A Tempestade dos Dias

Não sei se você também escuta a tempestade. Ela é persistente, absoluta, espécie de música frenética de martelos batendo seus pingos de ferro na vida da gente. Uma tempestade sem tréguas, renovando-se em força e vigor desde as primeiras horas desses dias de julho, até as madrugadas frias, devassadas com o barulho do que se planeja, do que se vota, do que se prepara para um país que  esmagado por forças centrípetas, recua para trás, para longe dos marcos da democracia e da justiça social.

É dramática e titânica, a luta dos partidos de oposição, no sentido de atalhar a chuva de medidas que destruirão a previdência social, sob a pecha de que se estará acabando com privilégios, de que, com a reforma, se resgatará o pleno emprego, se estará abrindo as portas do país para os investimentos estrangeiros, e, mentira das mentiras, se garantirá uma velhice tranquila para as próximas gerações.

Bátegas grossas de conteúdos divergentes trafegam pelas ondas da tv e das redes sociais. Os partidos da situação, inflamados e quase às lágrimas, falam em “amor pela pátria”, compromisso com os pobres, ocultando os bilhões de reais travestidos em emendas parlamentares, como garantia de que o voto de cada um será a favor da reforma.

A oposição, em discursos não menos inflamados, aponta as cifras da tragédia. O regime da previdência geral arcará com oitenta por cento dos recursos que o governo espera economizar nos próximos anos. Como falar de privilégios, quando as aposentadorias do regime geral da previdência alcançam hoje o teto de 5.800 reais?

Más notícias ainda virão. Passada a fase de votação na câmara e no senado, certamente se voltará a discutir o malfadado regime de capitalização, que, se vier a ser aprovado, destruirá o regime de colaboração tripartite que sempre apoiou a previdência, cuja manutenção está solidarizada entre o estado, o empresariado e os trabalhadores.

Mas a tempestade dos dias não se abate somente sobre os trabalhadores, dentro do Congresso Nacional. Há uma chuva malsã de acontecimentos muito ruins. No poder judiciário, consolida-se a insólita tese de que não há mais um regime de justiça no Brasil. O tecido social, completamente esgarçado, esbate-se entre ondas de violência e desespero.

Aumento dos crimes de feminicídio; mortes estúpidas em salas de cinema, supermercados, favelas, muitas mortes estúpidas nas favelas, nas ruas de São Paulo, a pobreza morrendo de frio e inanição.

O país sendo dissolvido no torvelinho dessa tempestade dos dias. E o ruído solerte do capital, aniquilando, comprando, forjando o marco cruel para a submissão e o empobrecimento absoluto.

É uma sinfonia terrível esta, que agora ganha tons de agonia e de tristeza. O último golpe, a última bátega, atingiu o dono da ironia fina, inteligente, do combate agressivo em defesa da justiça social e do jornalismo focado na autonomia e na propagação da verdade. O seu coração valente não resistiu às pressões do golpismo. Adeus Paulo enrique Amorim, que nos deixa órfãos, a escutar sozinhos esse fragor de destruição.

Não sei se você escuta a tempestade. Veja como ela estruge, lembrando a tropelia macabra das ratazanas de terno…

 

 

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Os Crimes do Brasil

Não, os verdadeiros crimes do Brasil não são estes dos quais o ex-presidente Lula é acusado e é mantido preso por mais de quatrocentos dias na polícia federal de Curitiba.

Os verdadeiros crimes do Brasil são de toda ordem, e se sucedem numa escalada assustadora, a maior parte deles sob o manto do silêncio da mídia tradicional, do parlamento, do poder judiciário.

Os verdadeiros crimes do Brasil ocorrem as claras, enquanto a suprema corte destila sua retórica inócua e antiquada, para justificar sua incapacidade de fazer justiça.

Os verdadeiros crimes do Brasil buscam o aniquilamento do país como nação. Chegam como disparos de fuzis, e vão abrindo feridas incuráveis na vida brasileira.

Quero aqui falar de alguns desses crimes, perpetrados sem qualquer barreira impeditiva, arranjados com selos, carimbos e protocolos do governo central.

A entrega da base de Alcântara aos Estados Unidos. Eis aqui um crime grave e verdadeiro, uma espécie de escravização do Brasil à tecnologia de ponta americana, um golpe fundo na soberania nacional, sob o manto do silencio da lei.

A drástica redução nos orçamentos da educação superior, da ciência e tecnologia. Este crime comunica-se com o primeiro. Interna e externamente, o país precisa estar submetido à nação de Donald Trump.

Outros crimes eclodem em muitas outras searas. Os oitenta tiros no músico carioca; as centenas de mortes de crianças e adolescentes nas favelas brasileiras; a perseguição às populações indígenas e aos movimentos sem-terra e sem teto.

Há crimes verdadeiros consagrados no próprio âmago do poder executivo. Os trinta e nove quilos de cocaína num dos aviões da comitiva presidencial é um crime verdadeiro.

As descobertas do Coaf envolvendo um dos filhos do presidente, eis um crime verdadeiro, que sequer mobiliza trabalho jornalístico de peso na mídia tradicional. O arsenal com cerca de 117 armas descoberto numa das casas do condomínio do próprio presidente, e, ao encerrar-se desta noite de quarta-feira, o estampido de um outro crime: Arsenal de mais de mil armas apreendido na Argentina, com destino final, o país de Bolsonaro.

O verdadeiro crime brasileiro, é o desmonte do país, que se faz a mãos largas, com brutalidade e ignorância, um país grande, sendo atirado ao despenhadeiro.

A sociedade, parte distraída, parte angustiada, assiste à retórica do Supremo em um jogo de cartas marcadas. Sítio de Atibaia, pedalinhos e triplex do Guarujá. A parcialidade, como um longo lençol de ferro, recobre a longa noite do ex-presidente Lula. Os verdadeiros crimes prosseguem, com uma sanha avassaladora, sob o manto da covardia e da indiferença dos poderes do país.

Escute a terra estalando. É o repicar de mais um crime verdadeiro, com centenas de agrotóxicos sendo liberados direto na veia dos brasileiros.

Escute essa dura sonoplastia de guerra. Escute o país arrojando-se para o abismo, com tantas mãos sujas de sangue e de ódio. É madrugada, e quantos de nós não conseguem conciliar o sono, à escuta dessa sinfonia sórdida…

Todas as Cronicas Deviam ser Bonitas

As vezes, não há como escrever. As mãos travam, as palavras como que se transformam num borrão, o pensamento divaga, as ideias como que se eclipsam, no fundo de um buraco negro, irremediavelmente perdidas.

Sentada diante do computador, com a responsabilidade de lhe dizer algo plausível como uma espada de Dâmocles sobre minha cabeça, tento arranjar as palavras em um conjunto aceitável. Não há mais papel para amarrotar, não há mais o velho caixão de lixo da redação de O Norte, abarrotado dos restos das frases mal sucedidas.

Todas as cronicas deviam ser bonitas. Todas elas deviam narrar o belo, o suave, a vida cotidiana salpicada de alegrias. O domingo, a tarde, o passeio de carro, o chá de bebê.

O domingo, a tarde, o passeio de carro, o chá de bebê.

Essas palavras tolas estão todas sujas de sangue. O sangue que respingou na cara da mulher, interrompendo seu sorriso de satisfação. O sangue que travou a fala dos adultos, enquanto a criança pequena segurava entre os dedos suados, o presente embrulhado em papel colorido.

O domingo, a tarde, o carro crivado de balas, o grito desabrido da mulher, o papel colorido como uma denúncia viva de que todas as cronicas são mal sucedidas agora.

Como escrever? Como aguentar esse desarranjo de palavras? Vá pedir explicações à morte, me diz uma ideia tola,sem nexo nem propósito. A morte? A morte não pode mais abrigar culpas. A morte, aquela senhora velha, seca, alta e determinada,essa senhora morte não passa de uma quimera.

A morte de verdade é uma grande máquina de extermínio. Uma máquina poderosa, ocupada com sua limpa, nos socavões, nos morros, nas periferias, nas esquinas de bares sórdidos, nos assentamentos, nas rodovias,nos povoados distantes onde vivem os indígenas.

As vezes a morte é lacõnica, outras porém, desaba a gritar seus estampidos. Oitenta. Oitenta estampidos de fuzil.

Oitenta estampidos de fuzil, e somente depois é que a morte perguntou-se, entre o riso demente   e o barulho de represar das armas: Por que tantos tiros? Precisaríamos de tudo isso?

A cronica de Evaldo era bonita. Evaldo trabalhava duro, e depois, tocava o seu cavaquinho junto com os amigos. No trabalho ele era o segurança. Na hora da música Evaldo virava Manduca.

Na cronica de Evaldo, o domingo era da família. Do filho pequeno. Da felicidade simples de quem se sente bem com aquilo que tem.

Oitenta estampidos, oitenta palavras de chumbo, eis no que se transformou a cronica de Evaldo.A beleza do domingo fuzilada, sem dó, sem piedade, um pelotão do exército brasileiro destilando seu ódio contra um homem negro e sua família. É o que há para hoje, queridos leitores. Uma cronica suja de sangue de um inocente.

 

(Este post foi publicado ontem em minha coluna do Jornal A União(

Até a Morte tem Medo

 

Eu queria perguntar por Marielle, queria pensar sobre suas últimas palavras, no Buraco do Lume, perguntar por sua sensação de dever cumprido, sua urgência em saber que o tanto por fazer estava mesmo ali, na sua cidade, no seu mandato.

Eu queria perguntar quais teriam sido suas últimas palavras, Prosaicas? Alegres? Preocupadas? Eu queria perguntar, no corpo todo dessa crônica, quem mandou matar Marielle? Quem pagou pela submetralhadora, pela locação do carro, pela ousadia e frieza   do matador, o braço todo tatuado, todo empenhado em atirar, atirar, enquanto a gosma do seu ódio empestava sua própria bílis?

Eu queria perguntar por esse ano todo sem Marielle, mas agora não posso. Há cadáveres esperando no pátio da escola, na geladeira do IML, nos caixões, velados por suas famílias.

Eu queria cantar essa dor coletiva por Marielle, mas agora uma dor nova se apossa de mim, com força de saibro de machado, com virulência de arma de fogo, destroçando artérias, músculos, restos de merenda, planos, juventude, muita juventude.

Queria me juntar ao festival das mulheres, incisivo, jogral dolorido, mas não posso, porque até a morte atalha essa minha vontade, até a morte recolhe seus despojos, com um nó na boca do estômago, a morte, estupefata, fazendo a colheita com uma espécie de tremor nas mãos, a morte, esta senhora incansável, até ela está triste.

Eu queria falar da luta incansável de Marielle, pelas comunidades pobres, pelo empoderamento das mulheres negras, pela defesa intransigente da democracia, mas agora deixo que o pranto indignado distorça frases, desarrume parágrafos, enquanto as vozes cínicas dos gestores do estado contam os mortos e inventam lágrimas para a televisão.

Mataremos uns trinta mil, prometeram os que agora estão no poder. Agora assistem ao derrame de cadáveres, nas tempestades de verão, na sanha virulenta dos atiradores, nos confrontos com a polícia, nas casas de família, onde as cifras de feminicídio engordam assustadoramente.

Queria me juntar às mulheres, e dizer a Marielle que aquela noite terrível não foi em vão. Queria lhe contar que nesse ano todo, nos investimos de coragem, lutamos, e o país dos seus sonhos começou a ser reerguido.

Não posso dizer nada disso. Não posso lhe contar de um país ferido de morte, fedendo a pólvora, os dutos do ódio alimentados sem trégua por todos os dias, os corpos soterrados na lama das mãos impunes da ganância capitalista, os corpos no meio da rua, cadáveres no pátio da escola.

Não posso contar a |Marielle que até a morte, esta senhora circunspecta, empenhada em sua colheita macabra, até a morte se acha assustada.

Até a morte pede trégua, com mãos trêmulas e um quase pranto nos olhos de serpente.

Mulheres que Lutam com seus Corpos

Será uma manifestação de força. Uma manifestação de coragem. Uma manifestação afirmativa. Uma manifestação impressa nas almas, nos corpos, nas vozes, nos gestos delas, as mulheres da Paraíba.

Haverá canto, dança e poesia. E já defronte do Teatro Santa Roza, a partir das 14 horas, haverá a presença da alegria, da ternura, do segurar das mãos, tudo regado a um misto de apreensão, de tristeza, tudo regado à uma aura de “sororidade”, sentimento que vem presidindo a luta das mulheres brasileiras e paraibanas.

Um misto de tristeza sim. De indignação. As ruas do centro estarão cheias de mulheres, mas cada uma lembrará o vazio de uma mulher morta, em casa, no trabalho, na rua. Cada uma terá em si mesma, o vazio de uma mulher anulada, encerrada no medo, guardada entre quatro paredes, sob o olhar vigilante da opressão.

Ecoarão seu grito de guerra, repartindo as sílabas por entre o barulho da cidade: “Mulheres vivas, livres e por direitos”!

Mulheres vivas, cada palavra batendo com vigor nos muros da cidade, vozes suaves, vozes fortes, vozes de adolescentes e de senhoras, ecoando esse coro pungente, urgente, premente.

Caminharão. Passos decididos, levando seu grito de guerra até à Praça dos três Poderes, seguirão   para a Lagoa do Parque Solon de Lucena, os rostos e corpos pintados, faixas e cartazes nas mãos, a urgência de dizer, com o corpo inteiro, da necessidade de que se atalhe a violência, a injustiça, a opressão, o assédio, a brutal intolerância, de companheiros, de familiares, de desconhecidos a golpeá-las com o aço da sua crueldade.

Muitas mulheres, livres e por direitos, mulheres em carne viva, refazendo o caminho, reorganizando a trilha, o ciclo, olhos marejados, olhos brilhando de tenacidade e determinação.

|           Mulheres vivas, arrancando da força da sua luta, a presença de tantas outras guerreiras, arrancadas brutalmente do centro da batalha. Margarida Maria alves, Violeta Formiga, Maria da Penha, esta outra Maria da Penha, martirizada, mas ainda lutando.

Mulheres em carne viva, sem um momento sequer para descansar a cabeça. E convocam quem já não está aqui, mas parece tão viva, entre as árvores, os carros, as botas dos militares, os ternos engomados dos parlamentares. Marielle, presente! Marielle, presente! Marielle, presente!

Os dias caindo na bacia do tempo, mais de trezentos dias, quem matou Marielle? O silêncio sombrio dos cadeados, das metralhadoras escondidas, o cinismo no riso da autoridade, o processo engordando suas folhas de inutilidade.

Voltam para casa, lavam o suor do rosto, mulheres vivas, livres e por direitos, e retomarão de novo as ruas, vão escavar com seus gritos, a indiferença e a covardia dos criminosos. Quem matou Marielle? Ficarão roucas, mas não descansarão. Quem matou Marielle? Quem surrupia, todos os dias, com um ódio nojento, a vida das mulheres?

A Língua do Desespero

Com ela não se pode conjugar verbos, adjetivos carinhosos, desaforos gritados. A língua do desespero é universal, mas com ela só se pode engendrar um longo grito sufocado, a reboar intermitentemente, para dentro, para dentro.

As montanhas, os cães farejadores, os pássaros, as vacas, as galinhas, a criança pequena, a mulher, o trabalhador, todos a emitir o grande urro sufocado, para dentro, para dentro.

A língua do desespero, tingida de lama e de sangue, sufocada por pedras, madeira, brinquedos esfolados, geladeiras, colchões, a língua do desespero, tingida de surpresa macabra, inventa um modo de chorar, para dentro, para dentro.

Um brado de células, de pernas, de pedras, de flores, de peixes, de pássaros, de dedos, de montanhas ocas dos seus recheios, um brado de corpo inteiro, amarfanhado, imprensado, soterrado, virado e desvirado, arrancado aos bocados da sua estrutura antiga, espalhado, soterrado, urrando para dentro.

A língua do desespero não cabe nos dicionários, nem nos exames de língua estrangeira. Universal, a língua do desespero só se aprende na hora, no amálgama indistinto de homens, árvores, pássaros, peixes, rios, flores, frutos, insetos, ecoando a palavra única do espanto tingido de dor, da falta de ar, da surpresa, da incompreensão, DO ESTUPRO, da morte, palavra última ecoando para dentro.

A língua do desespero solta sua palavra definitiva, enquanto a lama rosna, invade, preenche, arranca, sufoca, afana o hálito bom da vaca de leite, esmaga o roseiral, tritura a couve, a alface, afunda o teto da casa, esmaga suas portas, desarruma irremediavelmente os quartos de dormir.

E logo que encerra seu pequeno grande esforço de dizer, a língua do desespero entrega-se ao rosnar da lama, ao estrugir da sua sanha destruidora. E eis que o rio, pressentindo a catástrofe, ergue-se num modo único de bradar na língua do desespero, um único modo de mostrar-se, para depois ser lodo e peso pesado de rejeitos, líquido e viscoso cemitério de peixes.

Cansada de correr, pesada das suas mortes, a lama caminha devagar, alisando, enterrando, premindo, com calma e paciência, esse seu imenso sepulcro feito de silêncio.

Ávida por liberdade, a lama explora, abre, afunila, cresce, afana lugares ontem antes viviam raízes. A lama assombra o silêncio com seu borbulhar incessante.

E vem o tempo da faina, o tempo da fala, das escavadeiras, dos sonares, dos toros de madeira escavando, dos gritos e buzinas, das quedas por entre os socavões, do prazer da lama a sugar.

A faina dos longos protocolos, das promessas compridas, das lágrimas, abundantes, molhando a lama inclemente.

Acabou-se a avidez da procura. Cansada, finalmente a lama esmera-se em seu repouso de secar, aplainar, soterrar.

A lama descansa, com suas grossas estrias, feito riso macabro de barro, indiferente ao silêncio e ao sol do meio dia.

O Presente de Sérgio Moro

Em sua última entrevista fornecida ao Jornal das Dez da Globo News, o então ministro da Justiça Sérgio Moro, indagado por Merval Pereira sobre o processo e a prisão do ex-presidente Lula deu a seguinte resposta: “O ex-presidente Lula faz parte do meu passado. Não pertence mais nem ao meu presente nem ao meu futuro! A afirmação, feita com ligeireza, como aliás, as falas do ministro na maior parte daquela entrevista, demonstram bem a natureza do presente vivido agora por ele.

De fato, Sérgio Moro agora pode abdicar com tranquilidade da rigidez dos discursos jurídicos. Pode esquecer as recomendações de somente falar nos autos, pode até assumir momentos de brincadeiras e piadas, e, se for conveniente, pode até deixar de lado convicções e crenças, para corroborar medidas completamente diversas daquelas que teve de protocolar, quando no exercício da sua carreira de juiz, e sobretudo com respeito ao processo do ex-presidente Lula.

Indagado por exemplo, em outras ocasiões, a respeito das denúncias do COAF, envolvendo Fabrício Queiroz, amigo do presidente Jair Bolsonaro e funcionário do então deputado estadual do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, agora senador da República, Sérgio Moro falou com muita ligeireza e nenhum compromisso sobre movimentações suspeitas de mais de um milhão de reais nas contas do Queiroz, assim como de dinheiro do mesmo que foi parar na conta da primeira dama, Michele Bolsonaro.

Ao tempo em que escrevo a coluna. Jornais, tvs e portais de notícias exploram um novo desdobramento do caso Queiroz. O agora senador Flávio Bolsonaro pede ao Supremo que o processo seja suspenso no MP do Rio e seja encaminhado ao STF, por conta do foro privilegiado do Senador.

Em seu plantão, diligentemente, o ministro Fux encaminhou o caso ao Ministro Marco Aurélio de Melo, que logo que retorne do recesso, a partir de fevereiro, julgará do foro privilegiado e da continuidade do processo.

Fico aqui pensando no presente vivido pelo ex-juiz Sérgio Moro. Pensando no esforço que ele teve de empreender, no seu passado recente de juiz, para encarcerar e manter na prisão o ex-presidente Lula. Pensando nas páginas e páginas da sentença que teve de escrever, no apoio que angariou, tanto na segunda instância quanto no Supremo, para manter suas decisões.

No passado recente, e pode-se dizer, em carreira meteórica, o juiz ganhou fama, poder e tornou-se celebridade. No presente, Sérgio Moro recebeu um super ministério, concentrando justiça e segurança, apto a combater corrupção, crimes do colarinho branco, desvios de reservas, tráfico de drogas, e muito mais. Como agirá o ministro no caso Queiroz, que se abeira perigosamente do palácio do Planalto, do senado da República e da vida pessoal do presidente?

Em sua última entrevista fornecida ao Jornal das Dez da Globo News, o então ministro da Justiça Sérgio Moro, indagado por Merval Pereira sobre o processo e a prisão do ex-presidente Lula deu a seguinte resposta: “O ex-presidente Lula faz parte do meu passado. Não pertence mais nem ao meu presente nem ao meu futuro! A afirmação, feita com ligeireza, como aliás, as falas do ministro na maior parte daquela entrevista, demonstram bem a natureza do presente vivido agora por ele.

De fato, Sérgio Moro agora pode abdicar com tranquilidade da rigidez dos discursos jurídicos. Pode esquecer as recomendações de somente falar nos autos, pode até assumir momentos de brincadeiras e piadas, e, se for conveniente, pode até deixar de lado convicções e crenças, para corroborar medidas completamente diversas daquelas que teve de protocolar, quando no exercício da sua carreira de juiz, e sobretudo com respeito ao processo do ex-presidente Lula.

Indagado por exemplo, em outras ocasiões, a respeito das denúncias do COAF, envolvendo Fabrício Queiroz, amigo do presidente Jair Bolsonaro e funcionário do então deputado estadual do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, agora senador da República, Sérgio Moro falou com muita ligeireza e nenhum compromisso sobre movimentações suspeitas de mais de um milhão de reais nas contas do Queiroz, assim como de dinheiro do mesmo que foi parar na conta da primeira dama, Michele Bolsonaro.

Ao tempo em que escrevo a coluna. Jornais, tvs e portais de notícias exploram um novo desdobramento do caso Queiroz. O agora senador Flávio Bolsonaro pede ao Supremo que o processo seja suspenso no MP do Rio e seja encaminhado ao STF, por conta do foro privilegiado do Senador.

Em seu plantão, diligentemente, o ministro Fux encaminhou o caso ao Ministro Marco Aurélio de Melo, que logo que retorne do recesso, a partir de fevereiro, julgará do foro privilegiado e da continuidade do processo.

Fico aqui pensando no presente vivido pelo ex-juiz Sérgio Moro. Pensando no esforço que ele teve de empreender, no seu passado recente de juiz, para encarcerar e manter na prisão o ex-presidente Lula. Pensando nas páginas e páginas da sentença que teve de escrever, no apoio que angariou, tanto na segunda instância quanto no Supremo, para manter suas decisões.

No passado recente, e pode-se dizer, em carreira meteórica, o juiz ganhou fama, poder e tornou-se celebridade. No presente, Sérgio Moro recebeu um super ministério, concentrando justiça e segurança, apto a combater corrupção, crimes do colarinho branco, desvios de reservas, tráfico de drogas, e muito mais. Como agirá o ministro no caso Queiroz, que se abeira perigosamente do palácio do Planalto, do senado da República e da vida pessoal do presidente?

Uma Lenda para o Novo Mundo

Muitos de nós estamos perplexos, impressionados de como pudemos chegar até aqui, no mundo rosa/azul da ministra Damares, um mundo do ministro Vélez, inimigo contumaz do marxismo cultural, um mundo capitaneado pelo presidente Jair Bolsonaro, que incita seus apoiadores ao extermínio da bandeira vermelha, nem que para isso seja necessário manchar a camisa de sangue.

E de que maneira chegamos até aqui? Tenho certeza de que esse quixotesco passo se deu por conta de uma narrativa. Sim, porque para se erguer uma multidão, para se fazer com que essa multidão vibre numa mesma sinfonia, para que se possa fazer com que essa multidão ecoe o mesmo brado, há que se ter arranjado as sílabas de uma narrativa, há que se ter inculcado nas cabeças dessa multidão, a síntese principal desse arrazoado.

Os veios dessa narrativa são simples, e já foram assacados em outras épocas históricas, tanto aqui no Brasil como em outras partes do mundo. O arranjo envolve a construção de um inimigo, o engendramento da sua derrocada, a forja dos heróis que darão sua vida e seu sangue para o seu extermínio.

No Brasil, o inimigo a ser combatido são os governos do PT, e, na proa do seu legado, a pessoa do ex-presidente Lula. A narrativa de combate foi sendo gestada desde o princípio do primeiro mandato do ex-presidente em 2003, e foi crescendo, ganhando contornos importantes e lapidares, à força de uma conjunção que envolveu a grande mídia comercial, o parlamento e o poder judiciário.

O inimigo foi vestido com as cores da corrupção, e, nas ruas e praças do país, ganhou bonecos infláveis vestidos de presidiários, para gáudio e urras de multidões convocadas pela própria mídia em seus horários nobres. Em 2014, a narrativa ganhava um novo herói, saído das hostes da justiça, empunhando a lava jato como a grande usina capaz de triturar o que era conhecido como o “quadrilhão do PT”. O modus operandi deu certo.

Levou algum tempo até que chegássemos aqui. Os detentores da narrativa de combate organizaram-se, e, em 2016, depunham Dilma Rousseff do palácio do planalto. Abriam as porteiras para que se estabelecesse um novo governo interino, apto a combater a corrupção e erguer sua ponte para o futuro. Instalado o processo eleitoral, encarcerado o ex-presidente cujo capital político era uma ameaça concreta, limpou-se a pista para que a narrativa pudesse apresentar-se em toda a sua limpidez.

Cada uma das candidaturas buscou tirar proveito da narrativa. Mas nenhuma conseguiu empunhá-la com mais maestria do que a candidatura de Jair Bolsonaro.

Ele, esse cidadão ordinário, no dizer de Eliane Brum, foi capaz de tocar nas cordas mais íntimas da parcela conservadora de nossa sociedade. Ele conseguiu aglutinar em torno de si, as outras vozes que ecoavam esses ditames: combate ao inimigo, que ora chamam de PT, ora chamam de socialismo, ora chamam de ideologia.

Chegamos até aqui, mas há uma profunda sede de vingança dos detentores dessa narrativa nefasta. Chegamos até aqui, mas ainda poderemos afundar muito mais, num novo modo de combate que apenas está começando.

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa de hoje do Jornal #AUniao)

Ceia de Natal

 

Vivemos esses últimos dias feito sonâmbulos, arrancando sonhos às braçadas, do imenso caldeirão do consumo. Frenéticos, agarramos vestidos, sapatos, vinhos, maquiagens, longas argolas douradas e prateadas, celulares, muitos celulares, porta-retratos, velas perfumadas, um papai Noel esgoelado, à espera das pilhas, pacotes de viagens, pinheiros artificiais, grandes potes de sorvetes.

Somos um só e único bicho coleante, olhares esgazeados, risos descontrolados, mãos atarefadas, puxando, rasgando, segurando, apertando.

Siderados, contemplamos nossas mercadorias, enquanto os bips das máquinas registradoras e o ciciar plástico dos empacotadores abafam os guinchos do mundo.

Braços carregados de sacolas, seguramos com zelo os sonhos que pudemos arrancar do grande caldeirão do consumo. Outros são arrastados ciosamente pelos entregadores: móveis, carros, barcos, jatos novinhos deixados nos hangares feito pássaros inertes e brilhantes.

Compramos sonhos aos bocados, como se pudéssemos matar a sede, o vazio, o aperto no peito que nos tomam de assalto, enquanto o mundo real quebra os ossos da vida, esfarela possibilidades, cozinha suas litanias em fogo alto.

É assim todo fim de ano. Mergulhamos no imenso e viscoso mundo da publicidade, reféns das nossas antigas crenças, feito baratas tenazes, passeando na sopa fria da coalhada árabe. Imersos nesse mundo, com mãos ávidas, rompemos filas, ajuntamentos, para agarrarmos o que for possível. As canções, a profusão das luzes e enfeites, como que nos ajudam a vestir a fantasia dos frenéticos, dos sonhadores, enquanto que nosso peito rufa inutilmente seus vazios, sua espécie de fome, que nos encaminha de imediato ao mac donalds.

Poucas horas para a ceia, a missa do galo, mas nós continuamos nosso périplo, braços carregados de sonhos, as máquinas registradoras quase gritando para abafar a realidade que se prepara, a golpes de martelo, a carimbos ritmados, a tiros, gritos, papelotes e pedras.

– Feliz natal, dizemos com a boca cheia de peru, as mãos estendidas para a taça de vinho, olhos fitos no panetone trufado, à espera do primeiro corte.

– Feliz natal, dizemos todos com a boca cheia dos sonhos que pudemos arrancar do grande caldeirão do consumo, nossa pele vestida de sonhos, nossos pés trauteando a cantiga do sapato novo, nossos brincos grandes girando e brilhando debaixo das luzes da árvore de natal.

Batemos com os talheres nos pratos, cantamos ou falamos mais alto do que de costume, rasgamos papéis coloridos para esventrar os sonhos comprados no bazar.

Tudo para ocultar um mundo que brame e freme, um mundo que fere, corta, e cerze com o agulhão da maldade, as dores novas, por cima das dores velhas.

– Feliz natal, gritamos em coro, enquanto o mundo real estruge em gargalhada cínica, o grande ricto de maldade a selar os últimos atos, as últimas ordens, o pesado molho de chaves a trautear nas mãos infames, as últimas sílabas da sela fechada, o último gesto para o primeiro minuto da danação.

 

A Caligrafia do Desespero

 

Escrevo como quem salta obstáculos. Escrevo como quem olha para o chão, tentando escolher um lugar seguro onde pousar o pé, dar o próximo passo. Escrevo como quem busca respirar, algum naco de ar limpo. Escrevo como quem tenta lavar as mãos, retirando um pouco de água da superfície, vagarosamente, pequenos goles, não vá eu despertar a lama, os gravetos, o cheiro a esgotos.

Escrevo como se caminhasse sem sair do lugar, os pés batendo impunemente no mesmo pedaço de solo, as mãos a chacoalhar o vazio, a cabeça voltada para a frente, a fitar o nada.

Olhos arregalados, escrita de quem não vê a próxima letra, o intervalo entre as frases, a dicção de uma narrativa possível a imprimir-se em cada linha.

Escrita sem objetivo, sem plano, as palavras zunindo e se esboroando no silêncio, na certeza de que já não haverá leitores que compreendam essa determinação.

Habermas disse outro dia, com outras palavras, que a grande crise do mundo radica na falta de leitores. Eu digo mais. Digo que se ainda os houver, leitores estão sendo caçados, execrados, silenciados.

As pessoas já não leem. Elas apenas reagem aos gritos. Frases telegráficas de condenação, tiros nas vielas e nas vias principais, ordens de prisão, ordens curtas para que se arquivem processos, decretação de sigilo, páginas e páginas borradas, não escritas, cinismo e negação do que já foi, cinismo e negação do que será.

Escrevo como quem procura uma falha, uma zona de contato, uma chave que desperte os leitores, uma sílaba qualquer que os paralise, e que de pronto, ao modo de um guia, os reconduza ao início da página, mas logo abandono esse propósito vago, e me perco na falta de acento, nas fontes serifadas cujas hastes de coisa nenhuma espreitam como vermes, para essas frases sem sentido.

Escrevo como quem tenta apreender a caligrafia do desespero. Por isso repito a mesma linha inicial, mudando as palavras, mas o eco é o mesmo. Não há o que escrever, porque não haverá leitores.

As páginas do jornal giram pela casa ao sabor do vento, e são como que aplausos e bandeiras desfraldadas, a saudarem a inclemência e o cinismo.  E na tv, ancoras desfilam sorrisos e acenos para uma realidade sombria, destacando palavras como fome, sífilis, bala, bíblia, pedofilia, arquivar, arquivar, arquivar.

Afio a mesma pontada de desespero, para a escrita dessa linha inicial, em meio à balbúrdia desses dias, os relógios zerados, as cidades entulhadas de inércia e de contradições, os gritos e as buzinas dos batedores, abrindo portas, chamando os censores, os julgadores, batendo pregos e parafusos nas páginas da lei, organizando o mundo onde leitores já não serão necessários.

 

(Este post será publicado amanhã em minha coluna impressa do #JornalAUnião)