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A “Tropa de Choque Perdeu”

Eu poderia dizer tanta coisa sobre o julgamento do recurso do Ex Presidente Lula, ocorrido no TRF 4, na última quarta-feira! As impressões como que se atropelam, numa espécie de fila desordenada, como aquelas da vacina da febre amarela. Falar do rito da justiça é um tanto arriscado para uma pessoa leiga no tema como eu. Ouvi os três votos, alternando entre atenção máxima e mínima.

Antes escutara as sustentações orais e fiquei assustada com a fragilidade das mesmas, ao mesmo tempo impressionada com a clareza da sustentação do advogado de defesa de Lula, Cristiano Zanin Martins.

Sobre os votos, devo dizer que todos continham uma mensagem clara: Ali os julgadores disseram: “Aqui é o meu palco, aqui posso transformar indícios em prova verdadeira, aqui, fiel aos autos do processo e à sentença sapiente da primeira instância, posso confirmar a culpa e o crime”.

A verdade é que havia excessos de recados naqueles votos. Os juízes estavam indignados com a pressão popular sofrida, e mesmo dentro do voto, era preciso enquadrar aquela gente, dar-lhe um epíteto mais adequado, chamando pois as manifestações populares de “tropa de choque”, que juiz que se preza e que sabe que está sendo visto e ouvido por todo o país, tem de falar com linguagem clara e cirúrgica.

O voto de cada um tinha também de tipificar o crime cometido pelo ex presidente. Mais que isso, era preciso caracterizar a personalidade e a trajetória do proprietário do tríplex do Guarujá. Então era recorrer ao vasto manancial da narrativa instituída acerca do mensalão, cuja síntese mais brilhante fora feita em um power point que precisava ser confirmado naquela espetacular sessão. Nem houve muito esforço para retomar a narrativa, e assim auxiliar a mídia em recuperar sua fábula predileta, a qual tinha perdido força com os escândalos recentes: Malas de Geddel, de Rodrigo Loures, propina para Serra e Aécio, essa também em malas carregadas por seu primo.

De fato,  ao revalidar os termos do power pointe do procurador Dallagnol, os juízes do TRF4 revificaram a narrativa midiática: Lula chefe da quadrilha, servindo-se da Petrobrás para constituir um polo de poder para o partido dos trabalhadores.

O recado mais claro a ser depreendido dos três a zero, é o de que nesse caso, a justiça assumiu claramente o lado do capital, do mercado financeiro, do governo interino e do seu parlamento sórdido. Ignorou a mobilização popular, cerrou portões aos brados do que chamou de “tropa de choque” a segurar com unhas e dentes, os vagos contornos de uma democracia em ruínas.

E aqui uma última impressão: A vitória maior desse espetáculo foi alcançada pela mídia comercial. É a mídia que sintetiza o script e o desenrolar da agenda dos próximos acontecimentos. Até agosto, julgados alguns recursos da defesa, Lula será enquadrado na Lei da Ficha Limpa. Mas a mídia sabe que um líder de massas não se destrói facilmente. Como numa série espetacular, os outros processos de Lula serão julgados, mantendo acesa a chama do espetáculo telenovelesco que dá tanta audiência. A sociedade perdeu, e já não se poderá sonhar, a médio prazo, com um outro governo popular e democrático. O judiciário, a mídia, todos trabalharão para que o líder de massas não suba mais à rampa do Planalto. “Com o supremo, com tudo”, como vaticinara o senador Romero Jucá.

No horizonte, já se vê a nova onda de ódio, que se espalhará pelas vias e praças do país, que já vocifera na cibervia, com os mais de cinquenta tons da estupidez humana.

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Entre Explosões de Bancos, Furtos a Escolas e Farmácias: A Inutilidade do Jornalismo Factual

Enquanto a imprensa segue divulgando o assalto do dia, as explosões de bancos ocorridas na semana, o furto de um ônibus em Pe, onde até a roupa do motorista foi levada, todas as perguntas estão por serem feitas.

A cobertura é factual, desconectada dos veios da história, completamente desvinculada de algum processo investigativo que possa auxiliar a sociedade a compreender as razões profundas desses acontecimentos trágicos.

É certo que há padrões, regularidades, modos de agir previsíveis envolvendo esses atos de crueldade extrema. Sobretudo nos atos envolvendo explosões de bancos, há com certeza uma mensagem que precisa ser publicizada, há caminhos investigativos a serem explorados, entretanto, a imprensa que temos não tem capacidade para tais esforços.

A cobertura da imprensa é farta em imagens semelhantes. A narrativa também é previsível, de tal sorte que se poderia colar o texto da explosão de ontem àquela que ocorreu na madrugada de hoje. Em geral há um vídeo de colaboração espontânea, e, a notícia de um minuto e meio coloca na boca do estômago da sociedade, um mal-estar, uma sensação de inutilidade do jornalismo.

Por que noticiar a explosão de ontem, a de hoje, a de amanhã, sem qualquer esforço de compreender o padrão, o modus operande, sem qualquer esforço para escavar a profundidade desse mar de crueldade?

O tempo jornalístico, aferrado à máquina comercial da publicidade, só pode mesmo esguelar-se, comunicando o óbvio, o superficial, o agora. A pele e as vísceras da cultura do crime estão por ser exploradas. As perguntas sobre os perfis das quadrilhas, a ousadia das equipes que lidam com explosivos, a quase que inutilidade das ações policiais pós-explosão, tudo está por ser avaliado.

Os crimes que vêm se perpetrando contra o país, em todas as suas localidades, não podem ser tratados como meros atos de vandalismo e violência cotidiana. Há aqui uma mensagem mais profunda, como que uma operação em curso, de longa data, com apoio de forças invisíveis, mas reais. Forças locais, ou forças além fronteira? Quem é o braço político dessas operações de guerra? E o braço comercial? Que forças se interessam pelo estado de vulnerabilidade absoluta das comunidades, dos sistemas de vigilância que parecem ter se esgarçado?

Há aqui uma rede forte, bem organizada. Quais são seus atores? Por que é certo que a ousadia dos que carregam explosivos não pode ser somente fruto de químicos e de experiência no crime. Fazer reféns, roubar veículos, explodir bancos, em operações realizadas com sucesso? Isso só pode se dar quando há uma rede competente de produção, planejamento, organização e realização. Essa rede precisa de atores em todos os nós e circuitos do processo. Precisa ter mandantes e mandatários em lugares que ninguém de bom senso suspeitaria.

O jornalismo mínimo não tem competência para tratar disso. Esse tipo de jornalismo só pode acompanhar o fato, quando ele mesmo acontece, quando toda a operação profunda suspira aliviada com mais uma explosão de sucesso e festeja de forma invisível o capital amealhado. Pode ser dinheiro, pode ser experiência, pode ser a oportunidade para remanejar sujeitos mal sucedidos.  Uma sociedade em absoluto estado de vulnerabilidade. A quem interessa esse propósito, barulhento na superfície, mas invisível na sua profundidade. Não, a imprensa que temos não nos dirá nada sobre isso.

Omelete de Nada

As vezes acontece. O teu editor já te deu o prazo máximo, você tem consciência do pequeno retângulo de espaço aberto, 36 linhas a serem preenchidas, mas só há uma ausência profunda dentro de você.

Os temas desapareceram, tiraram férias, desligaram os telefones imaginários, desconectaram-se, não há como fazer contato com um tema que seja.

Você inventa frases de efeito, rebusca na memória um pensamento clássico, nada de jeito acontece. É como perder o sono, ou pior, é como tentar acordar, no meio de um pesadelo, todos os monstros com armas apontadas para você, mas, o que se pode fazer, senão espremer uma gota que seja de sanidade, uma trilha por onde começar, uma ponta qualquer de novelo azul que te possa levar a algum labirinto?

As vezes, escrever é como atirar pedras a um lago, e ficar à espreita, vendo as ondulações, o barulho suave da fricção da pedra com a água fria, o silêncio, um fundo que não chega nunca. Escrever, as vezes, é como ser uma espécie de torneira quebrada, a gotejar, o dia inteiro, pingo a pingo, compondo uma sinfonia monótona das horas mais frias. Escrever, as vezes, é não dizer nada, ainda que se vá juntando palavras, como num jogo de lego, uma construção improvável, de um edifício todo feito de sílabas ocas de sentido.

Dezesseis linhas, seu telefone tocando, é o editor. Você sai dos escombros de si mesma, e com voz aparentemente firme promete: Já já mando a coluna.

E regressa ao brinquedo de lego, tentando a golpes de martelo, desmantelar a inércia e fazer com seus restos um fingimento de escrita, uma invenção de crônica, uma frase qualquer que se salve no meio dessa algaravia.

Seu tempo acabou. Em desespero, você pede ao word que conte as palavras, quase esmurra o teclado sem fio, Não pode ser. Mil setecentos e trinta caracteres, uma ninharia para quem já atirou pedras ao lago, espreitou um poço sem fundo, vasculhou as horas, à cata de um enredo, uma saída, um arranjo aceitável, um protocolo de salvação.

Parabéns. Seu tempo acabou. Você está no topo do desfiladeiro. Invente uma frase comprida, como uma corda grande, segure-se nela até o fim. As frases compridas acabaram, ou são como as velhas frutas de final de feira. Seu tempo acabou, o trem está chegando, e você terá de desocupar os trilhos, sob pena de virar omelete de nada. Omelete de nada. Três palavras insípidas para uma crônica que ninguémquererá ler.

Desocupe os trilhos, prepare o próximo envio do correio eletrônico, sem esquecer de vasculhar, por entre as peças de lego que você empilhou, o título dessa sua escrita feita de cascas e ossos das horas de inércia.

 

(Este post foi publicado hje em minha coluna do Jornal A União).

Balanço Geral: Cartografia de um País Desmontado

Balanço Geral: Cartografia de um País Desmontado

 

Chega o fim de ano e a gente se pega tentando fazer balanços, olhar para trás, prever o que será amanhã, como estaremos semanas após havermos espocado a champanhe do ano novo. Champanhe? Eu não beberei nenhuma taça. Literalmente, sou uma pessoa que dói, todos os dias, desde que começou esse desmantelamento das estruturas políticas, econômicas, culturais e sociais do país.

Sou uma pessoa que dói, e por isso talvez minha síntese da história brasileira dos últimos três anos seja assim meio apressada, com lacunas imensas e provavelmente algumas palavras fora do lugar, outras desafinadas, como numa espécie de ópera em que não há sincronia, nem regência.

A verdade é que estamos habitando um país completamente desmontado, e a fase do agora, é talvez uma das mais impróprias às festividades. Vivemos a fase do império da máquina, do tratoramento, ocupado em aplainar a terra, desmantelar restos, implodir onde for preciso, para que se reinstaure a lógica do mínimo, na política, na cultura, na economia estatal, nas relações de trabalho.

Mas esse processo de desmantelamento não começou agora, nem se pode dizer que houve dias de calmaria. Desde 2014, apressou-se o tom da trilha sonora desse imenso trhiller, acelerou-se as cenas principais, tudo a jato, para que se possa recomeçar, num tempo estranhamente parecido com aquele do passado, em que a miséria, as desigualdades, a riqueza e a pobreza, eram coisas naturais, dadas por Deus.

Tampouco pode se dizer que a imensa tempestade não fez suas vítimas. É clara a morte da política. E aqueles políticos que ainda seguram, por caridade do capital, as chaves dos palácios e das malas, emprestam suas últimas energias deletérias para a limpeza, o aplainamento, o desmantelamento da antiga política, da política necessária, daquela que tentava uma síntese desenvolvimentista na qual capital e trabalho pudessem dialogar, naquela em que crescimento econômico, social e político não fossem apenas lendas retóricas, sem qualquer enxerto de realidade.

A morte das lendas. Sim, lendas caíram por terra com a força de um tsunami nesses dois últimos anos. Os mesmos braços políticos que se emprestaram com vigor e sanha falastrona ao esforço de derrocada do Brasil, eles mesmos viram ruir sua ética, e sua moral falaciosas, sob os carvões em brasa das delações e das suas provas explícitas.

A mídia limpa, vigilante da decência e da ordem, respirou também o hálito da sua própria carniça propineira.

A terceira morte que salta aos olhos, a terceira morte mais desastrosa é a da perda de autonomia e de poder de compra dos mais pobres, e com ela, o retorno da caridade de ocasião, das campanhas contra a fome, dos pedidos do Pão de Açúcar, para que ajudemos a quem não pode mais comprar. O acelerado desastre brasileiro implodirá o ano novo e fincará de vez, as últimas estacas de desesperança num país desmantelado.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna impressa do Jornla A União)

A Escuta do Outro Lado: Uma Imprensa que Falha todos os Dias

Não podemos viver sem a mídia que temos, mas a verdade é que o jornalismo precisa melhorar. Esta foi uma das conclusões do Simpósio Nacional sobre O Jornalismo Profissional e a Formação Universitária na Era da Convergência, realizado pelo programa de Pós-graduação em Jornalismo da UFPB, entre os dias 20 a 22 de novembro.

O evento reuniu pesquisadores de diversos programas de pós-graduação do país, mas trouxe também para o debate, profissionais do mercado, assim como os chamados jornalistas independentes, que trabalham em grandes agências alternativas, como a Agência Pública e a Lupa, que aplica uma metodologia para checar quando fatos jornalísticos publicados como notícias são verdadeiros ou falsos.

O professor Antonio Fausto Neto, da Unissinos, Rio Grande do Sul, proferiu a conferência de abertura, com o tema, “O Jornalismo como Narrativa do Presente”, demonstrando com muita ênfase que se, nas ambiências jornalísticas clássicas, a esfera da distribuição de conteúdos envolvia apenas protocolos técnicos, na contemporaneidade, essa esfera é talvez a mais importante, visto haver sido contaminada por uma grande avalanche de narrativas, modos de dizer, através das mídias sociais como facebook, Twitter, whatsapp, etc.

O pesquisador tratou brevemente da operação Lava Jato e do importante pacto feito com a mídia brasileira, a fim de que a narrativa central da operação sempre pudesse ser reproduzida na mídia. Ocorre porém, que tal narrativa não ouve, ou escuta mal o chamado “outro lado”, tão caro aos manuais de jornalismo, e que tem sido flagrantemente esquecido pela produção jornalística.

O “outro lado”. O tema também foi tratado na última mesa do evento, que reuniu midialivristas, além do projeto “Fora da Curva”, da UFPE, aqui apresentado pela professora Paula Reis.  Os participantes apresentaram a ideia de que a imprensa tem lado, e este, com poucas exceções, é sempre o lado das autoridades, do mercado financeiro, enquanto que a sociedade, através dos seus coletivos, luta por construir modos de dar publicidade à sua visão dos acontecimentos.

“É preciso elevar o custo da mentira”, esta máxima dos movimentos que trabalham contra o Fake news também reverberou nos debates. Considerou-se que notícias falsas não apenas elegem presidentes ou destróem reputações. As publicações falsas e o seu compartilhamento já fizeram vítimas fatais, como a chacina e a morte de Fabiane Maria de Jesus, na praia de Guarujá, cuja foto postada nas redes sociais, estava acompanhada da notícia falsa de que ela usava crianças para rituais de magia e bruxaria.

A negligência da imprensa para a escuta do “outro lado” também tem vítimas recentes, a exemplo do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, e do lastimável episódio do seu suicídio após denúncias de corrupção naquela instituição.

Checar e apurar, sempre. O jornalismo precisa tomar doses maciças desses cuidados, para que possa alcançar um pouco da sua credibilidade perdida.

 

E A Canção Mais Bonita Sempre Sairá da sua Boca

Quando menino, vivia procurando lugares de eco, onde pudesse projetar a voz e cantar. Cresceu mais, assaltou horas livres no piano, e logo estava ensaiando os primeiros acompanhamentos para as músicas que cantava.

Jovem, participou de festivais e sempre ficava entre os primeiros. A música era sua grande paixão, e vinha poesia junto, simples, romântica, de protesto, até poesia regional, no melhor estilo, para seus forrós de raiz.

Tinha nascido com ritmo, com afinação, e esses dois ingredientes foram se aprimorando, e eis que já se vão completados trinta e cinco anos de carreira na música.

Uma carreira discreta, com um grupo seleto de fãs. Todos os seus amigos do Instituto dos Cegos Adalgisa Cunha, casa que guarda talvez, o maior arsenal das memórias das suas canções, amigos múltiplos que foi fazendo ao longo da vida, Seus amigos do grupo Acorde, para o qual escreveu um dos mais belos cantos espiritualistas: “Um Dia Todos Nós Seremos Anjos”, com uma melodia belíssima, uma espécie de sonata de otimismo e generosidade, para os duros tempos que estamos vivendo.

Beto Melo é seu nome musical, Mas, José, esse carpinteiro da Melodia, Alberto, segundo nome do seu batismo, aberto à solidariedade, à amizade, pronto pra apoiar projetos musicais dos que vão lhe procurar. Já regeu o coral da Associação Paraibana de Cegos, já plantou sementes musicais em corais no interior do estado. E canta, canta muito. E conhece quase todos os gêneros musicais, e experimenta compor em todos os ritmos, como uma espécie de enciclopédia sonora.

O show em comemoração aos 35 anos de carreira aconteceu na última terça-feira, na Usina da Energisa. Beto Melo foi o rei do palco, e demonstrou de maneira magistral, a firmeza da voz, o ritmo, a afinação desse cantar único.

Assisti da plateia, com lágrimas teimosas no canto do olho e um sorriso do tamanho do mundo. Vibrei como quando éramos amigos de infância, compondo juntos nossas primeiras canções com rimas previsíveis e sempre encerradas em dó maior.

O show de Beto Melo foi um culto à amizade, à diversidade, sobretudo foi um poema vivo da sua história, que terá sempre um tom de doçura e de generosidade.

Depois do abraço, trouxe para a crônica de hoje essa certeza: A canção mais bonita sempre sairá da sua boca.

 

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa do Jornal A União, do dia 17 de novembro)

Ler em Braille: Um Gesto Fundador da Cultura do Relevo

Após a inauguração da imprensa braille do Jornal A União, alguns amigos me perguntam se este não seria um projeto obsoleto, na medida em que há hoje uma grande ecologia de aplicativos que permitem às pessoas cegas acessar conteúdo online, nas telas de smartphones e de celulares.

Como pessoa cega, aferrada ao mundo da escrita, como pessoa que sempre leu e escreveu em braille, como pessoa que dedicou seus anos de doutorado a pesquisar as potencialidades do braille, ou, por assim dizer, a força do relevo dentro da cultura da escrita, preciso dar resposta a esse debate, para que se compreenda a importância desse encarte em relevo que agora A União entregará às pessoas cegas da Paraíba.

O método de leitura e escrita das pessoas cegas foi inventado e divulgado pela primeira vez, em 1929, quando o jovem cego francês, Luís Braille deu a conhecer o seu invento para os franceses do seu tempo. Cem anos depois, o método era reconhecido e se expandia pela maior parte dos países do mundo. Mas estava confinado às instituições dedicadas à educação dos cegos. Não era plenamente reconhecido na cultura social em geral, não aparecia em rótulos, roupas, tampouco era disseminado como meio de leitura direta pelo mercado editorial.

Os inventos das últimas décadas do século XX, deram novo impulso à expansão do braille. Sistemas informáticos incorporaram fontes braille em seus aplicativos de escrita, suprimentos como impressoras braille de custos menos elevados foram criadas. Display braille para leitura do braille em direto, por conexão USB com computadores, ou via bluetooth com smartphones, permitiram que o braille tomasse acento privilegiado na esfera tecnológica.

A Indústria farmacêutica, em larga maioria, incorporou informação braille em suas embalagens, assim como alguns empreendimentos de cosméticos e de alimentos.

As cidades do mundo estão atravessadas por coisas escritas. Cartazes, letreiros, placas, panfletos, propaganda de toda ordem para leitura direta por quem enxerga. O braille, por sua vez, virou artefato de luxo, que só pode ser consumido ou nos livros didáticos, que nem sempre chegam na hora certa, ou por pessoas privilegiadas que podem consumir novos produtos como os displays braille e smartphones de alta performance.

Por isso o gesto de A União em Braille é tão importante. Ler em braille, em pleno século XXI, é valorizar o gesto fundador de Luís Braille. Mais que isso, é dar visibilidade e relevo a uma coletividade que se afirma nesse gesto fundador de tocar as palavras, decifrar as combinações e associações de pontos, coletividade esta que em geral é esquecida em meio à montanha de publicações em tinta que povoam a cultura do texto e da escrita.

É possível que num futuro, uma pessoa cega chegue num stand e compre o seu magazine predileto no formato que desejar: Braille, áudio ou PDF.

Aqui mesmo na Paraíba, a FUNAD está lutando para que contas de água e energia sejam impressas em braille, com código de barra, para que a pessoa cega tenha autonomia para ver o seu consumo e quitar seu débito.

O gesto de tocar as palavras com a polpa do dedo só será suprimido da cultura, quando não mais houver pessoas cegas no mundo. Então, ler em braille, em papel, por uma pessoa cega, é um gesto de reconhecimento e de cidadania.

 

As Coisas do Arco do Velho

O velho Temer não tem medidas para a implementação do seu projeto de recuo do país a um estado anterior ao tempo em que ele ainda era jovem, a pobreza e a desigualdade só cabiam em discursos de alguns religiosos progressistas, a política era realizada por senhores oligarcas, negociantes de café, de ouro, e da agropecuária.

O estado brasileiro na era Temer, vai ficar tão pequeno, ao ponto de caber num fusca. O apequenamento começa com a chamada “Pec do fim do mundo”, congelando os gastos primários por vinte anos, e prossegue com avidez nos processos de privatização, nos cortes brutais dos orçamentos da saúde, da educação, da ciência e tecnologia.

No país do velho Temer, a reforma trabalhista só tem a retórica de que é uma legislação moderna. Dissolvem-se as estruturas clássicas de proteção dos trabalhadores, é bem verdade, mas  eles, num passe de mágica, convertem-se em vendedores de horas. Os horalistas, transitando de empresa em empresa, ofertando horas de fim de semana em quiosques ou postos voláteis de trabalho, porque a chamada indústria nacional também deixará de existir, subsumida em grandes fusões mundiais do capital global.

Não têm medida, as coisas do arco do velho. Extinção da cultura, desmantelamento das políticas públicas de comunicação, facilitação da prática do trabalho escravo, essa terrível praga que por tanto tempo empestou a América Latina, e que no Brasil, demorou muito mais do que em qualquer lugar para ser abolida.

Com a boca cheia de mesóclises, avança sobre os planos de saúde dos mais velhos, permite os aumentos de gás de cozinha e combustíveis, extingue as farmácias poulares e corta medicamentos de alto custo para doenças raras.

Como um velho trem desgovernado, o país segue em marcha ré, aos arrancos, recuando a um tempo em que a política se fazia à base do compadrio, doapadrinhamento, da constituição de um grupelho minoritário orbitando em torno de privilégios, troca de favores, subordinação da maquinaria do estado aos seus interesses.

De vice presidente decorativo a desmantelador da república, o velho Temer demonstra uma coragem inflexível para fazer o que tem de ser feito. Pouco lhe importam os menos de três por cento de popularidade, aferrado ao seu posto de destruidor de um projeto de Brasil democrático,  vai manejando as forças que o apoiam, vai torcendo a manivela do tempo, para trás, sempre para trás, na reconquista de um país antigo, subordinado ao capital estrangeiro, entregando suas comodities à exploração mundial.

No país velho onde Temer governa, não cabem as descobertas científicas do beneficiamento de urânio, ou a participação da física paraibana no experimento do século: A captação da explosão entre duas estrelas de newtron, ocorrida há mais de cento e trinta milhões de anos e que somente agora pôde ser observada.

No velho país onde Temer governa, o arco estreita-se sempre para trás, enquanto ele e a sua força de apoio comemoram seus feitos em jantares palacianos, entregando à população um cinismo sem medidas.

Salve-se quem apanhar Primeiro o Pomo de Ouro

Você olha para o facebook, e se depara com posts à procura da criança que cada um deve carregar dentro de si. Nada contra as pílulas encapsuladas em frases que tentam despertar a alegria, mas eu não consigo abrir a caixa das palavras mágicas, e sei que a varinha de condão, que as estórias de fada incutiram tão bem em nossas cabeças, a varinha de condão hoje, não passa de um jeito de falar, de interpretar a lei, de arrebanhar os seus, sob o manto da justiça, e cuidar da sua salvação.

Eu nunca me esqueço da estória antiga, que minha irmã Maria me contava na hora de dormir. Minha irmã não conseguiu aprender a ler e escrever. Passava o dia todo cuidando das lides da casa da nossa família grande, e de noite, com um riso bom no rosto manso, deitava minha cabeça no colo e me contava a estória do castelo belo belo.

A menina andava à procura de uma chave que abrisse o castelo belo belo, mas, no seu caminho, só havia monstros, o de uma cabeça, de duas, de três… Eu dormia sempre nesse ponto da estória, e assim nunca cheguei à casa do último monstro, com suas sete cabeças torpes. O castelo belo belo persistia intocado, fechado dentro do meu sono.

Não há estória de fada que nos haja preparado para o mundo em que agora vivemos. A grande partida na qual estamosenvolvidos, não se assemelha em nada com o fantástico campeonato de quadribol, no qual os jogadores empenham-se para apanhar primeiro o pomo de ouro.

Na nossa história, o pomo de ouro já foi apanhado, e ainda que a tv, o rádio, os jornais e a cibesfera nos digam para corrermos atrás dele, o pomo de ouro está bem guardado nas pregas do manto da justiça, e só é empregado em ocasiões muito especiais, para salvar do rigor punitivo, os eleitos da sua corte.

O pomo de ouro nem é tão bonito assim. Dependendo da ocasião, ele pode ser um intrincado de palavras difíceis, um discurso enviesado e vago, mas que tem o condão de abrir portas e mudar uma realidade,  torcer a chave da lei e abrir as asas da liberdade sobre as cabeças dos seus protegidos. Abracadabra? Pocos pocos salamocos? Na nossa história, cabem muito mais coisas nessas palavras, do que sonha nossa vã inocência.

O castelo belo belo existe de verdade, mas a sua chave é guardada por monstros normais, de uma cabeça apenas, com dentes excelentes e propósitos torpes. A mesma chave que abre o castelo belo belo, abre e lacra malas cheias de dinheiro.

O castelo belo belo não é tão belo assim. Nele, os passos ecoam à noite, na direção do porão, ali onde se decidem as coisas grandes da república, na certeza de que o pomo de ouro está bem guardado sob as pregas do manto da justiça, um suspiro de alívio agitando a fumaça dos charutos, porque sabem que na hora certa, o pomo de ouro será usado com maestria para que tudo fique assim, na ordem e na lei.

Peço perdão à Maria, peço perdão à infância, peço perdão à criança que ainda vai crescer, os monstros estão todos juntos, no primeiro castelo, guardam muito bem o pomo de ouro, e não há o “viveram felizes para sempre”. Só existe o próximo minuto dramático de cada dia, só existe a terrível máquina ceifadeira do futuro, só existe o primeiro monstro, com seu riso mal e sua habilidade, preparando a próxima manchete trágica para o jornal da noite.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do #JOrnalAUnião).