O Velório de um País

O meu coração está pesado. As palavras dessa crônica, estão todas tingidas da profunda tristeza que me invade, por estar há tanto tempo, com meus irmãos, meus amigos, meus colegas de trabalho,  com tantos e tantos cidadãos e cidadãs, mergulhada nesse longo velório sem tréguas, velório do meu país.

E como é difícil velar um país que se despedaça e morre, nas praças das cidades grandes e pequenas; nas ruas e vielas das periferias; nas favelas ocupadas por forças do exército e da polícia.

Um país que morre de modo explosivo, um país que morre na sua infância pobre, vitimada por balas perdidas, todos os dias.

É tão difícil velar um país que oculta-se na covardia e na vileza, para estraçalhar o sorriso da cria da maré, Marielle, silenciada no meio da sua luta, calada brutalmente, enquanto as suas palavras de força e encorajamento de mulheres negras ainda reverberam naquela roda de diálogo.

É tão difícil velar um país onde Marielle Franco não pôde voltar pra casa, não pôde pela última vez beijar sua filha, é tão difícil velar um país onde Marielle Franco será agora somente mais uma cifra na estatística brutal da violência no Rio de Janeiro.

É tão difícil velar um país onde já não há lágrimas para regar o desespero, a vulnerabilidade, a incerteza, o medo, o risco de viver.

É tão difícil velar um país onde a democracia foi ferida de morte, um longo e triste espetáculo de guerrilha política, onde venceu mais uma vez a oligarquia, o complô dos trusts, as bancadas da bala e do boi, que agora se apressam na delapidação do estado, na destruição dos direitos sociais e civis, no aprofundamento da pobreza e da miséria.

É tão difícil velar um país onde não se pode calar o espetáculo da tv, onde não se pode interromper o jornalismo mínimo e factual, onde não se pode atalhar a sanha noticiosa sobre os comunicados, do presidente, dos ministros, das forças armadas, onde não se pode pedir um silêncio profundo dessas máquinas de divertimento perpétuo, para que se escute o pranto, o soluço, o último grito, o gotejar de sangue de vítimas inocentes, crianças, muitas crianças; jovens e idosos, a maioria do nosso povo negro que  morre aos bocados,  nas máquinas de matar do crime organizado, nas máquinas de matar das forças de ocupação.

É tão difícil velar um país onde o sangue e as lágrimas são as únicas sílabas desse decreto final, escrito abertamente, nessa noite infinita, em que não se pode voltar pra casa, abrir seu portão com sua própria chave, calçar seu chinelo velho, bebericar um café com leite, sentir a satisfação do dever cumprido.

É tão difícil velar um país onde Marielle Franco não mais poderá cumprir seu mandato, de defesa do povo pobre da maré, das favelas do Rio de Janeiro. Tão difícil é velar esse país que fecha com mãos trêmulas, o caixão de Marielle Franco.

Omelete de Nada

As vezes acontece. O teu editor já te deu o prazo máximo, você tem consciência do pequeno retângulo de espaço aberto, 36 linhas a serem preenchidas, mas só há uma ausência profunda dentro de você.

Os temas desapareceram, tiraram férias, desligaram os telefones imaginários, desconectaram-se, não há como fazer contato com um tema que seja.

Você inventa frases de efeito, rebusca na memória um pensamento clássico, nada de jeito acontece. É como perder o sono, ou pior, é como tentar acordar, no meio de um pesadelo, todos os monstros com armas apontadas para você, mas, o que se pode fazer, senão espremer uma gota que seja de sanidade, uma trilha por onde começar, uma ponta qualquer de novelo azul que te possa levar a algum labirinto?

As vezes, escrever é como atirar pedras a um lago, e ficar à espreita, vendo as ondulações, o barulho suave da fricção da pedra com a água fria, o silêncio, um fundo que não chega nunca. Escrever, as vezes, é como ser uma espécie de torneira quebrada, a gotejar, o dia inteiro, pingo a pingo, compondo uma sinfonia monótona das horas mais frias. Escrever, as vezes, é não dizer nada, ainda que se vá juntando palavras, como num jogo de lego, uma construção improvável, de um edifício todo feito de sílabas ocas de sentido.

Dezesseis linhas, seu telefone tocando, é o editor. Você sai dos escombros de si mesma, e com voz aparentemente firme promete: Já já mando a coluna.

E regressa ao brinquedo de lego, tentando a golpes de martelo, desmantelar a inércia e fazer com seus restos um fingimento de escrita, uma invenção de crônica, uma frase qualquer que se salve no meio dessa algaravia.

Seu tempo acabou. Em desespero, você pede ao word que conte as palavras, quase esmurra o teclado sem fio, Não pode ser. Mil setecentos e trinta caracteres, uma ninharia para quem já atirou pedras ao lago, espreitou um poço sem fundo, vasculhou as horas, à cata de um enredo, uma saída, um arranjo aceitável, um protocolo de salvação.

Parabéns. Seu tempo acabou. Você está no topo do desfiladeiro. Invente uma frase comprida, como uma corda grande, segure-se nela até o fim. As frases compridas acabaram, ou são como as velhas frutas de final de feira. Seu tempo acabou, o trem está chegando, e você terá de desocupar os trilhos, sob pena de virar omelete de nada. Omelete de nada. Três palavras insípidas para uma crônica que ninguémquererá ler.

Desocupe os trilhos, prepare o próximo envio do correio eletrônico, sem esquecer de vasculhar, por entre as peças de lego que você empilhou, o título dessa sua escrita feita de cascas e ossos das horas de inércia.

 

(Este post foi publicado hje em minha coluna do Jornal A União).

Balanço Geral: Cartografia de um País Desmontado

Balanço Geral: Cartografia de um País Desmontado

 

Chega o fim de ano e a gente se pega tentando fazer balanços, olhar para trás, prever o que será amanhã, como estaremos semanas após havermos espocado a champanhe do ano novo. Champanhe? Eu não beberei nenhuma taça. Literalmente, sou uma pessoa que dói, todos os dias, desde que começou esse desmantelamento das estruturas políticas, econômicas, culturais e sociais do país.

Sou uma pessoa que dói, e por isso talvez minha síntese da história brasileira dos últimos três anos seja assim meio apressada, com lacunas imensas e provavelmente algumas palavras fora do lugar, outras desafinadas, como numa espécie de ópera em que não há sincronia, nem regência.

A verdade é que estamos habitando um país completamente desmontado, e a fase do agora, é talvez uma das mais impróprias às festividades. Vivemos a fase do império da máquina, do tratoramento, ocupado em aplainar a terra, desmantelar restos, implodir onde for preciso, para que se reinstaure a lógica do mínimo, na política, na cultura, na economia estatal, nas relações de trabalho.

Mas esse processo de desmantelamento não começou agora, nem se pode dizer que houve dias de calmaria. Desde 2014, apressou-se o tom da trilha sonora desse imenso trhiller, acelerou-se as cenas principais, tudo a jato, para que se possa recomeçar, num tempo estranhamente parecido com aquele do passado, em que a miséria, as desigualdades, a riqueza e a pobreza, eram coisas naturais, dadas por Deus.

Tampouco pode se dizer que a imensa tempestade não fez suas vítimas. É clara a morte da política. E aqueles políticos que ainda seguram, por caridade do capital, as chaves dos palácios e das malas, emprestam suas últimas energias deletérias para a limpeza, o aplainamento, o desmantelamento da antiga política, da política necessária, daquela que tentava uma síntese desenvolvimentista na qual capital e trabalho pudessem dialogar, naquela em que crescimento econômico, social e político não fossem apenas lendas retóricas, sem qualquer enxerto de realidade.

A morte das lendas. Sim, lendas caíram por terra com a força de um tsunami nesses dois últimos anos. Os mesmos braços políticos que se emprestaram com vigor e sanha falastrona ao esforço de derrocada do Brasil, eles mesmos viram ruir sua ética, e sua moral falaciosas, sob os carvões em brasa das delações e das suas provas explícitas.

A mídia limpa, vigilante da decência e da ordem, respirou também o hálito da sua própria carniça propineira.

A terceira morte que salta aos olhos, a terceira morte mais desastrosa é a da perda de autonomia e de poder de compra dos mais pobres, e com ela, o retorno da caridade de ocasião, das campanhas contra a fome, dos pedidos do Pão de Açúcar, para que ajudemos a quem não pode mais comprar. O acelerado desastre brasileiro implodirá o ano novo e fincará de vez, as últimas estacas de desesperança num país desmantelado.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna impressa do Jornla A União)

Luiz Carlos Cancellier de Olivo: Sob o Reinado da Injustiça

Era uma vez um mundo governado pela justiça. Sentada à sombra de uma árvore frondosa, a justiça disciplinava as leis, julgava os delitos grandes e pequenos, formulava sentenças perfeitas e corretas, mediante testemunhos e provas, refletia e sopesava em sua balança, a validade dos indícios, recusava as maledicências e os mexericos, nunca se permitia uma conclusão apressada, ou um veredicto pouco convincente.

Nesse mundo regido pela justiça, pouca ou nenhuma importância era dada ao estardalhaço, a fama advinda de algum caso em que o julgado era celebridade, tanto assim que a justiça dedicava preocupação e interesse em igual proporção, desde ao caso mais simples, ao mais rumoroso.

Constituía-se espetáculo de rara beleza e de profundo aprendizado, o momento em que a justiça tinha de aplicar a pena. A sua dosimetria nunca ultrapassava os limites do razoável, e, com sua mão hábil em medir proporções, com a serenidade e a brandura do seu espírito, ela infundia ao mesmo tempo nessa dosimetria, medidas exatas de efeito punitivo, combinadas com medidas de efeito ressocializador e de crescimento e recuperação das condições de humanidade.

É assim que naquele mundo, sabia-se, como líquido e certo, por anos e anos de um firme reinado, que a justiça sempre estaria ali, acima de tudo e de todos, garantindo a lei, preservando o bem-viver, mediando os conflitos, julgando com determinação, coragem e pertinência, todos os pequenos dilemas daquele mundo.

Naquele mundo em que a mão firme da justiça repousava tranquila sobre as folhas da lei, palavras como ódio, intolerância, desrespeito, sempre que ameaçavam ganhar corpo em algum comportamento, eram enxotadas como se fossem moscas indesejadas. Naquele mundo, os processos tinham começo, meio e fim. Tinham arrazoados fortes, e a justiça fazia questão de somente dar seu veredicto final, tendo diante de si, todas as provas perfiladas.

Naquele mundo, por confiarem cegamente na justiça, os réus muitas vezes antecipavam-se e confessavam seus crimes.  Pediam perdão, determinando eles mesmos, em sintonia com o olhar firme da justiça, as medidas da sua punição.

Mas eis que um dia, sorrateiramente, a injustiça, irmã gêmea da justiça que vivia no estrangeiro chegou com malas e bagagens, e armou seu quartel naquele reino tranquilo. Ardilosa, aproximou-se da justiça e ofereceu-lhe ajuda nos processos. A injustiça sabia manejar as palavras, e, com mão ligeira, foi disseminando no trabalho da justiça, pequenas doses de intolerância, pequenos desvios que permitiam convicções em vez de provas, e sobretudo, sob a pecha de dar transparência aos processos, obrigou a justiça a aliar-se à mídia, que com estardalhaço e espetacularização, passou a cobrir todos os processos daquele mundo.

Célere, a injustiça usurpou o trono da irmã e passou a governar. Agora, em doses maciças, impingia ódio, medo, desconfiança e intolerância entre os súditos. Preocupada, a justiça tentava dialogar com a irmã, mas, autoritária, batendo na sua nova e bela mesa com mão firme, apontava a pilha dos processos resolvidos a partir dos indícios e das convicções e retomava com novo vigor, a sanha da perseguição e da maledicência, tudo com apoio da grande mídia.

Horrorizada, um dia a justiça viu um dos seus súditos mais corretos cair nas mãos da injustiça e ser julgado pela sua nova lei de exceção. Com pavor, viu aquele home simples e nobre apoiar-se na balaustrada do último andar do belo shopping da cidade. Tapou olhos e ouvidos, mas a morte do homem furou-lhe os tímpanos e esvaiu de si, toda a vida que possuía.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União)

 

Beto, Valéria e um Punhado de Reflexões

“Quem Manda no Mundo”? Essa foi uma das dicas de leitura que Frei Beto deixou para nós, por ocasião da quinta edição do ciclo de debates Pense, realizado na última quarta-feira para uma plateia formidável, em qualidade e quantidade, que lotou a sala maestro José Siqueira para ouví-lo falar sobre cidadania, democracia, luta por um projeto para o Brasil.

Foi uma noite para se guardar na memória, pela maestria e lucidez da visão de Frei Beto sobre conjuntura política, formaçãoe valorização dos movimentos populares, governos Lula e Dilma,e mais, muito mais.

O começo de tudo, naquela noite, foi de uma força e de uma beleza   que dificilmente saberei descrever em palavras. Valéria Resende, a mediadora do debate, com sua voz grave e melodiosa, desmontou os protocolos para nos falar de Beto, não o
Frei, para nos falar de Beto, o seu irmão, que   desde a adolescência, postou-se no centro das lutas por uma igreja viva e solidária, e depois, mergulhou na luta política e na formação das bases populares em diversos países do mundo, a luta contra a desigualdade e a pobreza.

Valéria Resende, que carrega na bagagem três Jabutis e um prêmio “Casa de Las Américas”, por sua literatura de peso, ofereceu-nos, pois, aquela lição de simplicidade e afeto, desenhando para nós, a figura de Frei Beto quando jovem, os sonhos de ser escritor, os quatro anos em que foi preso pela ditadura, os papéis que pediu que ela guardasse, para que não se perdessem memórias dos tempos de prisão e de exílio.

Ali, na sala Maestro José Siqueira lotada por uma plateia atenta e e silenciosa, Valéria foi desenhando em letras grandes, uma espécie de longa carta tecida pelo afeto, a amizade, a solidariedade, o respeito e a admiração que marcaram a trajetória dos dois amigos, e que a escritora nos ofertou generosamente como um presente para a memória.

Frei Beto compreende o mundo por uma baliza ao mesmo tempo muito simples, mas exata. A valorização do humano e das suas culturas, a luta permanente contra a desigualdade, a esperança e o otimismo como combustíveis que devem nos alimentar nesses dias difíceis vividos pelo país.

Com uma voz forte e vibrante de entusiasmo, ele nos deu lições da história dos últimos cinquenta anos no Brasil, desenhando os cinco ciclos mais importantes do período: Os anos anteriores à ditadura, quando nascia na igreja católica, o importante movimento das comunidades eclesiais de base; o ciclo da ditadura, a redemocratização, os anos oitenta e a eclosão dos movimentos sociais de massa; as eras Lula e Dilma, os erros e as conquistas. O tempo em que vivemos, onde tudo, primeiramente, começa com o repúdio a esse governo ilegítimo.

Frei Beto disse o que já sabemos, mas, postulado pela sua voz, tem a força da irresignação: No mundo, apenas oito famílias concentram  mais da metade da riqueza produzida. O capitalismo não é um sistema humanizado. O consumo exacerbado, individual, a exploração descontrolada das matérias primas, são dilemas e desafios contra os quais devemos lutar.

Deixou-nos dicas de leitura, como a recomendação para que buscássemos as encíclicas escritas pelo Papa Francisco. E pediu que lêssemos o livro de Noam Chomsky, “Quem manda no Mundo”?

 

(Este post foi publicado na última sexta-feira, em minha coluna impressa do Jornal A União)

“Com o Supremo, com Tudo”: Um País que Desistiu de si Mesmo

O país afundou. No começo, adernava de forma lenta, gradual. A partir de 2016, com o impeachment da presidenta Dilma, ganhou agilidade na sua derrocada e nos últimos dias, atinge velocidade de cruzeiro.

“Com o Supremo”, com tudo”, para não nos esquecermos da frase dita por Jucá, numa hora de necessidade extrema, quando era preciso estancar as investigações e retomar os freios da velha política do loteamento do estado em favor de interesses políticos e econômicos vis.

O país acabou, ou por outra, fechou para balanço. Retornaremos à condição de colônia, com nossos melhores serviços essenciais como água, energia, préssal, minérios e derivados, além do nosso espaço aéreo, explorados e comercializados pelo capital estrangeiro.

O país lembra uma velha e enorme casa, toda desmontada, como se houvesse em curso uma grande mudança. E há. O Brasil entrega suas riquezas, e parte de malas vazias, para um lugar de insignificância,  lembrando o drama da estória de fadas, no qual a linda princesa passa a viver no borralho.

Os números da nossa derrocada são alarmantes. Alguns deles foram apresentados com maestria e brilhantismo pela ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Helena Nader, na mais recente edição do Pense, um ciclo de debates promovido pelo governo do estado, para uma plateia pequena mas atenta, que se reuniu para ouví-la, na noite da última quarta-feira, 22 de agosto, na sala Maestro José Siqueira, do Espaço Cultural.

Helena Nader fez um duro e agudo diagnóstico acerca da educação e da ciência brasileiras, demonstrando que o país perdeu o orgulho, a autoestima e ocupa hoje uma das últimas posições no que toca a investimentos em educação fundamental, média e superior, em desenvolvimento científico e tecnológico, no hanking dos 150países pesquisados.

Com voz firme, e as vezes brincando com a rebeldia do progetor onde exibia suas transparências,  ela narrou para nós sobre a ciência brasileira e os seus últimos suspiros, denunciou a insanidade do projeto “escola sem partido”, exortou que conheçamos a Pec 85 e assim saibamos da sua capacidade de implodir um país que considera hoje, através do governo Temer, que recursos para a educação são tidos como gastos, e não mais como investimentos, no sentido lato do termo.

Saí da palestra de Helena Nader com uma certeza: O país desistiu de si mesmo, do seu orgulho, da sua autoestima. Inventamos técnicas de exploração em grandes profundidades e encontramos o pré-sal. Inventamos, a través da Weg, um ímã de espessura finíssima e grande potência. Construímos aviões e alavancamos a indústria naval brasileira. Tudo isso está indo para o brejo, e colocamos agora em saldão de balanço, a venda da Eletrobrás.

O país acabou. Os artífices da política de desmonte, leia-se, PSDB, PMDB e mídia comercial privada, acertam os últimos protocolos, selam envelopes e malas diretas e inventam frases de retórica para as manchetes do Jornal Nacional de um país editado.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna impressa do Jornal A União)

Quando Becas e Protocolos Derrubam Títulos e Manchetes

Pronto, agora é oficial. Na tarde da última quarta-feira, o gabinete da reitoria da UFPB emitiu nota pública, onde reconhece que o protocolo e as becas derrubaram uma das manchetes que vinha povoando os portais de notícia da Paraíba desde o início do mês, onde se dava conta de que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva,  por ocasião da sua passagem pela Paraíba, no próximo dia 26 de agosto, receberia o título de Doutor Honoris Causa, aprovado pelo Conselho Superior de Ensino e Pesquisa daquela instituição, desde 2011.

A nota da reitoria rechaça argumentos que circulam nas redes sociais, de que a instituição havia recuado da outorga do título, para não fomentar manifestações político-partidárias. Deixa implícito ainda, um jargão muito conhecido da sociedade nos últimos tempos, “a culpa é do PT”. Segundo a nota, o Partido dos Trabalhadores pretendia que o título fosse concedido em local fora da UFPB. Os protocolos dauniversidade, para cerimônia desta ordem, a localização de todos os conselheiros, e a mobilização de becas para todos eles, sãoprovidências, segundo a nota, que exigem tempo hábil, do qual a instituição não dispõe.

Assim, as becas e os protocolos derrubaram a concessão do título, que certamente prosseguirá deitado eternamente em berço esplêndido, nas gavetas do gabinete, na sua soneca homérica que já dura seis anos, e que poderá prolongar-se ad eternum em perpétua quietude junto com as traças.

O ex-presidente Lula vive aliás, uma difícil “sina”. Para a sua condenação, provas não são necessárias. Bastam os indícios, o domínio do fato, a aplicação eficiente do uso do lawfare. Lula tem sido a chave mestra que abre as vantagens de delações premiadas. Lula tem sido o conteúdo mais importante de reportagens e manchetes condenatórias país a fora.

Exatamente em agosto do ano passado, circulou na coluna do jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo, a informação de que a verdadeira dona do triplex do Guarujá é a publicitária Nelci Warken, da empresa Mossack Fonseca.

A imprensa comercial não diz nada sobre isso. O que importa é que Lula seja condenado pela posse de um imóvel que comprovadamente não é seu.

A sina imposta à Lula é a da condenação, a do impedimento, que não venha ele novamente armar-se em candidato. Reconhecimento pelo que o ex-presidente fez pelo país, na conjuntura atual, não será possível.

Reconhecimento pelo que o ex-presidente fez pela educação superior brasileira, e mais particularmente pela educação da Paraíba, por agora, e por muito tempo mais, não será possível, decretam becas e protocolos.

As becas venceram. Festa para uns, gosto amargo na boca para outros. A universidade, com suas árvores, suas obras inacabadas, pede silêncio para o sono eterno do título de Doutor Honoris Causa do ex-presidente Lula.

 

(Esta coluna será publicada amanhã, em minha coluna impressa do jornal A União).

O Reformador do Absurdo

O título vem entre aspas porque não é meu. Surgiu na esteira de um diálogo mantido com uma amiga inteligente, a propósito da última quarta-feira, quando a Câmara dos Deputados consolidou o processo de arquivamento da denúncia de corrupção passiva contra o presidente Temer.

De fato, temos falado muito de política nos últimos tempos, mas estamos todos perplexos, angustiados e mais ou menos paralisados pela situação extrema a que o país foi submetido. Conforme eu disse na coluna anterior, o “presidente decorativo” prosseguirá com sua astúcia, a desmontar o estado, a desintegrar políticas sociais, a entregar nossas reservas à voracidade do capital mundial.

Tudo agora tem certificação do parlamento. Ganhou nova chancela para prosseguir com seu modus operandi, fundado na força, na truculência e na retórica fraudulenta.

O presidente clama pela reforma da previdência em seus vídeos em redes sociais, mas, na calada da noite, assina decretos que isentam a bancada ruralista do pagamento de dívidas com essa mesma previdência que ele vai reformar.

Nos discursos, fala com entusiasmo de um país cuja economia está melhorando, o emprego voltou, a inflação caiu. No país real, vive-se deflação, por conta de uma economia completamente deprimida. A inflação rosna e brevemente arrombará os portões de saída, graças aos aumentos de gasolina e energia.

O reformador do absurdo tem uma biografia a zelar. Foi por ela que lutou dia e noite, a fim de garantir a vitória de quarta-feira.  Quer passar à história como o presidente que em menos tempo, colocou o país nos trilhos. Há que se inventar um termo para essa visão deformada. Há que se lhe entregar um espelho para que ele veja o que está fazendo com o país. No Jaburu, no Planalto, ou não há espelhos, ou o presidente interino se nega a olhar para eles.

Com mão firme, vai arquitetando seu próprio país, com os carimbos da lei e da proteção, com a força bruta da malhação em escadas e jantares com políticos, com a argamaça da retórica, em grande quantidade.

No país de Temer, não há malas de dinheiro, nem conversas com criminosos, nem aquela algaravia tola de que “tem que manter isso aí, viu”?

No país de Temer, há uma ponte para o futuro, uma ponte realmente muito estreita, onde não cabe o povo, nem seus direitos sociais, tampouco os comunistas de esquerda. Na ponte do reformador do absurdo, só cabe uma espécie de pequena corte dos “iluminatti” brasileiros, que levam na bagagem o seu religioso ódio de classes e os seus planos sintéticos mas arrasadores: Fim da previdência, fim do estado, neoliberalismo real, a todo e qualquer custo.

Um Presidente Decorativo

A palavra decorativo poderia ganhar novo verbete. Se formos seguir os cânones do dicionário, decorativo significa  adjetivação para embelezamento, que agrada aos olhos, mas se formos ao outro extremo, encontraremos a definição de sem nenhuma importância ou peso.

Era assim que se sentia Michel Temer, quando ocupava o cargo de vice presidente no governo Dilma Rousseff. O vice presidente decorativo, que segundo se queixava, não era ouvido nem convocado, utilizou-se do cargo para negociar, organizar e apoiar, ainda que na surdina o impeachment da presidenta eleita, sendo, graças ao apoio do deputado Eduardo Cunha e da sua bancada, exitoso nesse processo.

Consumado o impeachment, e, respaldado pela Constituição, Temer sentou-se à mesa da presidência, mas logo percebeu-se que ele ali está também como um presidente decorativo. Assumiu o cargo para encenar e dar envergadura a um dos argumentos que mais se pronunciou nos últimos tempos: As instituições brasileiras são sólidas e estão funcionando muito bem.

Mas a quem interessa um presidente decorativo? Na atualidade, o presidente decorativo do Brasil interessa ao mercado, ao grande empresariado, às elites brasileiras, visto que na verdade é esse mercado quem agora governa, empreende, dita as regras do jogo e as executa, tudo sob a égide de um jogo de faz-de-conta, onde se finge que o presidente governa, e dá curso ao programa do seu partido, “Ponte para o Futuro”, com apoio do Congresso e dos outros poderes.

Não estranhem se não der em nada a denúncia de Joesley Batista, que aliás já foi arquivada pela CCJ da Cãmara dos Deputados. Ao longo dos próximos meses, pequenas rusgas contra o presidente farão parte das manchetes midiáticas, mas terão pouco ou nenhum acolhimento no parlamento. Suspeito que Tener ficará no cargo até o final do mandato, desenvolvendo suas mesóclises, suas adverbialidades, seus jantares palacianos onde agencia o velho “toma lá dá cá”, enquanto seus ministros cochilam e a sociedade cria suas mêmis nas redes sociais.

Um presidente decorativo serve perfeitamente a esse momento, em que, na surdina, ou claramente, o mercado impõe ao estado suas medidas reformistas. Um presidente decorativo serve ainda melhor ao fingimento da grande mídia, que conhecia muito bem o perfil dos políticos brasileiros, mas deu curso à fábula da “quadrilha petista” o quanto pôde, empreendeu e exaltou o “plano Michel”, e agora finge espanto pelas gafes do presidente, pela sua impopularidade, fingindo que deseja a sua saída do poder.

Todos fingem, enquanto o país caminha para a sua derrocada, para o banimento e o esquecimento das poucas conquistas alcançadas nos últimos treze anos.

O presidente decorativo finge que governa, e, banhando-se no caldo da sua própria vaidade, entrega o país à voracidade dos grandes tubarões.

Intervalo para a }Ternura

Ou seria uma carta para os meus leitores?

Sim, queridos leitores, farei um breve intervalo para a ternura, o silêncio, o recolhimento. O mundo onde vivemos está tão difícil, minhas crônicas andam tão duras, que precisarei parar para me reabastecer, para o repouso do verbo, para o desacelerar da maquinaria das narrativas, para a quietude e os gestos da calmaria.

Quando eu era pequena, em todas as vezes que ia dormir, ficava sonhando com uma casa muito pequena, onde eu vivesse, com economia de gestos, com ações delicadas, com coisinhas miúdas, cada uma no seu lugar.

Era talvez a minha versão privada de uma casa de bonecas. Mas eu cresci, li romances, e descobri a metáfora do poço.

O poço privado de cada um pode ser uma experiência terrível, mas, pode ser também um lugar de aprendizado profundo, de felicidade conquistada no silêncio da terra, num único raio de sol iluminando obliquamente as profundidades.

Aprendi isso com Harumi Murakami, no seu livro, “A Crônica do Pássaro de Corda”. Desde então minha pequena casa de bonecas da infância transmudou-se para a versão do poço privado.

O problema do mundo contemporâneo, é que parece que todos nós mergulhamos num poço coletivo, e nesse lugar há pouca luz, pouco ar, e nenhum silêncio, senão o clamor terrível da guerra das narrativas, o barulho dos carimbos da lei, a arenga perpétua das torcidas, em uma partida onde se perdeu a ética, o respeito, o zelo pelas coisas do mundo.

Como num imenso jogo de ping-pong, as coisas más colidem umas com as outras e viram notícias do dia. Atentados em Londres e no Irã, estupros coletivos na baixada fluminense, Trump fugindo do acordo do clima, a guerra brasileira, com seus trezentos mil jovens negros pobres mortos, sua elite corrupta e sua política de porões e vozes sussurradas.

Vou sair. Ou seria melhor que eu dissesse que vou ficar em mim, vivendo um cotidiano feito de pequenos gestos, coisas delicadas, cantigas de ninar e hálito de presença de criança?

Vou guardar as chaves do mundo na terceira gaveta da minha escrivaninha. Vou deixar inconclusa essa minha longa crônica desse poço coletivo. Saltarei barrancos, retrocederei, até essa esquina  de lugar nenhum, onde eu mesma, acordada, ouço cantos de pássaros, sinto cheiro do primeiro café, assisto à calma dos gatos nas suas almofadas, canto para um menino ocupado em crescer, invento só para ele a ternura de que um dia também precisará, para tecer o mundo de lá fora.

Vou visitar minha casa de bonecas, arejar seus pequenos cômodos, deixar que o vento brinque com seus ínfimos esconderijos. Trarei de lá, delicadezas, gestos cuidadosos, colheres tortas e invenção de ternuras para o menino que dorme.