restrição nos investimentos em saúde, educação, e, o espetáculo dantesco da corrupção, dentro do governo.

O país pós-Dilma, que extrapola a agudeza da narrativa de Maria Augusta, e persiste na realidade, com a política desastrosa de reajustes diários dos combustíveis. Um país parado, executando seu balé macabro, rumo à desordem, ao caos, com vozes dissonantes pedindo a volta da ditadura militar. Um país sombrio, a caminho da tempestade.

E eis que chega a quinta-feira, 24 de maio. Reviso a coluna, ilhada em minha própria casa, com a certeza de que “O Processo” continua na vida real.

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Moscas não Pagam Aluguel

De madrugada as moscas não perturbam ninguém. Somente as formigas, as baratas, os ratos. Sobretudo aqueles mais ousados e famintos, chegam perto dos humanos, remexem nas suas coisas à busca de um jantarzinho.

As moscas só souberam pela manhã, que alguma coisa muito grave havia acontecido na sua morada na rua Pai Sandu. Moscas não precisam de um edifício grande para viver, pousar. Um pedaço de entulho pode servir. Mas aquele montão de entulhos cheirando estranhamente já não lhes vai oferecer nada que valha a pena.

Moscas não pagam aluguel, transitam livremente e pousam em lixo acumulado, em louça suja, em barracos e prédios   infectos, maravilha de céu para seus volteios!

As moscas nunca poderão contar sobre aquele acontecimento. O que saía de dentro do prédio finalmente, incandecentemente  iluminado, era desespero humano, era pavor, de crianças, adultos e velhos.

Eram pessoas iguais a mim e a você, muitas delas com sotaques nordestinos, que o prédio fervente vomitava às centenas, na praça madrugadora. Gente atônita fitando apavorada o desmanche medonho. Sonhos despejados como trouxa de roupa suja. Pés descalços lambendo a escada que pouco depois era devorada pelo fogo.

Gente igual a mim e a você. Só que a gente dormiu a noite toda, e só viu pela tv, pequenos flashes dessa gente atônita, verdadeira sociedade anônima, amanhecida sem teto, cheirando a rescaldo, cheirando a pavor, esse estranho cheiro de estricnina derramando-se por veias e artérias.

Quando as moscas chegaram não entenderam nada. Passearam por braços e pernas fedorentas, e depois foram procurar outro endereço. Moscas não pagam aluguel, nem precisam de cabos de aço para se salvar.

As moscas jamais conseguirão entender, com seus cérebros minúsculos, o tamanho dessa tragédia. Moscas só entendem de esgotos abertos, pratos sujos e engordurados, roupa mal lavada, excrementos à mostra, cadáveres putrefatos.

Moscas não compreenderão uma letra que seja dessa frase comprida: Gente igual a mim e a você, falando como nós, caminhando, atropelando, saltando, com dois pés, iguais aos meus e aos seus. Gente como nós, com sonhos, esperanças, desejos, vontades, só que sem eira nem beira.

Gente como eu e você, mas que passa a vida sendo enxotada como as moscas. Gente como eu e você, vivendo de pouso em pouso, levas e levas de pessoas como eu e você, apodrecendo como estorvos, à beira da vida. Gente como eu e você, vivendo como as moscas, a um preço terrível: gente como eu e você, erguendo a cidade grande, limpando suas latrinas, jogando e depois catando seu lixo, lavando suas sujidades, gente como eu e você, vivendo como as moscas, só que pagando aluguel.

O Silabário dos Dias

Os dias que vivemos são escritos com frases curtas. Prendam. Matem. Arrebentem. Pílulas de ódio circulam nas redes sociais, altos comandos escrevem verdadeiras súmulas de ameaça, usando uma banda larga e um clique do mouse.

Ainda que se gastem horas e horas em discursos retóricos, o núcleo de tudo o que se diz é simples, direto, como uma rajada, como um telegrama, como uma ordem rabiscada num guardanapo. Prendam. Aniquilem, condenem, encarcerem.

Os jornais, as tvs, os portais de notícia antecipam-se, forjam as manchetes da hora mais dura, como se de um grande espetáculo se tratasse, um reality show macabro, de enredo telenovelesco: De um lado, os cidadãos de bem e os seus heróis, do outro, os bandidos, aqueles que ousaram alterar a ordem instituída.

Os dias que vivemos são escritos com sílabas de emboscadas, curtas como tiros na cara. São escritos com a morte no centro, o dedo apontado para os inimigos da desigualdade e da injustiça. São escritos com selos e carimbos, em protocolos feitos para impedir,ameaçar, encarcerar.

Uma escrita dura como chibatada, essa dos dias em que vivemos, apressada, frenética, feita de exatas palavras. Impedir, evitar, encarcerar, como numa espécie de guerra em que há que se limpar o mundo em que uma nova fábula precisa ganhar terreno, impor-se como história oficial.

Encarcerar, e deixar que os cidadãos de bem vivam felizes para sempre, com o fim da corrupção, com a celebração da justiça, com a alegre futilidade da  mídia, com um exército de silenciosos guardados em seus quartéis, com os gangsters no poder, vestidos de bons moços,

A escrita dos dias que correm divorciou-se da verdade, da ética e da defesa da democracia. Esboça-se em curtos ditames, com publicidade falaciosa. Resgatar a credibilidade da justiça, colocar o país nos trilhos do futuro, apresentar à nação, o fim da impunidade.

Uma fábula tão curta, golpeando com força a liberdade e a defesa da democracia.  Uma fábula tão retumbante, penetrando o silêncio das casas, o barulho dos estádios, a solidão das igrejas à noite, o vozerio nas festas e velórios.

Encarcerar, antes que o jornal da noite possa ser fechado. Encarcerar, para que todas as mídias possam editar o espetáculo das algemas, a redundância dos gestos, o tom ritmado do silabário da narrativa global.

Encarcerar. Guardar as chaves da liberdade, e deixar que o povo de bem vigie as horas de silêncio do condenado. Inutilizar seu passo célere, sua voz rouca, impedir que sua mão corte a passagem dos cidadãos de bem rumo ao país do futuro. Encarcerar, agora, antes que agosto chegue com seus ventos, antes que as urnas de outubro sejam abertas.

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa do Jornal A União, na última sexta-feira).

O Velório de um País

O meu coração está pesado. As palavras dessa crônica, estão todas tingidas da profunda tristeza que me invade, por estar há tanto tempo, com meus irmãos, meus amigos, meus colegas de trabalho,  com tantos e tantos cidadãos e cidadãs, mergulhada nesse longo velório sem tréguas, velório do meu país.

E como é difícil velar um país que se despedaça e morre, nas praças das cidades grandes e pequenas; nas ruas e vielas das periferias; nas favelas ocupadas por forças do exército e da polícia.

Um país que morre de modo explosivo, um país que morre na sua infância pobre, vitimada por balas perdidas, todos os dias.

É tão difícil velar um país que oculta-se na covardia e na vileza, para estraçalhar o sorriso da cria da maré, Marielle, silenciada no meio da sua luta, calada brutalmente, enquanto as suas palavras de força e encorajamento de mulheres negras ainda reverberam naquela roda de diálogo.

É tão difícil velar um país onde Marielle Franco não pôde voltar pra casa, não pôde pela última vez beijar sua filha, é tão difícil velar um país onde Marielle Franco será agora somente mais uma cifra na estatística brutal da violência no Rio de Janeiro.

É tão difícil velar um país onde já não há lágrimas para regar o desespero, a vulnerabilidade, a incerteza, o medo, o risco de viver.

É tão difícil velar um país onde a democracia foi ferida de morte, um longo e triste espetáculo de guerrilha política, onde venceu mais uma vez a oligarquia, o complô dos trusts, as bancadas da bala e do boi, que agora se apressam na delapidação do estado, na destruição dos direitos sociais e civis, no aprofundamento da pobreza e da miséria.

É tão difícil velar um país onde não se pode calar o espetáculo da tv, onde não se pode interromper o jornalismo mínimo e factual, onde não se pode atalhar a sanha noticiosa sobre os comunicados, do presidente, dos ministros, das forças armadas, onde não se pode pedir um silêncio profundo dessas máquinas de divertimento perpétuo, para que se escute o pranto, o soluço, o último grito, o gotejar de sangue de vítimas inocentes, crianças, muitas crianças; jovens e idosos, a maioria do nosso povo negro que  morre aos bocados,  nas máquinas de matar do crime organizado, nas máquinas de matar das forças de ocupação.

É tão difícil velar um país onde o sangue e as lágrimas são as únicas sílabas desse decreto final, escrito abertamente, nessa noite infinita, em que não se pode voltar pra casa, abrir seu portão com sua própria chave, calçar seu chinelo velho, bebericar um café com leite, sentir a satisfação do dever cumprido.

É tão difícil velar um país onde Marielle Franco não mais poderá cumprir seu mandato, de defesa do povo pobre da maré, das favelas do Rio de Janeiro. Tão difícil é velar esse país que fecha com mãos trêmulas, o caixão de Marielle Franco.

Omelete de Nada

As vezes acontece. O teu editor já te deu o prazo máximo, você tem consciência do pequeno retângulo de espaço aberto, 36 linhas a serem preenchidas, mas só há uma ausência profunda dentro de você.

Os temas desapareceram, tiraram férias, desligaram os telefones imaginários, desconectaram-se, não há como fazer contato com um tema que seja.

Você inventa frases de efeito, rebusca na memória um pensamento clássico, nada de jeito acontece. É como perder o sono, ou pior, é como tentar acordar, no meio de um pesadelo, todos os monstros com armas apontadas para você, mas, o que se pode fazer, senão espremer uma gota que seja de sanidade, uma trilha por onde começar, uma ponta qualquer de novelo azul que te possa levar a algum labirinto?

As vezes, escrever é como atirar pedras a um lago, e ficar à espreita, vendo as ondulações, o barulho suave da fricção da pedra com a água fria, o silêncio, um fundo que não chega nunca. Escrever, as vezes, é como ser uma espécie de torneira quebrada, a gotejar, o dia inteiro, pingo a pingo, compondo uma sinfonia monótona das horas mais frias. Escrever, as vezes, é não dizer nada, ainda que se vá juntando palavras, como num jogo de lego, uma construção improvável, de um edifício todo feito de sílabas ocas de sentido.

Dezesseis linhas, seu telefone tocando, é o editor. Você sai dos escombros de si mesma, e com voz aparentemente firme promete: Já já mando a coluna.

E regressa ao brinquedo de lego, tentando a golpes de martelo, desmantelar a inércia e fazer com seus restos um fingimento de escrita, uma invenção de crônica, uma frase qualquer que se salve no meio dessa algaravia.

Seu tempo acabou. Em desespero, você pede ao word que conte as palavras, quase esmurra o teclado sem fio, Não pode ser. Mil setecentos e trinta caracteres, uma ninharia para quem já atirou pedras ao lago, espreitou um poço sem fundo, vasculhou as horas, à cata de um enredo, uma saída, um arranjo aceitável, um protocolo de salvação.

Parabéns. Seu tempo acabou. Você está no topo do desfiladeiro. Invente uma frase comprida, como uma corda grande, segure-se nela até o fim. As frases compridas acabaram, ou são como as velhas frutas de final de feira. Seu tempo acabou, o trem está chegando, e você terá de desocupar os trilhos, sob pena de virar omelete de nada. Omelete de nada. Três palavras insípidas para uma crônica que ninguémquererá ler.

Desocupe os trilhos, prepare o próximo envio do correio eletrônico, sem esquecer de vasculhar, por entre as peças de lego que você empilhou, o título dessa sua escrita feita de cascas e ossos das horas de inércia.

 

(Este post foi publicado hje em minha coluna do Jornal A União).

Balanço Geral: Cartografia de um País Desmontado

Balanço Geral: Cartografia de um País Desmontado

 

Chega o fim de ano e a gente se pega tentando fazer balanços, olhar para trás, prever o que será amanhã, como estaremos semanas após havermos espocado a champanhe do ano novo. Champanhe? Eu não beberei nenhuma taça. Literalmente, sou uma pessoa que dói, todos os dias, desde que começou esse desmantelamento das estruturas políticas, econômicas, culturais e sociais do país.

Sou uma pessoa que dói, e por isso talvez minha síntese da história brasileira dos últimos três anos seja assim meio apressada, com lacunas imensas e provavelmente algumas palavras fora do lugar, outras desafinadas, como numa espécie de ópera em que não há sincronia, nem regência.

A verdade é que estamos habitando um país completamente desmontado, e a fase do agora, é talvez uma das mais impróprias às festividades. Vivemos a fase do império da máquina, do tratoramento, ocupado em aplainar a terra, desmantelar restos, implodir onde for preciso, para que se reinstaure a lógica do mínimo, na política, na cultura, na economia estatal, nas relações de trabalho.

Mas esse processo de desmantelamento não começou agora, nem se pode dizer que houve dias de calmaria. Desde 2014, apressou-se o tom da trilha sonora desse imenso trhiller, acelerou-se as cenas principais, tudo a jato, para que se possa recomeçar, num tempo estranhamente parecido com aquele do passado, em que a miséria, as desigualdades, a riqueza e a pobreza, eram coisas naturais, dadas por Deus.

Tampouco pode se dizer que a imensa tempestade não fez suas vítimas. É clara a morte da política. E aqueles políticos que ainda seguram, por caridade do capital, as chaves dos palácios e das malas, emprestam suas últimas energias deletérias para a limpeza, o aplainamento, o desmantelamento da antiga política, da política necessária, daquela que tentava uma síntese desenvolvimentista na qual capital e trabalho pudessem dialogar, naquela em que crescimento econômico, social e político não fossem apenas lendas retóricas, sem qualquer enxerto de realidade.

A morte das lendas. Sim, lendas caíram por terra com a força de um tsunami nesses dois últimos anos. Os mesmos braços políticos que se emprestaram com vigor e sanha falastrona ao esforço de derrocada do Brasil, eles mesmos viram ruir sua ética, e sua moral falaciosas, sob os carvões em brasa das delações e das suas provas explícitas.

A mídia limpa, vigilante da decência e da ordem, respirou também o hálito da sua própria carniça propineira.

A terceira morte que salta aos olhos, a terceira morte mais desastrosa é a da perda de autonomia e de poder de compra dos mais pobres, e com ela, o retorno da caridade de ocasião, das campanhas contra a fome, dos pedidos do Pão de Açúcar, para que ajudemos a quem não pode mais comprar. O acelerado desastre brasileiro implodirá o ano novo e fincará de vez, as últimas estacas de desesperança num país desmantelado.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna impressa do Jornla A União)

Luiz Carlos Cancellier de Olivo: Sob o Reinado da Injustiça

Era uma vez um mundo governado pela justiça. Sentada à sombra de uma árvore frondosa, a justiça disciplinava as leis, julgava os delitos grandes e pequenos, formulava sentenças perfeitas e corretas, mediante testemunhos e provas, refletia e sopesava em sua balança, a validade dos indícios, recusava as maledicências e os mexericos, nunca se permitia uma conclusão apressada, ou um veredicto pouco convincente.

Nesse mundo regido pela justiça, pouca ou nenhuma importância era dada ao estardalhaço, a fama advinda de algum caso em que o julgado era celebridade, tanto assim que a justiça dedicava preocupação e interesse em igual proporção, desde ao caso mais simples, ao mais rumoroso.

Constituía-se espetáculo de rara beleza e de profundo aprendizado, o momento em que a justiça tinha de aplicar a pena. A sua dosimetria nunca ultrapassava os limites do razoável, e, com sua mão hábil em medir proporções, com a serenidade e a brandura do seu espírito, ela infundia ao mesmo tempo nessa dosimetria, medidas exatas de efeito punitivo, combinadas com medidas de efeito ressocializador e de crescimento e recuperação das condições de humanidade.

É assim que naquele mundo, sabia-se, como líquido e certo, por anos e anos de um firme reinado, que a justiça sempre estaria ali, acima de tudo e de todos, garantindo a lei, preservando o bem-viver, mediando os conflitos, julgando com determinação, coragem e pertinência, todos os pequenos dilemas daquele mundo.

Naquele mundo em que a mão firme da justiça repousava tranquila sobre as folhas da lei, palavras como ódio, intolerância, desrespeito, sempre que ameaçavam ganhar corpo em algum comportamento, eram enxotadas como se fossem moscas indesejadas. Naquele mundo, os processos tinham começo, meio e fim. Tinham arrazoados fortes, e a justiça fazia questão de somente dar seu veredicto final, tendo diante de si, todas as provas perfiladas.

Naquele mundo, por confiarem cegamente na justiça, os réus muitas vezes antecipavam-se e confessavam seus crimes.  Pediam perdão, determinando eles mesmos, em sintonia com o olhar firme da justiça, as medidas da sua punição.

Mas eis que um dia, sorrateiramente, a injustiça, irmã gêmea da justiça que vivia no estrangeiro chegou com malas e bagagens, e armou seu quartel naquele reino tranquilo. Ardilosa, aproximou-se da justiça e ofereceu-lhe ajuda nos processos. A injustiça sabia manejar as palavras, e, com mão ligeira, foi disseminando no trabalho da justiça, pequenas doses de intolerância, pequenos desvios que permitiam convicções em vez de provas, e sobretudo, sob a pecha de dar transparência aos processos, obrigou a justiça a aliar-se à mídia, que com estardalhaço e espetacularização, passou a cobrir todos os processos daquele mundo.

Célere, a injustiça usurpou o trono da irmã e passou a governar. Agora, em doses maciças, impingia ódio, medo, desconfiança e intolerância entre os súditos. Preocupada, a justiça tentava dialogar com a irmã, mas, autoritária, batendo na sua nova e bela mesa com mão firme, apontava a pilha dos processos resolvidos a partir dos indícios e das convicções e retomava com novo vigor, a sanha da perseguição e da maledicência, tudo com apoio da grande mídia.

Horrorizada, um dia a justiça viu um dos seus súditos mais corretos cair nas mãos da injustiça e ser julgado pela sua nova lei de exceção. Com pavor, viu aquele home simples e nobre apoiar-se na balaustrada do último andar do belo shopping da cidade. Tapou olhos e ouvidos, mas a morte do homem furou-lhe os tímpanos e esvaiu de si, toda a vida que possuía.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União)

 

Beto, Valéria e um Punhado de Reflexões

“Quem Manda no Mundo”? Essa foi uma das dicas de leitura que Frei Beto deixou para nós, por ocasião da quinta edição do ciclo de debates Pense, realizado na última quarta-feira para uma plateia formidável, em qualidade e quantidade, que lotou a sala maestro José Siqueira para ouví-lo falar sobre cidadania, democracia, luta por um projeto para o Brasil.

Foi uma noite para se guardar na memória, pela maestria e lucidez da visão de Frei Beto sobre conjuntura política, formaçãoe valorização dos movimentos populares, governos Lula e Dilma,e mais, muito mais.

O começo de tudo, naquela noite, foi de uma força e de uma beleza   que dificilmente saberei descrever em palavras. Valéria Resende, a mediadora do debate, com sua voz grave e melodiosa, desmontou os protocolos para nos falar de Beto, não o
Frei, para nos falar de Beto, o seu irmão, que   desde a adolescência, postou-se no centro das lutas por uma igreja viva e solidária, e depois, mergulhou na luta política e na formação das bases populares em diversos países do mundo, a luta contra a desigualdade e a pobreza.

Valéria Resende, que carrega na bagagem três Jabutis e um prêmio “Casa de Las Américas”, por sua literatura de peso, ofereceu-nos, pois, aquela lição de simplicidade e afeto, desenhando para nós, a figura de Frei Beto quando jovem, os sonhos de ser escritor, os quatro anos em que foi preso pela ditadura, os papéis que pediu que ela guardasse, para que não se perdessem memórias dos tempos de prisão e de exílio.

Ali, na sala Maestro José Siqueira lotada por uma plateia atenta e e silenciosa, Valéria foi desenhando em letras grandes, uma espécie de longa carta tecida pelo afeto, a amizade, a solidariedade, o respeito e a admiração que marcaram a trajetória dos dois amigos, e que a escritora nos ofertou generosamente como um presente para a memória.

Frei Beto compreende o mundo por uma baliza ao mesmo tempo muito simples, mas exata. A valorização do humano e das suas culturas, a luta permanente contra a desigualdade, a esperança e o otimismo como combustíveis que devem nos alimentar nesses dias difíceis vividos pelo país.

Com uma voz forte e vibrante de entusiasmo, ele nos deu lições da história dos últimos cinquenta anos no Brasil, desenhando os cinco ciclos mais importantes do período: Os anos anteriores à ditadura, quando nascia na igreja católica, o importante movimento das comunidades eclesiais de base; o ciclo da ditadura, a redemocratização, os anos oitenta e a eclosão dos movimentos sociais de massa; as eras Lula e Dilma, os erros e as conquistas. O tempo em que vivemos, onde tudo, primeiramente, começa com o repúdio a esse governo ilegítimo.

Frei Beto disse o que já sabemos, mas, postulado pela sua voz, tem a força da irresignação: No mundo, apenas oito famílias concentram  mais da metade da riqueza produzida. O capitalismo não é um sistema humanizado. O consumo exacerbado, individual, a exploração descontrolada das matérias primas, são dilemas e desafios contra os quais devemos lutar.

Deixou-nos dicas de leitura, como a recomendação para que buscássemos as encíclicas escritas pelo Papa Francisco. E pediu que lêssemos o livro de Noam Chomsky, “Quem manda no Mundo”?

 

(Este post foi publicado na última sexta-feira, em minha coluna impressa do Jornal A União)

“Com o Supremo, com Tudo”: Um País que Desistiu de si Mesmo

O país afundou. No começo, adernava de forma lenta, gradual. A partir de 2016, com o impeachment da presidenta Dilma, ganhou agilidade na sua derrocada e nos últimos dias, atinge velocidade de cruzeiro.

“Com o Supremo”, com tudo”, para não nos esquecermos da frase dita por Jucá, numa hora de necessidade extrema, quando era preciso estancar as investigações e retomar os freios da velha política do loteamento do estado em favor de interesses políticos e econômicos vis.

O país acabou, ou por outra, fechou para balanço. Retornaremos à condição de colônia, com nossos melhores serviços essenciais como água, energia, préssal, minérios e derivados, além do nosso espaço aéreo, explorados e comercializados pelo capital estrangeiro.

O país lembra uma velha e enorme casa, toda desmontada, como se houvesse em curso uma grande mudança. E há. O Brasil entrega suas riquezas, e parte de malas vazias, para um lugar de insignificância,  lembrando o drama da estória de fadas, no qual a linda princesa passa a viver no borralho.

Os números da nossa derrocada são alarmantes. Alguns deles foram apresentados com maestria e brilhantismo pela ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Helena Nader, na mais recente edição do Pense, um ciclo de debates promovido pelo governo do estado, para uma plateia pequena mas atenta, que se reuniu para ouví-la, na noite da última quarta-feira, 22 de agosto, na sala Maestro José Siqueira, do Espaço Cultural.

Helena Nader fez um duro e agudo diagnóstico acerca da educação e da ciência brasileiras, demonstrando que o país perdeu o orgulho, a autoestima e ocupa hoje uma das últimas posições no que toca a investimentos em educação fundamental, média e superior, em desenvolvimento científico e tecnológico, no hanking dos 150países pesquisados.

Com voz firme, e as vezes brincando com a rebeldia do progetor onde exibia suas transparências,  ela narrou para nós sobre a ciência brasileira e os seus últimos suspiros, denunciou a insanidade do projeto “escola sem partido”, exortou que conheçamos a Pec 85 e assim saibamos da sua capacidade de implodir um país que considera hoje, através do governo Temer, que recursos para a educação são tidos como gastos, e não mais como investimentos, no sentido lato do termo.

Saí da palestra de Helena Nader com uma certeza: O país desistiu de si mesmo, do seu orgulho, da sua autoestima. Inventamos técnicas de exploração em grandes profundidades e encontramos o pré-sal. Inventamos, a través da Weg, um ímã de espessura finíssima e grande potência. Construímos aviões e alavancamos a indústria naval brasileira. Tudo isso está indo para o brejo, e colocamos agora em saldão de balanço, a venda da Eletrobrás.

O país acabou. Os artífices da política de desmonte, leia-se, PSDB, PMDB e mídia comercial privada, acertam os últimos protocolos, selam envelopes e malas diretas e inventam frases de retórica para as manchetes do Jornal Nacional de um país editado.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna impressa do Jornal A União)

Quando Becas e Protocolos Derrubam Títulos e Manchetes

Pronto, agora é oficial. Na tarde da última quarta-feira, o gabinete da reitoria da UFPB emitiu nota pública, onde reconhece que o protocolo e as becas derrubaram uma das manchetes que vinha povoando os portais de notícia da Paraíba desde o início do mês, onde se dava conta de que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva,  por ocasião da sua passagem pela Paraíba, no próximo dia 26 de agosto, receberia o título de Doutor Honoris Causa, aprovado pelo Conselho Superior de Ensino e Pesquisa daquela instituição, desde 2011.

A nota da reitoria rechaça argumentos que circulam nas redes sociais, de que a instituição havia recuado da outorga do título, para não fomentar manifestações político-partidárias. Deixa implícito ainda, um jargão muito conhecido da sociedade nos últimos tempos, “a culpa é do PT”. Segundo a nota, o Partido dos Trabalhadores pretendia que o título fosse concedido em local fora da UFPB. Os protocolos dauniversidade, para cerimônia desta ordem, a localização de todos os conselheiros, e a mobilização de becas para todos eles, sãoprovidências, segundo a nota, que exigem tempo hábil, do qual a instituição não dispõe.

Assim, as becas e os protocolos derrubaram a concessão do título, que certamente prosseguirá deitado eternamente em berço esplêndido, nas gavetas do gabinete, na sua soneca homérica que já dura seis anos, e que poderá prolongar-se ad eternum em perpétua quietude junto com as traças.

O ex-presidente Lula vive aliás, uma difícil “sina”. Para a sua condenação, provas não são necessárias. Bastam os indícios, o domínio do fato, a aplicação eficiente do uso do lawfare. Lula tem sido a chave mestra que abre as vantagens de delações premiadas. Lula tem sido o conteúdo mais importante de reportagens e manchetes condenatórias país a fora.

Exatamente em agosto do ano passado, circulou na coluna do jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo, a informação de que a verdadeira dona do triplex do Guarujá é a publicitária Nelci Warken, da empresa Mossack Fonseca.

A imprensa comercial não diz nada sobre isso. O que importa é que Lula seja condenado pela posse de um imóvel que comprovadamente não é seu.

A sina imposta à Lula é a da condenação, a do impedimento, que não venha ele novamente armar-se em candidato. Reconhecimento pelo que o ex-presidente fez pelo país, na conjuntura atual, não será possível.

Reconhecimento pelo que o ex-presidente fez pela educação superior brasileira, e mais particularmente pela educação da Paraíba, por agora, e por muito tempo mais, não será possível, decretam becas e protocolos.

As becas venceram. Festa para uns, gosto amargo na boca para outros. A universidade, com suas árvores, suas obras inacabadas, pede silêncio para o sono eterno do título de Doutor Honoris Causa do ex-presidente Lula.

 

(Esta coluna será publicada amanhã, em minha coluna impressa do jornal A União).