A Celebração e a Dança sobre a dor do Outro

O dia de hoje foi estranho. Na mídia, os fatos centrais foram a escolha do novo relator da Lava Jato, e a votação do novo presidente da Câmara dos Deputados. Nada de mais, a política e as suas patranhas, tem sido o foco da mídia nos últimos meses, que ora se porta como o narrador central dos acontecimentos, ora toma partido e engrossa golpes históricos do país, como no caso do impeachment da presidente Dilma Rousseff, claramente apoiado pelo oligopólio midiático.

O dia foi realmente estranho. Depois de longos dias em coma induzido, no hospital Sírio Libanês, morreu dona Marisa Letícia, mulher do presidente Lula, ex primeira dama do país.

E aí ocorreu a cobertura mais estranha já feita pela mídia sobre um caso de morte de uma pessoa famosa. Dona Marisa Letícia tinha sido notícia midiática o tempo todo, por conta do caso do tríplex do Guarujá, sendo manchete principal em horários nobres dos telejornais, através dos áudios vazados pela operação Lava Jato, que por uma terrível semana de março do ano passado, rodaram em toda a grande mídia, expondo intimidades da sua família e dela própria.

No dia da sua morte, porém, a mídia fez uma cobertura esquisita, lendo o boletim médico que decretou a morte cerebral da ex primeira dama, de modo apressado, para retomar a faina da cobertura política e das suas patranhas.

A mídia ignorou solenemente, inúmeras manifestações de ódio e de celebração, por ocasião da longa internação de dona Marisa. Buzinaços em frente ao hospital, tuitaços estimulando o ódio contra ela e sua família, novos vazamentos, do próprio Sírio Libanês, da situação médica da paciente, num claro crime contra a ética médica.

Dona Marisa se foi, de maneira discreta, como aliás sempre se portou, ao longo da sua vida.

A mídia oligopolista prosseguiu na sua faina por cobrir um país editado, um país que a própria mídia julga normal.

A mídia torce pelo governo de um presidente citado mais de quarenta vezes na operação Lava Jato. A mídia cobre com esmero, a escolha do novo presidente do Senado, suspeito de corrupção. Aplaude a nova eleição de Rodrigo Maia na Câmara dos Deputados e repele a fúria dos servidores do Rio de Janeiro, em luta pelos seus direitos e salários.

A mídia cobre com frenesi, a escolha do novo relator da Lava Jato, transformando em não-notícia, o terrível acontecimento da perda de Teori Zavascki.

A mídia ignora solenemente a notícia mais grave: O país está doente. Contaminado pelo ódio, pela crueldade, o país festeja a morte, celebra e dança sobre a dor do outro. A mídia edita seu país normal, celebrando e dançando sobre o cadáver da democracia, e, quando lhe é útil, a mídia convoca manifestações e insufla o ódio na sociedade, apresentando bonecos do ex presidente Lula e seus familiares, vestidos de presidiários.

Que dona Marisa descanse em paz, longe dos buzinaços e dos holofotes, e se houver um outro mundo onde dona Marisa possa rezar, que peça por nossa pátria doente.

 

O Diapasão Midiático

 

A notícia da semana gira em torno da prisão do ex-deputado Eduardo Cunha. A narrativa que ganha o mundo, porém, exibe a um telespectador mais atento, os mecanismos de uma mídia volúvel, superficial, telenovelesca, interessada em ficar bem diante da sua débil audiência, ficar bem em qualquer situação.

Vivemos em meio aos escombros de um país que a própria mídia ajudou a construir. A grande imprensa trabalhou ativamente em favor da candidatura do então deputado eduardo Cunha à presidência da Câmara dos Deputados. Festejou a derrota do candidato petista, e, com a força do presidente eleito, realizou a louvação cotidiana da necessidade do impeachment.

Com frieza e determinação, Eduardo Cunha deu curso ao processo, garantindo inclusive cobertura em horário nobre, determinando a última sessão de votação para um domingo, 17 de abril.

A grande narrativa da época, aliás, recorde de publicização midiática nos últimos cinco anos, era a de que o Partido dos Trabalhadores precisava ser extirpado da cena política, por ter se constituído como uma quadrilha, em assalto aos recursos públicos, tendo protagonizado os maiores escândalos de corrupção da cena política do país.

Cumpria-se assim, um dos primeiros princípios do diapasão midiático: Se não aparece na mídia, não é escândalo, não há corrupção. Ignoraram-se outros escândalos, a exemplo do Panamá Papers, as inquietantes denúncias das obras do metrô paulista, o escândalo conhecido como “mensalão de Minas”. Inculcou-se na mente da débil audiência, a ideia do partido corrupto, forjaram-se os ícones do Lula presidiário, da Dilma enforcada, e, em contrapartida, a sinfonia do país novo, limpo, de gente trabalhadora e honesta.

Consciente da memória curta da sua débil audiência, a grande mídia cumpre agora, o segundo princípio do seu diapasão: A mídia sempre ficará por cima e terá a última palavra, sempre ficará com o melhor ângulo, na cobertura da informação. Menosprezou as denúncias do Partido dos Trabalhadores, de que seus líderes estavam sendo vítimas de uma perseguição seletiva, reforçada pela própria mídia. Nesse episódio da prisão de Eduardo Cunha, a mídia de novo exibe como narrativa central, a ideia de que perde força a hipótese do PT, de que está sofrendo perseguição política.

Na verdade, o que flagrantemente se desmantelou, foi a tese central do processo de impeachment. A corrupção infesta a política em séries históricas implacáveis, empestando todos os mandatos políticos do país, debilitando a sua frágil democracia no momento atual, quando se impõe à força, à uma sociedade atônita, um projeto político indireto, filho do poder econômico e com todo o aval da grande mídia.

Cumpre-se também, o terceiro princípio do diapasão midiático. O capital tem pressa em cobrar a fatura do impeachment. A mídia passa seus recados ao presidente indireto Michel Temer. Clama pela aprovação em segundo turno da Pec 241, e, com sua narrativa sintética e suas imagens em hd, avisa: Somos mestres em erguer e derreter personalidades e autoridades. E sempre ficaremos com o melhor ângulo da cobertura.

 

 

Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União.

 

 

 

O Velório da Democracia

Compreender em profundidade a complexidade da dinâmica política que estamos vivendo não é tarefa para uma coluna curta. Aqui, quando muito, só poderemos emitir nossa opinião sobre o que eu poderia chamar de “abril amargo”, coroado, no último domingo, com a cerimônia do impeachment, um misto de festa, lamentações, risos, disparates e vaias, uma espécie de velório, onde se perguntava: Quem morreu mesmo? De quem é o cadáver?

Algumas questões precisam ser apontadas em frases curtas: Chegamos ao ápice da crise política e os próximos meses conhecerão a sua fase mais aguda. Por seu turno, os artífices do golpe, começam a tarefa de limpar a casa, organizar o processo do país novo, enfatizar a narrativa que agora se apresentará, do fim da corrupção, da ética e da seriedade na política.

Identifico pelo menos três grupos de personagens dessa reconstrução: O poder político, que providenciará para todos os discursos, a #hashtag da pacificação. O poder judiciário, em cuja base da Lava Jato, se empenhará no sentido de alimentar a tese da criminalização do partido da presidente Dilma. Finalmente, o poder midiático, que prosseguirá, agora em bases mais sólidas, com o seu projeto de edição e de enquadramento de uma nova pauta para o país.

O processo começou na segunda-feira mesmo, quando a comentarista de economia Míriam Leitão afirmou com ênfase, que era preciso acabar com as pautas bomba e exaltou as qualidades do novo líder global, Michel Temer. E, em voz baixa, acrescentou que a Lava Jato precisa continuar.

A mídia comercial privada necessita agora calafetar suas fendas. Produziu um divórcio profundo entre os que refletem e os que consomem sem pensar. Recebeu o carimbo que já lhe havia sido concedido nos anos de chumbo, e agora precisa reorganizar-se para refazer uma imagem de imparcialidade e isenção. Agora já não precisa inflacionar e manipular números, e, vai pedir uma certa pluralidade, ainda que mínima, das opiniões dos seus âncoras. Poderá até apoiar o “fora Cunha”, pois este personagem já cumpriu a sua função na agenda do impeachment.

Nessas linhas finais da coluna, frases de lamento pelo parlamento brasileiro, que não é senão, o produto de uma distribuição da política em bases tradicionais: Nossos representantes, em sua larga maioria, representam o discurso religioso tradicional, e o empresariado, A maior parte deles detendo concessões de rádio e televisão, daí constituírem-se em verdadeiros fenômenos de votação, perpetuando mandatos entre filhos e netos.

Essas mais de quatro horas de votação, atestaram de forma cristalina, a impossibilidade de sustentação de um governo democrático com um parlamento desse nível. Acresça-se a essa situação, a presença de um judiciário partidarizado e de uma mídia empenhada em fazer oposição cerrada aos governos de esquerda, num trabalho cruzado que irradia-se por toda a América latina.

O país está irremediavelmente dividido e não será o pão e o circo que nos reunirá e fortalecerá  a democracia, ferida de morte por esse circo de horrores.

“Dilma, Pede pra Sair”!

Virou moda, hit nacional, même viral na internet. Em espetáculos públicos, acaba fazendo parte do grito de comemoração, a exemplo do que ocorreu   na noite do último sábado, quando o lutador de UFC Gilbert “Durinho”,bastante machucado, comemorou sua vitória com um grito de guerra inusitado: “Dilma, pede pra sair!”

O grito era uma espécie de eco, de reverberação do que ocorrera no dia 15 de março, quando em microfones abertos, a presidente do país foi achincalhada, vaiada, desrespeitada flagrantemente, em desaforos virulentos que não eram apenas verbalizados, mas expostos em cartazes e faixas.

O sucesso de xingar a presidente já tinha feito sua estreia na abertura da Copa do Mundo. Na atualidade, para além das redes sociais, tem   ocupado inúmeros espaços, e ganha adeptos sempre que haja um microfone, um espetáculo, uma forma de ser naturalmente publicizado.

A verdade é que esses ataques gratuitos, aparentemente espontâneos, refletem o clima belicista que perdura no país, o qual intensificou-se na última campanha eleitoral e não dá sinais de que possa ter uma trégua.

A cobertura da mídia, tematizando e enquadrando os acontecimentos, cuidando do processo seletivo de ir soltando aos poucos, mas sistematicamente, pequenas pílulas de informações, as quais desqualificam e incriminam o governo da presidente Dilma, são o adubo natural para essas manifestações de ódio, de ataque à principal figura política do país.

Se entretanto olharmos para o âmago da sociedade, veremos que na cultura atual, manifestações de intolerância, de desrespeito, têm demarcado as relações, de tal sorte que uma simples briga em um sinal de trânsito, ou mesmo uma contenda entre vizinhos, pode descambar num crime fatal.

A sociedade atual, em muitos dos seus extratos, é intolerante, impaciente, e, esquece-se com muita facilidade de praticar o respeito, as regras de convivialidade e boa vizinhança.

O país avançou nos seus processos de distribuição de renda, apresenta índices de redução da pobreza extrema, mas, vive um assustador vazio no que diz respeito à educação dos seus cidadãos.

A figura da mulher, da presidente da República, símbolos que naturalmente deveriam infundir respeito, não têm tido força suficiente para impedirem a avalanche dos impropérios que Dilma Rousseff vem recebendo, em microfone aberto, e, sob o silêncio de uma mídia que apenas divulga e não parece   minimamente preocupada em repelir os insultos, as chacotas, os desaforos virulentos.

A pressão das panelas parece estar pelas tampas. Encurralada, vivendo a solidão de defender, quase que em batalha solo, a democracia e a liberdade de expressão, Dilma Rousseff parece ser a maior vítima dos apupos de uma sociedade achacada pela impaciência e pela intolerância. Até quando?

 

(Este post será publicado amanhã na minha coluna impressa do Jornal a União)