“Precisamos de Uma Voz”

O que pode a arte? A pergunta aqui colocada é tão vasta quanto o universo que envolve a produção artística. Arte e cultura são como que as peles que tecem e vestem o corpo das coletividades. Arte e cultura são como doiscampos intercruzados, que ora se encontram, ora se desencontram, ora protagonizam a luta sem tréguas da multiplicidade de versões interpretativas.

A obra de arte, para ser inteira, deve abrir-se à multiplicidade de olhares, de toques, dos sentires/sentidos das audiências. Deve propiciar a sua própria desconstrução, deve permitir-se ser desbastada, a fim de que se possa compreender os mecanismos da sua criação, para que se possa sentir o vigor e os ecos mais profundos da sua narrativa, para que permita que a própria audiência se desconstrua, se perca no mais íntimo de si, e se reencontre revigorada, curiosa, pulsante.

Mas, que tipo de obra de arte poderá fazer isso por nós, na contemporaneidade? A arte foi inteiramente domesticada pela cultura do consumo ligeiro. Vassala da lógica do mercado, a obra de arte, sobretudo a midiática, não ecoa senão, os clichês, as superficialidades, os batimentos rítmicos feitos sob medida para que não haja lacunas, silêncios, indagações, inquietações. Tudo explicado na ausência da necessidade de interpretação.

“Precisamos de uma voz”. O apelo feito esta semana, na lista de discussão “Movimento”, da Organização Nacional de Cegos do

brasil, em alguma medida denuncia o estado precário da arte na telenovela brasileira. O drama exibido no horário nobre, sob o título “amor à Vida”, traz à cena, nos capítulos mais recentes, o tema da cegueira. O tratamento é tão rude, que obriga que os coletivos das pessoas com deficiência, cerca de 14 por cento da população do país, saiam da comodidade do sofá, da condição de assistência passiva, para protestar e reclamar contra a produção ficcional.

O que temem esses cidadãos, perguntar-se-ão os produtores de novelas. Arte é arte. Ficção, e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Pessoas cegas, em todo o país, independentemente da sua condição socioeconômica, são cotidianamente estigmatizadas, diariamente demarcadas por atos de preconceito e discriminação, frequentemente obrigadas a converterem o seu estar no mundo em atos de judicialização, de militância encarniçada pelo seu direito à igualdade, à cidadania plena.

O que temem pois com o drama da novela das nove? Temem que recrudesça na sociedade, essa visão estigmatizante e preconceituosa da cegueira. Essa ideia que associa deficiência à incapacidade, ignorância e incompetência, clichês que ecoam nos milhões de aparelhos de tvs, todos os dias, substituindo pequenas conquistas pelo velho paradigma que cristalizou na cultura o preconceito e a discriminação, por séculos e séculos amém.

Arte e cidadania parecem aqui estar em caminhos tão díspares, que jamais se reconciliarão. Aqui, a produção artística empresta-se como veículo para encenação da cegueira nos moldes do que há de mais picaresco, grosseiro e discriminatório.

Aos coletivos de pessoas com deficiência, resta o protesto, no melhor estilo da argumentação, da negação de uma encenação que os quer confinar em quartos escuros, à mercê dos piores instintos do espírito humano, no mais requintado estilo de ópera bufa, espetáculo macabro e repugnante, esculpindo na cultura o que há de pior, na história da telenovela brasileira.

Bananas Transgênicas?

No café da manhã de hoje, comi uma das bananas-prata que havia comprado ontem e pela segunda vez comprovei o quanto aquelas bananas eram perfeitas.

A marca 2g foi o que me fez escolhê-las logo. Grandes e gordas. Estavam ali para serem compradas, retas, lisas, sem qualquer rugosidade ou imperfeição.

Enquanto descascava a banana do café da manhã, minha cabeça de jornalista deu um clique. De imediato, meu cérebro como que me entregou a leitura de um código de barras invisível. Essas bananas são transgênicas.

Recordei o momento em que dispus as bananas na fruteira. Pesadas, muitas delas soltaram-se da penca, pelo simples manuseio. Ficaram ali, enfileiradas, apresentando ao mundo da minha cozinha branca sua beleza incontestável.

Comi a banana, sentindo seu sabor, entre o doce e o azedo, mastiguei cada pedaço, intimamente ruminando coisas sobre consumidores, cidadania e quetais: Por que os supermercados não nos informam que estamos comprando bananas transgênicas? Por que não sabemos sobre o café transgênico, o tomate perfeito transgênico, a carne transgênica?

Descobri horrorizada que em breve os seres humanos também serão transgênicos. Sim, a transgenia será inoculada em nós por essa cadeia de consumo, plantação/laboratório/supermercados/cozinha-branca/banana/boca.

Ninguém precisará lutar para que seja informado sobre um ser humano transgênico. Não, ele terá marcas identitárias visíveis: O ser humano transgênico cultiva a beleza. Olhe para o seu carrinho de supermercado e você o reconhecerá. Compra as bananas 2g, os tomates mais esféricos e perfeitos, a carne lacrada com selo frree, o café do tipo exportação.

Um ser humano transgênico não gosta desse tipo de discussão ecochata. Ele é decidido. Bate o olho na mercadoria e o seu cérebro lhe entrega o código de barra invisível, emparelhando a conexão do seu desejo com a coisa a ser comprada.

Com quase alívio, constatei, eu ainda não sou transgênica. Gosto da penca de bananas que vem com sua multiplicidade, sua diferença. Bananas convivendo juntas, umas grandes, outras menores, umas corcundas, outras retinhas, mas… com alguma rugosidade na casca. Gosto de bananas que levam tempo para se despegarem do cacho. Gosto de bananas que têm um sabor bem definido, doces!

Não sou transgênica ainda, e, enquanto arrotava, depois do café, pensei que tenho agora mais uma microluta para travar no meu dia a dia. Lutarei contra a transgenia, insidiosa, invisível, inoculando-se naturalmente em nós, por nossas próprias escolhas. Lutarei para ser eu mesma, até o fim, e nunca mais me surpreenderei por essas bananas tão perfeitas, tão incontestavelmente perfeitas.