Cenas que Eu Nunca Vou Viver

Por esses dias em que me posto diante da tevê, para acompanhar os fatos políticos que sacodem o país, penso muito no meu pai, que se ainda estivesse entre nós, teria completado, no último domingo, 91 anos de vida.

Imagino uma cena em que eu e ele, sentados lado a lado, falaríamos sobre o processo de impeachment da presidente Dilma, e, comemoraríamos juntos a última decisão do ministro do Supremo, Teori Zavasck, de afastar da presidência da Câmara dos Deputados, o deputado Eduardo Cunha.

Quando meu pai nos deixou, em 1993, o país dava os primeiros passos lentos para o desenvolvimento e a difusão da telefonia móvel. Alguns anos depois, iniciava-se o boom dos computadores pessoais e da expansão dos primeiros provedores de internet.

Meu pai não chegou a conhecer nem utilizar um celular, tampouco acompanhou o modo novo como passamos a nos comunicar, via computador, modens conectados, e agora, via smartphones.

No campo político, meu pai ainda assistiu à disputa Collor Lula, de 1989, na qual o petista foi derrotado. Na sua própria casa, meu pai assistiu ao fortalecimento do Partido dos Trabalhadores, porque muitas vezes, nós, jovens militantes, nos reuníamos na varanda de casa, para pensar estratégias e ações de mobilização.

Meu pai viveu a maior parte da sua vida adulta na zona rural, erguendo cercas, cuidando da terra dos latifundiários de Pernambuco, algumas vezes fazendo as vezes de vaqueiro, nas fazendas em que trabalhou.

Quando veio para João Pessoa, converteu-se em vigia noturno de uma empresa de construção.

Meu pai, analfabeto, só sabia ler o mundo através da régua da justiça, da honestidade. Imagino pois a cena em que eu teria que lhe explicar porque considero que na atualidade, o país vive um processo de golpe parlamentar jurídico midiático.

Pessoas simples como o meu pai, não conseguem compreender as peças parlamentares que constituem a justificativa para o impeachment. Tanto na Câmara como no Senado, os relatores produziram em centenas de páginas, não propriamente as provas dos supostos crimes que a presidente teria cometido, mas destilaram, em palavrório jurídico-político, tentativas explicativas incompreensíveis no universo da população mais humilde, das justificativas para o exercício do “Fora PT, Fora Dilma”.

Para pessoas simples como o meu pai, a verdade que salta aos olhos, e que não necessita senão de apenas algumas frases curtas, é a de que a presidente Dilma, no exercício do mandato, não esteve envolvida em nenhum ato em que pessoalmente atentou contra a constituição do país, conforme rezam os dispositivos legais do impedimento.

O governo da presidente, em seu segundo mandato, empossado em janeiro de 2015, ainda não conseguiu decolar, vendo corroídas as suas bases de sustentação parlamentar, e tendo de conviver com uma crise econômica de proporções mundiais.

Imagino eu e o meu pai assistindo aos discursos da presidenta, à força da sua indignação. Imagino mesmo o gesto do meu pai, afastando com mãos trêmulas uma mecha de cabelo do meu rosto, e dizendo, com sua voz serena: Dilma fica.

 

(Este post foi publicado na última sexta-feira, em minha coluna impressa do Jornal A União).

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Jantar a Doiis

(Este post foi publicado originalmente em www.joanabelarmino.zip.net)

 

 

Sentada, sozinha, na minha sala de jantar, comia satisfeita minhas adoráveis rodelas de inhame com peito de frango assado, quando de repente ele veio sem aviso, vestido de distância,e como quem pega ao acaso um pedaço de pão, recomeçou aquela nossa conversa de tanto tempo, conversa banal, na mesa da sala da sua casa, as frases agora adoçadas por uma saudade que não havia antes.

Meu pai adorava peito de frango assado.   Na partilha da galinha de domingo, num gesto mecânico, minha mãe separava a parte dele e ali naquela mesa cheia de gente ávida por molho pardo, cumpria-se o rito sagrado de honra ao senhor do trabalho, a saborear seu naco de carne e a nos contar suas histórias de terras.

Silenciosa, minha mãe deslindava com maestria o dicionário das nossas preferências. Para mim, o fígado, a entre-coxa, e, se possível, uma asinha. A moela era de Manuel e, para todos, a silabaria comum da rega do molho pardo.

No meu prato raso de porcelana clara, cortei e comi devagar as três fatias de peito de frango assado,  rindo com meu pai, escutando o som da sua conversa, sentindo o brilho do seu sorriso, tudo como música de fundo para o meu jantar a dois,  na minha mesa de quatro lugares.

Naqueles poucos minutos quentes, cheios de sons encantados, desenrolamos a nossa vida, desenredamos a cortina das lembranças, pejadas de um vago esquecimento.

Filhos indo embora, filhos casando, a casa ficando maior. E sempre a se cumprir, aquela promessa do peito de frango no almoço de domingo.

Até que um dia… Regamos nossas lágrimas com canja de galinha, numa mesa tão comprida, tão despovoada das suas facas de trinchar.

Fiquei junto do meu pai, e naquela hora não dissemos nada, mas cada um, do seu jeito, acalentou o coração do outro.

Mas eu sabia, meu pai agora tecia já o lençol comprido da sua solidão,  e sequer se importava com a inutilidade do seu tempo, a recolher do mundo todas as suas histórias.

Limpei a boca com o guardanapo de papel, e quase que senti, aquele peteleco divertido que ele me dava na orelha. Sorriu para mim, seu riso orgulhoso de menino antigo e voltou para o seu lugar de bruma, onde sei que é feliz.