Infância Querida

Infância Querida

Milhares de crianças mortas por causa da violência do tufão filipino. E por que será que a gente sofre tanto por conta de um menino morto aqui no Brasil?

Joaquim, três anos, curta biografia encerrada no fundo de um córrego. Joaquim, três anos, Mãe, pai, padrasto, casa, família. Por que será que essas palavras, em algumas casas, em algumas situações, não correspondem aos sinônimos para amor, zelo, proteção, cuidado?

A versão da polícia é cortante, gelada como aquela água do fundo do córrego. A linha de investigação, cabe em um parágrafo do inquérito iniciado. Droga, violência, o padrasto assassina o menino e se livra do corpo. Com a ajuda da mãe? Vão investigar

A polícia rastreará ligações, impressões digitais, marcas, quaisquer marcas. A mídia fará todos os dias a mesma pergunta terrível: O assassinato contou com a ajuda da mãe?

Infância querida, cândida, inocente, pura, fascinante, terna, amorosa. Infância querida, perdida para a violência doméstica, para as drogas, a pedofilia, infância querida esquecida em carros de luxo fechados, enquanto seus pais, esquecidos de tudo, pagam suas contas ou almoçam tranquilamente em restaurantes, enquanto suas crianças morrem por asfixia.

Milhares de crianças mortas nas Filipinas, mas ali não havia premeditação, não havia bater de portas, ameaças, gritos. Ali havia o inesperado, a catástrofe natural, fazendo suas vítimas, tempestades, lágrimas e morte, tudo irmanado no vórtice do redemoinho.

Aqui a infância padece dentro de casa. Portas fechadas, gritos, ameaças, morte. Infância querida, desprotegida, vulnerável, pai, mãe, família, casa, palavras ocas, palavras inúteis, pai, mãe, casa, família, encontrando a cada dia seus substitutos: Violência doméstica, assassinato, desproteção, morte.

A mãe é cúmplice? Ajudou no ocultamento do cadáver? Desliguem os microfones. Desconectem-se. Façam silêncio. Guardem as câmeras, deixem toda a página do jornal tingida de luto.

Luto por quem? Por um menino morto em casa e depois atirado no fundo de um córrego?

Luto pela humanidade. Luto pela família. Por sua incapacidade de proteger a infância. Luto por uma pobre humanidade doente, violenta, à mercê dos seus vícios e paixões. Façam silêncio. Escutem o tufão filipino. Ele também chora, enquanto escorraça seus cadáveres.

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2 thoughts on “Infância Querida

  1. A morte dessa criança realmente tem sido pauta da conversa de muitas pessoas do bem. Não me sai da mente aquele sorriso feliz. Eles o levavam ao parque infantil, por isso não consigo entender. O que choca mais é a omissão, a cumplicidade da mãe. O que faz uma mãe agir assim? Amor, desamor,aflição, fundo de poço? Afinal, ela tem como companheiro o que podemos chamar uma vítima da catástrofe das drogas, uma pessoa, que me parece, doente, que diariamente é acometida de surtos da dependência química, do submundo que se transformou alguns lares deste País. Pobre família, pobre inocente que nem da mãe conseguiu o mimo de afastá-lo de um abismo tão profundo. Pra mim nada justifica a negligência com o inocente. Tô de luto. Não me sai da mente aquele sorriso feliz, no parque de diversão.

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