Desliguem a Tv: A Notícia Saiu de Cena

No início da manhã de hoje, quinta-feira, dia em que escrevo a coluna, as redes sociais como Twitter e facebook entraram em ebulição por conta de manchete de capa do jornal Folha de São Paulo. A notícia dá conta de que o candidato Jair Bolsonaro fez contratos milionários com empresas brasileiras e estrangeiras, para a compra e distribuição de feke News através do aplicativo Whatzapp.

Os primeiros números descobertos são estratosféricos. Contratos que orçam em cerca de 12 milhões de reais; quarenta mil grupos de Whatzapp contratatos para a distribuição e disseminação da virulência, da mentira, estratégia planejada para se intensificar na última semana antes da votação para o segundo turno.

Nos últimos dias, se saímos às ruas com adesivos ou camisas vermelhas, somos atingidos por gestos que simulam disparos de armas, alguns dos quais, infelizmente, já se concretizaram em ação concreta e contundente, a exemplo da morte do capoeirista baiano Moa do Catendê. Os ostensivos disparos porém, são de uma arma de outro calibre. Silenciosa, instantânea, de massas, a mentira difundida pelo what sapp vai destruindo o senso de reflexão crítica, o desejo do diálogo, do embate saudável de ideias, para inocular o ódio e o gesto do voto motivado pela vingança, pelo individualismo e egoísmo mais nefastos à construção de um projeto de país cidadão.

O mais estranho nisso tudo é o comportamento da grande mídia comercial a respeito da notícia. Nas tvs comerciais, os gatekepers trabalharam duro para que a notícia não chegasse ao portão principal da divulgação em seus telejornais. Silêncio total sobre o fato, que alcançou os tópicos mundiais do Twitter com a hash tag #CaixaDois.

No jonal Hoje da rede Globo, foi posta em operação a máxima “se achar melhor a gente não publica”. O jornal trouxe notícias sobre a terra vista em três dimensões, sobre um artista europeu que destruiu sua própria obra, sobre a probabilidade de visita do papa Francisco à Coréia do Norte. Na seção sobre as campanhas presidenciais, apresentou-se longa e complicada nota dos médicos de Jair Bolsonaro acerca da possibilidade do candidato estar nos debates. Na entrevista dada pelo candidato Haddad à rádio Tupi,a tv Globo suprimiu todas as falas do candidato referentes à denúncia estampada na folha.

Façamos um exercício de especulação, imaginando que o fato houvesse sido descoberto na campanha de Fernando Haddad, opositor de Bolsonaro. Certamente a notícia arrombaria todos os portões da tv, extrapolaria os noticiários, invadiria os programas de entretenimento, de esportes, transbordaria até para os horários dos comerciais.

Melhor já ir se acostumando. Se o candidato do ódio e da mentira vencer, conforme apregoam as pesquisas do IBOPE, a lei da mordaça e do silencio deverá imperar nas redes comerciais de jornalismo.

A campanha do candidato da bancada da bala instituiu a mentira como principal vedete para levar os eleitores às urnas, sob a pecha de que ele é honesto, e fala a verdade. Esse texto porém, só se sustenta em mensagens de whatsapp, regiamente pagas e atiradas na cara do cândido e revoltado eleitor. A mídia comercial, segue editando as falácias que ele distribui nas redes, a partir do subserviente trabalho dos seusancoras e comentadores.

Junto com a democracia, junto com a verdade, junto com a Justiça Eleitoral e o seu propalado combate aos fake News, o tele jornalismo brasileiro tambémmergulhou fundo nos excrementos jorrados pela política do PSL e seus apoiadores.

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“Por que dilma mata as Pessoas”?

Guardei essa história, esperando que os ânimos esfriassem um pouco, mas ela ficou aqui dentro, pedindo pra ser contada.

Foi assim: No domingo do segundo turno, no final da manhã, depois de todos termos votado, eu e minha família decidimos ir almoçar num restaurante do centro da cidade.

Adentrávamos ao local, quando um pai e seu filho estavam deixando o restaurante. O menino, de cerca de seis anos, perguntou ao pai: “Pai, por que Dilma mata as pessoas”?

Ficamos chocados, quisemos dizer algo, mas, aquela era uma conversa privada, entre um pai e um filho pequeno.

Assistimos à saída dos dois, testemunhamos o silêncio constrangido daquele pai, que agora sentia vergonha por havemos escutado a pergunta do seu filho.

Fiquei por muito tempo contemplando aquela pergunta. Uma pergunta feita com inocência, mas também com urgência. Urgência que houvesse uma resposta, urgência por compreender o que para aquele menino pequeno era inexplicável e cruel.

A pergunta infantil revelava muito. Adivinhei a terrível conversa na hora do almoço, o desfiar da boataria, sobre a suposta morte do doleiro, aquela que funcionou como a última bala de prata para se tentar conturbar e alterar o resultado das eleições.

Imaginei as risadas, as chacotas, e o menino pequeno, do fundo da sua inocência infantil, indignado com a perspectiva de que uma assassina cruel pudesse ser eleita novamente presidenta da república.

Fiz uns cálculos rápidos, e constatei que no máximo em dez, doze anos, esse menino terá se transformado num eleitor. Alimentando-se desse caldo de cultura onde ele vive, que tipo de eleitor será ele? Em que base ele construirá os argumentos para o seu voto?

A votação acabou, vieram os resultados eleitorais, e, novos sintomas da velha intolerância foram despejados sem medidas nos nordestinos. A mídia comercial, alertava para um “país dividido” face à campanha violenta da candidatura Dilma Rousseff,como se essa fosse uma invenção de agora, como se nosso país tivesse sido antes, um lugar mais ou menos harmônico, sem fraturas nem divisões.

Compreendi, que o maior fracasso da sociedade contemporânea reside sobretudo nas estratégias de comunicação que põe a serviço dos indivíduos, a fim de que se geste a opinião pública.

Nossa mídia comercial abdicou da pluralidade das explicações, e empenha-se no exercício da voz única. Por outro lado, se os indivíduos alçaram-se à condição de emissores, na era tecnológica atual, reproduzem a cultura midiática da intolerância, do sim ou do não, numa ciberesfera onde aboliram-se todas as fronteiras geográficas, mas aumentaram significativamente as distâncias culturais, onde recrudescem a intolerância, o preconceito, a ignorância calcada na informação falsa.

Fico tentada a pensar que naquela cena ligeira, mas tão profunda nos seus significados, perpetrava-se ali um crime eleitoral, contra um menino pequeno, um crime contra a infância, contra o direito à liberdade de pensamento.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna no Jornal impresso a União).