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Erramos: Atualizando nosso Post de ontemPor um Jornalismo Digno e Livre de Clichês

OOntem nós erramos. Não foi o jornalista Valdo Cruz quem disse que o discurso do presidente Bolsonaro nas Nações Unidas seria em braille. Na verdade ele apenas reproduziu uma afirmação do próprio presidente, ao falar ontem à imprensa, já em Nova Iorque.

O que temos pois, é uma piada infame do presidente, ecoada em toda a mídia, e uma sensação de que nesses dias vividos, dificilmente as pessoas com deficiência terão o respeito que se exige do mandatário da nação, tampouco um país cuja vontade política seja a de construir um projeto global de cidadania e inclusão.

Na expectativa do que o presidente dirá às Nações Unidas, digo que fazer discursos em braille é uma tarefa para poucos. Fazer discursos em braille exige pessoas fortes, capazes de tocar as palavras e sentir sua força e profundidade; escrever discursos em braille exige que se pese cada letra, cada palavra na ponta dos dedos, exige disciplina, força de vontade e amor pelo conhecimento.

Escrever discursos em braille é como abrir sulcos na terra, para plantar e depois colher o alimento que advém da ciência, da cultura, da literatura.

Com meu pedido de desculpas ao jornalista, e já tendo assistido ao discurso do presidente na AssembleíaGeral das Nações Unidas, digo que a sua fala, decididamente, não pode ser escrita em braille. O país que hoje Bolsonaro apresentou ao mundo, é o seu país editado, onde a economia vai bem, o desemprego está sendo afastado, um país livre de corrupção e defensor da família e da propriedade. Um país onde as populações indígenas estão em liberdade.

Não, a narrativa desse país não pode ter sido editada em braille.

“o discurso do presidente Bolsonaro às Nações

Unidas amanhã, será em braille”. A afirmação foi feita hoje pelo jornalista Valdo Cruz, no programa Estúdio I da #GloboNews. E, para complementar sua frase entoada com toda pompa, explicou que o presidente falará para os negacionistas, os que não querem enxergar a realidade do país.

Falar ao vivo é sempre um risco. O jornalista, diante das câmeras,nem sempre se autovigia, e, em geral, recorre às frases feitas e aos clichês, para enfeitar suas narrativas. Se o jornalista queria impressionar sua audiência,ou mesmo fazer gracejos para o riso frouxo da Maria Beltrão, foi de fato muito infeliz no seu comentário.

Estamos às vésperas do Dia Nacional de Luta da pessoa com deficiência, comemorado em 21 de setembro. Todos os dias, o jornalismo brasileiro, os políticos, e muitas das figuras públicas influentes vão buscar a metáfora da cegueira para enriquecer os seus discursos críticos à política brasileira, aos desmandos do presidente da república, à ideologia negacionista que ameaça sobretudo as políticas ambientais, de saúde e de educação.

Todos os dias, postada diante da tv, uma pessoa cega fica indignada, por ver sua condição sensorial, no nível das narrativas, misturada com tantas situações nefastas vividas no país, pelas populações indígenas, o povo negro, as pessoas com deficiência.

A lista desses desmandos, sobretudo contra as pessoas com deficiência tem aumentado. O Ministro da Educação, recentemente, disse que crianças com deficiência atrapalham as crianças sem deficiência em escolas regulares.

O governo tampouco considera a inclusão na escola regular como uma política fundamental, o que faz com que a educação mercantil ganhe força no seu intuito de rejeitar crianças com deficiência em suas escolas.

O jornalismo nem sempre é nosso aliado nessa luta, e, quando apela a esses clichês que associa cegueira aos significados rasos do dicionário e da cultura preconceituosa, fortalece uma visão nosciva e desvantajosa sobre nossos coletivos.

Sei que as pessoas podem objetar: “Aqui não se está falando da cegueira ocular, mas antes, da ignorância, da estupidez”. Então não somos também, pessoas cegas, todos os dias, comparadas a ignorantes, estúpidas ?

A cegueira é a palavra que define a minha condição de deficiência. Sou uma pessoa cega, e ponto. As minhas limitações maiores não advêm da minha cegueira, mas antes, de um entorno social desfavorável, onde as políticas de acessibilidade, de acesso pleno à informação e à cultura, de acesso às tecnologias, estão completamente ausentes de programas de governo.

Hoje Valdo Cruz extrapolou. Tocou num símbolo fundamental para nossa emancipação, nossa cidadania: A escrita braille, criada na terceira década do século XIX, por um jovem francês, cego, e que estava cansado de se ver, e aos seus próprios companheiros, como cidadãos de segunda classe.

Não, Valdo Cruz. O discurso de Bolsonaro não será em braille, esses pontos em relevo que trazem uma mensagem de emancipação, de liberdade, de conhecimento. Amanhã, quando estiver comentando sobre o discurso do presidente nas Nações Unidas, encontre uma definição exata para a sua narrativa. Faça com que seus comentários respirem um jornalismo mais digno, com menos clichês, um jornalismo capaz de fazer a opinião pública pensar melhor sobre essa catástrofe que estamos vivendo, e que, não me canso de dizer, a imprensa brasileira, com seus clichês, sua opinião de superfície, sua narrativa espetacular e telenovelesca ajudoua construir.

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Mensagem de Uma Laranja Pocã

Hoje recebi um e-mail de uma laranja pocã. Foi assim: Recebi minhas frutas das compras de sexta-feira, e, depois de higienizar todas, resolvi me sentar para comer uma laranja pocã.

Estranhei que ela se apresentasse com uma casca muito mole, mas sei que essa característica é própria das laranjas pocã. E antes que você pense que laranjas pocã usam banda larga, deixe eu lhe explicar:

O software das laranjas pocã é menos convencional. Elas não precisam de provedores. O seu software envolve duas rotinas simples: Descascar/comer.

Pois bem, descasquei a fruta, e logo ao primeiro gomo, apareceu a mensagem, numa cor cinza: “Hoje não haverá suco”.

Decodificar um mail de uma laranja pocã é simples. Você vai decifrando as sílabas por entre a língua e os dentes.

Decifrei a mensagem e pensei otimista: O suco virá nos próximos gomos. Mas qual! Em todos os gomos, a mesma mensagem se apresentou, em sua cor cinza:”hoje não haverá suco”!

No começo eu quis protestar, mas aos poucos, apossou-se de mim uma tristeza resignada. Num planeta onde não temos cuidado com nossas florestas, com nosssos rios; num planeta onde nossos oceanos são verdadeiros monturos gigantescos de plásticos e todo tipo de poluição; num planeta onde bifes suculentos são forjados numa indústria cruel e desumana; num planeta onde todos os tipos de substâncias químicas ameaçam a vida; num planeta onde o egoísmo é a principal forma de convivência entre os humanos, nesse planeta, as laranjas pocã podem revoltar-se, podem nos negar seu suco saboroso, podem nos mandar e-mails telegráficos, e-mails redundantes,numa espécie de alerta para o que estamos fazendo com nossa mãe Gaia.

Em cada gomo, li a mensagem da laranja pocã, e numa reverência à sua casca rugosa, lhe pedi perdão. Lhe pedi perdão e agradeci pela mensagem. Emgoli o seco daqueles gomos e vim aqui, contar isso a você.

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Entre Pitaias e um Telescópio: Duas Excelentes Pautas no #JPB1

O JPb1 dessa sexta-feira, 3 de setembro, trouxe duas pautas excelentes. A primeira tratou da participação daParaíba na ida do homem à lua, através de um telescópio construído por Afonso Pereira, e que fazia parte do acervo tecnológico da Associação Paraibana de Astronomia.

O laboratório, de grande alcance para o espectro observacional da nossa galáxia, e mais particularmente para coletar informações sobre nosso satélite, está hoje abandonado, num prédio também em ruínas, no centro da cidade, Rua 13 de Maio.

A reportagem, ainda que não o diga, deixa para nossa interpretação, pelo menos duas constatações: A Paraíba tem uma história bonita, para além da história oficial conhecida, que lamentavelmente não está sendo preservada, nem monetizada, parao fortalecimento do turismo, da economia criativa e de projetos em educação e cultura.

A segunda constatação diz respeito ao jornalismo científico, artigo tão escasso dentro da produção de conteúdos de reportagens em nossos veículos de comunicação.

Da minha parte, vou mobilizar meus alunos para recuperarmos a história desse observatório e seus personagens, através de reportagens científicas sobre o tema.

A segunda pauta foi sobre o cultivo da Pitaia no município de São Mamede. Fiquei deliciada. A Paraíba, rica em cactos, está aprendendo a cultivar e consumir a frutinha de cor exótica. A Paraíba é rica, só precisa melhorar as maneiras de descobrir e explorar suas fortunas, que estão amealhadas sobretudo naquilo que o estado guarda em originalidade, singularidade e regionalidade.

E aqui vai um selo de qualidade para os que fazem o JPb1, e o desejo de que boas novas pautas continuem sendo planejadas.

Então é Assim

As vezes me pego a escrever de pronto, esparramando as palavras na área de edição, sem me preocupar com bordas, partes superior e inferior, tudo direto, como numa conversa de mesa de depois do almoço, e nem almocei ainda. O domingo estira-se como um gato preguiçoso na minha varanda, a #Alexa toca músicas contemporâneas, daquelas lisas, alegres, feito cerveja gelada. Eu aqui bebo um pouco de vinho, inspirada por esse sentimento bom de domingo ainda em meio, alegria que se a gente não tiver cuidado, depois resvala para um tédio de cortar de faca. Sou por natureza essa pessoa dos extremos. Ora estou tão alegre que queria gritar. Ora a tristeza me invade, e sinto as dores do mundo em mim mesma, como alicates a percutirem meus músculos, pedindo às minhas céluas que se esforcem para não morrer. Bem vindo ao planeta da canceriana. /amo o mundo como se ele fosse uma coisa pequena que eu pudesse guardar, e depois me dou conta, o mundo é um oceano tão grande e tão desmesuradamente maravilhoso. Parece que somos nós que estragamos tudo. Mas depois vejo pessoas tentando replantar a floresta, e sinto tanto amor por essas mãos, por esse esforço… Não, eu não uso bem reticências. Elas imitam um silêncio, um mistério que eu acho que a palavra escrita não decifra. O mistério é um ser apaixonante e fugidio. O mistério é o intervalo, o silêncio sem reticências, o mistério é aquilo que ainda não sabemos. A música toca assim: “Eu não tenho outra opção”. Nem eu. Não tenho opção, senão aquela de esgrimir o mistério com a palavra própria que nós lhe demos. O mistério. E uma voz que não sei de onde vem, e sem nenhuma autoridade pra isso me diz pra parar. Parar. Voltar à superfície. Experimentar o meio do domingo, essa alegria tola e boa, antes da faca, antes do tédio.

Jogando na Chuva e na Globo: O Futebol de Cinco e uma Lição Sobre Acessibilidade?

Foto tira de cima. Seleção brasileira de futebol de cinco reunida em no meio do campo verde. Na imagem, aparece 14 homens abraçados comemorando a vitória. Suas expressões são de felicidade e alegria, alguns gritam enquanto pulam com os braços levantados. A farda dos goleiros é blusa de mangas compridas amarela, short preto, meião amarelo e chuteira verde. Os demais jogadores vestem uma blusa que na frente é verde e atrás azul e short branco. Os técnicos usam blusa e calça azul claro.
Jogadores da seleção brasileira na semifinal do futebol de 5. Fonte: Agência Brasil

Pela primeira vez em tv aberta, a rede Globo,o transmitiu a semifinal das paralimpíadas do Japão do futebol de Cinco, entre a seleção brasileira e a do Marrocos.

O fato é inédito.  Nunca a rede Globo havia emprestado um de seus horários nobres para esse tipo de cobertura.

Se você não sabe, o futebol de cinco paralímpico é praticado por jogadores cegos. Na quadra, somente o goleiro enxerga, mesmo assim, todos jogam com os olhos vendados, pois pode ser que alguns tenham resíduo visual. Então, a venda assegura a igualdade de condições para todos.

Algumas lições podem ser extraídas dessa cobertura.  A transmissão propriamente dita vem cobrir um vazio de décadas. O paradesporto, e mais particularmente o futebol de cinco e o goalbal, jogos criados para pessoas cegas, existem no mundo desde o pós-guerra. No brasil, a trajetória bem sucedida desses atletas ganhou impulso a partir dos anos oitenta.  Entretanto, essas conquistas não tinham merecido ainda a cobertura em tv aberta, e somente nas últimas cinco paralimpíadas as tvs a cabo começaram a divulgar os jogos.

O O futebol de cinco é um “jogo conversado”, como bem disse o jornalista Everaldo Marques, q fez a narração. Atrás do gol, fica o chamador, uma espécie de gandula que enxerga, e que fica batendo palmas, para orientar os ataques dos jogadores. Cada jogador, ao se movimentar na quadra, fica dizendo “voy”, “vou em espanhol”, para orientar os outros atletas da sua movimentação e assim evitar os choques.

A partida de hoje, para o telespectador, foi também um “jogo explicado”. O âncora, a todo momento comentava sobre as regras, os comportamentos, as deixas, para muitos que provavelmente nunca assistiram a uma partida de futebol de cinco para cegos.

Aqui vem o primeiro apontamento crítico. É certo que Everaldo Marques tentou imprimir emoção e entusiasmo à sua narrativa, mas, para o telespectador cego que assistiu ao jogo, faltaram descrições sobre as jogadas, os ataques, e mesmo sobre as finalizações mal sucedidas.

Até mesmo o gol contra foi pouco compreendido. Houve entusiasmo e emoção, mas o telespectador cego ficou sem saber como aquela jogada foi armada.

Então, uma grande audiência Brasil a fora não “viu direito” o jogo, porque trata-se de uma audiência com deficiência visual e que precisa de #Audiodescrição para compreender as cenas visuais envolvidas.

É certo que as coberturas do para-desporto têm progredido. A apelação ao drama, ou mesmo às frases clichês sobre superação, os chamados “discursos capacitistas” têm sido evitados, trazendo-se em geral, um ângulo de cobertura em que os atletas nem são heróis nem coitadinhos. São desportistas  envolvidos na categoria do para-desporto,e não querem que sua limitação física ou sensorial seja tratada como símbolo de sofrimento ou de supervalorização dos seus feitos.

A agenda dos coletivos com deficiência porém, incluindo-se o para-desporto, ainda é negligenciada ou invisibilizada pela mídia. As coberturas dos temas desse coletivo, na mídia comercial, ainda é sazonal, marcada por fatos do calendário, como o Dia Nacional de Luta, em 21 de setembro, ou as paralimpíadas, que ocorrem de quatro em quatro anos.

Nessas paralimpíadas, por exemplo, tem havido uma profusão de pautas sobre pessoas com deficiência nos diversos meios jornalísticos, numa espécie de clarão de visibilidade que depois se apaga completamente.

No resto do ano, essa pauta vai para a gaveta,e, a cidadania da pessoa com deficiência é minimizada. A acessibilidade não é discutida nem implementada na maior parte dos conteúdos midiáticos, e o tema passa ao lado do planejamento, das transformações técnicas e da distribuição dos conteúdos jornalísticos.

Mas, precisamos ser otimistas. Se na semifinal do futebol de cinco houve muitos escanteios, a cobertura pela rede Globo marcou seu primeiro gol, preenchendo  um vazio de décadas e décadas e mostrando na prática que jornalistas e produtores de conteúdo precisam prestar mais atenção ao tema da acessibilidade.

Não basta celebrar os feitos e as medalhas   conquistadas. A mídia precisa fazer seus próprios gols, Produzindo mais conteúdos com  acessibilidade fidelizando uma audiência normalmente ignorada, e produzindo de fato jornalismo cidadão.

A Consciência do Jornalismo seria a mesma coisa que Fatura Paga?

Perdoem-me esse título que não é título, senão um desabafo indignado e desajeitado. Pois vamos aos fatos. Nesta segunda-feira à tarde, enquanto preparava minhas aulas da semana, a tv ligada ao fundo, para não perder os acontecimentos jornalísticos do dia, indignei-me com a exibição de uma propaganda no canal à cabo Globo News.

                Era uma propaganda do governo federal, sobre medidas de proteção da Amazônia, com um desfecho que dizia: “Infrator da lei, aguarde, nós vamos te pegar”!

                A minha primeira reação foi de espanto. Como assim? Por que a Globo News exibe esse tipo de propaganda? Eu me explico. A Globo News, na minha opinião, está entre os canais de comunicação que mais trabalharam pela candidatura de Bolsonaro. À época, a campanha feita pelas mídias comerciais era contra a candidatura de Fernando Hada de, naquele estilo de cobertura      espetacular, em que se revisitou a fórmula do bem e do mal, sendo Bolsonaro, acreditem, vestido pela mídia como o bem, representante do liberalismo, das políticas de arrocho e pró mercado, capaz de acabar com a “pecaminosa corrupção dos governos petistas”.

                A mídia já havia colaborado decisivamente para a derrubada da presidente Dilma, já se constituíra no braço central da operação Lava Jato, e agora empreendia o último passo da jornada rumo ao Brasil da “nova política”.

                Essa lua de mel entre jornalismo e presidência durou pouco. A mídia, em alguns meses, lançou-se à uma cruzada crítica contra o bolsonarismo, num estilo que nos fez de novo sentir esperanças de que finalmente as comunicações tinham feito um pacto com a sociedade, com a defesa intransigente da democracia, da justiça, da  distribuição de renda, com  denúncia incisiva dos desmandos de um desgoverno feito por uma extrema direita rançosa e retrógada.

                Sim, com quase o mesmo vigor da era Dilma, a Globo News combate o bolsonarismo em todas as suas vertentes: desmandos no meio ambiente, descasos na saúde, crime no combate à pandemia do covid 19, escândalos de corrupção da família, discurso de ódio, enfim, em todos os dias, e em todos os programas, o combate é sistemático e vigoroso.

                Então por que exibe a Globo News, uma propaganda mentirosa, um exemplar formidável dos fake News que o governo Bolsonaro produz?

                Como podem conviver numa mesma emissora, num mesmo programa e horário, discursos tão antagônicos? Por que os jornalistas não assumem uma posição contra esse tipo de fake News que desmente em cores e imagens, todo o discurso de combate a um governo com uma lista tão longa de desmandos e crimes contra a sociedade, o meio ambiente, o clima do planeta?

                Como jornalistas podem dormir com a consciência tranquila, sabendo que seus salários são pagos com a exortação da mentira, do crime e do desgoverno?

                Chamem-me de ingênua, mas não me conformo com esse combate conveniente. À época da ditadura, jornalistas corajosos que protestavam contra a exceção e a censura, publicavam páginas em branco ou receitas de bolo, numa voz eloquente de indignação. Por que então os jornalistas de agora não protestam? Por que não se insubordinam com os setores comerciais de suas empresas, quando estes embalam mentiras e distribuem em horário nobre, depois da fatura paga?

Meu Coração Está Ferido

Sim. Meu coração está ferido. Acordei com a notícia terrível da morte do menino de dois anos. A mãe e o padrastro o mataram. Escrita assim, a frase parece uma coisa lisa, sem dentes nem martelos. Escrita assim, a frase é somente um arranjo de palavras. No meu coração, essa frase dói como se cavalos me pisassem por dentro.

Hoje o dia todo foi de ficar assim, doendo por dentro e por fora. O dia todo sofrendo pela dor daquele menino pequeno de sorriso doce e bracinhos roliços. O dia todo assim, estática, calada, com essa dor que não passa.

https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2021/07/01/menino-de-2-anos-estava-morto-ha-quase-9-horas-ao-ser-levado-a-hospital-dormiram-com-uma-crianca-morta-diz-delegado.ghtml

Os Pontos de Braille como Disparadores de Mundos

https://www.dropbox.com/s/4uidgz1ocveh948/etica%20aula%205.mp4?dl=0

Me lembro que da primeira vez eu chorei, e não foi de alegria. Eram de puro desespero aquelas lágrimas de uma menina de sete anos, curvada sobre sua carteira escolar, uma folha de zinco à sua frente, cheia de pontos em relevo, e, à sua volta, outros meninos e meninas soletrando em voz alta, estranhas palavras como “é agudo, o grave, c com cedilha” …                     Meu cérebro, herdeiro das memórias do campo, apegado à gramática do cheiro da terra, da dureza das pedras, do canto dos pássaros, do rosnar da chuva avizinhando-se dos pequenos morros, meu cérebro negava-se a abrir-se para aquele estranho mundo feito de zinco e pontos em relevo.

Mas eis que numa tarde de outono, alguma coisa que não sei explicar aconteceu.  Foi algo como um clique, um ponto de acoplamento, e de repente eu havia saltado do universo das lágrimas de desespero para um novo ambiente, onde compreendia as letras estranhas, e mais que isso, conseguia juntá-las para formar palavras.

Recordo-me dessa tarde com uma nitidez assombrosa. Eu me postara de joelhos, diante da minha cama, e, sobre ela, estava a cartilha que eu dedilhava com afinco. De repente comecei a ler, e nunca mais parei.

Dois dedos deslizando sobre páginas pontilhadas. E é como se você houvesse ganhado um controle remoto, um disparador de mundos, botas de sete léguas para as mãos, imagine o que quiser, com o braille, é como se você ganhasse um novo passaporte para a sua cegueira, como se, de repente, você ofertasse ao seu cérebro, trilhas e trilhas infindáveis, abertas à aventura, ao deleite, ao conhecimento.

Pronto, eis que com mão hesitante, eu havia batido à porta do mundo da cultura, e, por alguma razão que eu ainda não sabia explicar, aquela porta de múltiplas faces abriu-se de par em par, e eu entrei, com meus dois dedos indicadores distendidos, suavemente pousando nas letras, no ajuntamento de palavras, nos mundos paralelos, nas ilhas  desertas onde habitavam os Robinsons Crusoés, no sítio e no reino de águas claras onde uma menina de nariz arrebitado reinava e reinava.

Arrimada àquela célula de seis pontos justapostos, que se associavam, separavam-se, multiplicavam-se em uma gramática em relevo para narrar o mundo da cultura, caminhei com firmeza rumo ao futuro. Concluí o ensino fundamental, cursei o ensino médio, entrei na faculdade de jornalismo. E num dia de agosto de 1981, assumia meu primeiro emprego como repórter, eu, o braille, a datilografia e toda aquela bagagem literária que eu havia armazenado ao longo da minha vida.

Foram quase nove anos de um dueto indispensável: O braille e a datilografia sendo meus instrumentos fundamentais para a coleta e o registro dos acontecimentos do mundo. Depois veio o mestrado, o doutorado, a docência universitária. Todo esse percurso me fez compreender o que Luís Braille havia feito pelas pessoas cegas de todo o mundo.

Ele havia modificado profundamente, com o ato de ler/escrever seus pontos em relevo, os processos de cognição/estruturação cerebral. O diálogo entre mão e cérebro, associando, combinando e decodificando, havia engendrado novas sinapses e conexões neuronais, habilitando o sentido do tato para a tarefa de habitar o mundo da leitura e da escrita, o mundo do pensamento reflexivo e da expansão da inteligência. Uma revolução ao mesmo tempo silenciosa e invisível, mas, de natureza bioantropológica e sociocultural.

E eis que chegamos ao século XXI, e ao seu formidável processo tecnológico. Revisito de novo a primeira cena, as lágrimas de desespero. 76i Retomo aquela tarde de outono, experimento o mesmo sorriso infantil de profunda compreensão. Estou cercada por dispositivos tecnológicos. Um óculos de leitura servido por uma mine câmera que lê livros em papel; Um computador recheado de livros digitais; meu smartphone; Mas ainda é em braille que mais gosto de ler. Posso ler em direto, no papel. Leio com minha linha braille acoplada ao computador ou ao smartphone. Leio no escuro, os livros armazenados no cartão de memória da minha linha braille. Possibilito, todos os dias, que minhas mãos e meu cérebro forjem esse diálogo milagroso, esse reajustamento de sinapses e conexões, essa expansão de consciência, fenômenos complexos disparados por esse gesto simples de tocar os pontos em relevo.

Ler e escrever em braille é um gesto primordial da cultura. E, essa pequena célula de seis pontos justapostos, engendrou para nós, um respeitável salto quântico que nos impeliu para muito longe do que éramos antes do braille. Lemos o mundo com nossas próprias mãos, palpando fórmulas químicas e matemáticas, deslizando nossos dedos por sobre pautas musicais, sobrevoando páginas de romances, perscrutando os mundos insondáveis das teorias científicas. Por isso afirmo que o futuro que se avizinha, também será descrito/lido em braille.

Canto à Tristeza

Ao som da música Blowin’in-the Wind, cantada por Diana Pequeno

 

Não, não se ofenda comigo. Deixe que eu cante a minha tristeza. Deixe que eu cante a minha tristeza. Pelos que partiram, por todos nós, que ainda estamos nesse barco estranho.

Deixe que eu cante a minha tristeza como quem chora baixo, o pranto deslizando pelo meu rosto, as palavras caindo no ritmo da música, a música tocando como se viesse de outro mundo, a música como que adentrando e tomando o leme desse barco triste.

Deixe que eu cante a minha tristeza como quem inventa mundos impossíveis, para logo vê-los destroçados, sobre o tremor das minhas mãos. Escute o canto da minha tristeza, como quem quer fugir da tempestade. Escute esse canto triste, como quem quer evadir-se desse barco, arremessado contra os arrecifes da insensatez. Escute como quem quer dormir, para fugir ao tropel absurdo dos cavaleiros, para não escutar o barulho dos ossos partidos, para não chorar por aquela imagem perpétua do menino voando livre para a morte.

Deixe que eu cante a minha tristeza como se respirasse lentamente. Como quem respira pelos que já não podem, como quem espreita pelo cheiro das flores, como quem limpa o cheiro da pólvora malsã da ignorância e do mal. Quantos anos pode um povo morrer, sem conhecer a liberdade?

Deixe que eu cante a minha tristeza, com a suavidade da imagem de uma gaivota deitada na areia, descansando, depois de haver sulcado os mares todos do mundo. Veja-me no meu canto triste, postada numa janela onde a indiferença das ruas tolda minhas lágrimas. Postada numa janela onde só o meu canto é presença, como um estribilho eterno, como uma procura inútil, como um adeus que não foi dado.

Deixe que eu cante com minha voz ao mesmo tempo embargada e firme. O meu canto triste, como aquele da minha irmã, que tinha perdido nossa mãe, e cantava, para embalar minha filha pequena. Um canto triste, um canto triste, como se o tremor da minha voz percutisse uma harpa antiga, tentando aplacar a dor.

Deixe que eu cante a nota infinita da minha tristeza, com a voz embargada, as lágrimas como dilúvio sobre o meu rosto, as sílabas desconexas sob a quilha dos soluços.