O Silabário dos Dias

Os dias que vivemos são escritos com frases curtas. Prendam. Matem. Arrebentem. Pílulas de ódio circulam nas redes sociais, altos comandos escrevem verdadeiras súmulas de ameaça, usando uma banda larga e um clique do mouse.

Ainda que se gastem horas e horas em discursos retóricos, o núcleo de tudo o que se diz é simples, direto, como uma rajada, como um telegrama, como uma ordem rabiscada num guardanapo. Prendam. Aniquilem, condenem, encarcerem.

Os jornais, as tvs, os portais de notícia antecipam-se, forjam as manchetes da hora mais dura, como se de um grande espetáculo se tratasse, um reality show macabro, de enredo telenovelesco: De um lado, os cidadãos de bem e os seus heróis, do outro, os bandidos, aqueles que ousaram alterar a ordem instituída.

Os dias que vivemos são escritos com sílabas de emboscadas, curtas como tiros na cara. São escritos com a morte no centro, o dedo apontado para os inimigos da desigualdade e da injustiça. São escritos com selos e carimbos, em protocolos feitos para impedir,ameaçar, encarcerar.

Uma escrita dura como chibatada, essa dos dias em que vivemos, apressada, frenética, feita de exatas palavras. Impedir, evitar, encarcerar, como numa espécie de guerra em que há que se limpar o mundo em que uma nova fábula precisa ganhar terreno, impor-se como história oficial.

Encarcerar, e deixar que os cidadãos de bem vivam felizes para sempre, com o fim da corrupção, com a celebração da justiça, com a alegre futilidade da  mídia, com um exército de silenciosos guardados em seus quartéis, com os gangsters no poder, vestidos de bons moços,

A escrita dos dias que correm divorciou-se da verdade, da ética e da defesa da democracia. Esboça-se em curtos ditames, com publicidade falaciosa. Resgatar a credibilidade da justiça, colocar o país nos trilhos do futuro, apresentar à nação, o fim da impunidade.

Uma fábula tão curta, golpeando com força a liberdade e a defesa da democracia.  Uma fábula tão retumbante, penetrando o silêncio das casas, o barulho dos estádios, a solidão das igrejas à noite, o vozerio nas festas e velórios.

Encarcerar, antes que o jornal da noite possa ser fechado. Encarcerar, para que todas as mídias possam editar o espetáculo das algemas, a redundância dos gestos, o tom ritmado do silabário da narrativa global.

Encarcerar. Guardar as chaves da liberdade, e deixar que o povo de bem vigie as horas de silêncio do condenado. Inutilizar seu passo célere, sua voz rouca, impedir que sua mão corte a passagem dos cidadãos de bem rumo ao país do futuro. Encarcerar, agora, antes que agosto chegue com seus ventos, antes que as urnas de outubro sejam abertas.

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa do Jornal A União, na última sexta-feira).

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Memórias numa Lata de Biscoitoes

Guardava tudo lá. Tuas cartas, as parcas fotografias de família, um panfleto de Café Filho, os documentos da casa, folhinhas amarelas de calendários, tudo lá, naquela lata de biscoito que você trouxe para ela, numa tarde quente de janeiro.  Eu era tão pequena! Mas me lembro de você ter chegado com sua mala surrada, trazendo nos braços, no corpo todo, uma distância tão distante, tão distante,  uma distância tão distante que você não tinha mais palavras. Me lembro quando você deu a lata de biscoitos à minha mãe, me lembro do sorriso dela,  a apertar contra o peito a sua pequena fortuna. Minha mãe olhando nos seus olhos, pesando seu silêncio, tentando apreender de você todas as dores, as saudades, as visões de morte. Minha mãe procurando o filho que já não era seu, o seu Raimundo.

E você soltou no meio da sala o que agora lhe pertencia. Você disse à minha mãe que agora era mestre de obras. Você disse aquilo como se rezasse, disse aquilo como se tentasse desvestir a pele de uma cidade construída sobre os seus mortos.

Me lembrei de tudo numa noite também distante, enquanto assistia “O Romance do Vaqueiro Voador”. Mistura de linguagens, notícia sem jornal, e você no meio de tudo aquilo, raimundo. Você candango, cuspindo cimento, cuspindo a reforma, você tentando conter o bramido da saudade no peito sem gibão. Você vendo aquele montão de homens morrendo, você ocultando a lágrima e rezando, padre nossos pesados no terço da minha mãe.

Vaqueiro voador, último abraço de cimento e ferro.  Com você também foi assim mano. Abraço retardado de cimento e ferro, noutra construção, noutro lugar. Rio de Janeiro? Onde você estava quando a sina do vaqueiro veio lhe pegar?

E agora, quando tento atualizar essa carta que não vai chegar até você, minha mão de repente fica paralisada, as palavras como que se afastam de mim, e só sinto a dor pela ausência, de Marielle, arrancada brutalmente do seu ativismo, de crianças e crianças mortas nas favelas desse Rio de Janeiro onde você fincou morada e de onde se foi, sem entender direito o que disse a música no seu rádio de pilhas, “ viver é melhor que sonhar”.

Sim, mano, ele tinha razão. “Viver é melhor que sonhar”, e cada certeza que a gente arranca desse punhado de sílabas,  dói como corte de faca amolada. Viver é melhor que sonhar. E é por isso que estamos sempre nos juntando, para dizer: Marielle, presente! Anderson, presente! Onilma, presente! Viver é melhor que sonhar mano, mas agora, em todas as horas, estamos chamando os que nos são arrancados pela morte brutal dos nossos dias, para embebê-los na nossa saudade, para envolvê-los com as últimas flores brancas e vermelhas do nosso tempo, para viver, no íntimo das nossas  memórias, o brilho feliz dos seus sorrisos.

 

O Velório de um País

O meu coração está pesado. As palavras dessa crônica, estão todas tingidas da profunda tristeza que me invade, por estar há tanto tempo, com meus irmãos, meus amigos, meus colegas de trabalho,  com tantos e tantos cidadãos e cidadãs, mergulhada nesse longo velório sem tréguas, velório do meu país.

E como é difícil velar um país que se despedaça e morre, nas praças das cidades grandes e pequenas; nas ruas e vielas das periferias; nas favelas ocupadas por forças do exército e da polícia.

Um país que morre de modo explosivo, um país que morre na sua infância pobre, vitimada por balas perdidas, todos os dias.

É tão difícil velar um país que oculta-se na covardia e na vileza, para estraçalhar o sorriso da cria da maré, Marielle, silenciada no meio da sua luta, calada brutalmente, enquanto as suas palavras de força e encorajamento de mulheres negras ainda reverberam naquela roda de diálogo.

É tão difícil velar um país onde Marielle Franco não pôde voltar pra casa, não pôde pela última vez beijar sua filha, é tão difícil velar um país onde Marielle Franco será agora somente mais uma cifra na estatística brutal da violência no Rio de Janeiro.

É tão difícil velar um país onde já não há lágrimas para regar o desespero, a vulnerabilidade, a incerteza, o medo, o risco de viver.

É tão difícil velar um país onde a democracia foi ferida de morte, um longo e triste espetáculo de guerrilha política, onde venceu mais uma vez a oligarquia, o complô dos trusts, as bancadas da bala e do boi, que agora se apressam na delapidação do estado, na destruição dos direitos sociais e civis, no aprofundamento da pobreza e da miséria.

É tão difícil velar um país onde não se pode calar o espetáculo da tv, onde não se pode interromper o jornalismo mínimo e factual, onde não se pode atalhar a sanha noticiosa sobre os comunicados, do presidente, dos ministros, das forças armadas, onde não se pode pedir um silêncio profundo dessas máquinas de divertimento perpétuo, para que se escute o pranto, o soluço, o último grito, o gotejar de sangue de vítimas inocentes, crianças, muitas crianças; jovens e idosos, a maioria do nosso povo negro que  morre aos bocados,  nas máquinas de matar do crime organizado, nas máquinas de matar das forças de ocupação.

É tão difícil velar um país onde o sangue e as lágrimas são as únicas sílabas desse decreto final, escrito abertamente, nessa noite infinita, em que não se pode voltar pra casa, abrir seu portão com sua própria chave, calçar seu chinelo velho, bebericar um café com leite, sentir a satisfação do dever cumprido.

É tão difícil velar um país onde Marielle Franco não mais poderá cumprir seu mandato, de defesa do povo pobre da maré, das favelas do Rio de Janeiro. Tão difícil é velar esse país que fecha com mãos trêmulas, o caixão de Marielle Franco.

À Craseado: Um Conto para as Mulheres

 

– O que será que uns estimulozinhos extra teriam feito comigo? Agora é tarde pra pensar nisso. Só me restam os ácidos gamálicos, por que então essa teimosia das minhas células, a desejarem ser o que nunca eu vou ser?

Explico-lhes todos os dias: A carta de vocês foi traçada com letras grossas e curtas de quem escrevia pouco e ruim. Onde vocês se forjariam senão naquele povoado de duas ruas, uma igreja pequena, a casa do prefeito sendo a maior de todas?

Comadre Alta sendo a Comadre da minha avó, que levava seu Joãozinho pra visita de domingo, brinca daqui, brinca dali, Joãozinho e Amélia casados, forjaram a trilha curta por onde vocês desembocariam, na geração vindoura, aquela em que minha mãe, Otacília, casou-se com Tiago, filho de Jó, compadre do meu avô.

Quando penso nesse caminho de porta-cancela, nesse campo de mato ralo onde vocês se forjaram, fico impressionada de haver me distanciado tanto do que fora a primeira geração, depois a dos meus pais, depois a minha.

Dito tudo em traçado curto, as mulheres da primeira geração tinham vida que podia ser escrita em papel de embrulho de armazém, letra grossa e grande, frases de palavra única. Cozinhar, lavar, parir. Só tinha uma frase um pouco maior nessa agenda velha: Satisfazer ao marido.

E vocês, células impertinentes, a me perguntarem pelas crases. Tinha crase sim, tanto na vida da minha avó, quanto na da minha mãe, pois elas iam juntas à missa de domingo, levando as sandálias nas mãos, pra não sujarem a igreja de lama.

Falando no crase, tenho certeza que minha avó nunca pensou sequer em algo parecido. Minha avó, quando pegava num lápis, era pra ameaçar meu tio Raul,quando ele entrava em casa, atazanando todo mundo.

Minha mãe, de leitura pouca, leitura de folhinha e de bula de Regulador Xavier, será que minha mãe sabia o que era um a craseado?

– Sabia não! Berram vocês, alto e bom som, como se se tratasse aqui do “boca de forno”.

Pasmada, vejo que a grande distância, a grande diferença que marca a minha vida em relação às vidas da minha mãe e da minha avó são os craseados. Fui à escola, fui à formatura, à igreja, quando do casamento, à juíza, quando do divórcio. À Europa, à bolsa, para as aplicações, à bienal, à noite de autógrafos.

E agora, vou à minha timeline, ver o que se passa no mundo virtual, ver o que dizem de mim os meus seguidores. Fazer o que minha avó e minha mãe faziam, aos gritos, falando das suas janelas para as das vizinhas, num tempo sem crases e sem banda larga.

 

Bate-Pronto

Quem de nós nunca fez um bate-pronto? Chegar em casa, prender o cabelo, juntar feijão, farofa, ovo e servir cantando aquelemisturequê dos deuses?? Ou então aquela mistura geladinha, no meio da tarde, com guaraná, leite condensado, goiabada e biscoito maria?

E o bolo de chocolate, receita da minha amiga Lalá, leite, manteiga e chocolate aquecido, juntar a farinha,o açúcar, bater e pronto?

Bater e pronto, palma contra palma, sorriso contra sorriso,palavra contra palavra, e eis que nos encontramos, lá em Dona Branca, cachaça bate-pronto com banana, groselha,  uva, tamarindo, quiwi, carambola e hoje graviola eu não bebo, porque não tem.

 

A “Tropa de Choque Perdeu”

Eu poderia dizer tanta coisa sobre o julgamento do recurso do Ex Presidente Lula, ocorrido no TRF 4, na última quarta-feira! As impressões como que se atropelam, numa espécie de fila desordenada, como aquelas da vacina da febre amarela. Falar do rito da justiça é um tanto arriscado para uma pessoa leiga no tema como eu. Ouvi os três votos, alternando entre atenção máxima e mínima.

Antes escutara as sustentações orais e fiquei assustada com a fragilidade das mesmas, ao mesmo tempo impressionada com a clareza da sustentação do advogado de defesa de Lula, Cristiano Zanin Martins.

Sobre os votos, devo dizer que todos continham uma mensagem clara: Ali os julgadores disseram: “Aqui é o meu palco, aqui posso transformar indícios em prova verdadeira, aqui, fiel aos autos do processo e à sentença sapiente da primeira instância, posso confirmar a culpa e o crime”.

A verdade é que havia excessos de recados naqueles votos. Os juízes estavam indignados com a pressão popular sofrida, e mesmo dentro do voto, era preciso enquadrar aquela gente, dar-lhe um epíteto mais adequado, chamando pois as manifestações populares de “tropa de choque”, que juiz que se preza e que sabe que está sendo visto e ouvido por todo o país, tem de falar com linguagem clara e cirúrgica.

O voto de cada um tinha também de tipificar o crime cometido pelo ex presidente. Mais que isso, era preciso caracterizar a personalidade e a trajetória do proprietário do tríplex do Guarujá. Então era recorrer ao vasto manancial da narrativa instituída acerca do mensalão, cuja síntese mais brilhante fora feita em um power point que precisava ser confirmado naquela espetacular sessão. Nem houve muito esforço para retomar a narrativa, e assim auxiliar a mídia em recuperar sua fábula predileta, a qual tinha perdido força com os escândalos recentes: Malas de Geddel, de Rodrigo Loures, propina para Serra e Aécio, essa também em malas carregadas por seu primo.

De fato,  ao revalidar os termos do power pointe do procurador Dallagnol, os juízes do TRF4 revificaram a narrativa midiática: Lula chefe da quadrilha, servindo-se da Petrobrás para constituir um polo de poder para o partido dos trabalhadores.

O recado mais claro a ser depreendido dos três a zero, é o de que nesse caso, a justiça assumiu claramente o lado do capital, do mercado financeiro, do governo interino e do seu parlamento sórdido. Ignorou a mobilização popular, cerrou portões aos brados do que chamou de “tropa de choque” a segurar com unhas e dentes, os vagos contornos de uma democracia em ruínas.

E aqui uma última impressão: A vitória maior desse espetáculo foi alcançada pela mídia comercial. É a mídia que sintetiza o script e o desenrolar da agenda dos próximos acontecimentos. Até agosto, julgados alguns recursos da defesa, Lula será enquadrado na Lei da Ficha Limpa. Mas a mídia sabe que um líder de massas não se destrói facilmente. Como numa série espetacular, os outros processos de Lula serão julgados, mantendo acesa a chama do espetáculo telenovelesco que dá tanta audiência. A sociedade perdeu, e já não se poderá sonhar, a médio prazo, com um outro governo popular e democrático. O judiciário, a mídia, todos trabalharão para que o líder de massas não suba mais à rampa do Planalto. “Com o supremo, com tudo”, como vaticinara o senador Romero Jucá.

No horizonte, já se vê a nova onda de ódio, que se espalhará pelas vias e praças do país, que já vocifera na cibervia, com os mais de cinquenta tons da estupidez humana.

Entre Explosões de Bancos, Furtos a Escolas e Farmácias: A Inutilidade do Jornalismo Factual

Enquanto a imprensa segue divulgando o assalto do dia, as explosões de bancos ocorridas na semana, o furto de um ônibus em Pe, onde até a roupa do motorista foi levada, todas as perguntas estão por serem feitas.

A cobertura é factual, desconectada dos veios da história, completamente desvinculada de algum processo investigativo que possa auxiliar a sociedade a compreender as razões profundas desses acontecimentos trágicos.

É certo que há padrões, regularidades, modos de agir previsíveis envolvendo esses atos de crueldade extrema. Sobretudo nos atos envolvendo explosões de bancos, há com certeza uma mensagem que precisa ser publicizada, há caminhos investigativos a serem explorados, entretanto, a imprensa que temos não tem capacidade para tais esforços.

A cobertura da imprensa é farta em imagens semelhantes. A narrativa também é previsível, de tal sorte que se poderia colar o texto da explosão de ontem àquela que ocorreu na madrugada de hoje. Em geral há um vídeo de colaboração espontânea, e, a notícia de um minuto e meio coloca na boca do estômago da sociedade, um mal-estar, uma sensação de inutilidade do jornalismo.

Por que noticiar a explosão de ontem, a de hoje, a de amanhã, sem qualquer esforço de compreender o padrão, o modus operande, sem qualquer esforço para escavar a profundidade desse mar de crueldade?

O tempo jornalístico, aferrado à máquina comercial da publicidade, só pode mesmo esguelar-se, comunicando o óbvio, o superficial, o agora. A pele e as vísceras da cultura do crime estão por ser exploradas. As perguntas sobre os perfis das quadrilhas, a ousadia das equipes que lidam com explosivos, a quase que inutilidade das ações policiais pós-explosão, tudo está por ser avaliado.

Os crimes que vêm se perpetrando contra o país, em todas as suas localidades, não podem ser tratados como meros atos de vandalismo e violência cotidiana. Há aqui uma mensagem mais profunda, como que uma operação em curso, de longa data, com apoio de forças invisíveis, mas reais. Forças locais, ou forças além fronteira? Quem é o braço político dessas operações de guerra? E o braço comercial? Que forças se interessam pelo estado de vulnerabilidade absoluta das comunidades, dos sistemas de vigilância que parecem ter se esgarçado?

Há aqui uma rede forte, bem organizada. Quais são seus atores? Por que é certo que a ousadia dos que carregam explosivos não pode ser somente fruto de químicos e de experiência no crime. Fazer reféns, roubar veículos, explodir bancos, em operações realizadas com sucesso? Isso só pode se dar quando há uma rede competente de produção, planejamento, organização e realização. Essa rede precisa de atores em todos os nós e circuitos do processo. Precisa ter mandantes e mandatários em lugares que ninguém de bom senso suspeitaria.

O jornalismo mínimo não tem competência para tratar disso. Esse tipo de jornalismo só pode acompanhar o fato, quando ele mesmo acontece, quando toda a operação profunda suspira aliviada com mais uma explosão de sucesso e festeja de forma invisível o capital amealhado. Pode ser dinheiro, pode ser experiência, pode ser a oportunidade para remanejar sujeitos mal sucedidos.  Uma sociedade em absoluto estado de vulnerabilidade. A quem interessa esse propósito, barulhento na superfície, mas invisível na sua profundidade. Não, a imprensa que temos não nos dirá nada sobre isso.

Omelete de Nada

As vezes acontece. O teu editor já te deu o prazo máximo, você tem consciência do pequeno retângulo de espaço aberto, 36 linhas a serem preenchidas, mas só há uma ausência profunda dentro de você.

Os temas desapareceram, tiraram férias, desligaram os telefones imaginários, desconectaram-se, não há como fazer contato com um tema que seja.

Você inventa frases de efeito, rebusca na memória um pensamento clássico, nada de jeito acontece. É como perder o sono, ou pior, é como tentar acordar, no meio de um pesadelo, todos os monstros com armas apontadas para você, mas, o que se pode fazer, senão espremer uma gota que seja de sanidade, uma trilha por onde começar, uma ponta qualquer de novelo azul que te possa levar a algum labirinto?

As vezes, escrever é como atirar pedras a um lago, e ficar à espreita, vendo as ondulações, o barulho suave da fricção da pedra com a água fria, o silêncio, um fundo que não chega nunca. Escrever, as vezes, é como ser uma espécie de torneira quebrada, a gotejar, o dia inteiro, pingo a pingo, compondo uma sinfonia monótona das horas mais frias. Escrever, as vezes, é não dizer nada, ainda que se vá juntando palavras, como num jogo de lego, uma construção improvável, de um edifício todo feito de sílabas ocas de sentido.

Dezesseis linhas, seu telefone tocando, é o editor. Você sai dos escombros de si mesma, e com voz aparentemente firme promete: Já já mando a coluna.

E regressa ao brinquedo de lego, tentando a golpes de martelo, desmantelar a inércia e fazer com seus restos um fingimento de escrita, uma invenção de crônica, uma frase qualquer que se salve no meio dessa algaravia.

Seu tempo acabou. Em desespero, você pede ao word que conte as palavras, quase esmurra o teclado sem fio, Não pode ser. Mil setecentos e trinta caracteres, uma ninharia para quem já atirou pedras ao lago, espreitou um poço sem fundo, vasculhou as horas, à cata de um enredo, uma saída, um arranjo aceitável, um protocolo de salvação.

Parabéns. Seu tempo acabou. Você está no topo do desfiladeiro. Invente uma frase comprida, como uma corda grande, segure-se nela até o fim. As frases compridas acabaram, ou são como as velhas frutas de final de feira. Seu tempo acabou, o trem está chegando, e você terá de desocupar os trilhos, sob pena de virar omelete de nada. Omelete de nada. Três palavras insípidas para uma crônica que ninguémquererá ler.

Desocupe os trilhos, prepare o próximo envio do correio eletrônico, sem esquecer de vasculhar, por entre as peças de lego que você empilhou, o título dessa sua escrita feita de cascas e ossos das horas de inércia.

 

(Este post foi publicado hje em minha coluna do Jornal A União).

Balanço Geral: Cartografia de um País Desmontado

Balanço Geral: Cartografia de um País Desmontado

 

Chega o fim de ano e a gente se pega tentando fazer balanços, olhar para trás, prever o que será amanhã, como estaremos semanas após havermos espocado a champanhe do ano novo. Champanhe? Eu não beberei nenhuma taça. Literalmente, sou uma pessoa que dói, todos os dias, desde que começou esse desmantelamento das estruturas políticas, econômicas, culturais e sociais do país.

Sou uma pessoa que dói, e por isso talvez minha síntese da história brasileira dos últimos três anos seja assim meio apressada, com lacunas imensas e provavelmente algumas palavras fora do lugar, outras desafinadas, como numa espécie de ópera em que não há sincronia, nem regência.

A verdade é que estamos habitando um país completamente desmontado, e a fase do agora, é talvez uma das mais impróprias às festividades. Vivemos a fase do império da máquina, do tratoramento, ocupado em aplainar a terra, desmantelar restos, implodir onde for preciso, para que se reinstaure a lógica do mínimo, na política, na cultura, na economia estatal, nas relações de trabalho.

Mas esse processo de desmantelamento não começou agora, nem se pode dizer que houve dias de calmaria. Desde 2014, apressou-se o tom da trilha sonora desse imenso trhiller, acelerou-se as cenas principais, tudo a jato, para que se possa recomeçar, num tempo estranhamente parecido com aquele do passado, em que a miséria, as desigualdades, a riqueza e a pobreza, eram coisas naturais, dadas por Deus.

Tampouco pode se dizer que a imensa tempestade não fez suas vítimas. É clara a morte da política. E aqueles políticos que ainda seguram, por caridade do capital, as chaves dos palácios e das malas, emprestam suas últimas energias deletérias para a limpeza, o aplainamento, o desmantelamento da antiga política, da política necessária, daquela que tentava uma síntese desenvolvimentista na qual capital e trabalho pudessem dialogar, naquela em que crescimento econômico, social e político não fossem apenas lendas retóricas, sem qualquer enxerto de realidade.

A morte das lendas. Sim, lendas caíram por terra com a força de um tsunami nesses dois últimos anos. Os mesmos braços políticos que se emprestaram com vigor e sanha falastrona ao esforço de derrocada do Brasil, eles mesmos viram ruir sua ética, e sua moral falaciosas, sob os carvões em brasa das delações e das suas provas explícitas.

A mídia limpa, vigilante da decência e da ordem, respirou também o hálito da sua própria carniça propineira.

A terceira morte que salta aos olhos, a terceira morte mais desastrosa é a da perda de autonomia e de poder de compra dos mais pobres, e com ela, o retorno da caridade de ocasião, das campanhas contra a fome, dos pedidos do Pão de Açúcar, para que ajudemos a quem não pode mais comprar. O acelerado desastre brasileiro implodirá o ano novo e fincará de vez, as últimas estacas de desesperança num país desmantelado.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna impressa do Jornla A União)

A Escuta do Outro Lado: Uma Imprensa que Falha todos os Dias

Não podemos viver sem a mídia que temos, mas a verdade é que o jornalismo precisa melhorar. Esta foi uma das conclusões do Simpósio Nacional sobre O Jornalismo Profissional e a Formação Universitária na Era da Convergência, realizado pelo programa de Pós-graduação em Jornalismo da UFPB, entre os dias 20 a 22 de novembro.

O evento reuniu pesquisadores de diversos programas de pós-graduação do país, mas trouxe também para o debate, profissionais do mercado, assim como os chamados jornalistas independentes, que trabalham em grandes agências alternativas, como a Agência Pública e a Lupa, que aplica uma metodologia para checar quando fatos jornalísticos publicados como notícias são verdadeiros ou falsos.

O professor Antonio Fausto Neto, da Unissinos, Rio Grande do Sul, proferiu a conferência de abertura, com o tema, “O Jornalismo como Narrativa do Presente”, demonstrando com muita ênfase que se, nas ambiências jornalísticas clássicas, a esfera da distribuição de conteúdos envolvia apenas protocolos técnicos, na contemporaneidade, essa esfera é talvez a mais importante, visto haver sido contaminada por uma grande avalanche de narrativas, modos de dizer, através das mídias sociais como facebook, Twitter, whatsapp, etc.

O pesquisador tratou brevemente da operação Lava Jato e do importante pacto feito com a mídia brasileira, a fim de que a narrativa central da operação sempre pudesse ser reproduzida na mídia. Ocorre porém, que tal narrativa não ouve, ou escuta mal o chamado “outro lado”, tão caro aos manuais de jornalismo, e que tem sido flagrantemente esquecido pela produção jornalística.

O “outro lado”. O tema também foi tratado na última mesa do evento, que reuniu midialivristas, além do projeto “Fora da Curva”, da UFPE, aqui apresentado pela professora Paula Reis.  Os participantes apresentaram a ideia de que a imprensa tem lado, e este, com poucas exceções, é sempre o lado das autoridades, do mercado financeiro, enquanto que a sociedade, através dos seus coletivos, luta por construir modos de dar publicidade à sua visão dos acontecimentos.

“É preciso elevar o custo da mentira”, esta máxima dos movimentos que trabalham contra o Fake news também reverberou nos debates. Considerou-se que notícias falsas não apenas elegem presidentes ou destróem reputações. As publicações falsas e o seu compartilhamento já fizeram vítimas fatais, como a chacina e a morte de Fabiane Maria de Jesus, na praia de Guarujá, cuja foto postada nas redes sociais, estava acompanhada da notícia falsa de que ela usava crianças para rituais de magia e bruxaria.

A negligência da imprensa para a escuta do “outro lado” também tem vítimas recentes, a exemplo do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, e do lastimável episódio do seu suicídio após denúncias de corrupção naquela instituição.

Checar e apurar, sempre. O jornalismo precisa tomar doses maciças desses cuidados, para que possa alcançar um pouco da sua credibilidade perdida.