Uma Lenda para o Novo Mundo

Muitos de nós estamos perplexos, impressionados de como pudemos chegar até aqui, no mundo rosa/azul da ministra Damares, um mundo do ministro Vélez, inimigo contumaz do marxismo cultural, um mundo capitaneado pelo presidente Jair Bolsonaro, que incita seus apoiadores ao extermínio da bandeira vermelha, nem que para isso seja necessário manchar a camisa de sangue.

E de que maneira chegamos até aqui? Tenho certeza de que esse quixotesco passo se deu por conta de uma narrativa. Sim, porque para se erguer uma multidão, para se fazer com que essa multidão vibre numa mesma sinfonia, para que se possa fazer com que essa multidão ecoe o mesmo brado, há que se ter arranjado as sílabas de uma narrativa, há que se ter inculcado nas cabeças dessa multidão, a síntese principal desse arrazoado.

Os veios dessa narrativa são simples, e já foram assacados em outras épocas históricas, tanto aqui no Brasil como em outras partes do mundo. O arranjo envolve a construção de um inimigo, o engendramento da sua derrocada, a forja dos heróis que darão sua vida e seu sangue para o seu extermínio.

No Brasil, o inimigo a ser combatido são os governos do PT, e, na proa do seu legado, a pessoa do ex-presidente Lula. A narrativa de combate foi sendo gestada desde o princípio do primeiro mandato do ex-presidente em 2003, e foi crescendo, ganhando contornos importantes e lapidares, à força de uma conjunção que envolveu a grande mídia comercial, o parlamento e o poder judiciário.

O inimigo foi vestido com as cores da corrupção, e, nas ruas e praças do país, ganhou bonecos infláveis vestidos de presidiários, para gáudio e urras de multidões convocadas pela própria mídia em seus horários nobres. Em 2014, a narrativa ganhava um novo herói, saído das hostes da justiça, empunhando a lava jato como a grande usina capaz de triturar o que era conhecido como o “quadrilhão do PT”. O modus operandi deu certo.

Levou algum tempo até que chegássemos aqui. Os detentores da narrativa de combate organizaram-se, e, em 2016, depunham Dilma Rousseff do palácio do planalto. Abriam as porteiras para que se estabelecesse um novo governo interino, apto a combater a corrupção e erguer sua ponte para o futuro. Instalado o processo eleitoral, encarcerado o ex-presidente cujo capital político era uma ameaça concreta, limpou-se a pista para que a narrativa pudesse apresentar-se em toda a sua limpidez.

Cada uma das candidaturas buscou tirar proveito da narrativa. Mas nenhuma conseguiu empunhá-la com mais maestria do que a candidatura de Jair Bolsonaro.

Ele, esse cidadão ordinário, no dizer de Eliane Brum, foi capaz de tocar nas cordas mais íntimas da parcela conservadora de nossa sociedade. Ele conseguiu aglutinar em torno de si, as outras vozes que ecoavam esses ditames: combate ao inimigo, que ora chamam de PT, ora chamam de socialismo, ora chamam de ideologia.

Chegamos até aqui, mas há uma profunda sede de vingança dos detentores dessa narrativa nefasta. Chegamos até aqui, mas ainda poderemos afundar muito mais, num novo modo de combate que apenas está começando.

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa de hoje do Jornal #AUniao)

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Fabrício Queiroz: Um Cidadão de Bem

 

(Este post foi publicado na última sexta-feira, em minha coluna impressa do Jornal A União)

 

Assisti a íntegra da entrevista de Fabrício Queiroz à jornalista Débora Bergamasco no SBT. O ambiente era protegido. Não houve perguntas incômodas, ao contrário, havia o intuito de que ele se explicasse, pudesse contar a sua história plausível, e assim viesse a aplacar o enorme ruído em torno das suas operações financeiras descobertas pelo COAF.

Ao longo da entrevista, Queiroz foi desenhando em largos traços o seu perfil. Pai, marido, cumpridor dos seus deveres. Trabalhador contumaz, deu sangue e suor para a campanha ao senado do seu empregador, Flávio Bolsonaro. Alcançada a vitória, era hora de pensar em si mesmo.

Com um sorriso no rosto, Queiroz revelou os flagelos que enfrenta. Uma bursite no ombro, um pouco de sangue nas fezes, e, no dia mesmo em que deveria atender à quarta intimação do Ministério Público, a notícia de que tem um câncer no intestino, um tumor grande que precisa ser extirpado.

Não, Fabrício não usou essa palavra extirpado. Ele até se atrapalhou na hora em que revelou que havia feito uma biópsia. Queiroz fala de maneira simples, abusa dos rs, insiste no vício de que ele é o “pobrema”, na tentativa de afastar a família Bolsonaro das investigações do Coaf e do barulho da imprensa.

“Um cidadão de bem”, “um sujeito bacana”, “querido, muito querido”, e para provar, declara à jornalista que recebeu mensagens solidárias de dez, doze parlamentares da Alerj.

O tempo todo Fabrício usou uma tática que parece lhe ser habitual: Fabrício revelou coisas e omitiu outras, sempre com o mesmo sorriso e a certeza de que estava num lugar protegido. Com naturalidade, disse que só falaria sobre as movimentações da sua conta bancária no Ministério Público. Escondeu o sobrenome do seu médico, assim como o hospital onde esteve internado para exames invasivos.

Deu detalhes muitos sobre a sua doença. Falou do estado das suas fezes, riu ao descrever o exame de toque, o primeiro que fez na vida, segundo declarou. Até aproveitou para mandar um recado às filhas: “Papai tá bem, papai vai ser operado, mas tá bem”.

Uma história plausível? Eu diria que há na sua narrativa, um esforço canhestro de edição. Um jeito mal arrumado de dizer as coisas, colocando fatos díspares em cima de fatos díspares. Engenharia doméstica para forjar a sua casca de cidadão de bem, homem trabalhador, um sujeito que sabe “fazer dinheiro”.

A narrativa de Queiroz oscila entre uma esperança e o risco completo. Esperança em que o jornalismo declaratório e factual empacote sua história como verídica. Esperança de que o MP estadual, aliado ao Ministério da Justiça, endosse e dê plausibilidade ao seu discurso.

O risco vem do lado da possibilidade de um jornalismo investigativo prosseguir escavando as lacunas da sua história. Um jornalismo investigativo que queira insistir em perguntas incômodas, provas e contraprovas, um jornalismo ocupado em perseguir os rastros do dinheiro do Queiroz, isto sim, poderá ser um grande risco para a ruína da sua narrativa.

 

Ceia de Natal

 

Vivemos esses últimos dias feito sonâmbulos, arrancando sonhos às braçadas, do imenso caldeirão do consumo. Frenéticos, agarramos vestidos, sapatos, vinhos, maquiagens, longas argolas douradas e prateadas, celulares, muitos celulares, porta-retratos, velas perfumadas, um papai Noel esgoelado, à espera das pilhas, pacotes de viagens, pinheiros artificiais, grandes potes de sorvetes.

Somos um só e único bicho coleante, olhares esgazeados, risos descontrolados, mãos atarefadas, puxando, rasgando, segurando, apertando.

Siderados, contemplamos nossas mercadorias, enquanto os bips das máquinas registradoras e o ciciar plástico dos empacotadores abafam os guinchos do mundo.

Braços carregados de sacolas, seguramos com zelo os sonhos que pudemos arrancar do grande caldeirão do consumo. Outros são arrastados ciosamente pelos entregadores: móveis, carros, barcos, jatos novinhos deixados nos hangares feito pássaros inertes e brilhantes.

Compramos sonhos aos bocados, como se pudéssemos matar a sede, o vazio, o aperto no peito que nos tomam de assalto, enquanto o mundo real quebra os ossos da vida, esfarela possibilidades, cozinha suas litanias em fogo alto.

É assim todo fim de ano. Mergulhamos no imenso e viscoso mundo da publicidade, reféns das nossas antigas crenças, feito baratas tenazes, passeando na sopa fria da coalhada árabe. Imersos nesse mundo, com mãos ávidas, rompemos filas, ajuntamentos, para agarrarmos o que for possível. As canções, a profusão das luzes e enfeites, como que nos ajudam a vestir a fantasia dos frenéticos, dos sonhadores, enquanto que nosso peito rufa inutilmente seus vazios, sua espécie de fome, que nos encaminha de imediato ao mac donalds.

Poucas horas para a ceia, a missa do galo, mas nós continuamos nosso périplo, braços carregados de sonhos, as máquinas registradoras quase gritando para abafar a realidade que se prepara, a golpes de martelo, a carimbos ritmados, a tiros, gritos, papelotes e pedras.

– Feliz natal, dizemos com a boca cheia de peru, as mãos estendidas para a taça de vinho, olhos fitos no panetone trufado, à espera do primeiro corte.

– Feliz natal, dizemos todos com a boca cheia dos sonhos que pudemos arrancar do grande caldeirão do consumo, nossa pele vestida de sonhos, nossos pés trauteando a cantiga do sapato novo, nossos brincos grandes girando e brilhando debaixo das luzes da árvore de natal.

Batemos com os talheres nos pratos, cantamos ou falamos mais alto do que de costume, rasgamos papéis coloridos para esventrar os sonhos comprados no bazar.

Tudo para ocultar um mundo que brame e freme, um mundo que fere, corta, e cerze com o agulhão da maldade, as dores novas, por cima das dores velhas.

– Feliz natal, gritamos em coro, enquanto o mundo real estruge em gargalhada cínica, o grande ricto de maldade a selar os últimos atos, as últimas ordens, o pesado molho de chaves a trautear nas mãos infames, as últimas sílabas da sela fechada, o último gesto para o primeiro minuto da danação.

 

A Caligrafia do Desespero

 

Escrevo como quem salta obstáculos. Escrevo como quem olha para o chão, tentando escolher um lugar seguro onde pousar o pé, dar o próximo passo. Escrevo como quem busca respirar, algum naco de ar limpo. Escrevo como quem tenta lavar as mãos, retirando um pouco de água da superfície, vagarosamente, pequenos goles, não vá eu despertar a lama, os gravetos, o cheiro a esgotos.

Escrevo como se caminhasse sem sair do lugar, os pés batendo impunemente no mesmo pedaço de solo, as mãos a chacoalhar o vazio, a cabeça voltada para a frente, a fitar o nada.

Olhos arregalados, escrita de quem não vê a próxima letra, o intervalo entre as frases, a dicção de uma narrativa possível a imprimir-se em cada linha.

Escrita sem objetivo, sem plano, as palavras zunindo e se esboroando no silêncio, na certeza de que já não haverá leitores que compreendam essa determinação.

Habermas disse outro dia, com outras palavras, que a grande crise do mundo radica na falta de leitores. Eu digo mais. Digo que se ainda os houver, leitores estão sendo caçados, execrados, silenciados.

As pessoas já não leem. Elas apenas reagem aos gritos. Frases telegráficas de condenação, tiros nas vielas e nas vias principais, ordens de prisão, ordens curtas para que se arquivem processos, decretação de sigilo, páginas e páginas borradas, não escritas, cinismo e negação do que já foi, cinismo e negação do que será.

Escrevo como quem procura uma falha, uma zona de contato, uma chave que desperte os leitores, uma sílaba qualquer que os paralise, e que de pronto, ao modo de um guia, os reconduza ao início da página, mas logo abandono esse propósito vago, e me perco na falta de acento, nas fontes serifadas cujas hastes de coisa nenhuma espreitam como vermes, para essas frases sem sentido.

Escrevo como quem tenta apreender a caligrafia do desespero. Por isso repito a mesma linha inicial, mudando as palavras, mas o eco é o mesmo. Não há o que escrever, porque não haverá leitores.

As páginas do jornal giram pela casa ao sabor do vento, e são como que aplausos e bandeiras desfraldadas, a saudarem a inclemência e o cinismo.  E na tv, ancoras desfilam sorrisos e acenos para uma realidade sombria, destacando palavras como fome, sífilis, bala, bíblia, pedofilia, arquivar, arquivar, arquivar.

Afio a mesma pontada de desespero, para a escrita dessa linha inicial, em meio à balbúrdia desses dias, os relógios zerados, as cidades entulhadas de inércia e de contradições, os gritos e as buzinas dos batedores, abrindo portas, chamando os censores, os julgadores, batendo pregos e parafusos nas páginas da lei, organizando o mundo onde leitores já não serão necessários.

 

(Este post será publicado amanhã em minha coluna impressa do #JornalAUnião)

Mais do Mesmo na Velha Mídia

Reproduzo aqui, minha coluna de agosto de 2013, escrita na época da chegada dos profissionais do “Mais Médicos”.

 

Estão chegando. Da Espanha, de Cuba. Falam a mesma língua, mas, curiosamente, cada um tem um discurso territorializado. A médica cubana, no aeroporto do Recife, diante dos microfones da Globo, disse que vinha para colaborar com o povo brasileiro. A médica espanhola disse que estava vindo “com medo do desconhecido”.

O que impressiona, nesta cobertura do programa “Mais Médicos” feita pela velha mídia, é o desarrolhar da antiga maquinaria discursiva da época da guerra fria, é o revalorizar da polarização entre capitalismo e comunismo, num tempo em que as polaridades estão cada vez mais diluídas dentro de um projeto de mercadorização da vida do mundo, em todas as suas esferas.

Mais médicos, mas o problema do nosso mundo não se resolverá. Levas e levas de médicos, mas a doença principal que acomete o mundo ficará intocada. Um mundo que foi alicerçado em cima de fraturas. Na era dos cruzados, eram os cristãos e os bárbaros. No período moderno, o estado, os cidadãos livres, a massa operária e aqueles que só tinham de seu a miséria.

Os dias de agora são os de valorização do Deus capital, alimentando-se de si mesmo, nos paraísos da liberdade fiscal. As fronteiras abissais, como bem nos diz Boaventura de Sousa santos persistem. O seleto grupo dos afortunados, as classes médias, ora ganhando, ora perdendo nacos de status; a horda dos pobres, com seus diversos graus de carecimentos.

A velha mídia, aferrada às velhas engrenagens da política, feito um cão subserviente e fiel, repete a narrativa da batalha entre comunismo e capitalismo. O “mais Médicos” veio para ajudar ao comunismo dos Castro. Veio para escravizar trabalhadores, rosnam seus microfones e as suas manchetes impressas.

Quase nada se diz sobre o mundo real. Tampouco se toca no mundo dos afortunados, essa casta privilegiada que usufrui livremente dos bens, dos serviços e da riqueza produzida por todos.

Nada se fala sobre a condição humana, recebida por cada habitante da espécie mamífero/falante/pensante que chega ao planeta terra,  condição que foi se degradando por entre os desvãos dessa organização abissal do mundo.

 

Venham todos os médicos, trave-se a batalha entre os médicos brasileiros e os médicos do resto do mundo. A doença da desumanidade, a doença da mercadorização da vida, a doença da fome do capital, estas, não tem médico que cure.

A velha mídia, por sua vez, nada dirá que não seja a repetição do velho discurso da política, maquiagem para esconder as reais fraturas do mundo vivo, ocupado em engendrar suas magníficas ou cruéis maneiras de se ser humano.

A Palavra das Urnas

No próximo domingo, as urnas dirão a palavra final sobre as eleições presidenciais de 2018. As urnas encerrarão o debate sobre quem, ou o quê venceu a batalha: Se o fascismo, a mediocridade, a apologia à violência e à mentira, ou a defesa da democracia, da justiça social, do resgate de um projeto de inclusão e cidadania.

A verdade é que nesses últimos dias de campanha, tenho pensado no ex presidente Lula, encarcerado em Curitiba, mas, reinando como um hárbitro silente e justo sobre o processo histórico, político e democrático do nosso país. Lula tem nos apresentado lições que não sei se serão plenamente compreendidas ao longo da história. Lula tem indicado caminhos, tem apontado bifurcações, passagens e possibilidades de saltos, nessa difícil estrada por onde tentamos prosseguir.

Um dos seus gestos marcantes foi a indicação da presidenta Dilma à presidência da república. O Brasil inaugurou a era em que a mulher ocupou lugar de destaque, o mais importante. A sociedade, a mídia, o parlamento, a oposição  e o judiciário, não compreenderam o gesto de Lula, tampouco reconheceram e apoiaram a eleição da presidenta pelo voto popular, sobretudo a partir do seu segundo mandato.

E eis que agora estamos votando numa segunda indicação do ex presidente Lula. O candidato Fernando Haddad, que ao longo dessses mais de quarenta dias de campanha tem se revelado um humanista, um estadista, um incisivo defensor da cidadania, da justiça social, da luta pelo fim da pobreza e das desigualdades que separam ricos e pobres.

As urnas dirão, no domingo, a única palavra que definirá os destinos do país nos próximos quatro anos. Essa palavra decisiva, virá carregada de significados e desafios difíceis a serem enfrentados.

Caso vença a democracia, corporificada na candidatura Haddad, A sociedade brasileira, os movimentos sociais e o governo eleito, terão de se unir às forças progressistas e democráticas do país, no sentido de que seja estabelecido um pacto de governabilidade que preserve a democracia e permita que seja posta em prática a plataforma política que alçará o candidato à presidência da república.

Mais que isso, há que se vencer a narrativa e os gestos políticos da polarização, do divisionismo, há que se vencer os discursos e os gestos de ódio que estão minando a capacidade do diálogo, da sociabilidade e da convivialidade pacíficas.

Se entretanto as urnas pronunciarem a palavra da vitória do fascismo, da intolerância, do estado mínimo, do governar para o mercado nacional e internacional, do mesmo modo, toda a sociedade terá de arregimentar suas forças democráticas e progressistas, em defesa da cidadania, da inclusão social, de um projeto de nação sintonizado com a defesa dos direitos das classes trabalhadoras e dos mais humildes.

O telegrama das urnas será curto e definitivo. Para o país, qualquer que seja o seu significado, restará um longo e duro processo de enfrentamento das feridas que a refrega política tem marcado, nos corpos e nas almas de todos nós.

Desliguem a Tv: A Notícia Saiu de Cena

No início da manhã de hoje, quinta-feira, dia em que escrevo a coluna, as redes sociais como Twitter e facebook entraram em ebulição por conta de manchete de capa do jornal Folha de São Paulo. A notícia dá conta de que o candidato Jair Bolsonaro fez contratos milionários com empresas brasileiras e estrangeiras, para a compra e distribuição de feke News através do aplicativo Whatzapp.

Os primeiros números descobertos são estratosféricos. Contratos que orçam em cerca de 12 milhões de reais; quarenta mil grupos de Whatzapp contratatos para a distribuição e disseminação da virulência, da mentira, estratégia planejada para se intensificar na última semana antes da votação para o segundo turno.

Nos últimos dias, se saímos às ruas com adesivos ou camisas vermelhas, somos atingidos por gestos que simulam disparos de armas, alguns dos quais, infelizmente, já se concretizaram em ação concreta e contundente, a exemplo da morte do capoeirista baiano Moa do Catendê. Os ostensivos disparos porém, são de uma arma de outro calibre. Silenciosa, instantânea, de massas, a mentira difundida pelo what sapp vai destruindo o senso de reflexão crítica, o desejo do diálogo, do embate saudável de ideias, para inocular o ódio e o gesto do voto motivado pela vingança, pelo individualismo e egoísmo mais nefastos à construção de um projeto de país cidadão.

O mais estranho nisso tudo é o comportamento da grande mídia comercial a respeito da notícia. Nas tvs comerciais, os gatekepers trabalharam duro para que a notícia não chegasse ao portão principal da divulgação em seus telejornais. Silêncio total sobre o fato, que alcançou os tópicos mundiais do Twitter com a hash tag #CaixaDois.

No jonal Hoje da rede Globo, foi posta em operação a máxima “se achar melhor a gente não publica”. O jornal trouxe notícias sobre a terra vista em três dimensões, sobre um artista europeu que destruiu sua própria obra, sobre a probabilidade de visita do papa Francisco à Coréia do Norte. Na seção sobre as campanhas presidenciais, apresentou-se longa e complicada nota dos médicos de Jair Bolsonaro acerca da possibilidade do candidato estar nos debates. Na entrevista dada pelo candidato Haddad à rádio Tupi,a tv Globo suprimiu todas as falas do candidato referentes à denúncia estampada na folha.

Façamos um exercício de especulação, imaginando que o fato houvesse sido descoberto na campanha de Fernando Haddad, opositor de Bolsonaro. Certamente a notícia arrombaria todos os portões da tv, extrapolaria os noticiários, invadiria os programas de entretenimento, de esportes, transbordaria até para os horários dos comerciais.

Melhor já ir se acostumando. Se o candidato do ódio e da mentira vencer, conforme apregoam as pesquisas do IBOPE, a lei da mordaça e do silencio deverá imperar nas redes comerciais de jornalismo.

A campanha do candidato da bancada da bala instituiu a mentira como principal vedete para levar os eleitores às urnas, sob a pecha de que ele é honesto, e fala a verdade. Esse texto porém, só se sustenta em mensagens de whatsapp, regiamente pagas e atiradas na cara do cândido e revoltado eleitor. A mídia comercial, segue editando as falácias que ele distribui nas redes, a partir do subserviente trabalho dos seusancoras e comentadores.

Junto com a democracia, junto com a verdade, junto com a Justiça Eleitoral e o seu propalado combate aos fake News, o tele jornalismo brasileiro tambémmergulhou fundo nos excrementos jorrados pela política do PSL e seus apoiadores.

O Cheiro da Catástrofe

Recordo-me, ainda menina, quando comecei a enveredar pela leitura dos romances de José de Alencar. Em “O Guarani”, encontrei cenas impressionantes, narradas com palavras grandiloquentes.

Lembro-me bem da primeira vez em que topei com o termo catástrofe. A palavra me soou estranha, experimentei como se ela fosse um punhado de pedras grandes, vindas não se sabe de onde, esbarrando em mim com o furioso reboar de consoantes em excesso, estalando os estranhos sentidos que eu ainda não compreendia direito.

Hoje ocorre-me a palavra, em toda a sua propriedade. A catástrofe abateu-se sobre nós, invasiva, prolixa, contundente. Fazemos as coisas de todos os dias. Acordamos, vamos trabalhar, falamos com amigos no café ou na praça; lemos um livro, gastamos nossas horas de surf pelas redes sociais. A verdade é que a normalidade é só aparente.

A catástrofe veio para ficar. Acercou-se das nossas vidas como um hóspede indesejado. Tomou as chaves da nossacasa, dita as ordens sobre o que devemos pensar, estanca nosso passeio na rua, impede a tranquilidade do nosso ir e vir, povoa nosso horizonte social com nuvens e nuvens de presságios sombrios.

A catástrofe chegou, como uma espécie de rio de larva, espalhando-se ora de maneira lenta, ora de forma irruptiva, tomando posse de todas as franjas culturais, reverberando em todos os poros da cibercultura, forjando a gramática macabra das agendas interpessoais,espalhando medo corrosivo e paralisante entre os vários grupos da sociedade.

Somente na grande imprensa se tenta manter o tom de normalidade. Ancoras de tv dão as más notícias com o eterno sorriso nos lábios. A frase que mais se ouve, por entre microfones de lapela, é a de que as instituições são fortes e estão funcionando normalmente.

A grande imprensa cuida para que o cenário, o contexto, os personagens, sejam empacotados para  a construção da narrativa da normalidade entregue a uma audiência perplexa.

A grande imprensa cuida do jornalismo mínimo, factual, pequenos pedaços de informação a se apresentarem como os fatos mais importantes, a serem deglutidos, digeridos,ruminados, enquanto cá fora, o mundo estrurge, rosna, escoicea, espolca em tiros e gritos de louvação a esse acontecer macabro.

A catástrofe tem personalidade, tem um gosto ácido, um cheiro à putrefação. E de novo ocorre-me uma palavra das leituras da infância. Penso num outro livro de José de Alencar, “O Tronco do Ipê”. É de lá que minha memória recupera outra palavra:Alvíssaras! Em que mundo terá habitado essa palavra? Em qual realidade ela novamente fará sentido,

Debate ou Debacle: O Partido da Rede Globo e seu Inimigo Político

O partido da Rede Globo sairá dessas eleições sem um candidato explícito, mas é certo que terá combatido com veemência e beligerância nunca vistas, o seu maior inimigo político: o Partido dos Trabalhadores e a figura do ex-presidente Lula, encarcerado em Curitiba.

A campanha eleitoral iniciou-se com o partido da Globo apostando suas fichas na candidatura Alckmin, e depois, com menos entusiasmo, na candidatura Amoêdo. As duas concorrentes tiveram desempenhos pífios, somente amealhando índices mais expressivos no quesito rejeição. Sem uma candidatura para chamar de sua, o Partido da Globo foi fazendo seu jornalismo factual e previsível, até que, no dia 17 de agosto, definiu-se por fim, a validação da candidatura de Fernando Haddad, em substituição ao nome do ex-presidente Lula.

Os Institutos iniciaram o trabalho de perquirição da vontade do eleitor, e, para desespero do partido global, Haddad apresentou um assombroso desempenho rumo ao segundo turno. Era necessário acionar a maquinaria de destruição, era imprescindível torcer o pêndulo da política, invocar as hashtags do medo, pedir ação ao judiciário, conjurar a célebre fórmula: “com o Supremo, com tudo”.

O partido da Globo acha-se agora em pleno combate. A artilharia vai desde a famigerada entrevista do JN, aos programas dioturnos da Globo News, pondo seus âncoras e comentaristas a serviço daquilo que chamam de debate. Na verdade, trata-se de um debate monotemático, com uma só voz: o país caminhará ou para a extrema esquerda radical, ou para a extrema direita. O antipetismo do Partido da Globo, atribuído ao povo, como se a rede televisiva nada tivesse a ver com isso, o antipetismo é rechaçado e mesmo celebrado, a cada pesquisa que deságua, de dois em dois dias, nas falas sorridentes dos comentaristas, nos seus gráficos e artes animadas.

O judiciário também vem colaborando. O juiz Sérgio Moro, há seis dias das eleições, empacotou para o trabalho da mídia televisiva, trechos da delação de Antonio Pallocci. Do Supremo veio a súmula do seu novo presidente: Lula não falará à imprensa nem sobre política, nem sobre coisa alguma.

Nas redes sociais, território aberto a toda sorte de narrativas, pululam fakes News envenenando a todos. Um cenário tão desolador, que qualquer prognóstico é temeroso. A primeira conclusão acertada que se tem, é a de que o país continua sem mídia, tampouco consegue engendrar uma opinião pública consistente, capaz de forjar um pensamento reflexivo e transformador sobre tudo o que estamos vivendo.

A conclusão segunda e mais óbvia é a de que a guerra contra o inimigo político da rede Globo somente se acirrará nas próximas horas. As elites, a mídia brasileira, poderão suportar e fazer pacto com o “inominável”. Mas lutarão pesado para que o PT não regresse ao poder. O que a imprensa faz, nesses dias tenebrosos, é jornalismo publicista, campanha política de combate contra um partido e o seu líder de massas. 0A imprensa brasileira, com o judiciário, com o Supremo, nos empurra rumo à uma debacle de consequências imprevisíveis.

Carta para Ronaldo Monte

 

Querido Rona.

 

Tenho um coração em desconcerto, e entre mãos, o teu “Manual Prático do desaparecimento”.

Procuro no livro uma mensagem cifrada, uma chave que seja, que possa abrir o mundo do entendimento, do consolo, da plena aceitação.

Seu plano de fuga deu certo. Sem aviso, sem estardalhaço, foi-se o seu riso frouxo, sua tagarelice alegre, sua voz morna a vaguear entre as sílabas de alguma crônica, alguma poesia. Minhas lembranças, da gente juntos, como que se atropelam na minha memória desalinhada. Lembra daquela oficina de Haikai, com Alice Ruiz, Valéria, Beto, Everaldo…. Naquele dia passamos horas a fio sentados no jardim, tentando escrever haicais que faziam que estourássemos de riso, de tão ruins que eram.

Naquele dia, você tentou me ensinar a criar alguma figura na areia. Já nem me lembro que figura era, só me recordo da sua paciência, da sua galhofa, do seu frouxo de riso.

E no Clube do Conto? Que tempo bom era aquele nosso, de espicaçar aqueles de quem mais gostávamos? E veio o “Lunário perpétuo”, onde escutei os sininhos de vento a brigarem com sua risada. E os lançamentos, onde você me conduzia pelo braço, e eu me sentia encantada e envaidecida, feliz de poder fazer duo com suas traquinagens.

E a festa da sua embaixada em Usupp? Tá bem, pode ser que eu tenha escrito errado, mas naquele lugar, por onde se chegava a partir de uma geografia impossível, Cabedelo/ Usuppy, naquele lugar você plantou a liberdade no centro de uma constituição escrita em apenas uma página de crônica. Naquele lugar você era o embaixador, e eu pedia uma vaga de ministra, enquanto bebericávamos cerveja e sucos, e sorríamos a mais não poder.

E nem faz tanto tempo, todos acorremos à bodega, para o lançamento do seu Manual Prático de Desaparecimento, que afinal estava mesmo desaparecido. Os poemas em um caderno, você chamando as pessoas para ler ao microfone, prometendo um segundo lançamento ao qual não pude ir.

Somente hoje, quando abriu-se essa imensa clareira de silêncio, somente hoje compreendi que você sempre habitou no centro da palavra. Com a palavra, você cerziu, rasgou, cinzelou, esculpiu memórias do fogo, desvelou paixão insone, inventou falas para encantar crianças pequenas, desenhou comtraço ao mesmo tempo delicado e firme, , poemas para canções admiráveis.

E eis que vasculho entre as páginas do seu manual prático de desaparecimento, e só encontro o tempo a liquefazer-se em espera, em promessas de reencontro, sílabas grafadas pela sua mão, como uma múltima oferenda, um canto timbrado pelos tons da beleza, um canto a forjar como que asas, como que pétalas, como que sonhos de esperança.

Eu queria dizer tanta coisa Rona. Mas só fico aqui dando voltas em torno desse meu espanto, por esse silêncio absoluto, essa interrupção, esse gesto inacabado. Fico aqui revirando essa minha tristeza, enquanto palavras pálidas, na página do jornal, repetem o eco dessa minha carta de despedida.

 

(Este post foi publicado ontem, sexta-feira, em minha coluna impressa do Jornal A União)