Quando Becas e Protocolos Derrubam Títulos e Manchetes

Pronto, agora é oficial. Na tarde da última quarta-feira, o gabinete da reitoria da UFPB emitiu nota pública, onde reconhece que o protocolo e as becas derrubaram uma das manchetes que vinha povoando os portais de notícia da Paraíba desde o início do mês, onde se dava conta de que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva,  por ocasião da sua passagem pela Paraíba, no próximo dia 26 de agosto, receberia o título de Doutor Honoris Causa, aprovado pelo Conselho Superior de Ensino e Pesquisa daquela instituição, desde 2011.

A nota da reitoria rechaça argumentos que circulam nas redes sociais, de que a instituição havia recuado da outorga do título, para não fomentar manifestações político-partidárias. Deixa implícito ainda, um jargão muito conhecido da sociedade nos últimos tempos, “a culpa é do PT”. Segundo a nota, o Partido dos Trabalhadores pretendia que o título fosse concedido em local fora da UFPB. Os protocolos dauniversidade, para cerimônia desta ordem, a localização de todos os conselheiros, e a mobilização de becas para todos eles, sãoprovidências, segundo a nota, que exigem tempo hábil, do qual a instituição não dispõe.

Assim, as becas e os protocolos derrubaram a concessão do título, que certamente prosseguirá deitado eternamente em berço esplêndido, nas gavetas do gabinete, na sua soneca homérica que já dura seis anos, e que poderá prolongar-se ad eternum em perpétua quietude junto com as traças.

O ex-presidente Lula vive aliás, uma difícil “sina”. Para a sua condenação, provas não são necessárias. Bastam os indícios, o domínio do fato, a aplicação eficiente do uso do lawfare. Lula tem sido a chave mestra que abre as vantagens de delações premiadas. Lula tem sido o conteúdo mais importante de reportagens e manchetes condenatórias país a fora.

Exatamente em agosto do ano passado, circulou na coluna do jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo, a informação de que a verdadeira dona do triplex do Guarujá é a publicitária Nelci Warken, da empresa Mossack Fonseca.

A imprensa comercial não diz nada sobre isso. O que importa é que Lula seja condenado pela posse de um imóvel que comprovadamente não é seu.

A sina imposta à Lula é a da condenação, a do impedimento, que não venha ele novamente armar-se em candidato. Reconhecimento pelo que o ex-presidente fez pelo país, na conjuntura atual, não será possível.

Reconhecimento pelo que o ex-presidente fez pela educação superior brasileira, e mais particularmente pela educação da Paraíba, por agora, e por muito tempo mais, não será possível, decretam becas e protocolos.

As becas venceram. Festa para uns, gosto amargo na boca para outros. A universidade, com suas árvores, suas obras inacabadas, pede silêncio para o sono eterno do título de Doutor Honoris Causa do ex-presidente Lula.

 

(Esta coluna será publicada amanhã, em minha coluna impressa do jornal A União).

A Semana mais Longa

Ontem pela manhã, fui à Reitoria da UFPB, em missão pedagógica do Programa de Pós-graduação em Jornalismo, na companhia do meu colega Professor Pedro Nunes. Ali chegados, constatamos que não poderíamos levar a cabo a nossa missão. Todos os gabinetes da reitoria estavam fechados, e, na entrada principal, achavam-se reunidos dezenas de estudantes, professores, representantes dos Direitos Humanos e diretores de centros.

O processo, que já poderia ter se encaminhado para uma solução pacífica, tende a radicalizar-se. Era o sétimo dia da greve de fome de quatro estudantes, acorrentados em defesa de moradia e alimentação para os estudantes do interior, além de outras reivindicações. A ocupação do prédio da reitoria, era ao mesmo tempo, um gesto de solidariedade, de manutenção de uma vigília permanente ao lado dos estudantes em greve de fome. Era também uma tentativa para acelerar uma solução vitoriosa para as suas reivindicações.

Diria que estamos vivendo uma das semanas mais longas de tensão dentro da universidade, e que pode ter consequências nefastas, caso fracasse o estatuto do diálogo, da negociação, caso seja inviabilizada, pela prerrogativa da judicialização, a instância do entendimento, tão indispensável nos dias que correm.

A luta estudantil sempre foi uma constante no âmbito da academia. Os movimentos estudantis participaram vivamente da luta contra a ditadura militar, em favor das eleições diretas, assim como pelo impedimento do ex-presidente Collor de Melo. Internamente, em cada universidade, estudantes organizam-se por melhores condições de ensino, ou mesmo em defesa de outras causas, legítimas, no círculo do debate universitário.

Aqueles que decidem pela greve de fome, nunca estão brincando. Apostam no gesto como um último grito de alerta, a fim de que suas reivindicações sejam ouvidas. É um modo dramático de se fazer avançar o relógio das negociações, de se apressar a chegada do último minuto, aquele primeiro minuto de um fim pacífico, aquele minuto em que se recomeça de novo, com diálogo e com providências para que se recupere a normalidade, os dias de aulas, os dias de trabalho nas instâncias de gestão.

A expansão universitária levada a cabo no país, nos últimos dez anos, calcada sobretudo na criação de novos cursos, e consequentemente na ampliação das vagas, tem colocado a nu, as perversas condições do gerenciamento de um cotidiano formado por uma superpopulação universitária, com orçamentos cada vez mais minguados. Os problemas explodem na qualidade das salas de aulas, dos laboratórios, e, no caso particular, na assistência estudantil, sobretudo para os estudantes vindos do interior do estado e de outras regiões.

A ocupação da reitoria da UFPB, não deve ser tratada como um ato de rebeldia, ou mesmo como um ato de disputa política. Essa ocupação envolve problemas reais, que devem agora estar na agenda de toda a comunidade universitária, problemas que pedem aos gestores, pressa numa solução fundada no diálogo e em prol da harmonia dentro do campus 1.

Para além das reivindicações, temos estudantes muito debilitados, entregando seu sacrifício para que haja vitória em favor de todos. Que os leitores da coluna possam dizer, ao final da mesma, que esta notícia é velha, que a semana mais longa da UFPB já chegou ao seu término.

 

Este post foi publicado hoje em minha coluna impressa do Jornal A União