Vencidos e Vencedores, O Jogo de Cena da Política

 

O espetacular desfecho das eleições americanas desbancou os resultados dos melhores institutos de pesquisas, assim como todas as previsões dos analistas políticos. Deixou entretanto uma velha lição: O vencedor do pleito, não foi apenas Donald Trump, mas sobretudo a encenação, a narrativa ficcional armada em torno da disputa política entre os dois candidatos.

O desgaste das figuras políticas, no mundo todo, tem se revelado como fiel da balança nas eleições. Cioso da profunda descrença nos políticos convencionais, Trump trabalhou arduamente com a sua identidade. Empresário bem sucedido, perseguiu a construção da fábula de que seria capaz de transformar a sociedade americana, de revolucionar a economia, de valorizar o crescimento do continente.

Deu certo. Deu super certo. Para o eleitorado branco, pobre e com pouca instrução, Trump armou a cena do candidato marrento, capaz de enfrentar os temas difíceis, como a imigração, a questão do aborto, as relações internacionais. A fábula encaminhou às urnas, levas e levas de eleitores que naturalmente se abstiveram em pleitos anteriores.

Encerrada a votação, Trump iniciou o segundo jogo de cena. Rodou o plano presidente, pacificador, voz suave, palavras calculadas. Comprovou mais uma vez o que é a política. Tenha sempre uma cara e um discurso adequado a qualquer situação.

Quem é Donald Trump? Do que de fato ele é capaz? Creio que em pouco tempo, arestas serão aparadas, Trump estará perfeitamente encarnado aos desígnios do capital mundial, reequilibrará as forças neoliberais, em sintonia com as outras potências mundiais.

A política tem sido cada vez mais um bem articulado jogo de cena) Os personagens, como num imenso jogo de legos, são peças articuláveis à cada situação. O desgaste dos políticos convencionais, pede sempre figuras novas, “descontaminadas” das refregas políticas e das denúncias de corrupção que rondam os políticos. Foi assim nas eleições para a prefeitura de Sp, e em muitas outras Brasil a fora. Foi assim nos Estados Unidos da América, e deu super certo. Não estranhemos se na corrida presidencial brasileira de 2018, um nome avesso à política despontar como o preferido da grande mídia. Um juiz? Um empresário?

O eleitorado, essa massa imprevisível e volúvel, precisará de uma boa narrativa ficcional capaz de convencê-la a ir às urnas. O futuro do planeta, não posso deixar de reconhecer, para além das narrativas ficcionais e dos seus resultados, é mesmo sombrio e imprevisível.

Sonhar com um futuro onde não haja ficção, mas somente eleitores maduros, e políticos capazes de articular uma narrativa verdadeira, políticos ocupados em refletir sobre os nossos dilemas sem infantilismos, agressividades, jogos de cena, não sei se ainda assistiremos a um futuro assim.

E mesmo enquanto encerrava a coluna, assisti pela tv, ao discurso de Hillary Clinton dirigido aos seus apoiadores. Fiquei com um gosto amargo na boca, ao ouvir sua exortação às mulheres para que continuem lutando para chegarem a uma disputa dessa natureza. Sofri ainda mais, ao ouví-la dizer da importância de se respeitar a democracia e o voto popular. Não, aquele não era o discurso de uma derrotada, mas de uma líder, disposta a lutar, sempre.

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