Entre Capas e Manchetes: O “Pacto de Sangue” da Rede Globo

Mal terminava na última quarta-feira, o depoimento do ex-ministro Palocci ao juiz Moro, e o advogado que cuida da sua delação ofertou à imprensa as deixas principais que fariam parte das edições da noite. Com ímpeto renovado, o Sistema Globo de Comunicações deu curso à sua cobertura de guerra contra o ex-presidente Lula, seguida no mesmo tom, por todos os outros sistemas comerciais privados.

Antes de qualquer coisa, permitam-me fazer uma declaração importante. Não habito o planeta daqueles que julgam que o ex-presidente Lula não haja mergulhado na estrutura política herdada dos governos FHC, na qual o voto popular é somente um ingrediente fraco na luta pela democracia. Interesses empresariais sempre estiveram à frente da política, e, infelizmente, sobretudo em candidaturas de coalisão, compram antecipadamente os mandatos para os quais candidamente, milhões de votos são depositados em urnas. Aconteceu assim também com os governos do PT, ainda que tenham sido estes que criaram as condições para que se fortalecessem, o Ministério Público e a Polícia Federal.

As duras lições que se tiram desses últimos dois dias frenéticos, entretanto, são as mesmas com as quais venho trabalhando ao longo desses últimos dois anos, em muitas das minhas colunas. O sistema Globo de Comunicações tem atuado com determinação no sentido de destruir a figura política do ex-presidente, pondo a serviço dessa empreitada, o melhor das suas estratégias: Tematização, onipresença e ubiquidade do tema da criminalização de Lula em todos os seus programas políticos. Editoração de capas, com publicidade subliminar de reforço ao tema, efeito enciclopédico para “recordar” à sua audiência,  passagens antigas do enredo jurídico/midiático que já trouxe a república à uma situação insustentável.

No sistema Globo, pratica-se o que eles chamam de “bom jornalismo”, que assim que é divulgado, encontra uma chuva de críticas nas redes sociais e na imprensa independente, que evidencia as marcas grosseiras da manipulação, da edição e de uma cobertura orientada para a destruição do Partido dos Trabalhadores e do seu líder maior.

E, para não ser injusta, o certo é que os outros sistemas comerciais privados seguem como mansos cordeirinhos, o mesmo diapasão da cobertura encabeçada pela rede Globo. A mídia, é bem verdade, fez um “pacto de sangue” com o empresariado, com o mercado e com o judiciário, para implodir de vez a liderança de Lula.

Esse pacto ora recrudesce, ora é retomado em todo o seu vigor. Nos últimos dias agudizaram-se sobremaneira essas estratégias.  Lula voltou a ter centralidade na grande mídia, com manchetes de uma virulência corrosiva e devastadora, e com atuação sincronizada da tv, do rádio, dos portais e do cinema, que em todo o país, estreou hoje, o polêmico filme monotemático, “Polícia Federal, A Lei é para Todos”, onde o enredo conhecido vem sendo despejado há anos na cabeça da audiência dos telejornais da Globo.

O enredo telenovelesco já dura mais de treze anos, e sempre que algo sacode a república em seus alicerces, e ameaça as instituições e sua vasta sacola de adjetivações, honorabilidade, respeitabilidade, imparcialidade, ética e moral irrestrita, sempre que a lama dos palácios ameaça apresentar-se em toda a sua sujeira, e ainda que fortunas escusas jorrem de malas e caixas, assaca-se novamente o tema central, Lula e o quadrilhão do Pt.

É a velha fórmula de sucesso, arrumando em manchetes editadas, a antiga luta entre o bem e o mal. É o velho esquema a exibir um diagrama perverso, que se vende como “bom jornalismo”, mas, infelizmente, só nos apresenta o cadáver decrépito da imprensa brasileira.

E antes que comecem a me chamar de “petralha comunista”, façam um pequeno exercício: Comparem as coberturas: O que se disse sobre a denúncia feita por Janot sobre Serra: E os milhões de Aécio, como foram cobertos? O silêncio de Gedell, a estranha prisão de Eduardo Cunha, como é a cobertura da mídia sobre esses fatos?

Em política, os santos são bem raros. Olhemos porém, para a lista dos demônios da rede Globo, quase todos eles são vermelhos.

 

(Com pequenos ajustes, este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do #JornalAUniao)

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A Fábula Revificada?

A Fábula Revificada?

A mídia comercial brasileira, liderada pelo sistema Globo de comunicações, após a divulgação da lista do Fachin, com as mais de novecentas horas de vídeos gravados com os depoimentos dos delatores, retomou com gosto o trabalho de revificação da fábula de que o partido dos trabalhadores instalou-se no poder como a maior quadrilha de ladrões do dinheiro público, tendo como chefe o ex-presidente Lula.

O modus operandi é o mesmo dos últimos treze anos. Destacar os trechos em que a fábula pode ser reconfirmada, e dar-lhes evidências em todos os telejornais, ignorando ou retirando do caminho da narrativa, tudo aquilo que possa perturbá-la ou contradizê-la.

Dezesseis partidos aparecem como alvos das delações. Só o candidato à presidência pelo PSDB, o senador Aécio Neves, tem cinco inquéritos na lava jato. Mas, o jornalismo está empenhado em dedicar suas horas nobres ao caso Lula, e de quebra, encontrar os crimes para fechar a conta do impeachment da presidenta Dilma. O cardápio é o mesmo dos últimos treze anos: A reforma do sítio de Atibaia, as palestras de Lula, as doações de campanha. Fico imaginando o setor midiático que poderia ser chamado operação Lula, com estagiários, jornalistas mais jovens, todos empenhados em destacar os trechos que vão virar manchetes, e despachá-los para os ancoras de tv, devidamente recortados e descontextualizados.

Editar, mascarar, silenciar. Longos trechos emblemáticos podem passar inteiramente despercebidos, como o que disse Emílio Odebrecht sobre o modelo de financiamento da política brasileira. O caixa dois, disse, existe na política há trinta anos, e mais, toda a imprensa sabe disso, e se omitiu, como omitiram-se as autoridades fiscalizadoras, o poder executivo e o parlamento.

Manipulação grosseira, classificou Mario Marona, ex-editor do Jornal Nacional, em seu perfil no facebook, comentando trecho destacado pela rede globo, em que Emílio Odebrecht narra o episódio em que a então presidenta Dilma soube dos maus feitos e tentou coibir os abusos com broncas e demissões.  A Globo explora o trecho em notícia que diz exatamente o oposto. Manipulando, comentando, etoma a prática da criminalização da ex-presidenta.

As lições a serem extraídas do papel da imprensa nesses treze anos são duras e desalentadoras. Simular surpresa e tomar como notícia bombástica, um sistema corrupto instalado no país há três décadas, com o beneplácito de todos os poderes e o silêncio cúmplice da imprensa, revelam o desapego que se tem pela democracia, ali no âmago das forças que deveriam preservá-la.

Mas a situação é ainda mais cruel. O país está entregue a um poder judiciário preocupado com o justiçamento de alguns e um poder midiático empenhado no julgamento e na condenação prévia dos seus inimigos políticos. A aventura pode sair muito cara ao país. O fascismo coloca na linha de frente os seus líderes, de dentes arreganhados, prontos para o próximo bote eleitoral.

Uma outra questão amarga precisa ser feita: O que mais a mídia está silenciando? Em que outros escândalos a imprensa tem se omitido? Operação Zelotes, Furnas, Telemig, e o mais recente escândalo da venda do país ao capital estrangeiro, quando e como a mídia brasileira vai pautar essas questões?

O Príncipe e O Metalúrgico

Era uma vez, uma velha rainha chamada República, que vivia com seus dois filhos numa casa grande, sendo o mais velho deles conhecido como O Príncipe, enquanto que o mais novo era conhecido como Metalúrgico.

A rainha distribuiu aos dois, em proporções semelhantes, doses de coragem e de vaidade, e ao Príncipe, por ser mais velho, entregou o governo da casa grande por oito anos.

Tendo estudado a fundo, tanto nos Estados Unidos, na Inglaterra e França, os mistérios das sociedades latino americanas, tendo mesmo elaborado a sua Teoria da Dependência, o príncipe governou a casa grande em sintonia com o capital internacional, e, internamente, em íntima ligação com a rede de televisão global. Gabava-se de ter aberto as portas do reino da República para o neoliberalismo, vendeu companhias de aço e de ferro, privatizou a telefonia, comprou sua reeleição, mas, espertamente, tinha a seu serviço, o engavetador geral da República, que não permitia que sua mãe, tampouco os outros súditos, ficassem sabendo das suas peripécias.

Finalmente chegou a vez da República entregar ao Metalúrgico o mando da casa grande. Metalúrgico era muito diferente do Príncipe. Se alfabetizara em um grupo escolar do interior do país, não falava inglês, tinha tido por longos anos, a companhia da fome, tinha perdido um dedo numa indústria do ABC, mas foi avante, organizou um partido político e começou a sonhar com um país mais justo para todos.

Pois bem, sua mãe, a República, entregou-lhe o governo da Casa Grande também por oito anos, e Metalúrgico disse que sua primeira tarefa seria cuidar da fome que ele tinha de acabar com a fome dos seus súditos. À socapa, o príncipe sorria do irmão pobre. De fato, o reino da República era habitado por dragões achacadores, e, os donos do capital, queriam mais capital, pelo que Metalúrgico resolveu aliar-se a todos eles.

Minimizou os efeitos da fome, e, por não ter um diploma universitário, como seu irmão, construiu mais escolas técnicas, universidades, onde acolheu negros, pessoas com deficiência, e sobretudo os mais pobres.

E fez mais, o humilde Metalúrgico. Quando chegou ao fim o seu reinado de oito anos, quis que uma mulher o substituísse no comando da casa grande, e assim foi feito.

O Príncipe não gostou do que via. Então era o Metalúrgico que ganhava fama internacional, elogios públicos do presidente dos Eua, e ainda por cima ganhava mais dinheiro do que ele em palestras pelo mundo a fora?

O príncipe queria de novo o mando da casa grande, mas, apesar de contar com apoio da rede global de tevê, que todos os anos criava uma pauta única contra Metalúrgico e sua sucessora, não conseguia mais os votos necessários para recolher ao seu próprio cofre a chave da República.

Foi então que a rede global de tevê deu início à Guerra Midiática contra Metalúrgico. Tinha expertise em manter e derrubar governantes, apoiara os mais de vinte anos de ditadura, derrubaria o Metalúrgico com edições diárias da Pauta única. Metalúrgico faz a regra do jogo, é o líder maior da quadrilha que se instalou na República. Era esse o script, pelo qual trabalhava o exército da rede global de tevê. Assim foi feito.

Essa estória não teve ainda nenhum final feliz. Metalúrgico é tão vaidoso quanto o Príncipe, mas, a sua vaidade radica nas coisas que fez. Tirou a república do mapa da fome, democratizou a educação, fortaleceu as instituições de fiscalização e de controle, desfez a dependência com o FMI, e, ergueu as cabeças dos seus súditos pobres. Esse é o grande pecado que o Príncipe não perdoa.

 

Jornalismo, Copa do Mundo e muito Mais

Copa do Mundo, Jornalismo e Muito Mais

 

Ruminando aqui os episódios dessa relação umbilical entre a cobertura jornalística e a Copa do Mundo, Penso numa coisa óbvia para dizer, uma coisa óbvia, mas ao mesmo tempo, profunda: Jornalista é humano, assim, jornalista erra.

Sim, o jornalista erra quase todos os dias, e, o seu erro torna-se público, invade as casas, retumba nas redes sociais, ganha clips no youtube, vira temas de enquetes trepidantes.

O mico do momento tem sido o episódio que reuniu numa mesma matéria em grandes veículos de comunicação, um jornalista, um sósia de Felipão e uma entrevista que todo repórter queria ter feito. Polêmicas à parte, que o fato já foi digerido, liquidificado, esmiunçado até a exaustão, a pergunta de fundo que pode ser feita é: Até quando o erro jornalístico vai presidir uma cobertura inicial, para depois ser retificado?

Porque é exatamente isto o que tem ocorrido com a imprensa brasileira. Nossa mídia erra desmedidamente, para depois retificar-se. Foi assim com as manifestações públicas em 2013, foi assim com a cobertura tendencialmente negativa dos preparativos para a Copa do Mundo 2014.

Inverteram-se completamente as lógicas da produção da notícia. Se antes a máxima sabida por todos era, apurar, checar, ouvir novas fontes, certificar-se, vivemos um paradigma em que primeiro se publicam as primeiras impressões, e tenta-se fazer com que as mesmas ganhem força de verdade, até quando não mais possam se sustentar.

Jornalismo de primeiras impressões, não precisamos da mídia para ter um produto tão perecível e tão abundante. Esse tipo de produção já pulula na blogosfera e nas redes sociais. Da mídia espera-se uma cobertura isenta, plural, credível, da mídia espera-se o aprofundamento, calcado sobretudo na investigação, na apuração.

O jornalismo brasileiro, de forma competente e sistemática, vendeu a Copa como caos, como catástrofe. Divulgou em todos os canais, a notícia da copa lixo, provavelmente sintonizado com o grupo político dos insatisfeitos com os atuais governantes do país.

Às vésperas do mundial, o jornalismo teve que prender as rédeas da lamentação, voltar atrás e retificar sua cobertura. Ter que dizer, em alto e bom microfone, em flashs e fotos, que a Copa tinha dado certo, uma crônica estranha, contradizendo a cobertura de ontem. Senão vejam a cobertura do domingo, véspera do terceiro jogo do Brasil: O povo cantando nos estádios, Hino Nacional à Capela, e a rede globo propondo enquete para inventar um canto de guerra para a nossa torcida.

A Copa do Mundo deu certo, e a mídia, a contragosto, tem tido que retificar sua cobertura desastrosa. Um erro porém, tem sido cometido por todos os que fazem a Copa e falam dela. A Copa deu certo, mas, custou, além dos bilhões investidos nos estádios reclamados pela mídia, custou as mortes de operários sobretudo na arena do Coríntians. Que nos lembremos desses torcedores, que façamos gols em sua homenagem, que desfiemos o hino nacional pensando neles.

 

(Este post será publicado amanhã no impresso Jornal a União)