“Com o Supremo, com Tudo”: Um País que Desistiu de si Mesmo

O país afundou. No começo, adernava de forma lenta, gradual. A partir de 2016, com o impeachment da presidenta Dilma, ganhou agilidade na sua derrocada e nos últimos dias, atinge velocidade de cruzeiro.

“Com o Supremo”, com tudo”, para não nos esquecermos da frase dita por Jucá, numa hora de necessidade extrema, quando era preciso estancar as investigações e retomar os freios da velha política do loteamento do estado em favor de interesses políticos e econômicos vis.

O país acabou, ou por outra, fechou para balanço. Retornaremos à condição de colônia, com nossos melhores serviços essenciais como água, energia, préssal, minérios e derivados, além do nosso espaço aéreo, explorados e comercializados pelo capital estrangeiro.

O país lembra uma velha e enorme casa, toda desmontada, como se houvesse em curso uma grande mudança. E há. O Brasil entrega suas riquezas, e parte de malas vazias, para um lugar de insignificância,  lembrando o drama da estória de fadas, no qual a linda princesa passa a viver no borralho.

Os números da nossa derrocada são alarmantes. Alguns deles foram apresentados com maestria e brilhantismo pela ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Helena Nader, na mais recente edição do Pense, um ciclo de debates promovido pelo governo do estado, para uma plateia pequena mas atenta, que se reuniu para ouví-la, na noite da última quarta-feira, 22 de agosto, na sala Maestro José Siqueira, do Espaço Cultural.

Helena Nader fez um duro e agudo diagnóstico acerca da educação e da ciência brasileiras, demonstrando que o país perdeu o orgulho, a autoestima e ocupa hoje uma das últimas posições no que toca a investimentos em educação fundamental, média e superior, em desenvolvimento científico e tecnológico, no hanking dos 150países pesquisados.

Com voz firme, e as vezes brincando com a rebeldia do progetor onde exibia suas transparências,  ela narrou para nós sobre a ciência brasileira e os seus últimos suspiros, denunciou a insanidade do projeto “escola sem partido”, exortou que conheçamos a Pec 85 e assim saibamos da sua capacidade de implodir um país que considera hoje, através do governo Temer, que recursos para a educação são tidos como gastos, e não mais como investimentos, no sentido lato do termo.

Saí da palestra de Helena Nader com uma certeza: O país desistiu de si mesmo, do seu orgulho, da sua autoestima. Inventamos técnicas de exploração em grandes profundidades e encontramos o pré-sal. Inventamos, a través da Weg, um ímã de espessura finíssima e grande potência. Construímos aviões e alavancamos a indústria naval brasileira. Tudo isso está indo para o brejo, e colocamos agora em saldão de balanço, a venda da Eletrobrás.

O país acabou. Os artífices da política de desmonte, leia-se, PSDB, PMDB e mídia comercial privada, acertam os últimos protocolos, selam envelopes e malas diretas e inventam frases de retórica para as manchetes do Jornal Nacional de um país editado.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna impressa do Jornal A União)

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Quando Becas e Protocolos Derrubam Títulos e Manchetes

Pronto, agora é oficial. Na tarde da última quarta-feira, o gabinete da reitoria da UFPB emitiu nota pública, onde reconhece que o protocolo e as becas derrubaram uma das manchetes que vinha povoando os portais de notícia da Paraíba desde o início do mês, onde se dava conta de que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva,  por ocasião da sua passagem pela Paraíba, no próximo dia 26 de agosto, receberia o título de Doutor Honoris Causa, aprovado pelo Conselho Superior de Ensino e Pesquisa daquela instituição, desde 2011.

A nota da reitoria rechaça argumentos que circulam nas redes sociais, de que a instituição havia recuado da outorga do título, para não fomentar manifestações político-partidárias. Deixa implícito ainda, um jargão muito conhecido da sociedade nos últimos tempos, “a culpa é do PT”. Segundo a nota, o Partido dos Trabalhadores pretendia que o título fosse concedido em local fora da UFPB. Os protocolos dauniversidade, para cerimônia desta ordem, a localização de todos os conselheiros, e a mobilização de becas para todos eles, sãoprovidências, segundo a nota, que exigem tempo hábil, do qual a instituição não dispõe.

Assim, as becas e os protocolos derrubaram a concessão do título, que certamente prosseguirá deitado eternamente em berço esplêndido, nas gavetas do gabinete, na sua soneca homérica que já dura seis anos, e que poderá prolongar-se ad eternum em perpétua quietude junto com as traças.

O ex-presidente Lula vive aliás, uma difícil “sina”. Para a sua condenação, provas não são necessárias. Bastam os indícios, o domínio do fato, a aplicação eficiente do uso do lawfare. Lula tem sido a chave mestra que abre as vantagens de delações premiadas. Lula tem sido o conteúdo mais importante de reportagens e manchetes condenatórias país a fora.

Exatamente em agosto do ano passado, circulou na coluna do jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo, a informação de que a verdadeira dona do triplex do Guarujá é a publicitária Nelci Warken, da empresa Mossack Fonseca.

A imprensa comercial não diz nada sobre isso. O que importa é que Lula seja condenado pela posse de um imóvel que comprovadamente não é seu.

A sina imposta à Lula é a da condenação, a do impedimento, que não venha ele novamente armar-se em candidato. Reconhecimento pelo que o ex-presidente fez pelo país, na conjuntura atual, não será possível.

Reconhecimento pelo que o ex-presidente fez pela educação superior brasileira, e mais particularmente pela educação da Paraíba, por agora, e por muito tempo mais, não será possível, decretam becas e protocolos.

As becas venceram. Festa para uns, gosto amargo na boca para outros. A universidade, com suas árvores, suas obras inacabadas, pede silêncio para o sono eterno do título de Doutor Honoris Causa do ex-presidente Lula.

 

(Esta coluna será publicada amanhã, em minha coluna impressa do jornal A União).

O Reformador do Absurdo

O título vem entre aspas porque não é meu. Surgiu na esteira de um diálogo mantido com uma amiga inteligente, a propósito da última quarta-feira, quando a Câmara dos Deputados consolidou o processo de arquivamento da denúncia de corrupção passiva contra o presidente Temer.

De fato, temos falado muito de política nos últimos tempos, mas estamos todos perplexos, angustiados e mais ou menos paralisados pela situação extrema a que o país foi submetido. Conforme eu disse na coluna anterior, o “presidente decorativo” prosseguirá com sua astúcia, a desmontar o estado, a desintegrar políticas sociais, a entregar nossas reservas à voracidade do capital mundial.

Tudo agora tem certificação do parlamento. Ganhou nova chancela para prosseguir com seu modus operandi, fundado na força, na truculência e na retórica fraudulenta.

O presidente clama pela reforma da previdência em seus vídeos em redes sociais, mas, na calada da noite, assina decretos que isentam a bancada ruralista do pagamento de dívidas com essa mesma previdência que ele vai reformar.

Nos discursos, fala com entusiasmo de um país cuja economia está melhorando, o emprego voltou, a inflação caiu. No país real, vive-se deflação, por conta de uma economia completamente deprimida. A inflação rosna e brevemente arrombará os portões de saída, graças aos aumentos de gasolina e energia.

O reformador do absurdo tem uma biografia a zelar. Foi por ela que lutou dia e noite, a fim de garantir a vitória de quarta-feira.  Quer passar à história como o presidente que em menos tempo, colocou o país nos trilhos. Há que se inventar um termo para essa visão deformada. Há que se lhe entregar um espelho para que ele veja o que está fazendo com o país. No Jaburu, no Planalto, ou não há espelhos, ou o presidente interino se nega a olhar para eles.

Com mão firme, vai arquitetando seu próprio país, com os carimbos da lei e da proteção, com a força bruta da malhação em escadas e jantares com políticos, com a argamaça da retórica, em grande quantidade.

No país de Temer, não há malas de dinheiro, nem conversas com criminosos, nem aquela algaravia tola de que “tem que manter isso aí, viu”?

No país de Temer, há uma ponte para o futuro, uma ponte realmente muito estreita, onde não cabe o povo, nem seus direitos sociais, tampouco os comunistas de esquerda. Na ponte do reformador do absurdo, só cabe uma espécie de pequena corte dos “iluminatti” brasileiros, que levam na bagagem o seu religioso ódio de classes e os seus planos sintéticos mas arrasadores: Fim da previdência, fim do estado, neoliberalismo real, a todo e qualquer custo.

Um Presidente Decorativo

A palavra decorativo poderia ganhar novo verbete. Se formos seguir os cânones do dicionário, decorativo significa  adjetivação para embelezamento, que agrada aos olhos, mas se formos ao outro extremo, encontraremos a definição de sem nenhuma importância ou peso.

Era assim que se sentia Michel Temer, quando ocupava o cargo de vice presidente no governo Dilma Rousseff. O vice presidente decorativo, que segundo se queixava, não era ouvido nem convocado, utilizou-se do cargo para negociar, organizar e apoiar, ainda que na surdina o impeachment da presidenta eleita, sendo, graças ao apoio do deputado Eduardo Cunha e da sua bancada, exitoso nesse processo.

Consumado o impeachment, e, respaldado pela Constituição, Temer sentou-se à mesa da presidência, mas logo percebeu-se que ele ali está também como um presidente decorativo. Assumiu o cargo para encenar e dar envergadura a um dos argumentos que mais se pronunciou nos últimos tempos: As instituições brasileiras são sólidas e estão funcionando muito bem.

Mas a quem interessa um presidente decorativo? Na atualidade, o presidente decorativo do Brasil interessa ao mercado, ao grande empresariado, às elites brasileiras, visto que na verdade é esse mercado quem agora governa, empreende, dita as regras do jogo e as executa, tudo sob a égide de um jogo de faz-de-conta, onde se finge que o presidente governa, e dá curso ao programa do seu partido, “Ponte para o Futuro”, com apoio do Congresso e dos outros poderes.

Não estranhem se não der em nada a denúncia de Joesley Batista, que aliás já foi arquivada pela CCJ da Cãmara dos Deputados. Ao longo dos próximos meses, pequenas rusgas contra o presidente farão parte das manchetes midiáticas, mas terão pouco ou nenhum acolhimento no parlamento. Suspeito que Tener ficará no cargo até o final do mandato, desenvolvendo suas mesóclises, suas adverbialidades, seus jantares palacianos onde agencia o velho “toma lá dá cá”, enquanto seus ministros cochilam e a sociedade cria suas mêmis nas redes sociais.

Um presidente decorativo serve perfeitamente a esse momento, em que, na surdina, ou claramente, o mercado impõe ao estado suas medidas reformistas. Um presidente decorativo serve ainda melhor ao fingimento da grande mídia, que conhecia muito bem o perfil dos políticos brasileiros, mas deu curso à fábula da “quadrilha petista” o quanto pôde, empreendeu e exaltou o “plano Michel”, e agora finge espanto pelas gafes do presidente, pela sua impopularidade, fingindo que deseja a sua saída do poder.

Todos fingem, enquanto o país caminha para a sua derrocada, para o banimento e o esquecimento das poucas conquistas alcançadas nos últimos treze anos.

O presidente decorativo finge que governa, e, banhando-se no caldo da sua própria vaidade, entrega o país à voracidade dos grandes tubarões.

Intervalo para a }Ternura

Ou seria uma carta para os meus leitores?

Sim, queridos leitores, farei um breve intervalo para a ternura, o silêncio, o recolhimento. O mundo onde vivemos está tão difícil, minhas crônicas andam tão duras, que precisarei parar para me reabastecer, para o repouso do verbo, para o desacelerar da maquinaria das narrativas, para a quietude e os gestos da calmaria.

Quando eu era pequena, em todas as vezes que ia dormir, ficava sonhando com uma casa muito pequena, onde eu vivesse, com economia de gestos, com ações delicadas, com coisinhas miúdas, cada uma no seu lugar.

Era talvez a minha versão privada de uma casa de bonecas. Mas eu cresci, li romances, e descobri a metáfora do poço.

O poço privado de cada um pode ser uma experiência terrível, mas, pode ser também um lugar de aprendizado profundo, de felicidade conquistada no silêncio da terra, num único raio de sol iluminando obliquamente as profundidades.

Aprendi isso com Harumi Murakami, no seu livro, “A Crônica do Pássaro de Corda”. Desde então minha pequena casa de bonecas da infância transmudou-se para a versão do poço privado.

O problema do mundo contemporâneo, é que parece que todos nós mergulhamos num poço coletivo, e nesse lugar há pouca luz, pouco ar, e nenhum silêncio, senão o clamor terrível da guerra das narrativas, o barulho dos carimbos da lei, a arenga perpétua das torcidas, em uma partida onde se perdeu a ética, o respeito, o zelo pelas coisas do mundo.

Como num imenso jogo de ping-pong, as coisas más colidem umas com as outras e viram notícias do dia. Atentados em Londres e no Irã, estupros coletivos na baixada fluminense, Trump fugindo do acordo do clima, a guerra brasileira, com seus trezentos mil jovens negros pobres mortos, sua elite corrupta e sua política de porões e vozes sussurradas.

Vou sair. Ou seria melhor que eu dissesse que vou ficar em mim, vivendo um cotidiano feito de pequenos gestos, coisas delicadas, cantigas de ninar e hálito de presença de criança?

Vou guardar as chaves do mundo na terceira gaveta da minha escrivaninha. Vou deixar inconclusa essa minha longa crônica desse poço coletivo. Saltarei barrancos, retrocederei, até essa esquina  de lugar nenhum, onde eu mesma, acordada, ouço cantos de pássaros, sinto cheiro do primeiro café, assisto à calma dos gatos nas suas almofadas, canto para um menino ocupado em crescer, invento só para ele a ternura de que um dia também precisará, para tecer o mundo de lá fora.

Vou visitar minha casa de bonecas, arejar seus pequenos cômodos, deixar que o vento brinque com seus ínfimos esconderijos. Trarei de lá, delicadezas, gestos cuidadosos, colheres tortas e invenção de ternuras para o menino que dorme.

Crônica de um Grande Apequenamento

Narrar a história recente do Brasil, sobretudo o capítulo relativo à vitória da presidenta Dilma Rousseff nas eleições de 2014, até a atualidade,quando rege o governo de Michel Temer,  não será uma tarefa fácil para os historiadores. Os especialistas da área hão de se defrontar com alguns problemas fundamentais que lhes darão um volume incalculável de trabalho.

O cenário onde se desenrolam os fatos da república é no mínimo sombrio. Envolve porões de garagens, como no filme “Matadores de Velhinhas”; envolve mochilas de dinheiro, como no magistral enredo de “O Trem Pagador”; envolve sobretudo uma narrativa tão ampla, e tão diversificada, que esse será o principal empecilho para que a história seja contada.

A verdade fria e cristalina é a de que o país se apequena. Como se por artes de uma espécie de lipo-aspiração interior, as figuras políticas do Brasil  vão perdendo estatura, e, entre gorduras e lipídios, esvaem-se os princípios éticos e morais. Os discursos ganham a superficialidade do biscoito recheado,com excesso de glicose e nenhuma substância formadora.

A mentira, o falseamento, a minimização dos escândalos que se sucedem, como no jogo de Pokémon, ganham a centralidade da mídia, em suas manchetes garrafais, e, como num espetáculo macabro, mídia e sociedade deglutem os acontecimentos, até à saciedade que nunca se resolve.

Na república de agora, os personagens centrais são os ratos, com meus mil perdões a esses animaizinhos que só querem defender o seu queijo. Os ratos daqui, são gordos, grandes e perfumados, mas têm armas as mais poderosas. A principal delas é o cinismo, e com este, a invenção da pós-verdade, essa narrativa esvaída de sentido e de verdade, essa narrativa contaminada com o artifício da retórica vazia, e com a única meta possível desse cacho discursivo: Ludibriar e confundir.

A história recente também conta com um personagem central. A própria mídia, que opera como um difusor das falas cínicas, dos desaforos, dos bips, que fingem escamotear a imoralidade. A mídia opera com o silêncio, quando a notícia fere sua linha editorial, ou promove a balbúrdia em horário nobre, sem tempo para acabar o jornal, quando é preciso desalojar um dos reis dessa república convulsionada.

Mas não nos esqueçamos, o personagem mais importante está nos bastidores. Atua em silêncio. Maneja cordéis e apronta cenários para o futuro. É vago e difuso na superfície, mas, nos bastidores, é organizado, persistente e corajoso. Chama-se de diversas maneiras. Aqui vou chamá-lo de O Grande Capital.

Ao grande capital, quando se trata de presidentes, interessa-lhes essa figura política patética, sem moral  e ética, mas, capaz de manejar seu cinismo e sua covardia, com artes de circo de péssima qualidade.  Ao grande capital interessam os ratos, com sua fria esperteza e a capacidade de defender o queijo forjado no lucro e na acumulação. Na mídia, quando acaba o jornal, aciona-se a vinheta dos aplausos e do frouxo de riso dos programas de auditório.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União)

Entre Vidraças Quebradas, Lágrimas por um País Desmontado

As manchetes midiáticasdesse meio de semana, rasas, superficiais, em alto volume, dão conta de vidraças quebradas, furtos, focos de incêndio, ministérios evacuados às pressas, servidores públicos amedrontados e perplexos.

Não, não vou aplaudir esses episódios, tampouco quero explorar as suas nefastas razões. Infiltrados teriam tentado desqualificar a manifestação pacífica com dezenas de milhares de trabalhadores, sindicalistas, movimentos sociais?

O discurso ambíguo da comentarista Míriam Leitão, no Bom Dia Brasil da quinta-feira, expressou claramente o tom azedo com que os sindicalistas são tratados no jornalismo global. Segundo Míriam, os manifestantes foram à Brasília financiados pelo dinheiro do imposto sindical, e agora, disse ela, será com o dinheiro dos nossos impostos que os estragos serão reparados. Digo que o discurso é ambíguo, porque a pouco mais de dez dias, Míriam Leitão louvava o governo Temer, agora ecoa suas mazelas e fraquezas. O que não muda, na sua fala, assim como nas inserções de Alexandre Garcia, William Bonner e tantos outros globais, é o tom de beligerância com respeito aos movimentos de trabalhadores, sobretudo àqueles ligados aos partidos de esquerda.

Enquanto o país assistia aos fatos quentes de Brasília, ocorria no Pará, uma chacina com dez trabalhadores mortos. Seguindo seu modus operandi, a Globo somente ouviu a voz das autoridades e dos policiais. A culpa, como sempre, recaiu sobre os posseiros, mas a eles não foi dada defesa, nem direito de resposta.

Em verdade vos digo, pouco me importa essas vidraças quebradas, pouco me interessa essa ação enraivecida de pequenos grupos encapuzados. O que me entristece, o que me faz acordar todos os dias com a angústia pesando no peito, é ver o meu país desmontado por dentro, quebrado, fraturado nos seus princípios, de ética, de moralidade, de respeito ao outro, de garantia dos direitos sociais e da cidadania.

O país vai sendo desmontado por dentro das suas estruturas. Não há ruídos de bombas, não se escuta o estilhaçar de vidraças, tampouco o estampido das automáticas. O desmonte é silencioso e rápido. A cada dia assistimos cair por terra um pedaço de floresta preservada, uma política social conquistada à duras penas, um instrumento de negociação e de participação popular.

E enquanto essas vidraças não são reparadas, olhemos bem para dentro desse ministério vazio. Vazio de políticas culturais, de diálogo, de música e de arte genuinamente brasileira, vazio de comando, num país sem comando.

Da boca pra fora, a retórica do combate à corrupção. Dentro dos gabinetes, nos porões e garagens, as tramas, as negociatas, a conspirata permanente e subterrânea que preside o jogo político desde sempre.

A metralhadora midiática prossegue no trabalho apressado da implosão. Aniquilar as esquerdas, e agora, aniquilar o governo Temer o qual ela colocou no poder. Retomar a direção das eleições indiretas, bater à prego e martelo, a política e os interesses do capital. Por que hei de lamentar vidraças quebradas, se tenho um país todo de cabeça baixa, com vergonha de si próprio?

 

Os Estalos da República

Nunca se soube que uma República pudesse envelhecer, recuar para trás, recuperar períodos de valorização de coisas como a desigualdade extrema, a desvalorização do trabalho, a desqualificação do estado, a intolerância para com o diálogo e a plenitude da democracia.

 

A República corre para trás, aos empurrões, à força do que há de mais execrável no jogo político, o chamado “toma lá dá cá”, corre para trás aos estalos, recuperando períodos históricos anteriores a Getúlio Vargas, apressa-se em abrir gavetas facilitadoras, para rasgar a Consolidação das Leis Trabalhistas, para colocar a classe trabalhadora  num lugar onde estava antes dos anos quarenta, sem proteção, sem direito à férias integrais, sem garantias na manutenção da empregabilidade.

 

A República estala por dentro, nos seus alicerces, mas, os artífices desse desmantelamento pregam o discurso do novo, do moderno, do fim do conservadorismo e dos privilégios, discurso que trata os trabalhadores como histéricos, intimidadores, e os seus sindicatos como quadrilhas, que devem ser estirpadas do novo mundo do trabalho.

 

Foi isso o que se ouviu na quarta-feira à tarde, quando da sessão de aprovação, na }Câmara dos Deputados, da Lei de reformas trabalhistas, sobretudo da boca do relator, Rogério Marinho, que com sua voz mansa, levemente enrouquecida, leu seu parecer conclamando às mudanças.

 

A república corre para trás, em velocidade de cruzeiro, num processo unilateral em que divorcia-se radicalmente dos direitos democráticos e populares. Tudo se faz num momento em que o governo interino conta com seu mais alto grau de rejeição popular e quando o parlamento vive a sua mais aguda crise de credibilidade, quando a maioria da sociedade começa a sair do conformismo e passa a se manifestar abertamente contra essas mudanças.

 

Mas o que se aprovou nesta longa quarta-feira, não é moderno, nem novo. A narrativa pode ser pomposa: Monetização da vida útil das pessoas, trabalhador horista, valor do negociado sobre o legislado,a narrativa é de fato pomposa, mas as consequências do processo serão desastrosas.

 

O golpe maior será dado contra os sindicatos e centrais de trabalhadores, que já vêm sendo enfraquecidos por campanhas menores, porém sistemáticas. O fim do imposto sindical e o estabelecimento da negociação direta entre patrões e empregados vai minar de vez a força dessas organizações.

 

A república corre para trás, suas estruturas estalam, desmantelam-se modos de fazer política. Aos trabalhadores, resta inventar de novo a força da sua luta, nas ruas, nos postos de trabalho, nas greves, até que não possam mais cruzar as mãos em defesa dos seus direitos.

 

 

A Política e os seus Movimentos

Prenunciam-se os próximos movimentos da política brasileira, que em alguns casos, serão lentos e cuidadosos, em outros, acelerados e com intensa cobertura midiática.

O movimento principal, refere-se ao fim do governo Temer. Caíram por terra, todas as fábulas habilidosamente gestadas desde março passado. Ruiu a fábula juridicamente construída num powerpoint, de que Lula era o chefe da quadrilha de corruptores do dinheiro público brasileiro; ruiu a fábula de que não se deu um golpe parlamentar, jurídico midiático no país; finalmente, desmantelou-se a fábula de que o presidente Temer faria um Brasil novo, com a sua famosa ponte para o futuro, reequilibrando as contas públicas e recolocando novamente o país nos trilhos do capital internacional.

Esse primeiro movimento, do fim do governo Temer, será lento, contará com proteção midiática e com inúmeros eventos de blindagem. O governo acabou, mas pode ser que Temer persista agarrado ao mandato, por artifícios os mais variados, por muito tempo ainda. Segurar-se-á nos privilégios e benesses que o cargo oferece, e poderá tomar medidas importantes, como a reforma e a mudança para o alvorada, e a formidável volta, às arrecuas, para o palácio do Jaburu, sem que na mídia se promova qualquer levante importante.

Para não falarmos de reformas mais definitivas, como a Pec do fim do mundo e a reforma da previdência,

Já o segundo movimento da política, diz respeito às eleições de 2018, e a possível participação do ex-presidente Lula como candidato. Prosseguirá, na mídia, no judiciário e no parlamento, o brutal desgaste da personalidade do político, mesmo que as investigações não tenham ainda topado com provas importantes que possam levar ao seu encarceramento e futuro julgamento.

O terceiro e decisivo movimento da política, apoiado pela mídia, pelo judiciário e parte do parlamento, diz respeito ao PSDB, que aliado à Eduardo Cunha, forjou o golpe, apoiou o plano Michel e agora vem ocupando postos importantes no governo, enquanto se dá curso à sua primeira cartada, o pedido de cassação da chapa Dilma Temer.

Nas democracias, seria lícito que o perdedor aceitasse os resultados, como bem disse o ex-presidente Obama, nas últimas eleições dos Estados Unidos. O candidato do PSDB, assim como seus apoiadores, chegaram a comemorar a vitória em 2014. A comemoração durou pouco tempo. A candidatura Dilma reagiu e ela foi eleita com três milhões de votos a mais.

A inconformidade de Aécio Neves trouxe o país até aqui. Quem sabe os líderes do seu partido possam agora embarcar no poder, como já está ocorrendo, sem um voto sequer que lhes dê lastro.

(Este post foi publicado ontem, em minha coluna impressa do Jornal  #AUniao)

Sob o Manto da Irracionalidade

Não há dúvidas de que estamos caindo de rojo no regime da irracionalidade.  Uma série ampla de eventos demonstra isso. Tudo começou com o processo de impedimento da presidenta Dilma Rousseff, que, finalizado, abriu as comportas do estado para a implementação do governo de exceção.

Num governo de exceção tudo é possível. Fenômenos que antes eram tidos como condenáveis e combatíveis até à última instância, no governo de exceção, ganham o álibi da necessidade, e, à toda pressa, empreendem-se as tratativas e diretivas para que sejam instituídos como norma, ganhando os carimbos e os selos da legalidade.

A maior excepcionalidade talvez, seja aquela que permite a um governo cujo mandato indireto durará  pouco mais de dois anos, empreender reformas econômicas que impactarão a vida do país por mais de vinte anos. No bojo dessa medida, busca-se a aprovação da reforma previdenciária, a qual modificará completamente a vida de cada trabalhador individual, que terá de atuar por cerca de 49 anos, a fim de merecer o justo descanso da aposentadoria.

E tem mais medidas inquietantes. A reforma do ensino médio, prometendo colocar no limbo ou na obscuridade de inúmeras rubricas, conteúdos como filosofia, sociologia, em favor de conteúdos técnicos e informáticos, numa canetada que por si só, travou as portas do diálogo com os estudantes, os educadores e as comunidades, demonstram mais nuances desse governo de exceção.

O mais grave desse processo acontece na política. O foro privilegiado tem sido utilizado em plena luz do dia, para que se evitem investigações na primeira instância, cadeiras de ministérios são negociadas e posses são permitidas, traindo-se abertamente veredicto anterior, que caçara o direito do ex-presidente Lula ocupar o cargo de ministro da casa civil.

Um governo de exceção, com pouco mais de dois anos de mandato indireto, também pôde indicar um ministro do Supremo, que vinha a ser o seu ministro de Justiça, num flagrante desrespeito à Constituição do país. O novo ministro revisor poderá ocupar a pasta por mais de vinte anos,  e emalado pelos poderes de um governo de exceção, negocia em barcos ou em gabinetes, as maneiras pelas quais deseja ser sabatinado.

Os leitores poderiam se perguntar, de que maneira o projeto excepcional do interinato pode dar certo? De certeza há um modus operandi que vem assegurando o sucesso desse governo de exceção. Há que se fabricar uma sucessão de acontecimentos, a fim de que um fato vá substituindo o precedente, sem que nada possa ser guardado na memória do cidadão desatento, que na maioria dos casos, sequer sabe em quem votou nas últimas eleições. A estratégia fundamental, porém, radica na aliança com a mídia. O governo de exceção, perfeitamente sintonizado com a mídia, impõe a cobertura da irracionalidade como se estivéssemos vivendo num estado pleno de normalidade.

É o que vem sendo feito. No Brasil editado pela mídia, tudo está bem, a fora pequenas rusgas críticas, que toda imprensa que se preza tem de ser independente. No Brasil real, a irracionalidade governa os cidadãos, mas brasileiro só fecha a porta quando o ladrão se foi.

 

(Este post foi publicado hoje, em minha coluna impressa do #JornalAUnião)