Todas Somos #KalineLima

No mundo todo, em menor ou maior incidência, mulheres ainda correm perigo em pleno século XXI. No Brasil, ainda que a legislação esteja cada vez mais punitiva, todos os dias mulheres são mortas por um ente da sua família, em geral, pelo marido ou companheiro, são estupradas por desconhecidos, que muitas vezes acabam por matar a vítima. Sofrem assédio no trabalho, no consultório médico, num simples passeio em final de tarde.

E por que será que persiste e se alastra essa violência contra a mulher? A cultura machista, entranhada na sociedade, difundida pela cultura de massas, telenovela, produções cinematográficas, jornalismo sensacionalista, música, difundem essas ideias bizarras de que a mulher merece esse tratamento de subjugação, de violência, de assédio e escárnio.

Na Paraíba, a cultura do ódio e do desprezo pela mulher,muitas vezes extrapola a cena doméstica ou mesmo os terríveis episódios de rua, para ser ecoada alto e bom som, nos microfones e câmeras das emissoras de tv locais. Um fato dessa natureza vem ocorrendo esta semana, no programa televisivo do apresentador Siqueira Júnior, da tv Arapuan.

O apresentador se utiliza do linguajar mais chulo e desrespeitoso, para desqualificar  a cantora rapper, Kaline Lima, que ousou fazer críticas a um seu posicionamento misógino, sobre mulheres que não pintam as unhas dos pés, as quais o apresentador considera como “sebosas”.

Ameaças, insultos e chingamentos preconceituosos vêm sendo despejados conta a cantora alto e bom som, numa emissora que por dispor de concessão pública, deveria zelar pela qualidade do seu jornalismo, dos seus programas de entretenimento, da sua capacidade de formar uma opinião pública inteligente, qualificada e isenta de preconceitos.

O apresentador rosna suas ameaças e insultos porque sabe que não será punido. Sabe que uma onda de proteção estende-se sobre a sua fala odiosa, onda protetora que começa na própria tv, e muitas vezes alastra-se pelo resto da sociedade, e, o que é pior, muitas vezes na própria justiça, que não reconhece a venalidade desse comportamento vil.

E quem é Kaline Lima, que está sendo chamada de gorda, feia, mal amada, revoltada, além de outros insultos escabrosos, ao vivo pela tv Arapuan, nas manhãs de João Pessoa?

Kaline Lima é jornalista formada pela UFPB; é casada, mãe, ativista na cena cultural pessoense, envolvida com as comunidades da periferia, artista de sucesso, na sua banda musical “Cinta Liga”.

É para esta mulher que Siqueira Júnior despeja seu ódio visceral, apresentando ao vivo e a cores, o pior do seu espírito, formado num caldo de cultura venenoso.

E, das últimas linhas desta coluna, só me resta conclamar às mulheres e homens que desejam uma sociedade esclarecida: desliguemos a tv Arapuan. Denunciemos na própria tv, a fala tosca de Siqueira Júnior. Denunciemos ao Ministério Público,o assédio moral ao qual está sendo submetida Kaline Lima, por ter ousado criticar o discurso misóginoecoado em uma concessão pública de tv.

(Este post será publicado manhã, em minha coluna no jornal #AUnião

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O Processo Continua na Vida Real

Na segunda-feira passada, em companhia do meu amigo Pedro Nunes, fui assistir o documentário “O Processo”, realizado por Maria Augusta Ramos e que narra de maneira cirúrgica, os episódios recentes da política brasileira, os quais culminaram, em 31 de agosto de 2016, com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Rever a súmula daqueles acontecimentos, exposta no longa de mais de duas horas, amplifica em nós, a angústia que nos tomou de assalto nesses dois anos, mas sobretudo recupera a nossa perplexidade pelo que foram capazes de arquitetar, os artífices do golpe. Apearam do poder, uma presidenta eleita com 54 milhões de votos, que não cometeu crime de responsabilidade. Com uma narrativa regada à falácias como “ponte para o futuro” e “salvação nacional”, entregaram o governo do país ao núcleo dos que delinquem e perpetuam as práticas de corrupção que infestam as hostes do poder político, do estado e do empresariado.

O documentário de Maria Augusta, que tem lotado sessões de cinema desde o último dia 17 de maio, já arrebatou diversas premiações: Melhor longa-metragem internacional no Festival Documenta Madri – Espanha; Melhor Filme no Festival Visions du Reel em Nyon – Suíça; Melhor Filme no Festival Indie – Lisboa; Grande Prêmio do Festival Internacional de Berlim. Regado à imagens ora chocantes, ora espetaculares, o filme inventaria a falência de um parlamento apodrecido, assim como a hipocrisia da principal autora do pedido de impeachment, a advogada Janaína Paschoal. É uma aguda e terrível fotografia de um parlamento corrupto, empenhado em sacrificar a democracia e o estado de direito, a fim de estancar processos de investigação e de quebra, instituírem um programa neoliberal sem qualquer perspectiva de apoio popular.

Conforme me relatou Pedro Nunes, ao final do documentário “vemos um tempo com nuvens fechadas com as fumaças de gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral lançadas em direção aos protestos pacíficos. Há sinais de INDIGNAÇÃO mesmo com as balas de borracha e estampidos dos fuzis que ecoam na sala de projeção. As fraturas estão literalmente expostas e há cantos de resistência entoados firmemente por mulheres, homens e crianças”.

E o que Maria Augusta nos mostra, nas cenas finais do seu documentário,  é o país pós-Dilma, executando seu balé macabro de recuo para trás, para o aumento dos índices de pobreza, os cortes dos direitos sociais, a restrição nos investimentos em saúde, educação, e, o espetáculo dantesco da corrupção, dentro do governo.

O país pós-Dilma, que extrapola a agudeza da narrativa de Maria Augusta, e persiste na realidade, com a política desastrosa de reajustes diários dos combustíveis. Um país parado, executando seu balé macabro, rumo à desordem, ao caos, com vozes dissonantes pedindo a volta da ditadura militar. Um país sombrio, a caminho da tempestade.

E eis que chega a quinta-feira, 24 de maio. Reviso a coluna, ilhada em minha própria casa, com a certeza de que “O Processo” continua na vida real.

Moscas não Pagam Aluguel

De madrugada as moscas não perturbam ninguém. Somente as formigas, as baratas, os ratos. Sobretudo aqueles mais ousados e famintos, chegam perto dos humanos, remexem nas suas coisas à busca de um jantarzinho.

As moscas só souberam pela manhã, que alguma coisa muito grave havia acontecido na sua morada na rua Pai Sandu. Moscas não precisam de um edifício grande para viver, pousar. Um pedaço de entulho pode servir. Mas aquele montão de entulhos cheirando estranhamente já não lhes vai oferecer nada que valha a pena.

Moscas não pagam aluguel, transitam livremente e pousam em lixo acumulado, em louça suja, em barracos e prédios   infectos, maravilha de céu para seus volteios!

As moscas nunca poderão contar sobre aquele acontecimento. O que saía de dentro do prédio finalmente, incandecentemente  iluminado, era desespero humano, era pavor, de crianças, adultos e velhos.

Eram pessoas iguais a mim e a você, muitas delas com sotaques nordestinos, que o prédio fervente vomitava às centenas, na praça madrugadora. Gente atônita fitando apavorada o desmanche medonho. Sonhos despejados como trouxa de roupa suja. Pés descalços lambendo a escada que pouco depois era devorada pelo fogo.

Gente igual a mim e a você. Só que a gente dormiu a noite toda, e só viu pela tv, pequenos flashes dessa gente atônita, verdadeira sociedade anônima, amanhecida sem teto, cheirando a rescaldo, cheirando a pavor, esse estranho cheiro de estricnina derramando-se por veias e artérias.

Quando as moscas chegaram não entenderam nada. Passearam por braços e pernas fedorentas, e depois foram procurar outro endereço. Moscas não pagam aluguel, nem precisam de cabos de aço para se salvar.

As moscas jamais conseguirão entender, com seus cérebros minúsculos, o tamanho dessa tragédia. Moscas só entendem de esgotos abertos, pratos sujos e engordurados, roupa mal lavada, excrementos à mostra, cadáveres putrefatos.

Moscas não compreenderão uma letra que seja dessa frase comprida: Gente igual a mim e a você, falando como nós, caminhando, atropelando, saltando, com dois pés, iguais aos meus e aos seus. Gente como nós, com sonhos, esperanças, desejos, vontades, só que sem eira nem beira.

Gente como eu e você, mas que passa a vida sendo enxotada como as moscas. Gente como eu e você, vivendo de pouso em pouso, levas e levas de pessoas como eu e você, apodrecendo como estorvos, à beira da vida. Gente como eu e você, vivendo como as moscas, a um preço terrível: gente como eu e você, erguendo a cidade grande, limpando suas latrinas, jogando e depois catando seu lixo, lavando suas sujidades, gente como eu e você, vivendo como as moscas, só que pagando aluguel.

O Silabário dos Dias

Os dias que vivemos são escritos com frases curtas. Prendam. Matem. Arrebentem. Pílulas de ódio circulam nas redes sociais, altos comandos escrevem verdadeiras súmulas de ameaça, usando uma banda larga e um clique do mouse.

Ainda que se gastem horas e horas em discursos retóricos, o núcleo de tudo o que se diz é simples, direto, como uma rajada, como um telegrama, como uma ordem rabiscada num guardanapo. Prendam. Aniquilem, condenem, encarcerem.

Os jornais, as tvs, os portais de notícia antecipam-se, forjam as manchetes da hora mais dura, como se de um grande espetáculo se tratasse, um reality show macabro, de enredo telenovelesco: De um lado, os cidadãos de bem e os seus heróis, do outro, os bandidos, aqueles que ousaram alterar a ordem instituída.

Os dias que vivemos são escritos com sílabas de emboscadas, curtas como tiros na cara. São escritos com a morte no centro, o dedo apontado para os inimigos da desigualdade e da injustiça. São escritos com selos e carimbos, em protocolos feitos para impedir,ameaçar, encarcerar.

Uma escrita dura como chibatada, essa dos dias em que vivemos, apressada, frenética, feita de exatas palavras. Impedir, evitar, encarcerar, como numa espécie de guerra em que há que se limpar o mundo em que uma nova fábula precisa ganhar terreno, impor-se como história oficial.

Encarcerar, e deixar que os cidadãos de bem vivam felizes para sempre, com o fim da corrupção, com a celebração da justiça, com a alegre futilidade da  mídia, com um exército de silenciosos guardados em seus quartéis, com os gangsters no poder, vestidos de bons moços,

A escrita dos dias que correm divorciou-se da verdade, da ética e da defesa da democracia. Esboça-se em curtos ditames, com publicidade falaciosa. Resgatar a credibilidade da justiça, colocar o país nos trilhos do futuro, apresentar à nação, o fim da impunidade.

Uma fábula tão curta, golpeando com força a liberdade e a defesa da democracia.  Uma fábula tão retumbante, penetrando o silêncio das casas, o barulho dos estádios, a solidão das igrejas à noite, o vozerio nas festas e velórios.

Encarcerar, antes que o jornal da noite possa ser fechado. Encarcerar, para que todas as mídias possam editar o espetáculo das algemas, a redundância dos gestos, o tom ritmado do silabário da narrativa global.

Encarcerar. Guardar as chaves da liberdade, e deixar que o povo de bem vigie as horas de silêncio do condenado. Inutilizar seu passo célere, sua voz rouca, impedir que sua mão corte a passagem dos cidadãos de bem rumo ao país do futuro. Encarcerar, agora, antes que agosto chegue com seus ventos, antes que as urnas de outubro sejam abertas.

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa do Jornal A União, na última sexta-feira).

Memórias numa Lata de Biscoitoes

Guardava tudo lá. Tuas cartas, as parcas fotografias de família, um panfleto de Café Filho, os documentos da casa, folhinhas amarelas de calendários, tudo lá, naquela lata de biscoito que você trouxe para ela, numa tarde quente de janeiro.  Eu era tão pequena! Mas me lembro de você ter chegado com sua mala surrada, trazendo nos braços, no corpo todo, uma distância tão distante, tão distante,  uma distância tão distante que você não tinha mais palavras. Me lembro quando você deu a lata de biscoitos à minha mãe, me lembro do sorriso dela,  a apertar contra o peito a sua pequena fortuna. Minha mãe olhando nos seus olhos, pesando seu silêncio, tentando apreender de você todas as dores, as saudades, as visões de morte. Minha mãe procurando o filho que já não era seu, o seu Raimundo.

E você soltou no meio da sala o que agora lhe pertencia. Você disse à minha mãe que agora era mestre de obras. Você disse aquilo como se rezasse, disse aquilo como se tentasse desvestir a pele de uma cidade construída sobre os seus mortos.

Me lembrei de tudo numa noite também distante, enquanto assistia “O Romance do Vaqueiro Voador”. Mistura de linguagens, notícia sem jornal, e você no meio de tudo aquilo, raimundo. Você candango, cuspindo cimento, cuspindo a reforma, você tentando conter o bramido da saudade no peito sem gibão. Você vendo aquele montão de homens morrendo, você ocultando a lágrima e rezando, padre nossos pesados no terço da minha mãe.

Vaqueiro voador, último abraço de cimento e ferro.  Com você também foi assim mano. Abraço retardado de cimento e ferro, noutra construção, noutro lugar. Rio de Janeiro? Onde você estava quando a sina do vaqueiro veio lhe pegar?

E agora, quando tento atualizar essa carta que não vai chegar até você, minha mão de repente fica paralisada, as palavras como que se afastam de mim, e só sinto a dor pela ausência, de Marielle, arrancada brutalmente do seu ativismo, de crianças e crianças mortas nas favelas desse Rio de Janeiro onde você fincou morada e de onde se foi, sem entender direito o que disse a música no seu rádio de pilhas, “ viver é melhor que sonhar”.

Sim, mano, ele tinha razão. “Viver é melhor que sonhar”, e cada certeza que a gente arranca desse punhado de sílabas,  dói como corte de faca amolada. Viver é melhor que sonhar. E é por isso que estamos sempre nos juntando, para dizer: Marielle, presente! Anderson, presente! Onilma, presente! Viver é melhor que sonhar mano, mas agora, em todas as horas, estamos chamando os que nos são arrancados pela morte brutal dos nossos dias, para embebê-los na nossa saudade, para envolvê-los com as últimas flores brancas e vermelhas do nosso tempo, para viver, no íntimo das nossas  memórias, o brilho feliz dos seus sorrisos.

 

O Velório de um País

O meu coração está pesado. As palavras dessa crônica, estão todas tingidas da profunda tristeza que me invade, por estar há tanto tempo, com meus irmãos, meus amigos, meus colegas de trabalho,  com tantos e tantos cidadãos e cidadãs, mergulhada nesse longo velório sem tréguas, velório do meu país.

E como é difícil velar um país que se despedaça e morre, nas praças das cidades grandes e pequenas; nas ruas e vielas das periferias; nas favelas ocupadas por forças do exército e da polícia.

Um país que morre de modo explosivo, um país que morre na sua infância pobre, vitimada por balas perdidas, todos os dias.

É tão difícil velar um país que oculta-se na covardia e na vileza, para estraçalhar o sorriso da cria da maré, Marielle, silenciada no meio da sua luta, calada brutalmente, enquanto as suas palavras de força e encorajamento de mulheres negras ainda reverberam naquela roda de diálogo.

É tão difícil velar um país onde Marielle Franco não pôde voltar pra casa, não pôde pela última vez beijar sua filha, é tão difícil velar um país onde Marielle Franco será agora somente mais uma cifra na estatística brutal da violência no Rio de Janeiro.

É tão difícil velar um país onde já não há lágrimas para regar o desespero, a vulnerabilidade, a incerteza, o medo, o risco de viver.

É tão difícil velar um país onde a democracia foi ferida de morte, um longo e triste espetáculo de guerrilha política, onde venceu mais uma vez a oligarquia, o complô dos trusts, as bancadas da bala e do boi, que agora se apressam na delapidação do estado, na destruição dos direitos sociais e civis, no aprofundamento da pobreza e da miséria.

É tão difícil velar um país onde não se pode calar o espetáculo da tv, onde não se pode interromper o jornalismo mínimo e factual, onde não se pode atalhar a sanha noticiosa sobre os comunicados, do presidente, dos ministros, das forças armadas, onde não se pode pedir um silêncio profundo dessas máquinas de divertimento perpétuo, para que se escute o pranto, o soluço, o último grito, o gotejar de sangue de vítimas inocentes, crianças, muitas crianças; jovens e idosos, a maioria do nosso povo negro que  morre aos bocados,  nas máquinas de matar do crime organizado, nas máquinas de matar das forças de ocupação.

É tão difícil velar um país onde o sangue e as lágrimas são as únicas sílabas desse decreto final, escrito abertamente, nessa noite infinita, em que não se pode voltar pra casa, abrir seu portão com sua própria chave, calçar seu chinelo velho, bebericar um café com leite, sentir a satisfação do dever cumprido.

É tão difícil velar um país onde Marielle Franco não mais poderá cumprir seu mandato, de defesa do povo pobre da maré, das favelas do Rio de Janeiro. Tão difícil é velar esse país que fecha com mãos trêmulas, o caixão de Marielle Franco.

À Craseado: Um Conto para as Mulheres

 

– O que será que uns estimulozinhos extra teriam feito comigo? Agora é tarde pra pensar nisso. Só me restam os ácidos gamálicos, por que então essa teimosia das minhas células, a desejarem ser o que nunca eu vou ser?

Explico-lhes todos os dias: A carta de vocês foi traçada com letras grossas e curtas de quem escrevia pouco e ruim. Onde vocês se forjariam senão naquele povoado de duas ruas, uma igreja pequena, a casa do prefeito sendo a maior de todas?

Comadre Alta sendo a Comadre da minha avó, que levava seu Joãozinho pra visita de domingo, brinca daqui, brinca dali, Joãozinho e Amélia casados, forjaram a trilha curta por onde vocês desembocariam, na geração vindoura, aquela em que minha mãe, Otacília, casou-se com Tiago, filho de Jó, compadre do meu avô.

Quando penso nesse caminho de porta-cancela, nesse campo de mato ralo onde vocês se forjaram, fico impressionada de haver me distanciado tanto do que fora a primeira geração, depois a dos meus pais, depois a minha.

Dito tudo em traçado curto, as mulheres da primeira geração tinham vida que podia ser escrita em papel de embrulho de armazém, letra grossa e grande, frases de palavra única. Cozinhar, lavar, parir. Só tinha uma frase um pouco maior nessa agenda velha: Satisfazer ao marido.

E vocês, células impertinentes, a me perguntarem pelas crases. Tinha crase sim, tanto na vida da minha avó, quanto na da minha mãe, pois elas iam juntas à missa de domingo, levando as sandálias nas mãos, pra não sujarem a igreja de lama.

Falando no crase, tenho certeza que minha avó nunca pensou sequer em algo parecido. Minha avó, quando pegava num lápis, era pra ameaçar meu tio Raul,quando ele entrava em casa, atazanando todo mundo.

Minha mãe, de leitura pouca, leitura de folhinha e de bula de Regulador Xavier, será que minha mãe sabia o que era um a craseado?

– Sabia não! Berram vocês, alto e bom som, como se se tratasse aqui do “boca de forno”.

Pasmada, vejo que a grande distância, a grande diferença que marca a minha vida em relação às vidas da minha mãe e da minha avó são os craseados. Fui à escola, fui à formatura, à igreja, quando do casamento, à juíza, quando do divórcio. À Europa, à bolsa, para as aplicações, à bienal, à noite de autógrafos.

E agora, vou à minha timeline, ver o que se passa no mundo virtual, ver o que dizem de mim os meus seguidores. Fazer o que minha avó e minha mãe faziam, aos gritos, falando das suas janelas para as das vizinhas, num tempo sem crases e sem banda larga.

 

Bate-Pronto

Quem de nós nunca fez um bate-pronto? Chegar em casa, prender o cabelo, juntar feijão, farofa, ovo e servir cantando aquelemisturequê dos deuses?? Ou então aquela mistura geladinha, no meio da tarde, com guaraná, leite condensado, goiabada e biscoito maria?

E o bolo de chocolate, receita da minha amiga Lalá, leite, manteiga e chocolate aquecido, juntar a farinha,o açúcar, bater e pronto?

Bater e pronto, palma contra palma, sorriso contra sorriso,palavra contra palavra, e eis que nos encontramos, lá em Dona Branca, cachaça bate-pronto com banana, groselha,  uva, tamarindo, quiwi, carambola e hoje graviola eu não bebo, porque não tem.

 

A “Tropa de Choque Perdeu”

Eu poderia dizer tanta coisa sobre o julgamento do recurso do Ex Presidente Lula, ocorrido no TRF 4, na última quarta-feira! As impressões como que se atropelam, numa espécie de fila desordenada, como aquelas da vacina da febre amarela. Falar do rito da justiça é um tanto arriscado para uma pessoa leiga no tema como eu. Ouvi os três votos, alternando entre atenção máxima e mínima.

Antes escutara as sustentações orais e fiquei assustada com a fragilidade das mesmas, ao mesmo tempo impressionada com a clareza da sustentação do advogado de defesa de Lula, Cristiano Zanin Martins.

Sobre os votos, devo dizer que todos continham uma mensagem clara: Ali os julgadores disseram: “Aqui é o meu palco, aqui posso transformar indícios em prova verdadeira, aqui, fiel aos autos do processo e à sentença sapiente da primeira instância, posso confirmar a culpa e o crime”.

A verdade é que havia excessos de recados naqueles votos. Os juízes estavam indignados com a pressão popular sofrida, e mesmo dentro do voto, era preciso enquadrar aquela gente, dar-lhe um epíteto mais adequado, chamando pois as manifestações populares de “tropa de choque”, que juiz que se preza e que sabe que está sendo visto e ouvido por todo o país, tem de falar com linguagem clara e cirúrgica.

O voto de cada um tinha também de tipificar o crime cometido pelo ex presidente. Mais que isso, era preciso caracterizar a personalidade e a trajetória do proprietário do tríplex do Guarujá. Então era recorrer ao vasto manancial da narrativa instituída acerca do mensalão, cuja síntese mais brilhante fora feita em um power point que precisava ser confirmado naquela espetacular sessão. Nem houve muito esforço para retomar a narrativa, e assim auxiliar a mídia em recuperar sua fábula predileta, a qual tinha perdido força com os escândalos recentes: Malas de Geddel, de Rodrigo Loures, propina para Serra e Aécio, essa também em malas carregadas por seu primo.

De fato,  ao revalidar os termos do power pointe do procurador Dallagnol, os juízes do TRF4 revificaram a narrativa midiática: Lula chefe da quadrilha, servindo-se da Petrobrás para constituir um polo de poder para o partido dos trabalhadores.

O recado mais claro a ser depreendido dos três a zero, é o de que nesse caso, a justiça assumiu claramente o lado do capital, do mercado financeiro, do governo interino e do seu parlamento sórdido. Ignorou a mobilização popular, cerrou portões aos brados do que chamou de “tropa de choque” a segurar com unhas e dentes, os vagos contornos de uma democracia em ruínas.

E aqui uma última impressão: A vitória maior desse espetáculo foi alcançada pela mídia comercial. É a mídia que sintetiza o script e o desenrolar da agenda dos próximos acontecimentos. Até agosto, julgados alguns recursos da defesa, Lula será enquadrado na Lei da Ficha Limpa. Mas a mídia sabe que um líder de massas não se destrói facilmente. Como numa série espetacular, os outros processos de Lula serão julgados, mantendo acesa a chama do espetáculo telenovelesco que dá tanta audiência. A sociedade perdeu, e já não se poderá sonhar, a médio prazo, com um outro governo popular e democrático. O judiciário, a mídia, todos trabalharão para que o líder de massas não suba mais à rampa do Planalto. “Com o supremo, com tudo”, como vaticinara o senador Romero Jucá.

No horizonte, já se vê a nova onda de ódio, que se espalhará pelas vias e praças do país, que já vocifera na cibervia, com os mais de cinquenta tons da estupidez humana.

Entre Explosões de Bancos, Furtos a Escolas e Farmácias: A Inutilidade do Jornalismo Factual

Enquanto a imprensa segue divulgando o assalto do dia, as explosões de bancos ocorridas na semana, o furto de um ônibus em Pe, onde até a roupa do motorista foi levada, todas as perguntas estão por serem feitas.

A cobertura é factual, desconectada dos veios da história, completamente desvinculada de algum processo investigativo que possa auxiliar a sociedade a compreender as razões profundas desses acontecimentos trágicos.

É certo que há padrões, regularidades, modos de agir previsíveis envolvendo esses atos de crueldade extrema. Sobretudo nos atos envolvendo explosões de bancos, há com certeza uma mensagem que precisa ser publicizada, há caminhos investigativos a serem explorados, entretanto, a imprensa que temos não tem capacidade para tais esforços.

A cobertura da imprensa é farta em imagens semelhantes. A narrativa também é previsível, de tal sorte que se poderia colar o texto da explosão de ontem àquela que ocorreu na madrugada de hoje. Em geral há um vídeo de colaboração espontânea, e, a notícia de um minuto e meio coloca na boca do estômago da sociedade, um mal-estar, uma sensação de inutilidade do jornalismo.

Por que noticiar a explosão de ontem, a de hoje, a de amanhã, sem qualquer esforço de compreender o padrão, o modus operande, sem qualquer esforço para escavar a profundidade desse mar de crueldade?

O tempo jornalístico, aferrado à máquina comercial da publicidade, só pode mesmo esguelar-se, comunicando o óbvio, o superficial, o agora. A pele e as vísceras da cultura do crime estão por ser exploradas. As perguntas sobre os perfis das quadrilhas, a ousadia das equipes que lidam com explosivos, a quase que inutilidade das ações policiais pós-explosão, tudo está por ser avaliado.

Os crimes que vêm se perpetrando contra o país, em todas as suas localidades, não podem ser tratados como meros atos de vandalismo e violência cotidiana. Há aqui uma mensagem mais profunda, como que uma operação em curso, de longa data, com apoio de forças invisíveis, mas reais. Forças locais, ou forças além fronteira? Quem é o braço político dessas operações de guerra? E o braço comercial? Que forças se interessam pelo estado de vulnerabilidade absoluta das comunidades, dos sistemas de vigilância que parecem ter se esgarçado?

Há aqui uma rede forte, bem organizada. Quais são seus atores? Por que é certo que a ousadia dos que carregam explosivos não pode ser somente fruto de químicos e de experiência no crime. Fazer reféns, roubar veículos, explodir bancos, em operações realizadas com sucesso? Isso só pode se dar quando há uma rede competente de produção, planejamento, organização e realização. Essa rede precisa de atores em todos os nós e circuitos do processo. Precisa ter mandantes e mandatários em lugares que ninguém de bom senso suspeitaria.

O jornalismo mínimo não tem competência para tratar disso. Esse tipo de jornalismo só pode acompanhar o fato, quando ele mesmo acontece, quando toda a operação profunda suspira aliviada com mais uma explosão de sucesso e festeja de forma invisível o capital amealhado. Pode ser dinheiro, pode ser experiência, pode ser a oportunidade para remanejar sujeitos mal sucedidos.  Uma sociedade em absoluto estado de vulnerabilidade. A quem interessa esse propósito, barulhento na superfície, mas invisível na sua profundidade. Não, a imprensa que temos não nos dirá nada sobre isso.