Um Engavetamento Colossal

Você faz uma busca no Google por maiores engavetamentos da história recente e dá de cara com um monstruoso,  ocorrido em São Paulo, em 2011, na via Imigrantes, envolvendo centenas de carros, dezenas de feridos e um morto. Notícias do ocorrido dão conta de que uma forte neblina, na hora do acidente, prejudicava a visibilidade dos motoristas. O acidente ocupou mais de quatro quilômetros da via litorânea, isolando a baixada santista.

O segundo ocorreu em dezembro daquele ano, desta feita no Japão, sendo considerado o mais caro do mundo em razão do horário da ocorrência e dos prejuízos estimados.

E se você procurasse por um engavetamento colossal na autoestrada da política brasileira? Não perca seu tempo. Não haveria resultados no Google para essa sua busca, entretanto, é certo que se prepara, de maneira célere, atabalhoada, o maior engavetamento da história recente do país, com prejuízos incalculáveis para a democracia, a justiça social e o desenvolvimento nacional.

Na política, a palavra engavetamento tem um sentido completamente diverso do usual. No trânsito, um engavetamento é um acidente de grandes proporções, com muitos veículos envolvidos. Na política, engavetamento significa ocultação de escândalos, jeitinho brasileiro, trâmites e diligências para frear ou estancar, com investigações, “com tudo”, como disse o senador Jucá em seus áudios, amarrando num mesmo quite o senado, a câmara, o supremo e o impeachment pelo fim da Lava Jato.

Aqui, tal como ocorrera na Imigrantes, há também neblina, nuvens escuras, estranhas e terríveis tragédias, nos presídios, nas ruas de algumas cidades, no próprio congresso.

Há um país que sangra e outro que trama, como se não houvesse nada a temer. Há um país estupefato, perplexo e ao mesmo tempo refém de uma espécie de “pileque homérico”, enquanto que no país da corte, elaboram-se tratativas, cada uma mais ousada que a anterior, limpam-se arestas, desobstruem-se pendências, prepara-se o cenário para o engavetamento colossal.

Supostos pecados cometidos pelo governo anterior, agora são brandidos como dogmas religiosos, como remédio permitido no governo de exceção.

Distribuem-se foros privilegiados antes condenados até à exaustão, o mandatário da casa da Justiça deixa seu cargo, abandona seu plano nacional de segurança, e se prepara para a sabatina que o elevará à corte suprema, como revisor da Lava Jato.

Tudo pela ponte para o futuro, tudo pela salvação nacional. Salvação de quem? De quantos? O engavetamento será colossal. Eduardo Cunha poderá ganhar seu salvo conduto para um tratamento digno; Moreira Franco há de recuperar seu ministério que já quase lhe escapa das unhas, Jucá, um dos ideólogos centrais desse plano de engavetamento colossal logrará quem sabe o seu antigo posto.

Nuvens escuras rondam a Lava Jato, mas, seja na política, seja no trânsito, um engavetamento tem que ser grande, fazer vítimas muitas. Se a Lava Jato for a vítima da vez, esse será de fato o maior engavetamento da história política do país.

Preparado com esmero, esse engavetamento já incinerou 54 milhões de votos, arruinou um dos maiores partidos de esquerda do país, e fará ainda mais, com os servidores públicos, a educação, a saúde, tudo  pela ponte para o futuro.

A Celebração e a Dança sobre a dor do Outro

O dia de hoje foi estranho. Na mídia, os fatos centrais foram a escolha do novo relator da Lava Jato, e a votação do novo presidente da Câmara dos Deputados. Nada de mais, a política e as suas patranhas, tem sido o foco da mídia nos últimos meses, que ora se porta como o narrador central dos acontecimentos, ora toma partido e engrossa golpes históricos do país, como no caso do impeachment da presidente Dilma Rousseff, claramente apoiado pelo oligopólio midiático.

O dia foi realmente estranho. Depois de longos dias em coma induzido, no hospital Sírio Libanês, morreu dona Marisa Letícia, mulher do presidente Lula, ex primeira dama do país.

E aí ocorreu a cobertura mais estranha já feita pela mídia sobre um caso de morte de uma pessoa famosa. Dona Marisa Letícia tinha sido notícia midiática o tempo todo, por conta do caso do tríplex do Guarujá, sendo manchete principal em horários nobres dos telejornais, através dos áudios vazados pela operação Lava Jato, que por uma terrível semana de março do ano passado, rodaram em toda a grande mídia, expondo intimidades da sua família e dela própria.

No dia da sua morte, porém, a mídia fez uma cobertura esquisita, lendo o boletim médico que decretou a morte cerebral da ex primeira dama, de modo apressado, para retomar a faina da cobertura política e das suas patranhas.

A mídia ignorou solenemente, inúmeras manifestações de ódio e de celebração, por ocasião da longa internação de dona Marisa. Buzinaços em frente ao hospital, tuitaços estimulando o ódio contra ela e sua família, novos vazamentos, do próprio Sírio Libanês, da situação médica da paciente, num claro crime contra a ética médica.

Dona Marisa se foi, de maneira discreta, como aliás sempre se portou, ao longo da sua vida.

A mídia oligopolista prosseguiu na sua faina por cobrir um país editado, um país que a própria mídia julga normal.

A mídia torce pelo governo de um presidente citado mais de quarenta vezes na operação Lava Jato. A mídia cobre com esmero, a escolha do novo presidente do Senado, suspeito de corrupção. Aplaude a nova eleição de Rodrigo Maia na Câmara dos Deputados e repele a fúria dos servidores do Rio de Janeiro, em luta pelos seus direitos e salários.

A mídia cobre com frenesi, a escolha do novo relator da Lava Jato, transformando em não-notícia, o terrível acontecimento da perda de Teori Zavascki.

A mídia ignora solenemente a notícia mais grave: O país está doente. Contaminado pelo ódio, pela crueldade, o país festeja a morte, celebra e dança sobre a dor do outro. A mídia edita seu país normal, celebrando e dançando sobre o cadáver da democracia, e, quando lhe é útil, a mídia convoca manifestações e insufla o ódio na sociedade, apresentando bonecos do ex presidente Lula e seus familiares, vestidos de presidiários.

Que dona Marisa descanse em paz, longe dos buzinaços e dos holofotes, e se houver um outro mundo onde dona Marisa possa rezar, que peça por nossa pátria doente.

 

O Velório da Democracia

Compreender em profundidade a complexidade da dinâmica política que estamos vivendo não é tarefa para uma coluna curta. Aqui, quando muito, só poderemos emitir nossa opinião sobre o que eu poderia chamar de “abril amargo”, coroado, no último domingo, com a cerimônia do impeachment, um misto de festa, lamentações, risos, disparates e vaias, uma espécie de velório, onde se perguntava: Quem morreu mesmo? De quem é o cadáver?

Algumas questões precisam ser apontadas em frases curtas: Chegamos ao ápice da crise política e os próximos meses conhecerão a sua fase mais aguda. Por seu turno, os artífices do golpe, começam a tarefa de limpar a casa, organizar o processo do país novo, enfatizar a narrativa que agora se apresentará, do fim da corrupção, da ética e da seriedade na política.

Identifico pelo menos três grupos de personagens dessa reconstrução: O poder político, que providenciará para todos os discursos, a #hashtag da pacificação. O poder judiciário, em cuja base da Lava Jato, se empenhará no sentido de alimentar a tese da criminalização do partido da presidente Dilma. Finalmente, o poder midiático, que prosseguirá, agora em bases mais sólidas, com o seu projeto de edição e de enquadramento de uma nova pauta para o país.

O processo começou na segunda-feira mesmo, quando a comentarista de economia Míriam Leitão afirmou com ênfase, que era preciso acabar com as pautas bomba e exaltou as qualidades do novo líder global, Michel Temer. E, em voz baixa, acrescentou que a Lava Jato precisa continuar.

A mídia comercial privada necessita agora calafetar suas fendas. Produziu um divórcio profundo entre os que refletem e os que consomem sem pensar. Recebeu o carimbo que já lhe havia sido concedido nos anos de chumbo, e agora precisa reorganizar-se para refazer uma imagem de imparcialidade e isenção. Agora já não precisa inflacionar e manipular números, e, vai pedir uma certa pluralidade, ainda que mínima, das opiniões dos seus âncoras. Poderá até apoiar o “fora Cunha”, pois este personagem já cumpriu a sua função na agenda do impeachment.

Nessas linhas finais da coluna, frases de lamento pelo parlamento brasileiro, que não é senão, o produto de uma distribuição da política em bases tradicionais: Nossos representantes, em sua larga maioria, representam o discurso religioso tradicional, e o empresariado, A maior parte deles detendo concessões de rádio e televisão, daí constituírem-se em verdadeiros fenômenos de votação, perpetuando mandatos entre filhos e netos.

Essas mais de quatro horas de votação, atestaram de forma cristalina, a impossibilidade de sustentação de um governo democrático com um parlamento desse nível. Acresça-se a essa situação, a presença de um judiciário partidarizado e de uma mídia empenhada em fazer oposição cerrada aos governos de esquerda, num trabalho cruzado que irradia-se por toda a América latina.

O país está irremediavelmente dividido e não será o pão e o circo que nos reunirá e fortalecerá  a democracia, ferida de morte por esse circo de horrores.

Sequestro da Normalidade

 

Enquanto escrevo a coluna, assisto consternada às notícias sobre o último atentado terrorista ocorrido na Bélgica. Pessoas tocando suas vidas, e de repente, numa sequência de atos inusitados e violentos, tudo se interrompe. Dezenas de mortos, o ponto final decretado no meio de uma crise profunda que não ouso comentar aqui, dada a sua complexidade.

O intuito hoje, ainda é comentar a situação brasileira. Enquanto que a maior parte dos países ricos do mundo amargam uma crise sem precedentes, ampliada pelas ações terroristas que lamentavelmente ainda se concretizam, desafiando a segurança e a inteligência, nosso país precipita-se há cerca de dois anos, para uma crise que penso, vive nas últimas semanas, uma das suas fases mais agudas.

No centro da crise, está a operação Lava Jato, com sua promessa de combate à corrupção que infesta a prática política, a soldo da classe empresarial. Falo em promessa, mas percebo o desbotamento desse objetivo, por conta da sanha com que o juiz Sérgio Moro foca num único partido, a mão firme com que assina medidas flagrantemente avessas ao que prevê a prática judicial e dá

publicidade aos seus atos insanos na maior cadeia de comunicação do país.

É flagrante o processo de partidarização da Lava Jato. Como se um Deus poderoso, investido do apoio da mídia comercial privada e de parte do judiciário, determinasse um bode expiatório, o Partido dos Trabalhadores, e o submetesse à uma execração pública sistemática, fortalecendo no parlamento, o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Há quem diga que sequestrou-se a ética, o estado democrático de direito. Eu penso que os dias que vivemos demonstram que temos perdido irremediavelmente nossa normalidade. É verdadeira a afirmação feita por Wagner Moura: Não se consegue mais conversar com aquelas pessoas que têm ódio do PT.

O mais grave dessa situação, é que as correntes do ódio derretem grupos de amigos nas redes sociais, e mesmo grupos familiares, que se enfrentam e se separam, diariamente, movidos pela impossibilidade de tolerarem a ideia do contraditório.

Sim, perdemos o direito à normalidade. Amigos frequentemente me relatam que já não conseguem dormir direito. A busca pelas redes sociais, a batalha que ali se trava, são demonstrações da vigília permanente a que está submetido o extrato da população que não aceita os rumos da política e a crônica anunciada de um fim terrível.

Execrar um partido, lutar pelo seu extermínio, é expressão de um movimento fascista, que aplaude o estado de exceção e ecoa a mentira mil vezes repetida, de que o Partido dos Trabalhadores é uma quadrilha de criminosos instalada no poder e responsável por todos os processos de corrupção recentes.

Vivemos pois, a instalação do estado policial no judiciário, e no parlamento, a prática da política cínica. Noventa por cento dos parlamentares que atuam na comissão do impeachment da presidente estão citados na Lava Jato, dirigidos por um presidente da Câmara completamente envolvido em processos de corrupção e de lavagem de dinheiro.

O país caminha para o precipício, enquanto midiotas alimentados por um jornalismo publicista da pauta única cantam o hino nacional. Perdemos a normalidade, e só nos resta lutar de cabeça erguida contra essa derrocada.

 

Este post foi publicado na minha coluna impressa do Jornal #AUniao, na última quarta-feira, quando ainda não havia sido vazada a lista da Odebrecht, nem tinha ido ao ar a última edição do Jornal Nacional.

O Jornalismo Comercial quer Audiência, mas não se preocupa com Ela

Essa é a conclusão a que chego nesta semana em que a operação midiática, bombardeando sua audiência com fatos e boatos sobre a Lava Jato, alcança picos impressionantes.

Hoje, com a expansão das redes sociais, já não podemos falar em leitores de jornal, mas antes, em audiência. Em minhas aulas de jornalismo, eu costumo dizer que esta audiência receptora foi reabilitada, tem uma janela de onde fala, protesta, reage, critica.

Há que se avaliar porém, uma hipótese perturbadora. A mídia comercial busca essa audiência, mas não se importa minimamente com a sua reação, suas críticas, seus protestos.

Os portões da comunicação foram arrombados. O círculo redacional não é mais um ambiente circunscrito aos jornalistas. Agora, de qualquer lugar, a audiência, através de menções ou hashtags, implica, critica, reclama por uma retificação, mas recebe em troca, o monopólio da pauta única, dos boatos divulgados pela manhã, como pautas bomba, para serem desmentidos à tarde, em pequenos espaços de retificação.

Onde será que vai parar a avalanche de mêmis,de críticas e repercussões, dirigidas às redações e portais? Que tamanho terá a lixeira virtual da mídia comercial privada?

O profundo divórcio entre jornalismo e pluralidade amplia-se, a audiência das grandes redes televisivas despenca vertiginosamente, entretanto o modelo da pauta única prossegue, alastrando boatos, evidenciando circunstâncias mal apuradas, ignorando claramente outros fatos envolvendo poíticos ou sonegações milionárias de empresários, em clara sintonia com uma oposição irresponsável, em estreito vínculo com os velhos ditames de uma economia neoliberal.

Rasgaram-se os manuais de redação, cospe-se no código de ética dos jornalistas. Retificações e desmentidos enchem o dia a dia dos tele jornais e dos portais de notícias online, enxovalham-se personalidades e carreiras, e tudo se faz com o sorriso nos lábios dos ancoras de tevê.

O modus operandi já se instituiu como a prática corrente no processo de produção e distribuição das notícias. Uma revista de circulação nacional lança a matéria bomba do início da semana, que depois é repercutida até as últimas consequências em toda a cadeia. “A notícia caiu como uma bomba”, “o governo está assustado”, “, “Dilma está muuuuito preocupada”, essas são algumas das frases de efeito ecoadas e repetidas ao longo da semana.

Há mais. Fatos que não são notícia ganham a centralidade da cobertura no horário nobre, veja-se por exemplo o caso dos pedalinhos. A pauta única, a música de uma nota só, é empurrada sem qualquer artifício, pelos escoadouros da comunicação.

E os gritos da audiência? Suspeito que nas redações, eles não merecem senão, o perpétuo o encolher de ombros, o ricto de desprezo, como se esta não passasse de um primo do mosquito transmissor do Zica vírus, que é preciso ignorar e combater.

A audiência não tem mídia, senão o alerta apressado nas redes sociais, que cai na vala comum da indiferença. A mídia é na verdade, o braço mais estratégico de um modelo elitista de poder, que busca solapara frágil democracia, para reinstalar a política do arroxo, do enfraquecimento dos movimentos sindicais e sociais, uma economia privatista sintonizada com os ditames do capital internacional, que internamente, é conformado por um conjunto de empresas que sonegam, corrompem e difamam, inclusive, parcela importante das empresas de mídia.

Como diria Bakhtin, toda mensagem tem um claro endereçamento. . As mensagens midiáticas de agora, em sua alta circulação e repetição, a curto prazo, pretendem alimentar as manifestações pró impeachment marcadas para o dia 13 de março. A longo prazo, querem criminalizar o partido que ainda é o favorito nas eleições de 2018.