Balanço Geral: Cartografia de um País Desmontado

Balanço Geral: Cartografia de um País Desmontado

 

Chega o fim de ano e a gente se pega tentando fazer balanços, olhar para trás, prever o que será amanhã, como estaremos semanas após havermos espocado a champanhe do ano novo. Champanhe? Eu não beberei nenhuma taça. Literalmente, sou uma pessoa que dói, todos os dias, desde que começou esse desmantelamento das estruturas políticas, econômicas, culturais e sociais do país.

Sou uma pessoa que dói, e por isso talvez minha síntese da história brasileira dos últimos três anos seja assim meio apressada, com lacunas imensas e provavelmente algumas palavras fora do lugar, outras desafinadas, como numa espécie de ópera em que não há sincronia, nem regência.

A verdade é que estamos habitando um país completamente desmontado, e a fase do agora, é talvez uma das mais impróprias às festividades. Vivemos a fase do império da máquina, do tratoramento, ocupado em aplainar a terra, desmantelar restos, implodir onde for preciso, para que se reinstaure a lógica do mínimo, na política, na cultura, na economia estatal, nas relações de trabalho.

Mas esse processo de desmantelamento não começou agora, nem se pode dizer que houve dias de calmaria. Desde 2014, apressou-se o tom da trilha sonora desse imenso trhiller, acelerou-se as cenas principais, tudo a jato, para que se possa recomeçar, num tempo estranhamente parecido com aquele do passado, em que a miséria, as desigualdades, a riqueza e a pobreza, eram coisas naturais, dadas por Deus.

Tampouco pode se dizer que a imensa tempestade não fez suas vítimas. É clara a morte da política. E aqueles políticos que ainda seguram, por caridade do capital, as chaves dos palácios e das malas, emprestam suas últimas energias deletérias para a limpeza, o aplainamento, o desmantelamento da antiga política, da política necessária, daquela que tentava uma síntese desenvolvimentista na qual capital e trabalho pudessem dialogar, naquela em que crescimento econômico, social e político não fossem apenas lendas retóricas, sem qualquer enxerto de realidade.

A morte das lendas. Sim, lendas caíram por terra com a força de um tsunami nesses dois últimos anos. Os mesmos braços políticos que se emprestaram com vigor e sanha falastrona ao esforço de derrocada do Brasil, eles mesmos viram ruir sua ética, e sua moral falaciosas, sob os carvões em brasa das delações e das suas provas explícitas.

A mídia limpa, vigilante da decência e da ordem, respirou também o hálito da sua própria carniça propineira.

A terceira morte que salta aos olhos, a terceira morte mais desastrosa é a da perda de autonomia e de poder de compra dos mais pobres, e com ela, o retorno da caridade de ocasião, das campanhas contra a fome, dos pedidos do Pão de Açúcar, para que ajudemos a quem não pode mais comprar. O acelerado desastre brasileiro implodirá o ano novo e fincará de vez, as últimas estacas de desesperança num país desmantelado.

 

(Este post foi publicado hoje em minha coluna impressa do Jornla A União)

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A Escuta do Outro Lado: Uma Imprensa que Falha todos os Dias

Não podemos viver sem a mídia que temos, mas a verdade é que o jornalismo precisa melhorar. Esta foi uma das conclusões do Simpósio Nacional sobre O Jornalismo Profissional e a Formação Universitária na Era da Convergência, realizado pelo programa de Pós-graduação em Jornalismo da UFPB, entre os dias 20 a 22 de novembro.

O evento reuniu pesquisadores de diversos programas de pós-graduação do país, mas trouxe também para o debate, profissionais do mercado, assim como os chamados jornalistas independentes, que trabalham em grandes agências alternativas, como a Agência Pública e a Lupa, que aplica uma metodologia para checar quando fatos jornalísticos publicados como notícias são verdadeiros ou falsos.

O professor Antonio Fausto Neto, da Unissinos, Rio Grande do Sul, proferiu a conferência de abertura, com o tema, “O Jornalismo como Narrativa do Presente”, demonstrando com muita ênfase que se, nas ambiências jornalísticas clássicas, a esfera da distribuição de conteúdos envolvia apenas protocolos técnicos, na contemporaneidade, essa esfera é talvez a mais importante, visto haver sido contaminada por uma grande avalanche de narrativas, modos de dizer, através das mídias sociais como facebook, Twitter, whatsapp, etc.

O pesquisador tratou brevemente da operação Lava Jato e do importante pacto feito com a mídia brasileira, a fim de que a narrativa central da operação sempre pudesse ser reproduzida na mídia. Ocorre porém, que tal narrativa não ouve, ou escuta mal o chamado “outro lado”, tão caro aos manuais de jornalismo, e que tem sido flagrantemente esquecido pela produção jornalística.

O “outro lado”. O tema também foi tratado na última mesa do evento, que reuniu midialivristas, além do projeto “Fora da Curva”, da UFPE, aqui apresentado pela professora Paula Reis.  Os participantes apresentaram a ideia de que a imprensa tem lado, e este, com poucas exceções, é sempre o lado das autoridades, do mercado financeiro, enquanto que a sociedade, através dos seus coletivos, luta por construir modos de dar publicidade à sua visão dos acontecimentos.

“É preciso elevar o custo da mentira”, esta máxima dos movimentos que trabalham contra o Fake news também reverberou nos debates. Considerou-se que notícias falsas não apenas elegem presidentes ou destróem reputações. As publicações falsas e o seu compartilhamento já fizeram vítimas fatais, como a chacina e a morte de Fabiane Maria de Jesus, na praia de Guarujá, cuja foto postada nas redes sociais, estava acompanhada da notícia falsa de que ela usava crianças para rituais de magia e bruxaria.

A negligência da imprensa para a escuta do “outro lado” também tem vítimas recentes, a exemplo do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, e do lastimável episódio do seu suicídio após denúncias de corrupção naquela instituição.

Checar e apurar, sempre. O jornalismo precisa tomar doses maciças desses cuidados, para que possa alcançar um pouco da sua credibilidade perdida.

 

E A Canção Mais Bonita Sempre Sairá da sua Boca

Quando menino, vivia procurando lugares de eco, onde pudesse projetar a voz e cantar. Cresceu mais, assaltou horas livres no piano, e logo estava ensaiando os primeiros acompanhamentos para as músicas que cantava.

Jovem, participou de festivais e sempre ficava entre os primeiros. A música era sua grande paixão, e vinha poesia junto, simples, romântica, de protesto, até poesia regional, no melhor estilo, para seus forrós de raiz.

Tinha nascido com ritmo, com afinação, e esses dois ingredientes foram se aprimorando, e eis que já se vão completados trinta e cinco anos de carreira na música.

Uma carreira discreta, com um grupo seleto de fãs. Todos os seus amigos do Instituto dos Cegos Adalgisa Cunha, casa que guarda talvez, o maior arsenal das memórias das suas canções, amigos múltiplos que foi fazendo ao longo da vida, Seus amigos do grupo Acorde, para o qual escreveu um dos mais belos cantos espiritualistas: “Um Dia Todos Nós Seremos Anjos”, com uma melodia belíssima, uma espécie de sonata de otimismo e generosidade, para os duros tempos que estamos vivendo.

Beto Melo é seu nome musical, Mas, José, esse carpinteiro da Melodia, Alberto, segundo nome do seu batismo, aberto à solidariedade, à amizade, pronto pra apoiar projetos musicais dos que vão lhe procurar. Já regeu o coral da Associação Paraibana de Cegos, já plantou sementes musicais em corais no interior do estado. E canta, canta muito. E conhece quase todos os gêneros musicais, e experimenta compor em todos os ritmos, como uma espécie de enciclopédia sonora.

O show em comemoração aos 35 anos de carreira aconteceu na última terça-feira, na Usina da Energisa. Beto Melo foi o rei do palco, e demonstrou de maneira magistral, a firmeza da voz, o ritmo, a afinação desse cantar único.

Assisti da plateia, com lágrimas teimosas no canto do olho e um sorriso do tamanho do mundo. Vibrei como quando éramos amigos de infância, compondo juntos nossas primeiras canções com rimas previsíveis e sempre encerradas em dó maior.

O show de Beto Melo foi um culto à amizade, à diversidade, sobretudo foi um poema vivo da sua história, que terá sempre um tom de doçura e de generosidade.

Depois do abraço, trouxe para a crônica de hoje essa certeza: A canção mais bonita sempre sairá da sua boca.

 

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa do Jornal A União, do dia 17 de novembro)

Ler em Braille: Um Gesto Fundador da Cultura do Relevo

Após a inauguração da imprensa braille do Jornal A União, alguns amigos me perguntam se este não seria um projeto obsoleto, na medida em que há hoje uma grande ecologia de aplicativos que permitem às pessoas cegas acessar conteúdo online, nas telas de smartphones e de celulares.

Como pessoa cega, aferrada ao mundo da escrita, como pessoa que sempre leu e escreveu em braille, como pessoa que dedicou seus anos de doutorado a pesquisar as potencialidades do braille, ou, por assim dizer, a força do relevo dentro da cultura da escrita, preciso dar resposta a esse debate, para que se compreenda a importância desse encarte em relevo que agora A União entregará às pessoas cegas da Paraíba.

O método de leitura e escrita das pessoas cegas foi inventado e divulgado pela primeira vez, em 1929, quando o jovem cego francês, Luís Braille deu a conhecer o seu invento para os franceses do seu tempo. Cem anos depois, o método era reconhecido e se expandia pela maior parte dos países do mundo. Mas estava confinado às instituições dedicadas à educação dos cegos. Não era plenamente reconhecido na cultura social em geral, não aparecia em rótulos, roupas, tampouco era disseminado como meio de leitura direta pelo mercado editorial.

Os inventos das últimas décadas do século XX, deram novo impulso à expansão do braille. Sistemas informáticos incorporaram fontes braille em seus aplicativos de escrita, suprimentos como impressoras braille de custos menos elevados foram criadas. Display braille para leitura do braille em direto, por conexão USB com computadores, ou via bluetooth com smartphones, permitiram que o braille tomasse acento privilegiado na esfera tecnológica.

A Indústria farmacêutica, em larga maioria, incorporou informação braille em suas embalagens, assim como alguns empreendimentos de cosméticos e de alimentos.

As cidades do mundo estão atravessadas por coisas escritas. Cartazes, letreiros, placas, panfletos, propaganda de toda ordem para leitura direta por quem enxerga. O braille, por sua vez, virou artefato de luxo, que só pode ser consumido ou nos livros didáticos, que nem sempre chegam na hora certa, ou por pessoas privilegiadas que podem consumir novos produtos como os displays braille e smartphones de alta performance.

Por isso o gesto de A União em Braille é tão importante. Ler em braille, em pleno século XXI, é valorizar o gesto fundador de Luís Braille. Mais que isso, é dar visibilidade e relevo a uma coletividade que se afirma nesse gesto fundador de tocar as palavras, decifrar as combinações e associações de pontos, coletividade esta que em geral é esquecida em meio à montanha de publicações em tinta que povoam a cultura do texto e da escrita.

É possível que num futuro, uma pessoa cega chegue num stand e compre o seu magazine predileto no formato que desejar: Braille, áudio ou PDF.

Aqui mesmo na Paraíba, a FUNAD está lutando para que contas de água e energia sejam impressas em braille, com código de barra, para que a pessoa cega tenha autonomia para ver o seu consumo e quitar seu débito.

O gesto de tocar as palavras com a polpa do dedo só será suprimido da cultura, quando não mais houver pessoas cegas no mundo. Então, ler em braille, em papel, por uma pessoa cega, é um gesto de reconhecimento e de cidadania.

 

As Coisas do Arco do Velho

O velho Temer não tem medidas para a implementação do seu projeto de recuo do país a um estado anterior ao tempo em que ele ainda era jovem, a pobreza e a desigualdade só cabiam em discursos de alguns religiosos progressistas, a política era realizada por senhores oligarcas, negociantes de café, de ouro, e da agropecuária.

O estado brasileiro na era Temer, vai ficar tão pequeno, ao ponto de caber num fusca. O apequenamento começa com a chamada “Pec do fim do mundo”, congelando os gastos primários por vinte anos, e prossegue com avidez nos processos de privatização, nos cortes brutais dos orçamentos da saúde, da educação, da ciência e tecnologia.

No país do velho Temer, a reforma trabalhista só tem a retórica de que é uma legislação moderna. Dissolvem-se as estruturas clássicas de proteção dos trabalhadores, é bem verdade, mas  eles, num passe de mágica, convertem-se em vendedores de horas. Os horalistas, transitando de empresa em empresa, ofertando horas de fim de semana em quiosques ou postos voláteis de trabalho, porque a chamada indústria nacional também deixará de existir, subsumida em grandes fusões mundiais do capital global.

Não têm medida, as coisas do arco do velho. Extinção da cultura, desmantelamento das políticas públicas de comunicação, facilitação da prática do trabalho escravo, essa terrível praga que por tanto tempo empestou a América Latina, e que no Brasil, demorou muito mais do que em qualquer lugar para ser abolida.

Com a boca cheia de mesóclises, avança sobre os planos de saúde dos mais velhos, permite os aumentos de gás de cozinha e combustíveis, extingue as farmácias poulares e corta medicamentos de alto custo para doenças raras.

Como um velho trem desgovernado, o país segue em marcha ré, aos arrancos, recuando a um tempo em que a política se fazia à base do compadrio, doapadrinhamento, da constituição de um grupelho minoritário orbitando em torno de privilégios, troca de favores, subordinação da maquinaria do estado aos seus interesses.

De vice presidente decorativo a desmantelador da república, o velho Temer demonstra uma coragem inflexível para fazer o que tem de ser feito. Pouco lhe importam os menos de três por cento de popularidade, aferrado ao seu posto de destruidor de um projeto de Brasil democrático,  vai manejando as forças que o apoiam, vai torcendo a manivela do tempo, para trás, sempre para trás, na reconquista de um país antigo, subordinado ao capital estrangeiro, entregando suas comodities à exploração mundial.

No país velho onde Temer governa, não cabem as descobertas científicas do beneficiamento de urânio, ou a participação da física paraibana no experimento do século: A captação da explosão entre duas estrelas de newtron, ocorrida há mais de cento e trinta milhões de anos e que somente agora pôde ser observada.

No velho país onde Temer governa, o arco estreita-se sempre para trás, enquanto ele e a sua força de apoio comemoram seus feitos em jantares palacianos, entregando à população um cinismo sem medidas.

Salve-se quem apanhar Primeiro o Pomo de Ouro

Você olha para o facebook, e se depara com posts à procura da criança que cada um deve carregar dentro de si. Nada contra as pílulas encapsuladas em frases que tentam despertar a alegria, mas eu não consigo abrir a caixa das palavras mágicas, e sei que a varinha de condão, que as estórias de fada incutiram tão bem em nossas cabeças, a varinha de condão hoje, não passa de um jeito de falar, de interpretar a lei, de arrebanhar os seus, sob o manto da justiça, e cuidar da sua salvação.

Eu nunca me esqueço da estória antiga, que minha irmã Maria me contava na hora de dormir. Minha irmã não conseguiu aprender a ler e escrever. Passava o dia todo cuidando das lides da casa da nossa família grande, e de noite, com um riso bom no rosto manso, deitava minha cabeça no colo e me contava a estória do castelo belo belo.

A menina andava à procura de uma chave que abrisse o castelo belo belo, mas, no seu caminho, só havia monstros, o de uma cabeça, de duas, de três… Eu dormia sempre nesse ponto da estória, e assim nunca cheguei à casa do último monstro, com suas sete cabeças torpes. O castelo belo belo persistia intocado, fechado dentro do meu sono.

Não há estória de fada que nos haja preparado para o mundo em que agora vivemos. A grande partida na qual estamosenvolvidos, não se assemelha em nada com o fantástico campeonato de quadribol, no qual os jogadores empenham-se para apanhar primeiro o pomo de ouro.

Na nossa história, o pomo de ouro já foi apanhado, e ainda que a tv, o rádio, os jornais e a cibesfera nos digam para corrermos atrás dele, o pomo de ouro está bem guardado nas pregas do manto da justiça, e só é empregado em ocasiões muito especiais, para salvar do rigor punitivo, os eleitos da sua corte.

O pomo de ouro nem é tão bonito assim. Dependendo da ocasião, ele pode ser um intrincado de palavras difíceis, um discurso enviesado e vago, mas que tem o condão de abrir portas e mudar uma realidade,  torcer a chave da lei e abrir as asas da liberdade sobre as cabeças dos seus protegidos. Abracadabra? Pocos pocos salamocos? Na nossa história, cabem muito mais coisas nessas palavras, do que sonha nossa vã inocência.

O castelo belo belo existe de verdade, mas a sua chave é guardada por monstros normais, de uma cabeça apenas, com dentes excelentes e propósitos torpes. A mesma chave que abre o castelo belo belo, abre e lacra malas cheias de dinheiro.

O castelo belo belo não é tão belo assim. Nele, os passos ecoam à noite, na direção do porão, ali onde se decidem as coisas grandes da república, na certeza de que o pomo de ouro está bem guardado sob as pregas do manto da justiça, um suspiro de alívio agitando a fumaça dos charutos, porque sabem que na hora certa, o pomo de ouro será usado com maestria para que tudo fique assim, na ordem e na lei.

Peço perdão à Maria, peço perdão à infância, peço perdão à criança que ainda vai crescer, os monstros estão todos juntos, no primeiro castelo, guardam muito bem o pomo de ouro, e não há o “viveram felizes para sempre”. Só existe o próximo minuto dramático de cada dia, só existe a terrível máquina ceifadeira do futuro, só existe o primeiro monstro, com seu riso mal e sua habilidade, preparando a próxima manchete trágica para o jornal da noite.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do #JOrnalAUnião).

 

 

Chegou a Hora!

Chegou a hora em que mulheres de todo o país vão falar da sua escrita, da sua literatura, vão encher nossa #Jampa de palavras, no #MulherioDasLetras! Mais que isso, chegou a hora de apresentar #TiaLila ao mundo, à cidade de Jampa, aos leitores que arriscam perseguir meus delírios!

 

O lançamento será no sábado, 14, a partir das 18h, e já tou com aquele frio na barriga. O que dizer sobre esse ensaio de romance? É uma brincadeira. Um nano-romance, cujos capítulos mais longos não chegam a dez linhas.

Uma estória de ficção científica, cheia de improváveis acontecimentos! E mais não conto.

 

Você pode ler o livro em ebook ou em papel, se preferi. Dê uma conferida em

 

https://www.editoracrv.com.br/produtos/detalhes/32320-tia-lila

 

Se quiser, vá conferir ao vivo sábado, no lançamento do #MulherioDasLetras!

Luiz Carlos Cancellier de Olivo: Sob o Reinado da Injustiça

Era uma vez um mundo governado pela justiça. Sentada à sombra de uma árvore frondosa, a justiça disciplinava as leis, julgava os delitos grandes e pequenos, formulava sentenças perfeitas e corretas, mediante testemunhos e provas, refletia e sopesava em sua balança, a validade dos indícios, recusava as maledicências e os mexericos, nunca se permitia uma conclusão apressada, ou um veredicto pouco convincente.

Nesse mundo regido pela justiça, pouca ou nenhuma importância era dada ao estardalhaço, a fama advinda de algum caso em que o julgado era celebridade, tanto assim que a justiça dedicava preocupação e interesse em igual proporção, desde ao caso mais simples, ao mais rumoroso.

Constituía-se espetáculo de rara beleza e de profundo aprendizado, o momento em que a justiça tinha de aplicar a pena. A sua dosimetria nunca ultrapassava os limites do razoável, e, com sua mão hábil em medir proporções, com a serenidade e a brandura do seu espírito, ela infundia ao mesmo tempo nessa dosimetria, medidas exatas de efeito punitivo, combinadas com medidas de efeito ressocializador e de crescimento e recuperação das condições de humanidade.

É assim que naquele mundo, sabia-se, como líquido e certo, por anos e anos de um firme reinado, que a justiça sempre estaria ali, acima de tudo e de todos, garantindo a lei, preservando o bem-viver, mediando os conflitos, julgando com determinação, coragem e pertinência, todos os pequenos dilemas daquele mundo.

Naquele mundo em que a mão firme da justiça repousava tranquila sobre as folhas da lei, palavras como ódio, intolerância, desrespeito, sempre que ameaçavam ganhar corpo em algum comportamento, eram enxotadas como se fossem moscas indesejadas. Naquele mundo, os processos tinham começo, meio e fim. Tinham arrazoados fortes, e a justiça fazia questão de somente dar seu veredicto final, tendo diante de si, todas as provas perfiladas.

Naquele mundo, por confiarem cegamente na justiça, os réus muitas vezes antecipavam-se e confessavam seus crimes.  Pediam perdão, determinando eles mesmos, em sintonia com o olhar firme da justiça, as medidas da sua punição.

Mas eis que um dia, sorrateiramente, a injustiça, irmã gêmea da justiça que vivia no estrangeiro chegou com malas e bagagens, e armou seu quartel naquele reino tranquilo. Ardilosa, aproximou-se da justiça e ofereceu-lhe ajuda nos processos. A injustiça sabia manejar as palavras, e, com mão ligeira, foi disseminando no trabalho da justiça, pequenas doses de intolerância, pequenos desvios que permitiam convicções em vez de provas, e sobretudo, sob a pecha de dar transparência aos processos, obrigou a justiça a aliar-se à mídia, que com estardalhaço e espetacularização, passou a cobrir todos os processos daquele mundo.

Célere, a injustiça usurpou o trono da irmã e passou a governar. Agora, em doses maciças, impingia ódio, medo, desconfiança e intolerância entre os súditos. Preocupada, a justiça tentava dialogar com a irmã, mas, autoritária, batendo na sua nova e bela mesa com mão firme, apontava a pilha dos processos resolvidos a partir dos indícios e das convicções e retomava com novo vigor, a sanha da perseguição e da maledicência, tudo com apoio da grande mídia.

Horrorizada, um dia a justiça viu um dos seus súditos mais corretos cair nas mãos da injustiça e ser julgado pela sua nova lei de exceção. Com pavor, viu aquele home simples e nobre apoiar-se na balaustrada do último andar do belo shopping da cidade. Tapou olhos e ouvidos, mas a morte do homem furou-lhe os tímpanos e esvaiu de si, toda a vida que possuía.

 

(Este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do Jornal A União)

 

Beto, Valéria e um Punhado de Reflexões

“Quem Manda no Mundo”? Essa foi uma das dicas de leitura que Frei Beto deixou para nós, por ocasião da quinta edição do ciclo de debates Pense, realizado na última quarta-feira para uma plateia formidável, em qualidade e quantidade, que lotou a sala maestro José Siqueira para ouví-lo falar sobre cidadania, democracia, luta por um projeto para o Brasil.

Foi uma noite para se guardar na memória, pela maestria e lucidez da visão de Frei Beto sobre conjuntura política, formaçãoe valorização dos movimentos populares, governos Lula e Dilma,e mais, muito mais.

O começo de tudo, naquela noite, foi de uma força e de uma beleza   que dificilmente saberei descrever em palavras. Valéria Resende, a mediadora do debate, com sua voz grave e melodiosa, desmontou os protocolos para nos falar de Beto, não o
Frei, para nos falar de Beto, o seu irmão, que   desde a adolescência, postou-se no centro das lutas por uma igreja viva e solidária, e depois, mergulhou na luta política e na formação das bases populares em diversos países do mundo, a luta contra a desigualdade e a pobreza.

Valéria Resende, que carrega na bagagem três Jabutis e um prêmio “Casa de Las Américas”, por sua literatura de peso, ofereceu-nos, pois, aquela lição de simplicidade e afeto, desenhando para nós, a figura de Frei Beto quando jovem, os sonhos de ser escritor, os quatro anos em que foi preso pela ditadura, os papéis que pediu que ela guardasse, para que não se perdessem memórias dos tempos de prisão e de exílio.

Ali, na sala Maestro José Siqueira lotada por uma plateia atenta e e silenciosa, Valéria foi desenhando em letras grandes, uma espécie de longa carta tecida pelo afeto, a amizade, a solidariedade, o respeito e a admiração que marcaram a trajetória dos dois amigos, e que a escritora nos ofertou generosamente como um presente para a memória.

Frei Beto compreende o mundo por uma baliza ao mesmo tempo muito simples, mas exata. A valorização do humano e das suas culturas, a luta permanente contra a desigualdade, a esperança e o otimismo como combustíveis que devem nos alimentar nesses dias difíceis vividos pelo país.

Com uma voz forte e vibrante de entusiasmo, ele nos deu lições da história dos últimos cinquenta anos no Brasil, desenhando os cinco ciclos mais importantes do período: Os anos anteriores à ditadura, quando nascia na igreja católica, o importante movimento das comunidades eclesiais de base; o ciclo da ditadura, a redemocratização, os anos oitenta e a eclosão dos movimentos sociais de massa; as eras Lula e Dilma, os erros e as conquistas. O tempo em que vivemos, onde tudo, primeiramente, começa com o repúdio a esse governo ilegítimo.

Frei Beto disse o que já sabemos, mas, postulado pela sua voz, tem a força da irresignação: No mundo, apenas oito famílias concentram  mais da metade da riqueza produzida. O capitalismo não é um sistema humanizado. O consumo exacerbado, individual, a exploração descontrolada das matérias primas, são dilemas e desafios contra os quais devemos lutar.

Deixou-nos dicas de leitura, como a recomendação para que buscássemos as encíclicas escritas pelo Papa Francisco. E pediu que lêssemos o livro de Noam Chomsky, “Quem manda no Mundo”?

 

(Este post foi publicado na última sexta-feira, em minha coluna impressa do Jornal A União)

Entre Capas e Manchetes: O “Pacto de Sangue” da Rede Globo

Mal terminava na última quarta-feira, o depoimento do ex-ministro Palocci ao juiz Moro, e o advogado que cuida da sua delação ofertou à imprensa as deixas principais que fariam parte das edições da noite. Com ímpeto renovado, o Sistema Globo de Comunicações deu curso à sua cobertura de guerra contra o ex-presidente Lula, seguida no mesmo tom, por todos os outros sistemas comerciais privados.

Antes de qualquer coisa, permitam-me fazer uma declaração importante. Não habito o planeta daqueles que julgam que o ex-presidente Lula não haja mergulhado na estrutura política herdada dos governos FHC, na qual o voto popular é somente um ingrediente fraco na luta pela democracia. Interesses empresariais sempre estiveram à frente da política, e, infelizmente, sobretudo em candidaturas de coalisão, compram antecipadamente os mandatos para os quais candidamente, milhões de votos são depositados em urnas. Aconteceu assim também com os governos do PT, ainda que tenham sido estes que criaram as condições para que se fortalecessem, o Ministério Público e a Polícia Federal.

As duras lições que se tiram desses últimos dois dias frenéticos, entretanto, são as mesmas com as quais venho trabalhando ao longo desses últimos dois anos, em muitas das minhas colunas. O sistema Globo de Comunicações tem atuado com determinação no sentido de destruir a figura política do ex-presidente, pondo a serviço dessa empreitada, o melhor das suas estratégias: Tematização, onipresença e ubiquidade do tema da criminalização de Lula em todos os seus programas políticos. Editoração de capas, com publicidade subliminar de reforço ao tema, efeito enciclopédico para “recordar” à sua audiência,  passagens antigas do enredo jurídico/midiático que já trouxe a república à uma situação insustentável.

No sistema Globo, pratica-se o que eles chamam de “bom jornalismo”, que assim que é divulgado, encontra uma chuva de críticas nas redes sociais e na imprensa independente, que evidencia as marcas grosseiras da manipulação, da edição e de uma cobertura orientada para a destruição do Partido dos Trabalhadores e do seu líder maior.

E, para não ser injusta, o certo é que os outros sistemas comerciais privados seguem como mansos cordeirinhos, o mesmo diapasão da cobertura encabeçada pela rede Globo. A mídia, é bem verdade, fez um “pacto de sangue” com o empresariado, com o mercado e com o judiciário, para implodir de vez a liderança de Lula.

Esse pacto ora recrudesce, ora é retomado em todo o seu vigor. Nos últimos dias agudizaram-se sobremaneira essas estratégias.  Lula voltou a ter centralidade na grande mídia, com manchetes de uma virulência corrosiva e devastadora, e com atuação sincronizada da tv, do rádio, dos portais e do cinema, que em todo o país, estreou hoje, o polêmico filme monotemático, “Polícia Federal, A Lei é para Todos”, onde o enredo conhecido vem sendo despejado há anos na cabeça da audiência dos telejornais da Globo.

O enredo telenovelesco já dura mais de treze anos, e sempre que algo sacode a república em seus alicerces, e ameaça as instituições e sua vasta sacola de adjetivações, honorabilidade, respeitabilidade, imparcialidade, ética e moral irrestrita, sempre que a lama dos palácios ameaça apresentar-se em toda a sua sujeira, e ainda que fortunas escusas jorrem de malas e caixas, assaca-se novamente o tema central, Lula e o quadrilhão do Pt.

É a velha fórmula de sucesso, arrumando em manchetes editadas, a antiga luta entre o bem e o mal. É o velho esquema a exibir um diagrama perverso, que se vende como “bom jornalismo”, mas, infelizmente, só nos apresenta o cadáver decrépito da imprensa brasileira.

E antes que comecem a me chamar de “petralha comunista”, façam um pequeno exercício: Comparem as coberturas: O que se disse sobre a denúncia feita por Janot sobre Serra: E os milhões de Aécio, como foram cobertos? O silêncio de Gedell, a estranha prisão de Eduardo Cunha, como é a cobertura da mídia sobre esses fatos?

Em política, os santos são bem raros. Olhemos porém, para a lista dos demônios da rede Globo, quase todos eles são vermelhos.

 

(Com pequenos ajustes, este post será publicado amanhã, em minha coluna impressa do #JornalAUniao)