Os Pontos de Braille como Disparadores de Mundos

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Me lembro que da primeira vez eu chorei, e não foi de alegria. Eram de puro desespero aquelas lágrimas de uma menina de sete anos, curvada sobre sua carteira escolar, uma folha de zinco à sua frente, cheia de pontos em relevo, e, à sua volta, outros meninos e meninas soletrando em voz alta, estranhas palavras como “é agudo, o grave, c com cedilha” …                     Meu cérebro, herdeiro das memórias do campo, apegado à gramática do cheiro da terra, da dureza das pedras, do canto dos pássaros, do rosnar da chuva avizinhando-se dos pequenos morros, meu cérebro negava-se a abrir-se para aquele estranho mundo feito de zinco e pontos em relevo.

Mas eis que numa tarde de outono, alguma coisa que não sei explicar aconteceu.  Foi algo como um clique, um ponto de acoplamento, e de repente eu havia saltado do universo das lágrimas de desespero para um novo ambiente, onde compreendia as letras estranhas, e mais que isso, conseguia juntá-las para formar palavras.

Recordo-me dessa tarde com uma nitidez assombrosa. Eu me postara de joelhos, diante da minha cama, e, sobre ela, estava a cartilha que eu dedilhava com afinco. De repente comecei a ler, e nunca mais parei.

Dois dedos deslizando sobre páginas pontilhadas. E é como se você houvesse ganhado um controle remoto, um disparador de mundos, botas de sete léguas para as mãos, imagine o que quiser, com o braille, é como se você ganhasse um novo passaporte para a sua cegueira, como se, de repente, você ofertasse ao seu cérebro, trilhas e trilhas infindáveis, abertas à aventura, ao deleite, ao conhecimento.

Pronto, eis que com mão hesitante, eu havia batido à porta do mundo da cultura, e, por alguma razão que eu ainda não sabia explicar, aquela porta de múltiplas faces abriu-se de par em par, e eu entrei, com meus dois dedos indicadores distendidos, suavemente pousando nas letras, no ajuntamento de palavras, nos mundos paralelos, nas ilhas  desertas onde habitavam os Robinsons Crusoés, no sítio e no reino de águas claras onde uma menina de nariz arrebitado reinava e reinava.

Arrimada àquela célula de seis pontos justapostos, que se associavam, separavam-se, multiplicavam-se em uma gramática em relevo para narrar o mundo da cultura, caminhei com firmeza rumo ao futuro. Concluí o ensino fundamental, cursei o ensino médio, entrei na faculdade de jornalismo. E num dia de agosto de 1981, assumia meu primeiro emprego como repórter, eu, o braille, a datilografia e toda aquela bagagem literária que eu havia armazenado ao longo da minha vida.

Foram quase nove anos de um dueto indispensável: O braille e a datilografia sendo meus instrumentos fundamentais para a coleta e o registro dos acontecimentos do mundo. Depois veio o mestrado, o doutorado, a docência universitária. Todo esse percurso me fez compreender o que Luís Braille havia feito pelas pessoas cegas de todo o mundo.

Ele havia modificado profundamente, com o ato de ler/escrever seus pontos em relevo, os processos de cognição/estruturação cerebral. O diálogo entre mão e cérebro, associando, combinando e decodificando, havia engendrado novas sinapses e conexões neuronais, habilitando o sentido do tato para a tarefa de habitar o mundo da leitura e da escrita, o mundo do pensamento reflexivo e da expansão da inteligência. Uma revolução ao mesmo tempo silenciosa e invisível, mas, de natureza bioantropológica e sociocultural.

E eis que chegamos ao século XXI, e ao seu formidável processo tecnológico. Revisito de novo a primeira cena, as lágrimas de desespero. 76i Retomo aquela tarde de outono, experimento o mesmo sorriso infantil de profunda compreensão. Estou cercada por dispositivos tecnológicos. Um óculos de leitura servido por uma mine câmera que lê livros em papel; Um computador recheado de livros digitais; meu smartphone; Mas ainda é em braille que mais gosto de ler. Posso ler em direto, no papel. Leio com minha linha braille acoplada ao computador ou ao smartphone. Leio no escuro, os livros armazenados no cartão de memória da minha linha braille. Possibilito, todos os dias, que minhas mãos e meu cérebro forjem esse diálogo milagroso, esse reajustamento de sinapses e conexões, essa expansão de consciência, fenômenos complexos disparados por esse gesto simples de tocar os pontos em relevo.

Ler e escrever em braille é um gesto primordial da cultura. E, essa pequena célula de seis pontos justapostos, engendrou para nós, um respeitável salto quântico que nos impeliu para muito longe do que éramos antes do braille. Lemos o mundo com nossas próprias mãos, palpando fórmulas químicas e matemáticas, deslizando nossos dedos por sobre pautas musicais, sobrevoando páginas de romances, perscrutando os mundos insondáveis das teorias científicas. Por isso afirmo que o futuro que se avizinha, também será descrito/lido em braille.

Canto à Tristeza

Ao som da música Blowin’in-the Wind, cantada por Diana Pequeno

 

Não, não se ofenda comigo. Deixe que eu cante a minha tristeza. Deixe que eu cante a minha tristeza. Pelos que partiram, por todos nós, que ainda estamos nesse barco estranho.

Deixe que eu cante a minha tristeza como quem chora baixo, o pranto deslizando pelo meu rosto, as palavras caindo no ritmo da música, a música tocando como se viesse de outro mundo, a música como que adentrando e tomando o leme desse barco triste.

Deixe que eu cante a minha tristeza como quem inventa mundos impossíveis, para logo vê-los destroçados, sobre o tremor das minhas mãos. Escute o canto da minha tristeza, como quem quer fugir da tempestade. Escute esse canto triste, como quem quer evadir-se desse barco, arremessado contra os arrecifes da insensatez. Escute como quem quer dormir, para fugir ao tropel absurdo dos cavaleiros, para não escutar o barulho dos ossos partidos, para não chorar por aquela imagem perpétua do menino voando livre para a morte.

Deixe que eu cante a minha tristeza como se respirasse lentamente. Como quem respira pelos que já não podem, como quem espreita pelo cheiro das flores, como quem limpa o cheiro da pólvora malsã da ignorância e do mal. Quantos anos pode um povo morrer, sem conhecer a liberdade?

Deixe que eu cante a minha tristeza, com a suavidade da imagem de uma gaivota deitada na areia, descansando, depois de haver sulcado os mares todos do mundo. Veja-me no meu canto triste, postada numa janela onde a indiferença das ruas tolda minhas lágrimas. Postada numa janela onde só o meu canto é presença, como um estribilho eterno, como uma procura inútil, como um adeus que não foi dado.

Deixe que eu cante com minha voz ao mesmo tempo embargada e firme. O meu canto triste, como aquele da minha irmã, que tinha perdido nossa mãe, e cantava, para embalar minha filha pequena. Um canto triste, um canto triste, como se o tremor da minha voz percutisse uma harpa antiga, tentando aplacar a dor.

Deixe que eu cante a nota infinita da minha tristeza, com a voz embargada, as lágrimas como dilúvio sobre o meu rosto, as sílabas desconexas sob a quilha dos soluços.

#DitaduraNuncaMais: Minha Homenagem à Zélia Stein (In Memoriam)

Esse dia pede luz, memória, resgate de coisas que não podem ficar no esquecimento. Republico minha coluna de A União, publicada em maio de 2013, entre lágrimas, atualizo os tempos do verbo, refaço as linhas de força de um caminho sem volta.

A Paraíba também recuperou, para expor ao Brasil e ao mundo, através da Comissão da Verdade, as páginas da história dos anos de chumbo. Levantou nomes, cotidianos desfeitos ou obscurecidos, torturas. Inventariou, através de papéis amarelecidos ou vozes trementes, memórias terríveis perpetradas com ou sem o carimbo da lei, aniquilando ideais, sonhos, projetos de futuro.

O trabalho foi árduo, mas contou com experiências do quilate da historiadora e professora Lúcia Guerra, com o vigor e a perícia investigativa do jornalista e sindicalista Rafael Freire, além de tantos outros nomes significativos que compõem a nossa Comissão da Verdade local.

Cada pedaço do nosso rincão paraibano tem linhas e linhas da sua história particular daqueles anos. Nomes que precisam ser exumados do esquecimento, passagens que necessitam ganhar  relevo  e serem fixadas na memória do presente.

Se me fosse dado falar daquele tempo, eu me lembraria da minha professora de comunicação, Zélia Maluza Stein.  Veio para João Pessoa em fins de 1979, mas ficaria aqui poucos meses. Me lembraria de duas marcas da sua personalidade: A extrema delicadeza com que tratava seus alunos e o tom de reserva e de tristeza que eu podia notar na sua voz.

Se me fosse dado falar, pediria à nossa Comissão da Verdade que vasculhasse no Correio da Paraíba, em sua edição de 29 de janeiro de 1981 e procurasse por uma reportagem sobre a Lei para os Estrangeiros. O Depoimento de Daniel Sanchez, marido de Zélia, dispararia covardes represálias.

Vivemos pouco tempo com aquela professora de voz suave, porém, tingida por uma tristeza profunda.  Zélia fugiu de João Pessoa num dos dias daquele ano, ela e o seu companheiro uruguaio, Daniel Sânchez, com seu filho que tinha pouco mais de dois anos. Recomeçou o que já vinha fazendo ao longo dos anos de ditadura, saindo e chegando em lugares, abandonando sua vida nos desvãos onde habitava o medo e a incerteza.

Naquele tempo eu não podia compreender o horror do que vivíamos. Nós, jovens estudantes, tentávamos alinhavar alguma compreensão daquele período com fiapos de conversas, canções de protesto e silêncio, grandes nacos de silêncio.

Somente em 2012, por força da internet, eu e Zélia nos reencontraríamos

Reencontrar Zélia foi como me rever, tão jovem, tão completamente alienada da minha história, tão amargamente inconciliada com um tempo em que tantas pessoas viveram como mortos-vivos, despojados dos seus sonhos, das suas vidas.

Zélia Maluza Stein, capixaba, fugiu de João Pessoa às pressas, levando seu filho pequeno e um vazio no coração, pois já tinha sido separada da sua primeira filha, anos antes, em 1969, quando buscou asilo político no México. Zélia Maluza Stein, perseguida política em vários municípios brasileiros. Zélia Maluza Stein, clandestinamente sequestrada em 1976, pela polícia brasileira, torturada pela polícia do seu país e do Uruguai.

Não, queridos leitores, essa coluna é muito pequena para a escrita da crônica de Zélia. O seu relato é imenso pela monstruosidade do que lhe fizeram, por isso confio à Comissão da Verdade, o desvendar de pelo menos o capítulo paraibano do seu sofrimento.  Zélia viveu, no Uruguai, junto da sua família. Zélia viveu, mas carregou por todo esse tempo, o manto da dor e da angústia.

A Filosofia das Alcachofras                

Hermana querida.

 

Você se lembra dos dias em que ficávamos à mesa do almoço, esquecidas de tudo, raspando com nossos dentes, nossas línguas tenazes, as flores de alcachofra que Mantsi preparava para nós? Nunca lhe disse, mas naqueles momentos eu como que adentrava num mundo paralelo, como que me suspendia de mim, do meu corpo presente,para habitar uma espécie de nuvem, de suspensão leve, uma espécie de barato que não havia alcançado nem com marijuana nem com vinho.

Não me pergunte porque, mas ultimamente aquelas alcachofras que eu raspava  com meus dentes, que eu escrutinava com minha língua, até alcançar um não?gosto, pálido, etério, não me pergunte porque, mas essas alcachofras estão conversando comigo.

Agradeço por essa memória ter invadido o meu dia. Agradeço por haver filósofos, espiritualistas, budistas, físicos quânticos que dizem que fios sutis ligam tudo que há no universo. Sim mana, por ter vivido aquelas experiências na sua mesa de almoço, agora sei que fios muito sutis nos ligam com as alcachofras.

Conversei com as alcachofras, mas, não me pergunte porque, somente agora me veio a tradução daqueles diálogos.

As alcachofras nos falam de leveza, de sutileza, de sussurros inflamados de delicadeza. Mas, para se chegar a esse nível de conversa, há que se ter disciplina, tenacidade. Não é como pegar um martelo e partir a pata do caranguejo, na mesa de um bar ruidoso.

As alcachofras se come em família, em estado de quase meditação. Mas para escutar o que dizem, há que se possuir, suavemente, e sem pressa, o seu sabor indescritível, meio sabor de cerveja morna, ou quem sabe um vago sabor à brócolis cozido no vapor. Há que se aspirar o seu cheiro, como se fosse preparação para um entendimento tântrico.

Quando você chega ao não/sabor, então já pode escutar e ruminar sobre tudo o que foi dito.

Naqueles dias, mana, na sua mesa de almoço, compreendi que as alcachofras não são desse mundo. Um mundo virulento, apressado, um mundo onde martelos quebram patas de caranguejo, competindo com as buzinas e os estampidos. Um mundo onde frenéticas máquinas de calcular expulsam comensais de restaurantes caros, um mundo onde inimigos se dão tapinhas nas costas enquanto ruminam a vingança como o prato do dia seguinte.

Quanto tempo o universo terá levado para inventar as alcachofras? Quantos de nós terão falado com elas? Outro dia li alguma coisa em que o escritor dizia que já não dançamos valsa. Mana, nunca dancei uma valsa, mas, sinto-me plena, por ter conversado com as alcachofras. E que eu ainda possa,transpor a soleira desse mundo virulento, e que eu ainda tenha entre a língua e os dentes, as sílabas suaves da filosofia das alcachofras.

Os Quatro Tempos da Morte

 

Os legistas disseram que não é possível determinar de que fuzil partiu a bala assassina que vitimou Agatha Félix. Os legistas disseram muita coisa. A bala partiu de um fuzil, mas, no corpo da menina, fragmentou-se toda, como se quisesse esconder rastros, como se quisesse mascarar o crime.

Os legistas devem ter visto que a menina morreu rápido. Apartou-se do lençol pesado de medo que a cobria, do pequeno travesseiro de alegria que  percutia em seu corpo, por conta da sua última aula de balé.

Os legistas não souberam dizer de onde partiu a bala de fuzil. Rápida, certeira, vindo direto ao banco da combe onde a menina mastigava seu medo e sua alegria, como se fosse uma refeição incongruente, pedaços de coisas estranhas dançando no seu estômago, nas suas vértebras, nas suas mãozinhas

suadas.

Por causa do seu protocolo, da sua linguagem técnica, dos seus rituais, das suasconveniências, os legistas não disseram o essencial, fizeram silêncio absoluto sobre o que viram, na pequena coluna destroçada, no rostinho exangue, nas mãozinhas hirtas e geladas.

Os legistas calaram-se ante à retumbante verdade debruçada sobre aquele cadáver pequeno, gritando suas sílabas peremptórias: Eu sou a máquina da morte. Estou aqui para a debulha, a ceifa,  o trucidamento. Sou fruto de leis, protocolos, decretos.

Eu sou a máquina da guerra: contra os pobres, os negros, e não pouparei meninos e meninas fardadas, vestidas para o balé, com suas mochilas quase vazias, guardando suas merendas caseiras.

Os legistas ajustaram suas máscaras, desviaram o rosto, mas, debruçada sobre o pequeno corpo de Agatha Félix,  a verdade prosseguiu no seu libelo: Sou inflexível, imperiosa, envolta nesse vórtice poderoso de ódio que imprime sua fala definitiva nos corpos, nas vielas, nos becos, no caminho nervoso do trânsito, até os hospitais, os necrotérios, as pedras frias da morte.

Os legistas têm pressa. Encerram o trabalho com mãos nervosas. Envolvem o corpo em seus lençóis brancos. Arrancam máscaras, batem portas, abandonam a sala da morte. Lavam vigorosamente as mãos, enquanto lá fora, a máquina da guerra executa seu bailado. O som é áspero e duro, aqui não há semibreves.  e semicolchêias retumbantes, atritando-se, esbatendo-se em corpos tenros de meninos e meninas, esburacando paredes, pedaços de asfaltos, bancos de combes em fuga.

E eis que a única semibreve vibra seus quatro longos tempos. Os quatro tempos da morte.

O Jornalismo da #VazaJato e as suas Lições

Havia um nítido clima de tensão na última edição do programa Roda Viva, levada ao ar pela Tv Cultura, na segunda-feira, 2 de setembro. Com raras exceções, as vozes dos jornalistas tinham tons alterados, as inquirições, de todos eles, eram de ataque, da busca por uma falha, um deslize   que fosse nas respostas firmes, rápidas e elucidativas do jornalista Gleen Greenwald, entrevistado da vez.

Para uma plateia de centenas de milhares de telespectadores, audiência barulhenta que participava do programa pelas redes sociais, o que ficou patente naquela entrevista, foi, de um lado,  a revelação clara da arquitetura do jornalismo brasileiro comercial, e, do outro, um modo de fazer jornalismo calcado no ideário clássico da profissão, cujas lições são as da investigação dos fatos até as últimas consequências; a preservação dos   seus preceitos éticos, a defesa intransigente da pluralidade, da imparcialidade e do sigilo das fontes.

Mais do que tensão, a meia dúzia dos jornalistas presentes na bancada experimentava medo e revolta. Medo por se verem expostos a uma implacável máquina demolidora dos ataques, das tentativas da prática jornalística do premiado Gleen Greenwald, revolta por sentirem estar sendo desmantelada de maneira célere, a fabulosa história sobre a Lava Jato e as suas conquistas, divulgada, alimentada, acarinhada  e cultivada com esmero pela mídia brasileira durante os últimos cinco anos.

Para compreendermos a situação de indigência vivida pelo jornalismo brasileiro, que está vendo ir pelo ralo, um dos acontecimentos jornalísticos mais bem construídos dos últimos tempos, há que se retornar às duas últimas décadas do século XX, quando a mídia do país alcançou um formidável progresso técnico, ingressando de vez no paradigma tecnológico. Transformaram-se completamente as rotinas do fazer jornalístico. O progresso técnico, porém, imprimiu à prática dos profissionais, uma produção voltada ao sensacionalismo, à informação de consumo ligeiro, a primazia de um jornalismo declaratório, esvaído de todos os seus processos qualitativos: apuração, investigação, pluralidade e imparcialidade das coberturas.

Os altos custos do progresso técnico da mídia, exigiram também, dos seus proprietários, uma proximidade cada vez mais nítida entre a construção de uma opinião de consenso sintonizada com os interesses do capital nacional e norte-americano, forjando uma leva de jornalistas fazendo coberturas homogêneas, publicando releases e dando voz a declarações sem um naco qualquer de apuração, repercussão, interpretação.

A Lava Jato e os seus heróis, não teria vivido sua era de ouro, não fosse a cumplicidade, quase conversão da mídia brasileira. Mas eis que o jornalista Gleen Greenwald saca da sua premiada ousadia e coragem, desce aos porões da Força Tarefa, e de lá exuma uma realidade obscura, tecida por corrupção, clientelismos, parcialidade e aferição criminosa de lucros.

O Roda Viva da última segunda-feira foi uma tentativa vã dos jornalistas, para desqualificar o trabalho que eles próprios não quiseram fazer. Foi um esforço medíocre e vergonhoso para salvar seus heróis e a gigantesca fábula da Lava Jato. Foi um apelo barulhento para tentar ocultar as falhas de um jornalismo realizado impunemente a serviço da criminalização, da difamação de pessoas, do cultivo do ódio e da interferência criminosa nos destinos da política do país. Foi um débil grito para tentar calar os resultados nefastos da sua cobertura: O hediondo país governado por Jair Bolsonaro.

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(Este post foi publicado hoje, em minha coluna impressa do Jornal A União)

O Dia do Fogo

As árvores sabem quando o dia do fogo vem chegando. A árvore que fica perto da rodovia pressente em suas fibras, em seus galhos, o trepidar dos pneus dos caminhões, o calor das vozes alteradas, o aprontamento e o disparo das tochas, a velocidade do fogo em busca da floresta.

A árvore lança para as companheiras, através do entrelaçar de suas raízes, a única mensagem de alerta: Está vindo. É mais quente que o sol. Vai nos matar.

Não há pânico. Especialistas da paciência, as árvores mantêm-se eretas, sorvendo as últimas carícias do vento, os velhos cheiros da mata milenar.

O fogo chega. As árvores vão rachando em bando, como espigas de tempo abertas em posições esquisitas, crestando aos pedaços.

Morrem de vagar, numa agonia coletiva, desmentindo sílaba por sílaba o velho poema: “Por que as árvores morrem de pé”? Morrem caindo juntas, suas últimas palavras aprisionadas no fundo das raízes, intenções de abraços desfeitas em brasas, o fogo rasgando suas fibras, seus anéis de tempo, as feridas dos insetos, as frágeis ninhadas de arbustos agarradas aos troncos ardentes.

Deformam-se, as árvores, numa espécie de procissão demoníaca, para baixo, sempre para baixo, lá onde não há Deus, senão a língua vermelha do espírito do mal.

Viram cinza esvoaçante, abraçam-se em fumaça cheirosa, abatem-se sobre a terra de toda sua vida, mas não há descanso, não há paz, não há lugar onde acalentar galhos caídos, queimando.

As árvores não rezam nem pedem clemência, apenas queimam em estalos que já não são aquele vozear de galhos abraçados, raízes ocupadas em recolher da terra o alimento vital.

Apenas queimam, as árvores, em estalos e espasmos medonhos e esbarram à pressa na terra que pega fogo.

A risada medonha do fogo lambe o solo da lembrança das árvores, espalha cinza como curativo escuro por sobre as crateras abertas. Num último frêmito, , as árvores vomitam aos bocados, o carbono guardado em suas reservas milenares. Vomitam sobre a terra, e o jorro volta surpreso a um céu vermelho e fumacento.

Tocos quase mortos de febre ainda resistem, agarrados ao chão, vigias da sanha de queimar, destruir. Testemunhas do incêndio, os tocos quase mortos de febre escutam o riso cínico, a galhofa dos homens maus.

Trementes de febre, finalmente os tocos se lembram da velha oração de todos os dias, crepitando aos borbotões por entre suasfendas. A prece da cura para as rachaduras milenares, a oração calma de engendrar anéis de tempo, o ofício do socorro para as árvores tristes, pelos golpes de motosserras, pela sanha dos carunchos…

Os tocos esgotam suas orações, quando já tisnados e feitos em carvão.

O silêncio é medonho agora. A terra cansada, então dá-se conta, por entre os rescaldos: Não há mais a ternura pesada das árvores vivas sobre o solo, senão a implacável nudez, feita da solidão das escaras, rachaduras   cobertas de cinza.

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa do jornal #AUniao, em 30 de agosto).