A Alegria se foi

Faltam pouco mais de vinte dias. A Copa vai chegar, mas o meu país, como se fora um gigantesco monstro enjaulado, assombrado por um banho de água gelada, espreita para fora, espera, avalia, sem um naco qualquer de alegria.

Eu própria, olhando para esse cenário, faço a pergunta infantil e tola: Então não somos o país do futebol, não queremos ficar com a sexta taça do mundo, não exportamos os melhores craques, para fazermos a alegria das maiores torcidas do mundo?

Sim, um fato é inegável. A alegria se foi. Há uma revolta, ora represada, ora exposta, que ameaça a Copa do Mundo, essa festa dos campeões, do esporte, das indústrias dos tênis, das bebidas, dos alimentos fast-food, dos automóveis.

Não há como negar, nesse grande caldeirão onde antes imperava a alegria, a ira, a revolta, feito água fervente, tendem a transbordar, para a incompreensão dos dirigentes, dos vendedores, dos organizadores, dos comunicadores desportivos.

Você se lembra como foi das outras vezes… O país todo vestido de verde e amarelo, as vitrines abarrotadas das quinquilharias, todas sendo disputadas a gritos, cheios de alegria, dos vendedores, dos compradores, dos torcedores…

Agora não. Agora, a simples menção da Copa gera um protesto. Pneus queimados, correria, balas de borracha, privadas sendo atiradas de pontos estratégicos, bananas, muitas bananas.

O mundo é outro. As pessoas trazem a sisudez dentro e fora das máscaras.

Há aqui um mundo todo a ser contemplado. Um mundo abarcado por três, quatro décadas, duas gerações talvez. Um mundo dos pais e dos avós, saídos da ditadura, gente que lutou para ver a política como um lugar de emancipação. Um mundo de pais e avós cansados, de filhos descrentes.

Um mundo no qual a descrença, a desesperança e uma ira perigosamente alerta tomaram o lugar da alegria, do encantamento por ver uma bola a girar com graça, com elegância, com maestria, a trazer as taças.

A copa que se jogará daqui a pouco, não é mais a copa dos brasileiros. Nas casas, na rua, no bar, na praça, não se fala em Copa. Armam-se manifestações, acumulam-se pedras, pneus e bananas..

A copa que se jogará daqui a pouco, é um mega-espetáculo publicitário, curiosamente brilhante, mas completamente afastado do povo, da sua vontade, dos seus cantos de alegria, represados.

Aprontam-se estádios gigantescos, distribuem-se os ingressos, esmeram-se os artistas para os últimos ensaios, os políticos seguram as chaves das cidades cede e intimamente, escutando o bramir surdo das ruas, perguntam-se à medo e incredulidade: Então, o que é que eles querem?

Apreensiva, eu também conto os dias. Espero a Copa, mas não estou alegre. Sei que vou me emocionar quando se iniciarem os primeiros acordes do Hino nacional. Sei que vou gritar alto, junto com todos os da minha rua, quando a primeira bola brasileira invadir a rede adversária. Mas não, não estou alegre. Não adianta ensaiar o samba, o frevo, porque já conheço os tons da tenebrosa canção que se apronta, toda feita de ira, dos ruídos estranhos das balas de borracha, misturados aos rojões.

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa do Jornal A União, em 21 de maio de 2014).

Bananas Transgênicas?

No café da manhã de hoje, comi uma das bananas-prata que havia comprado ontem e pela segunda vez comprovei o quanto aquelas bananas eram perfeitas.

A marca 2g foi o que me fez escolhê-las logo. Grandes e gordas. Estavam ali para serem compradas, retas, lisas, sem qualquer rugosidade ou imperfeição.

Enquanto descascava a banana do café da manhã, minha cabeça de jornalista deu um clique. De imediato, meu cérebro como que me entregou a leitura de um código de barras invisível. Essas bananas são transgênicas.

Recordei o momento em que dispus as bananas na fruteira. Pesadas, muitas delas soltaram-se da penca, pelo simples manuseio. Ficaram ali, enfileiradas, apresentando ao mundo da minha cozinha branca sua beleza incontestável.

Comi a banana, sentindo seu sabor, entre o doce e o azedo, mastiguei cada pedaço, intimamente ruminando coisas sobre consumidores, cidadania e quetais: Por que os supermercados não nos informam que estamos comprando bananas transgênicas? Por que não sabemos sobre o café transgênico, o tomate perfeito transgênico, a carne transgênica?

Descobri horrorizada que em breve os seres humanos também serão transgênicos. Sim, a transgenia será inoculada em nós por essa cadeia de consumo, plantação/laboratório/supermercados/cozinha-branca/banana/boca.

Ninguém precisará lutar para que seja informado sobre um ser humano transgênico. Não, ele terá marcas identitárias visíveis: O ser humano transgênico cultiva a beleza. Olhe para o seu carrinho de supermercado e você o reconhecerá. Compra as bananas 2g, os tomates mais esféricos e perfeitos, a carne lacrada com selo frree, o café do tipo exportação.

Um ser humano transgênico não gosta desse tipo de discussão ecochata. Ele é decidido. Bate o olho na mercadoria e o seu cérebro lhe entrega o código de barra invisível, emparelhando a conexão do seu desejo com a coisa a ser comprada.

Com quase alívio, constatei, eu ainda não sou transgênica. Gosto da penca de bananas que vem com sua multiplicidade, sua diferença. Bananas convivendo juntas, umas grandes, outras menores, umas corcundas, outras retinhas, mas… com alguma rugosidade na casca. Gosto de bananas que levam tempo para se despegarem do cacho. Gosto de bananas que têm um sabor bem definido, doces!

Não sou transgênica ainda, e, enquanto arrotava, depois do café, pensei que tenho agora mais uma microluta para travar no meu dia a dia. Lutarei contra a transgenia, insidiosa, invisível, inoculando-se naturalmente em nós, por nossas próprias escolhas. Lutarei para ser eu mesma, até o fim, e nunca mais me surpreenderei por essas bananas tão perfeitas, tão incontestavelmente perfeitas.