A Lista de Janot: Uma Narrativa Nova para uma Sangria antiga

Finalmente saiu a primeira lista de Janot, na última terça-feira, e, como se fora os ecos do primeiro terremoto maior, continuam sendo divulgadas outras pequenas listas, dando-se curso a um processo que o judiciário chama de acepcia, enquanto o parlamento vive dias de susto, e a sociedade ora atônita, ora perplexa, não sabe o que dizer da sucessão vertiginosa dos escândalos cobertos pela mídia.

Duas questões precisam ser formuladas. Por que a mídia trata a corrupção da política como um fato novo? E, na esteira desta, por que a lava jato perdeu seu foco, o Partido dos Trabalhadores, os ex-presidentes Lula e Dilma, e transbordou para todo o sistema político?

Quero inicialmente falar sobre o comportamento da mídia. Os governos anteriores aos liderados pelo Partido dos Trabalhadores viviam num céu de brigadeiro. A corrupção era a moeda das relações da política, entretanto, empresários e classe política quase nunca eram importunados pelas impertinências midiáticas. Pequenas rusgas, conflitos passageiros, e, o arquivamento de denúncias, faziam com que se vivesse em paz, na república Sarney, na República do príncipe FHC.

Os governos do PT, que como todos os governos pós-diretas, eram governos de coalizão, entraram em cena, e mergulharam fundo no sistema corrupto da política. A mídia encontrou seu bordão predileto. Instalada no Palácio do Planalto, agia a maior quadrilha de corruptos, protagonizando o maior escândalo político da história brasileira.

Não se salvava ninguém da ala petista, sendo Lula e Dilma, os mandatários supremos da ladroagem. A narrativa fabulosa deu tão certo, que a presidenta foi deposta, e, por artes de retórica, santificou-se o mandato do vice presidente, alçado ao cargo máximo à custa de zero votos.

Mas, a fábula desmoronou-se. A verdade represada venceu a retórica e a lama dos propinodutos mostrou-se como realmente sempre foi, um ciclo perene de décadas e décadas, irradiando para todos os partidos.

Por que terá a lava jato perdido o foco? Por que a lama transbordou? Por que os filtros se desarrolharam? Só posso tentar responder à essa questão recorrendo à história, ao debate teórico. Ao longo da história recente do mundo, o neoliberalismo tem atuado no sentido de realinhar países que minimamente buscaram fortalecer a democracia e os direitos sociais dos cidadãos. Com todos os erros que pusermos na conta dos governos do PT, é certo que eles aprimoraram o processo democrático e ampliaram o rol dos direitos civis e sociais dos cidadãos. O primeiro golpe visava, pois, a liquidação do partido. O segundo golpe, em curso na atualidade, visa aniquilar a classe política, para que o país, inteiramente destroçado, possa ser reconduzido aos trilhos do capital neoliberal. As listas de Janot ainda soltarão sua infecção, mas, habilmente são torcidas as roscas e polcas que ajustarão a nova onda neoliberal. A mídia fará sua parte. Jornalismo declaratório e raso, sem veios com a história e a memória da sociedade dos últimos cinquenta anos.

Penso no que disse Chomsky, no primoroso documentário Requiém Para um Sonho Americano. A política, com P maiúsculo, a política dos cidadãos, aquela que de fato transforma a realidade, é feita de pequenos e grandes gestos, da indignação e da luta dos coletivos. O neoliberalismo pode ser perverso, pode minar o sonho dos cidadãos, mas pode ser também a oportunidade para que o povo tome nas mãos o destino que quer construir, com movimento, com luta, com coragem de protestar.

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União).

“Por que dilma mata as Pessoas”?

Guardei essa história, esperando que os ânimos esfriassem um pouco, mas ela ficou aqui dentro, pedindo pra ser contada.

Foi assim: No domingo do segundo turno, no final da manhã, depois de todos termos votado, eu e minha família decidimos ir almoçar num restaurante do centro da cidade.

Adentrávamos ao local, quando um pai e seu filho estavam deixando o restaurante. O menino, de cerca de seis anos, perguntou ao pai: “Pai, por que Dilma mata as pessoas”?

Ficamos chocados, quisemos dizer algo, mas, aquela era uma conversa privada, entre um pai e um filho pequeno.

Assistimos à saída dos dois, testemunhamos o silêncio constrangido daquele pai, que agora sentia vergonha por havemos escutado a pergunta do seu filho.

Fiquei por muito tempo contemplando aquela pergunta. Uma pergunta feita com inocência, mas também com urgência. Urgência que houvesse uma resposta, urgência por compreender o que para aquele menino pequeno era inexplicável e cruel.

A pergunta infantil revelava muito. Adivinhei a terrível conversa na hora do almoço, o desfiar da boataria, sobre a suposta morte do doleiro, aquela que funcionou como a última bala de prata para se tentar conturbar e alterar o resultado das eleições.

Imaginei as risadas, as chacotas, e o menino pequeno, do fundo da sua inocência infantil, indignado com a perspectiva de que uma assassina cruel pudesse ser eleita novamente presidenta da república.

Fiz uns cálculos rápidos, e constatei que no máximo em dez, doze anos, esse menino terá se transformado num eleitor. Alimentando-se desse caldo de cultura onde ele vive, que tipo de eleitor será ele? Em que base ele construirá os argumentos para o seu voto?

A votação acabou, vieram os resultados eleitorais, e, novos sintomas da velha intolerância foram despejados sem medidas nos nordestinos. A mídia comercial, alertava para um “país dividido” face à campanha violenta da candidatura Dilma Rousseff,como se essa fosse uma invenção de agora, como se nosso país tivesse sido antes, um lugar mais ou menos harmônico, sem fraturas nem divisões.

Compreendi, que o maior fracasso da sociedade contemporânea reside sobretudo nas estratégias de comunicação que põe a serviço dos indivíduos, a fim de que se geste a opinião pública.

Nossa mídia comercial abdicou da pluralidade das explicações, e empenha-se no exercício da voz única. Por outro lado, se os indivíduos alçaram-se à condição de emissores, na era tecnológica atual, reproduzem a cultura midiática da intolerância, do sim ou do não, numa ciberesfera onde aboliram-se todas as fronteiras geográficas, mas aumentaram significativamente as distâncias culturais, onde recrudescem a intolerância, o preconceito, a ignorância calcada na informação falsa.

Fico tentada a pensar que naquela cena ligeira, mas tão profunda nos seus significados, perpetrava-se ali um crime eleitoral, contra um menino pequeno, um crime contra a infância, contra o direito à liberdade de pensamento.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna no Jornal impresso a União).