A Fábula Revificada?

A Fábula Revificada?

A mídia comercial brasileira, liderada pelo sistema Globo de comunicações, após a divulgação da lista do Fachin, com as mais de novecentas horas de vídeos gravados com os depoimentos dos delatores, retomou com gosto o trabalho de revificação da fábula de que o partido dos trabalhadores instalou-se no poder como a maior quadrilha de ladrões do dinheiro público, tendo como chefe o ex-presidente Lula.

O modus operandi é o mesmo dos últimos treze anos. Destacar os trechos em que a fábula pode ser reconfirmada, e dar-lhes evidências em todos os telejornais, ignorando ou retirando do caminho da narrativa, tudo aquilo que possa perturbá-la ou contradizê-la.

Dezesseis partidos aparecem como alvos das delações. Só o candidato à presidência pelo PSDB, o senador Aécio Neves, tem cinco inquéritos na lava jato. Mas, o jornalismo está empenhado em dedicar suas horas nobres ao caso Lula, e de quebra, encontrar os crimes para fechar a conta do impeachment da presidenta Dilma. O cardápio é o mesmo dos últimos treze anos: A reforma do sítio de Atibaia, as palestras de Lula, as doações de campanha. Fico imaginando o setor midiático que poderia ser chamado operação Lula, com estagiários, jornalistas mais jovens, todos empenhados em destacar os trechos que vão virar manchetes, e despachá-los para os ancoras de tv, devidamente recortados e descontextualizados.

Editar, mascarar, silenciar. Longos trechos emblemáticos podem passar inteiramente despercebidos, como o que disse Emílio Odebrecht sobre o modelo de financiamento da política brasileira. O caixa dois, disse, existe na política há trinta anos, e mais, toda a imprensa sabe disso, e se omitiu, como omitiram-se as autoridades fiscalizadoras, o poder executivo e o parlamento.

Manipulação grosseira, classificou Mario Marona, ex-editor do Jornal Nacional, em seu perfil no facebook, comentando trecho destacado pela rede globo, em que Emílio Odebrecht narra o episódio em que a então presidenta Dilma soube dos maus feitos e tentou coibir os abusos com broncas e demissões.  A Globo explora o trecho em notícia que diz exatamente o oposto. Manipulando, comentando, etoma a prática da criminalização da ex-presidenta.

As lições a serem extraídas do papel da imprensa nesses treze anos são duras e desalentadoras. Simular surpresa e tomar como notícia bombástica, um sistema corrupto instalado no país há três décadas, com o beneplácito de todos os poderes e o silêncio cúmplice da imprensa, revelam o desapego que se tem pela democracia, ali no âmago das forças que deveriam preservá-la.

Mas a situação é ainda mais cruel. O país está entregue a um poder judiciário preocupado com o justiçamento de alguns e um poder midiático empenhado no julgamento e na condenação prévia dos seus inimigos políticos. A aventura pode sair muito cara ao país. O fascismo coloca na linha de frente os seus líderes, de dentes arreganhados, prontos para o próximo bote eleitoral.

Uma outra questão amarga precisa ser feita: O que mais a mídia está silenciando? Em que outros escândalos a imprensa tem se omitido? Operação Zelotes, Furnas, Telemig, e o mais recente escândalo da venda do país ao capital estrangeiro, quando e como a mídia brasileira vai pautar essas questões?

Anúncios

Cenas que Eu Nunca Vou Viver

Por esses dias em que me posto diante da tevê, para acompanhar os fatos políticos que sacodem o país, penso muito no meu pai, que se ainda estivesse entre nós, teria completado, no último domingo, 91 anos de vida.

Imagino uma cena em que eu e ele, sentados lado a lado, falaríamos sobre o processo de impeachment da presidente Dilma, e, comemoraríamos juntos a última decisão do ministro do Supremo, Teori Zavasck, de afastar da presidência da Câmara dos Deputados, o deputado Eduardo Cunha.

Quando meu pai nos deixou, em 1993, o país dava os primeiros passos lentos para o desenvolvimento e a difusão da telefonia móvel. Alguns anos depois, iniciava-se o boom dos computadores pessoais e da expansão dos primeiros provedores de internet.

Meu pai não chegou a conhecer nem utilizar um celular, tampouco acompanhou o modo novo como passamos a nos comunicar, via computador, modens conectados, e agora, via smartphones.

No campo político, meu pai ainda assistiu à disputa Collor Lula, de 1989, na qual o petista foi derrotado. Na sua própria casa, meu pai assistiu ao fortalecimento do Partido dos Trabalhadores, porque muitas vezes, nós, jovens militantes, nos reuníamos na varanda de casa, para pensar estratégias e ações de mobilização.

Meu pai viveu a maior parte da sua vida adulta na zona rural, erguendo cercas, cuidando da terra dos latifundiários de Pernambuco, algumas vezes fazendo as vezes de vaqueiro, nas fazendas em que trabalhou.

Quando veio para João Pessoa, converteu-se em vigia noturno de uma empresa de construção.

Meu pai, analfabeto, só sabia ler o mundo através da régua da justiça, da honestidade. Imagino pois a cena em que eu teria que lhe explicar porque considero que na atualidade, o país vive um processo de golpe parlamentar jurídico midiático.

Pessoas simples como o meu pai, não conseguem compreender as peças parlamentares que constituem a justificativa para o impeachment. Tanto na Câmara como no Senado, os relatores produziram em centenas de páginas, não propriamente as provas dos supostos crimes que a presidente teria cometido, mas destilaram, em palavrório jurídico-político, tentativas explicativas incompreensíveis no universo da população mais humilde, das justificativas para o exercício do “Fora PT, Fora Dilma”.

Para pessoas simples como o meu pai, a verdade que salta aos olhos, e que não necessita senão de apenas algumas frases curtas, é a de que a presidente Dilma, no exercício do mandato, não esteve envolvida em nenhum ato em que pessoalmente atentou contra a constituição do país, conforme rezam os dispositivos legais do impedimento.

O governo da presidente, em seu segundo mandato, empossado em janeiro de 2015, ainda não conseguiu decolar, vendo corroídas as suas bases de sustentação parlamentar, e tendo de conviver com uma crise econômica de proporções mundiais.

Imagino eu e o meu pai assistindo aos discursos da presidenta, à força da sua indignação. Imagino mesmo o gesto do meu pai, afastando com mãos trêmulas uma mecha de cabelo do meu rosto, e dizendo, com sua voz serena: Dilma fica.

 

(Este post foi publicado na última sexta-feira, em minha coluna impressa do Jornal A União).

A Fabulação da Mídia: Por um Caçador de Corruptos

Tudo já foi dito sobre os protestos do último domingo, que desta feita expressaram com mais clareza, o profundo fosso que vem se criando, entre a classe política e a sociedade brasileira. Emblemas dessa realidade, foram os xingamentos ofertados em alto e bom som, aos líderes do PSDB e DEM que foram à Paulista, e a hostil recepção à pré-candidata pelo PMDB daquele estado, Marta Suplicy.

Resta-nos uma conclusão óbvia, se extratos da política visavam capitalizar a manifestação das ruas, todos foram perdedores. A pergunta que se impõe, agora, é saber, quem perdeu mais, quem perdeu menos.

Para os atores da política, acendeu-se a lanterna amarela. Se hoje pede-se o impeachment da presidente Dilma e a prisão para o ex-presidente Lula, essas parecem ser, para os manifestantes do domingo, a tarefa prioritária. Amanhã esta mesma população pode erguer-se contra os líderes políticos que no parlamento, também lutam pelas duas agendas.

Mas há um terceiro e estratégico ator desse processo que também perdeu no domingo e vem perdendo progressivamente a batalha simbólica empreendida em favor da destruição do partido dos trabalhadores e de uma esquerda simpatizante ao governo Dilma. Esse terceiro ator é a mídia comercial privada, que escudou-se no discurso jurídico e político para construir a narrativa fabular de que o Partido dos Trabalhadores constituiu-se como uma quadrilha criminosa para assaltar os cofres do país e assim conformar-se como um polo de poder na América Latina.

Essa fabulação, ora com tons mais fortes, ora com menos influxo, vem sendo reproduzida desde o início do primeiro governo Lula, atingindo, na atualidade, o auge da sua força.

O esforço que reuniu o discurso jurídico, a narrativa política de direita, e as estratégias midiáticas, no sentido da difusão do processo de desgaste do presidente Lula e do governo Dilma, rebateu no domingo, em uma massa que verdadeiramente não está comprando a fábula como ela vem e promete fazer valer a força da chamada “voz das ruas”

A voz das ruas encheu de espanto e perplexidade, os políticos, os juristas, e à própria mídia, que permanentemente teve de retificar imagens, desligar microfones e omitir notícias que entretanto pipocavam estrondosamente nas redes sociais e na blogosfera.

A voz do domingo já elegeu seus líderes políticos: Abraçou-se a Jair Bolsonaro e fez louvação, em camisetas e cartazes, ao juiz Sérgio Moro.

Para os políticos que apostavam nas manifestações como o pavimento para o impeachment, resta um breve recuo, o pesar e medir da situação, a adoção de novas estratégias. A mídia, por sua vez, prosseguirá na sua fabulação suicida, à espera de que um imponderável aconteça, e assim ela possa investir todo o seu capital técnico manipulatório na derrocada final do governo petista.

Estará a mídia privada trabalhando na construção de um “caçador de corruptos”, tal como fez nos anos oitenta, ao colocar no topo da política brasileira, “o caçador de marajás”?

Se estas impressões se confirmarem, é possível que num futuro breve, a legenda do PSDB acolha Sérgio Moro e o coloque no centro da disputa em 2018. Já o eleitor, esse agente flutuante, imprevisível e escorregadio, não se pode prever para onde irá, quando chegar o tempo da colheita.

As Pedaladas de Dilma

A cada semana, sob o ruído intermitente da repercussão da operação Lava-jato, que a mídia se ocupa em reverberar, em todas as suas tonalidades, surge um fato novo para erguer as manchetes contra o governo Dilma.

Como se vivêssemos uma espécie de processo de escavação, lenta, porém furiosa, a qual pudesse desgastar os alicerces, fazer ruir a casa inteira, desde as suas fundações, implodir qualquer vestígio da sua existência, casa esta que não é senão, metaforicamente, o partido dos trabalhadores.

O último achado veio para a imprensa batizado como “as pedaladas de Dilma”. Explicando em linguagem leiga, o governo teria solicitado aos bancos públicos para fazer pagamentos de bolsas de programas sociais, cujas parcelas depois seriam quitadas.

De posse do achado, como se renovados com novo salário, os partidos de oposição redobraram seu trabalho de escavação. A ideia do impeachment, que parecia ter perdido força após os resultados das manifestações do dia 15 de abril, ganhou um novo fôlego, reaparecendo nos discursos parlamentares, sendo desfolhadas em atividades de políticos, e, naturalmente, ganhando espaços centrais na mídia brasileira.

O senador Cássio Cunha lima, com a oratória que lhe é própria, defendeu ardorosamente o impeachment da presidente, na condição de líder do PSDB no senado, fazendo-nos lembrar da sua própria cassação, por conta de malfadados cheques que segundo ele mesmo disse em sua defesa, eram para as pessoas pobres da Paraíba não morrerem de fome.

A última bala de prata porém, já parece ter vindo com seu poder de fogo estragado. De um lado, acusa-se o governo de ter pedido dinheiro emprestado aos bancos públicos para o pagamento de programas como o Bolsa Família, Bolsa Escola, entre outros programas que são, na verdade, curtos passos decisivos no sentido de distribuir-se uma pequena fatia da renda do país entre os mais pobres.

Por outro lado, ao revolver-se o calibre da tal bala de prata, verificou-se que a prática já era usual nos governos FHC, e dados dessa história recente comprovam que o sociólogo pedalava com maior desenvoltura, em processos que nada tinham a ver com políticas sociais.

Enfim, o caldeirão continua a ferver, com a única sopa que ainda rende suas boas manchetes, ou seja, a operação lava-jato. O modus operante é muito claro e já não apresenta qualquer disfarce. O jornalismo de revista, reverberado pelos veículos de rádio e tevê, repercutem dioturnamente a história construída à força de técnicas de enquadramento, seleção e repetição: O Partido dos Trabalhadores é o mais corrupto da história desse país, e a sua legenda precisa ser extinta.

A força dessa história, solapa da cobertura midiática, uma crise de fundo, que está no centro do parlamento brasileiro e que ameaça flagrantemente a frágil democracia do país. Sim, a recente democracia elegeu o seu parlamento mais conservador, que tem se servido da imprensa para fazer o Brasil recuar e encaixar-se novamente aos trilhos do capital mundial e dos seus interesses.

 

Este artigo será publicado amanhã, em minha coluna no Jornal A União

“Vai que é Tua,, Dilma”!

Quem se lembra da partida contra a Alemanha, aquele pesadelo incompreensível e demolidor? Nos últimos tempos, fico com a impressão de que Os primeiros jogadores deixaram o campo, mas foram substituídos, e a partida vive seu terceiro tempo interminável.

Não que estejamos jogando contra a Alemanha. Penso que constituiu-se uma estranha configuração, na qual o Brasil joga contra o Brasil. De um lado da trave, está o governo petista, com seu principal jogador, a presidente Dilma. Do outro lado, joga a mídia hegemônica, comercial e conservadora, o maior e mais bem estruturado partido de oposição do país.

A jogada de Dilma é simples: Andar entre o maior congresso conservador já eleito, tentando se livrar dos seus achaques, dos seus modos de obstrução, das pedradas vindas da minoria opositora, e, missão quase impossível, aparar os petardos advindos daqueles que se dizem governistas, mas, colocam-se na posição mais estranha, auxiliando a base adversária.

Do outro lado, estrutura-se a jogada mais simples, e também a mais engenhosa. Torcer contra. Desqualificar cada passo dado, pregar o pessimismo absoluto, orquestrar o #VemPrarua, abrir seus microfones para os pequenos bolsões de panelaços, inflacionar números de manifestações, nocautear o país, segundo a segundo, não somente no horário nobre, mas em toda a programação midiática, pondo a serviço dessa jogada, os seus ancoras mais influentes.

Apupos, vaias, chacotas, o cenário é mesmo típico das grandes partidas, em que grandes adversários batalham. Solitária, a presidente avança, recua, bate portas, se cala, grita. A mídia implacável não arreda o pé da sua torcida contra.

Mas parece que agora, em seu tempo regulamentar, a presidente fez o seu gol. Arrimada ao seu bordão, “Pátria Educadora”, Dilma trouxe para a pasta uma pessoa que pensa. Pessoas que pensam hoje são raridade, num país de discurso hegemônico, em que o contraditório não tem visibilidade alguma.

Renato Janine Ribeiro pensa com independência, com o substrato da filosofia, da ética, do desassombro de dizer sobre a contemporaneidade.

Sabe que o que o país vive hoje, não é uma partida de sete a um, iniciada com os governos petistas. Fosse a corrupção uma endemia do petismo, a sua cura seria mais fácil. A corrupção é uma endemia antiga, costurada no âmago da política, no cerne das instituições, espalhada pelos diversos interstícios da sociedade.

Por isso dói tanto. Por isso o remédio não pode ser esse paliativo de colocar supostos corruptos petistas na cadeia e pronto.

Não existe o pronto. Existe uma sociedade corroída, que ainda não está apta a olhar para o tamanho da sua tragédia e parece embarcar na estratégia do “quanto pior melhor”, gritando em coro “Dilma pede pra sair”, sem sequer prever o que virá depois.

E já ao final do post, ouso mesmo dizer que Janine é o segundo gol. O primeiro, mal armado, um chute de muito longe da trave, o primeiro gol feito por Dilma é o de escancarar os processos de corrupção do seu país. O segundo gol, emplacando Janine na pasta, certamente não contará com o bordão de Galvão Bueno, “vai que é tua, Dilma!

“Dilma, Pede pra Sair”!

Virou moda, hit nacional, même viral na internet. Em espetáculos públicos, acaba fazendo parte do grito de comemoração, a exemplo do que ocorreu   na noite do último sábado, quando o lutador de UFC Gilbert “Durinho”,bastante machucado, comemorou sua vitória com um grito de guerra inusitado: “Dilma, pede pra sair!”

O grito era uma espécie de eco, de reverberação do que ocorrera no dia 15 de março, quando em microfones abertos, a presidente do país foi achincalhada, vaiada, desrespeitada flagrantemente, em desaforos virulentos que não eram apenas verbalizados, mas expostos em cartazes e faixas.

O sucesso de xingar a presidente já tinha feito sua estreia na abertura da Copa do Mundo. Na atualidade, para além das redes sociais, tem   ocupado inúmeros espaços, e ganha adeptos sempre que haja um microfone, um espetáculo, uma forma de ser naturalmente publicizado.

A verdade é que esses ataques gratuitos, aparentemente espontâneos, refletem o clima belicista que perdura no país, o qual intensificou-se na última campanha eleitoral e não dá sinais de que possa ter uma trégua.

A cobertura da mídia, tematizando e enquadrando os acontecimentos, cuidando do processo seletivo de ir soltando aos poucos, mas sistematicamente, pequenas pílulas de informações, as quais desqualificam e incriminam o governo da presidente Dilma, são o adubo natural para essas manifestações de ódio, de ataque à principal figura política do país.

Se entretanto olharmos para o âmago da sociedade, veremos que na cultura atual, manifestações de intolerância, de desrespeito, têm demarcado as relações, de tal sorte que uma simples briga em um sinal de trânsito, ou mesmo uma contenda entre vizinhos, pode descambar num crime fatal.

A sociedade atual, em muitos dos seus extratos, é intolerante, impaciente, e, esquece-se com muita facilidade de praticar o respeito, as regras de convivialidade e boa vizinhança.

O país avançou nos seus processos de distribuição de renda, apresenta índices de redução da pobreza extrema, mas, vive um assustador vazio no que diz respeito à educação dos seus cidadãos.

A figura da mulher, da presidente da República, símbolos que naturalmente deveriam infundir respeito, não têm tido força suficiente para impedirem a avalanche dos impropérios que Dilma Rousseff vem recebendo, em microfone aberto, e, sob o silêncio de uma mídia que apenas divulga e não parece   minimamente preocupada em repelir os insultos, as chacotas, os desaforos virulentos.

A pressão das panelas parece estar pelas tampas. Encurralada, vivendo a solidão de defender, quase que em batalha solo, a democracia e a liberdade de expressão, Dilma Rousseff parece ser a maior vítima dos apupos de uma sociedade achacada pela impaciência e pela intolerância. Até quando?

 

(Este post será publicado amanhã na minha coluna impressa do Jornal a União)